David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for July, 2016

Upton Sinclair e as mazelas da indústria frigorífica

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“Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”

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Upton Sinclair tinha 28 anos quando lançou The Jungle (Foto: Reprodução)

Em 1906, o escritor estadunidense e reformador social Upton Sinclair lançou o seu livro mais famoso. Intitulado The Jungle (A Selva), a obra que denuncia as mazelas da indústria frigorífica teve tanta repercussão nos Estados Unidos que o governo não viu outra saída, a não ser a criação da Food and Drug Administration (FDA), órgão responsável, dentre outras competências, pela fiscalização da produção alimentícia.

A riqueza de detalhes com que Sinclair descreve as más condições enfrentadas pelos trabalhadores e pelos animais explorados pela indústria fez com que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas nas primeiras décadas do século 20. E com o tempo, e a popularidade mundial do livro traduzido em mais de 50 idiomas, o número de adeptos da alimentação livre de ingredientes de origem animal cresceu exponencialmente.

Convertido ao vegetarianismo por influência de John Harvey Kellogg, criador do famoso cereal matinal, o escritor produziu uma obra de denúncia que até hoje é apontada como a mais influente sobre a matança de animais nos Estados Unidos. Embora alguns pesquisadores defendam que após alguns anos Upton Sinclair abandonou o vegetarianismo, citando como exemplo um texto de 26 páginas intitulado Fasting and the Use of Meat, seu livro continuou influenciando muita gente a não consumir mais carne e a lutar por reformas sociais envolvendo as agroindústrias.

O protagonista da obra é o lituano Jurgis Rudkus, um imigrante que mal sabe falar inglês e vive com a família em um distrito de Chicago dominado por currais e fábricas de carne processada. Desempregado, Rudkus aceita um emprego em um matadouro. Mas a desilusão cresce quando ele se vê endividado. Às raias da miséria, é obrigado a se sujeitar aos trabalhos mais sórdidos, além de amargar experiências traumatizantes como a morte do pai, vítima da falta de segurança nas linhas de produção da indústria frigorífica. Em uma das passagens da página 38 de The Jungle, uma imigrante lituana se mostra chocada ao saber do destino de milhares de bois e vacas.

“E o que será de todas essas criaturas?”, chorou Teta Elzbieta.

 “Esta noite, todos serão mortos e fatiados. E logo ali, do outro lado dos depósitos de acondicionamento, há mais ferrovias, e de lá vêm os vagões que vão levá-los embora”, respondeu Jokubas Szedvilas. No total, dez milhões de criaturas vivas eram transformadas em alimento a cada ano.

Assim como os animais, os trabalhadores também eram tratados como seres inferiores, já que suas vidas se resumiam às longas jornadas de trabalho. Exemplo disso é um adolescente que vencido pela exaustão e pela embriaguez dorme no trabalho, onde se torna comida para ratos na madrugada. Nesse trecho, Upton Sinclair denuncia ainda a falta de higiene nas linhas de produção. Também revela no livro que muitas vezes a carne bovina se misturava à carne dos ratos que morriam nas linhas de produção.

À frente, havia uma grande roda de ferro, de 20 pés de circunferência e com anéis por toda a sua borda. (…) Quando a roda virou, o porco teve seu pé arrancado e arremessado para o alto. Ao mesmo tempo, ouviu-se um grito aterrorizante; os visitantes ficaram alarmados; as mulheres empalideceram e recuaram, escreveu Sinclair na página 40 de The Jungle.

No livro-denúncia de viés socialista, o sofrimento dos animais e dos homens estão interligados; um não existe sem o outro num contexto em que na prática o sonho americano não passa de uma distopia velada pela inocente fantasia. E nesse cenário, o maior financiador é o consumidor que alheio à excruciante realidade aceita tudo na sua passividade.

A omissão do Estado também endossa e justifica a existência dessas práticas. Publicado há mais de cem anos, The Jungle é uma obra que, em síntese, não apenas flerta com a atualidade, mas diz muito sobre ela. “Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”, declarou Sinclair ao avaliar a recepção do livro.

Saiba Mais

Upton Sinclair nasceu em 20 de setembro de 1878 em Baltimore, Maryland, e faleceu em 28 de novembro de 1968 em Bound Brook, Nova Jersey.

O livro Dragon’s Teeth (Dentes de Dragão), que garantiu o Prêmio Pulitzer a Upton Sinclair em 1943, narra o zeitgeist e o drama dos eventos registrados na Europa que resultaram no início da Segunda Guerra Mundial.

Referências

Harris, Leon. Upton Sinclair: American Rebel. Thomas Y. Crowell Company, New York (1975).

Mason, M. Diane. Mullins, T. Janet. Vegetarian 101: History, Health and Tips. University of Kentucky (2016).

Sinclair, Upton. The Jungle. Dover Publications; Unabridged Edition (2001).

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Uma manhã insólita no banco

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Senti uma dor de cabeça que parecia premer tudo que havia dentro da minha caixa craniana

Uma manhã insólita no banco

Chegando lá, retirei minha senha da máquina e caminhei até uma das poltronas vagas (Foto: Reprodução)

Fui ao banco antes do almoço. Chegando lá, retirei minha senha da máquina e caminhei até uma das poltronas vagas. Olhei para o painel eletrônico e me surpreendi porque não demoraria muito para eu ser atendido.

Como nunca fui do tipo que mexe no celular enquanto aguarda atendimento, fiquei observando tudo ao meu redor com discrição. As pessoas pareciam tão tranquilas. Não ouvi nenhuma reclamação. Até as poucas crianças que acompanhavam os pais se mostravam educadas e compreensivas, caladinhas, assistindo a vida transcorrer sem muita pressa.

“Uau! Inacreditável! Se há dez anos alguém falasse que eu passaria por uma situação assim no banco, provavelmente eu não acreditaria”, deduzi. Tudo ia bem. Pessoas silenciosas ao meu lado, inertes em seus próprios pensamentos, mostravam que idas ao banco nem sempre são ruins.

De repente, chegou um sujeito falante, na faixa dos 40 anos, dando tapas nas costas de um senhor beirando os 60. O mais jovem falava alto, gesticulava e extasiado coçava a barriga saliente, desproporcional ao restante do corpo magro, que se avolumava conforme ele a estufava orgulhosamente sob os botões de uma camisa bege.

Ouvi o de 40 anos comentando sobre o preço da cerveja. Porém, não demorou, e o homem mais velho se despediu. Àquela altura, eu já não estava mais atento à sua presença. E para minha surpresa, o desconhecido se aproximou e sentou ao meu lado. Além da camisa de linho, ele usava calça social preta e um par de sapatos pretos. À primeira vista, um sujeito bem vestido – na ótica social tradicional.

Quando eu estava cabisbaixo, lendo “As babas do diabo”, de Cortázar, um amigo, Renato Frata veio até mim e me parabenizou pelo conteúdo do meu blog. Agradeci e nos despedimos. Então voltei a ler “cobria seu rosto de rugas, alguma coisa mudava de lugar e de forma porque a boca tremia e o trejeito ia de um lado a outro dos lábios como uma coisa independente e viva, alheia à sua vontade…”

Não consegui continuar a leitura. Senti uma dor de cabeça que parecia premer tudo que havia dentro da minha caixa craniana – era lancinante. “Que dor estranha, que desconforto”, refleti. Logo que levantei a cabeça, ouvi queixas incompreensíveis de duas senhoras sentadas atrás de mim. E o homem ao meu lado fedia tanto que me esforcei para não levantar e sair dali.

Ele sorria sozinho com tanto paroxismo que fiquei sem entender. “Será que esse cara está rindo de mim? Acho que não! Que tipo de pessoa faria algo assim?”, inferi. Ao meu lado, o sujeito ignorava tudo. Virei o rosto à minha esquerda e levei a mão ao nariz disfarçadamente. Quando voltei à posição normal, a pestilência ficou mais vigorosa, me dando náusea.

Era a mais medonha das combinações de odores – um misto de chulé, axilas hidrofóbicas (um eufemismo neológico para suvaqueira) e mau hálito que superava o pior dos chorumes. E vinha num crescendo tão grande que dava a impressão de se desenvolver em estágios de tempo. Angustiado, observei o painel. Ainda não era a minha vez. Para piorar, o homem inclinou o corpo e deslizou o dedo pelo calcanhar nu do pé esquerdo. De lá, ele tirou uma bolinha esverdeada de sebo e começou a esfregá-la com os dedos médio e polegar.

A liberdade veio em boa hora. Olhei para o painel e vi minha senha piscando. Assim que me levantei, uma senhora em um vestido longo, acompanhada de uma idosa, provavelmente sua mãe, me puxou pelo braço. “Nossa, filho! Um moço tão bonito que nem você poderia se cuidar um pouquinho mais, né?”, se queixou. Preocupado em perder a vez, não falei nada, só me dirigi ao caixa.

Quando saí do banco, notei algumas pessoas com olhares carrancudos e reprovadores. Caminhei apressado, sem entender nada até o momento em que entrei no carro e encostei o nariz na minha camiseta. Ela continuava cheirosa do lado esquerdo, mas do lado direito tinha uma mancha esverdeada como a bolinha de sebo que o desconhecido tirou do próprio calcanhar.

Written by David Arioch

July 1st, 2016 at 2:45 pm