David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category

Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”?

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Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”? Talvez miúda seja a nossa sensibilidade e consciência em relação ao papel que esses órgãos tiveram para esses seres que um dia foram cheios de vida.

A realidade do pato antes de chegar ao prato

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Será que muitas pessoas já refletiram conscienciosamente sobre a maneira como esse animal foi parar no forno ou na panela de alguém?

Um animal que também entra na lista dos mais procurados para o Natal é o pato. Claro, preferido enquanto comida. Entre as receitas mais populares envolvendo esse ser senciente, consciente e inteligente está o “Pato ao Molho de Laranja”, em que depois de morto nos primeiros meses de vida, ele é preparado cozido ou assado. Em vez de adorná-lo com fatias de laranja, há quem goste de colocá-lo também em uma travessa rodeada por batatas, cheiro verde e outros belos e nutritivos alimentos do reino vegetal que ajudam a criar um cenário mais favorável de dissimulação estética.

Será que muitas pessoas já refletiram conscienciosamente sobre a maneira como esse animal foi parar no forno ou na panela de alguém? Como era a sua vida antes de ser reduzido a alimento? Acredito que poucos pensem a respeito. Nem mesmo aqueles que criam esses animais com essa finalidade, já que há uma dissociação predominante que faz com que o animal não seja visto como um sujeito de uma vida, como diria Tom Regan, o que favorece a sua morte.

Embora muita gente ignore, patos são animais bastante sociáveis que costumam ser abatidos com três a cinco meses de vida; isto porque com essa idade a sua carne é muito mais macia. Ou seja, mata-se precocemente um animal que poderia chegar aos dez anos porque a sua carne é considerada “saborosa”. Uma nobre justificativa, não?

Antes do abate, os patos são deixados em jejum por um período mínimo de seis horas. O objetivo é favorecer o esvaziamento gástrico, assim facilitando a limpeza da “carcaça”. Segundo produtores de patos, o conteúdo do intestino dessas aves pode amargar e comprometer a qualidade da carne. Então eles são deixados com fome para que possamos nos deliciar com a sua carne não comprometida por uma necessidade fisiológica.

Um dos meios mais eficazes e comuns de se abater patos é por meio da degola, que costuma ser feita com faca ou com um machado. Depois de morto, o pato é deixado de cabeça para baixo até o sangue escoar completamente. Em matadouros especializados, ele é pendurado sobre grilhões, assim como frangos, galinhas, perus e outras aves.

A próxima etapa é a depenagem, que consiste em mergulhar a carcaça do animal em água quente por dois minutos. O pato também é decapitado, seus intestinos são esvaziados e seus órgãos, vulgarmente chamados de “miúdos”, são retirados e também comercializados. Recomenda-se nessa etapa o máximo de cuidado porque se houver algum rompimento da vesícula biliar, a carne estará perdida. Muito sensível, não?

Mais tarde, ele é comprado, e já dissociado de uma vida, é preparado cozido ou assado para o deleite de uma família que jamais conheceu a sua história ou considerou o seu desejo de não morrer. Toda essa cultura de abate de patos e desconsideração do valor de suas vidas enquanto seres sencientes não tem uma razão plausível.

Um exemplo científico? Em 15 de junho de 2016, foi publicado na prestigiada revista Science um artigo intitulado “Ducklings imprint on the relational concept of ‘same or different”, de Antone Martinho III e Alex Kacelnik, do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, na Inglaterra. No artigo, eles afirmam que patos, além de serem animais sensíveis, são capazes de reconhecer a própria mãe 15 minutos após o nascimento.

O estudo provou que os patos têm capacidade de abstração cognitiva, tanto que sem qualquer tipo de treinamento, eles conseguiram distinguir pares de objetos iguais e diferentes. Ou seja, como se fosse um quebra-cabeças. A pesquisa deixou claro que subestimamos a inteligência animal e ignoramos o quanto os patos são seres capazes. Claro que não estou citando esse exemplo para associar inteligência com direito à vida, até porque inteligência não é parâmetro de direito à vida.

Porém o reconhecimento científico da inteligência dos patos mostra como estamos imersos em uma cultura tão especista, de objetificação animal, que levamos tempo demais para começar a reconhecer algo que deveria ser óbvio. Sendo assim, te convido a refletir sobre isso quando for se alimentar de um animal.





Written by David Arioch

November 28th, 2017 at 5:22 pm

Um aperitivo polêmico

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Arte: Dana Ellyn

Na minha infância, quando estava com a minha família em Porto Rico, um dia serviram algo de graça para as pessoas provarem em um restaurante.

De longe, notei que era um tipo de carne e fiquei assistindo a movimentação perto de um bambuzal. Ao final, depois que as pessoas terminaram de comer, mostrando-se satisfeitas, o homem que ofereceu o “aperitivo” disse que tinham acabado de comer carne de gato. As pessoas ficaram revoltadas e começaram a cuspir e a amaldiçoar o homem.

Então ele olhou para elas e disse:

“Eu poderia ter dito que era carne de lebre. Aposto que ninguém acharia ruim. Mas como é de gato, vocês reclamam, né? Come carne todo dia, tá reclamando de que? Não adianta fazer careta”, criticou o homem gesticulando em frente a uma pequena churrasqueira.





Written by David Arioch

November 27th, 2017 at 11:02 pm

“Vocês veganos são ridículos”

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— Vocês veganos são ridículos. Vivem imitando o sabor e o aroma da carne. Vocês se apropriam do que é nosso.

— Legal, irmão. Não sabia que os ingredientes que dão sabor e aroma à carne são de origem animal. Pelo jeito você tempera a carne com vísceras, pele e sangue de animais, não é mesmo? Acredito que você não use nada do reino vegetal, como especiarias, condimentos, etc.





Written by David Arioch

November 26th, 2017 at 9:26 pm

Mesmo em um campo de concentração, alemão se manteve fiel à sua filosofia de vida como vegetariano

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Em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, o pacifista alemão Edgar Kupfer-Koberwitz foi classificado como um inimigo da Alemanha e enviado para um campo de concentração em Dachau, ao norte de Munique. Mesmo vivendo em situação degradante, ele se manteve fiel a sua filosofia de vida como vegetariano.

Durante os anos em que esteve em Dachau, ele escreveu diariamente sobre a sua vida e suas impressões da realidade. Para Kupfer, o fato do ser humano negar humanidade a seus semelhantes e, assim agir de forma cruel, sempre foi determinante na legitimação da brutalidade contra os animais.

“Acredito que enquanto o homem torturar e matar animais, ele vai torturar e matar seres humanos também – e guerras serão travadas – pois o assassinato deve ser praticado e aprendido em uma pequena escala. Devemos tentar superar nossa própria pequena crueldade irrefletida, evitá-la e aboli-la”, escreveu em seu diário que deu origem ao livro “Dachauer Tagebücher Die Aufzeichnungen des Häftlings 2481”, publicado em Munique em 1997, baseado em suas memórias e reflexões.





Dezembro é o mês mais violento para os animais

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No Natal, as pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida

Dezembro é o mês mais violento para os animais. O mês em que é celebrado o Natal, o espírito natalino, um tempo de paz, é marcado por muita violência. Mas como assim? É em dezembro que a demanda por carne é muito superior a de qualquer outro mês. Há muitas encomendas, de animais inteiros, com olhos, com boca, decapitados, eviscerados, fatiados, etc. Vai do gosto e da (in)sensibilidade do freguês.

Pelo menos no Ocidente, é costume as pessoas encherem os carrinhos de carne nessa época do ano. Compram quilos e mais quilos de aves, bovinos, suínos, ovinos, caprinos e “peixes nobres”, preparados das mais diferentes maneiras. Em muitas casas, é possível juntar pedaços de animais e fazer um presépio. “É preciso oferecer uma mesa farta”, dizem apontando para uma grande variedade de carnes, que nada mais são do que partes fatiadas ou inteiras, e normalmente assadas, de espécies mortas (você pode preferir abatidas) para a celebração do nascimento de Jesus.

Segundo a tradição cristã, quando Jesus nasceu, os animais estavam bem próximos à manjedoura, e o calor de seus corpos o aqueceu. Atualmente, no Natal, são as pessoas que aquecem os corpos desses animais, mas nas brasas da churrasqueira, no forno, na grelha. Com a chegada do Natal, mais do que nunca, bebês, pais e mães de outras espécies são servidos sobre uma mesa.

Antes há muitos abraços. As pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida, e sendo rejeitados como seres sencientes e conscientes. Às vezes, com sorte, pode ser que dividam o mesmo espaço sobre a mesa. Claro, não na mesma forma ou travessa, mas talvez nas imediações, pedaços sem vida combinando a poucos centímetros. Seria uma baita coincidência, não? Talvez um gesto inconsciente de bonomia? Difícil dizer.

No Natal, o espírito de solidariedade e fraternidade emerge como nunca. Sorrisos, lembranças e olhares que miram grandes pedaços de carne, mas que se recusam a racionalizar que cada fragmento já foi parte de uma vida; da vida de uma criatura que até o seu último momento não desejou morrer precocemente, assim como qualquer outro animal, humano ou não.





Written by David Arioch

November 24th, 2017 at 11:49 pm

A aversão à exploração de animais do filósofo Apolônio de Tiana

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“Sou acusado e submetido a julgamento, ó deuses, porque me alimento de frutos secos e iguarias puras desse tipo”

Nascido em Tiana, na província romana da Capadócia, no ano 15 do século I, o filósofo grego neopitagórico Apolônio de Tiana se recusou a continuar tomando parte na exploração de animais quando completou 16 anos. Em um diálogo com Euxenus, um de seus professores na infância, Apolônio relatou que estava preparado para dar início a um estilo de vida mais pacífico.

Segundo informações da biografia “A Vida de Apolônio de Tiana”, de autoria do filósofo Flávio Filóstrato, Apolônio declarou ao seu professor que a carne é impura e nociva à mente, e que ele se alimentaria apenas de vegetais e frutos secos, porque os frutos da terra são limpos e isentos de violência. O filósofo também se recusou a usar roupas feitas a partir de animais, vivos ou mortos. Ainda se posicionou contra o sacrifício de animais, alegando que isso seria manchar os altares com o sangue dos inocentes.

Influenciado por Pitágoras, que também condenava o consumo de carne, Apolônio dizia que a abstenção de alimentos de origem animal o levou a um novo nível de consciência sobre o seu papel enquanto ser humano. “Ele se aproximou dos altares em estado de pureza, e não permitia que a sua barriga fosse profanada pelo partilhar da carne de animais. Manteve o seu corpo distante de todas as peças de roupa tecidas de refugo de animais mortos”, registrou Filóstrato.

Sobre essa mudança, Apolônio de Tiana explicou que ele não era o engenheiro da sua própria sabedoria, e que essa aversão à exploração animal não veio como uma descoberta, mas sim como uma herança que emergiu naturalmente. Na biografia, Filóstrato contou que Apolônio era costumeiramente malvisto por não tomar parte na exploração de animais, por preferir frutos secos e vegetais à carne.

“Embora eu não condene ou julgue aqueles que fazem parte do luxo de consumir pássaros de plumas vermelhas ou as galinhas de Phasis ou da terra dos Paeones, que são engordadas por aqueles que não negam nada às suas barrigas […] sou acusado e submetido a julgamento, ó deuses, porque me alimento de frutos secos e iguarias puras desse tipo. […] A terra que me alimenta também me veste, e não gosto de incomodar os pobres animais”, desabafou Apolônio, segundo Flávio Filóstrato.

Em relação ao uso de animais enquanto matéria-prima para o vestuário, argumentou que nunca houve razão para extrair lã dos animais tendo tantas fontes vegetais para a fabricação do linho. “A lã não foi tirada da parte de trás dos animais mais gentis, de uma criatura amada pelos deuses? Por outro lado, o linho é cultivado e semeado em qualquer lugar. […] Porque não é arrancado da parte de trás de um animal vivo, os indianos consideram o linho puro, assim como os egípcios, e eu mesmo, assim como Pitágoras”, justificou.

Embora tenha nascido em uma família rica, Apolônio de Tiana levava uma vida simples, o que pode ser percebido não apenas na biografia escrita por Filóstrato, mas também nas obras “A Vida Pitagórica”, de Jâmblico, e “A Vida de Pitágoras”, de Porfírio, que fazem menção à sua história e estilo de vida.

Saiba Mais

Apolônio de Tiana, que também foi um matemático, faleceu no ano 100 do século I.

Referência

Philostratus, Flavius. The life of Apollonius of Tyana. Createspace Independent Publishing Platform (2009).





Carne de boi ou cavalo

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O que torna um deles mais digno de viver do que o outro?

Consumidores ficaram chocados ao saberem que a carne que estavam consumindo era de cavalo, não de boi. Então está tudo certo em comer gado, mas não cavalo? Agora disserte para mim sobre a diferença dos níveis de senciência e consciência de um cavalo para um boi. O que torna um deles mais digno de viver do que o outro? Qual é a fundamentação dessa baliza moral?

Written by David Arioch

November 24th, 2017 at 12:51 am

Silurus glanis ou a “baleia gentil”

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A expectativa de vida desse peixe é de 60 anos, podendo chegar a 80 anos

No século IV, o poeta romano Decimus Magnus Ausónio descreveu o peixe Silurus glanis como uma “baleia gentil” de águas doces, devido às suas grandes proporções e docilidade. A expectativa de vida desse peixe é de 60 anos, podendo chegar a 80 anos. Mas como o Silurus glanis é explorado comercialmente, normalmente é visado a partir dos dois anos.

Written by David Arioch

November 23rd, 2017 at 11:27 pm

Será que o bacalhau sofre antes de morrer? Com certeza!

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Por ser um peixe, é subestimado enquanto ser senciente

Outro animal que costuma compor a ceia de Natal é o bacalhau, que por ser um peixe é subestimado enquanto ser senciente. Afinal, será que ele sofre antes de morrer? Com certeza. Assim como outros peixes, o bacalhau agoniza fora da água e morre asfixiado. E claro, ele não se entrega de bom gosto. O peixe luta pela vida o máximo que pode, assim como qualquer um de nós faríamos na iminência da morte.

A espécie mais tradicional de bacalhau, o bacalhau-do-atlântico ou gadus morhua, tem uma expectativa de vida de 25 anos. Porém, devido à intervenção humana, dificilmente ele passa dos primeiros anos de vida. Depois de capturado, se estiver dentro do peso almejado, o bacalhau é degolado e tem sua barriga aberta. Após a retirada das vísceras e guelras, o animal é decapitado.

Então o abrem ao meio, retiram parte da espinha dorsal, o lavam e o cobrem com sal antes de expô-lo ao sol. Depois de passar por uma desidratação de mais de 50%, o peixe é comercializado e consumido. Embora cientistas não possam dar uma resposta definitiva sobre os níveis de consciência dos peixes, tudo indica que, além da senciência semelhante a dos mamíferos, o bacalhau tem uma singular sofisticação comportamental e cognitiva.

Mas, claro, são fatores pouco divulgados e costumeiramente ignorados. O bacalhau costuma ser visto apenas como uma “iguaria” a ser servida frita, assada, cozida ou grelhada, e sempre em pedaços, sem qualquer enfática associação com um animal. A maior prova disso é que a maioria das pessoas que consome o bacalhau não sabe citar quais espécies marinhas que lhe deram origem.

A maioria também desconhece o fato de que o gadus morhua, o melanogrammus, o micromesistius e o pollachius, espécies identificadas como “bacalhau” estão na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Ou seja, consumir bacalhau é também uma forma de aproximar essas espécies da extinção.

Isso não é fato recente. Segundo a revista científica The Canadian Journal of Fisheries and Aquatic Sciences, as populações de bacalhau começaram a entrar em colapso na década de 1990. Outro ponto crítico é que há muito tempo o bacalhau é capturado e condicionado a viver em cativeiro por até dois anos, ou seja, distante do seu habitat, simplesmente engordando até o momento do abate.

No artigo “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition, o professor Cullum Brown, do Departamento de Ciências Biológicas da Macquarie University, em Sidney, na Austrália, escreveu que peixes como o bacalhau têm suas próprias tradições, inteligência sofisticada e capacidade de cooperação e reconciliação, além de facilidade em reconhecer uns aos outros.

“O nível de complexidade mental deles está no mesmo nível de outros vertebrados, e há evidências de que eles podem sentir dor de maneira semelhante aos seres humanos”, registrou. Será que não deveríamos incluí-lo no nosso círculo moral? Ou seja, não faltam motivos para reconhecer que o bacalhau é um peixe que também tem direito à vida e não merece ser reduzido a alimento.