Passagem do livro “Infância Roubada: Crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil”
Bolsonarismo daria um bom livro do Ray Bradbury e um bom filme do Truffaut
Bolsonarismo daria um bom livro do Ray Bradbury e um bom filme do Truffaut. “Fahrenheit 451” sobre a emergência da sonhada utopia transformada em distopia é a prova disso. O cerceamento da liberdade sob o pretexto da preservação da “tradição-maior” (“O que é tradição se não um arremedo em construção?”, já diziam os antigos) ou de valores incertos e questionáveis em uma sociedade diversa são sempre marcados pelo anti-intelectualismo na história das sociedades. O anti-intelectualismo é a guarida do despotismo, e surge sempre sob a pretensão de um “bem maior”, “da proteção de valores que nem mesmo são valores.
Se vale da ignorância combinada aos destemores de uma massa indouta, inculta para determinar e escolher por você o que é bom ou não, sem possibilidade de livres escolhas, porque segundo essa crença não há o que escolher, apenas ceder. Em “Fahrenheit 451” há queimas de livros, assim como muitos adorariam fazer hoje com os chamados “livros doutrinadores”. Ou seja, a crença na libertação baseada na privação. Intrigante, não? Atualmente, todos os dias nos deparamos com um sem-número de Montags, bombeiros que não apagam fogo, mas que adorariam incendiar e amplificar a incoerência da ignorância e da intransigência humana.
Há um documentário chamado “O Dia que Durou 21 anos”
Há um documentário chamado “O Dia que Durou 21 anos”, do Camilo Galli Tavares, de 2013, inclusive recomendo, que é sobre o período da ditadura militar. Nesse filme um general é questionado sobre como seria a implantação do “regime militar” hoje. Ele enfatiza que para fazer a ditadura acontecer não seria preciso matar, torturar ou violentar ninguém, já que vivemos na era da guerra da informação. O general deixa subentendido que a implantação desse “regime” seria feita de forma silenciosa, e com a conivência da própria população que, imersa em um cenário de dúvidas e descrença, não resistiria, muito pelo contrário, agradeceria; mesmo sem ponderar as implicações desse incentivo que custaria a democracia e a liberdade em diversos aspectos.
Quando a extrema direita chega ao poder?
Na política, a extrema direita (representada hoje no Brasil pelo que já é chamado de bolsonarismo) depende de grande vulnerabilidade, e simplesmente porque sabe que não tem força se não houver descrença naqueles com quem rivaliza. Há algumas décadas, o mundo civilizado passou a ser formado principalmente por pessoas moderadas, e pessoas moderadas, mesmo conservadoras, não gostam de extremismo, porque em situações normais sabem que isso pode desencadear um cenário de surpresas mais desagradáveis, de mais medo, de mais perdas, de mais limitação ou de mais privação; e quando se trata de política isso é evidente.
Mas se temos um cenário de muitas dúvidas, incertezas, de desconfiança, de grande temor, esse se torna o cenário ideal para a extrema direita ascender, conquistar a confiança da população; e exatamente porque prega tudo aquilo em que os chamados políticos moderados fracassaram, segundo a perspectiva do descrente. Logo o eleitor já não se importa com boa conduta, não faz diferença se um candidato tem postura agressiva ou se maltrata alguém. Discursos de intolerância ou ódio, camuflados ou não, são absorvidos como fábulas, brincadeiras, marketing. Tudo é valido na busca por um “bem maior” e a permissividade se agiganta a níveis antes considerados inadmissíveis.
Se o representante desse espectro é visto como honesto, mesmo que não seja exatamente um exemplo, o que vale é que ele aparenta ser “mais sincero que os outros”, “fala na lata”; ainda que essa “franqueza” seja ofensiva ou até mesmo criminosa. Não importa sua origem, o que fez no passado, o que faz de inconsequente ou reprovável; se é paradoxal, contraditório, porque houve uma consolidação de sua imagem “benigna” a partir da “malignidade” representada pelos outros, que são vistos como muito piores em uma leitura ingênua e maniqueísta.
As pessoas deixam de considerar o valor das palavras, das ofensas, dos preocupantes discursos inflamados porque passam por uma perigosa “flexibilização moral” em que tudo é permitido à medida que nos afastem daqueles que qualificamos como “inadmissíveis”. Ou seja, algo como: “Queremos o oposto de tudo, seja visceral” No contexto político, o opositor passa a ser visto como “inimigo da pátria” e do “progresso”. O caráter de unidade se dilui ainda mais, e nos fragmentamos mais um pouco, amplificando as fragilidades e desconcertando as verdades. A nebulosidade nos entorpece para a realidade.
Então nasce um “mito”, sob um viés sem respaldo literal, que se formaliza e se consolida a partir de uma fé sustentada na idealização de um suposto redentor, e a razão questionadora é suplantada porque ele, para o bem ou para o mal, é o oposto, e se postula como o representante da chamada “maioria”, um “verdadeiro nacionalista”. Inclusive diz isso tantas vezes que até os mais moderados acreditam. Mas o que é uma maioria em um país mestiço e diverso que ainda sofre com a intolerância e com as desigualdades sociais? Uma maioria de que afinal?
Acredito que o discurso de que a “minoria” deve se curvar à indefinida “maioria” pode parecer interessante se você considera apenas os seus interesses, vê a si mesmo como parte da “maioria injustiçada”, portanto não deseja menos que reparação porque se considera mais especial. Por isso, não vê nada de errado em sacrificar as necessidades, interesses e direitos que não são seus, e não vê problema em ignorar que o maior indicativo de uma sociedade evoluída é o respeito à diversidade e o fato de que se você respeita um “diferente” você naturalmente respeita “um igual” – e não o oposto disso.
Na essência, não existe nada de errado com o socialismo ou com o comunismo
Na essência, não existe nada de errado com o socialismo ou com o comunismo. O que existe de errado é com o ser humano mesmo, que não suporta a ideia de viver em uma sociedade igualitária, em que já não seria capaz de se destacar pelo que possui. Isso explica inclusive a apropriação ideológica maliciosa.
Até mesmo entre os que fazem caridade há muitos que o fazem porque gostam da ideia de que o outro depende dele, mas se esse outro ascende ao ponto de romper essa dependência, até mesmo o sentimento benevolente da caridade pode ser substituído pela inveja ou pelo desprezo se esse outro equivaler ao altruísta em termos econômicos. Agostinho de Hipona dizia que a caridade é a única verdade, e não duvido, porque desnuda muito sobre nós.
É difícil crer ou sonhar com a igualdade quando se vive em uma sociedade onde muitas pessoas não querem isso. Na realidade, muitas têm inclusive repulsa pela ideia da igualdade. Por isso que hoje eu vejo como padrão mais evoluído e possível politicamente a social-democracia porque sei que o ser humano não está preparado, e talvez nunca esteja, para ver o outro como um igual em tantos aspectos.
Se alguém tivesse me falado há 15 anos…
Se alguém tivesse me falado há 15 anos que chegaria um dia em que os brasileiros votariam em massa em um cara que não apenas vê a ditadura militar como um período lindo, mas que além disso fez apologia à tortura, disse que não veria problema em matar 30 mil pessoas para mudar o Brasil, e que homenageou o maior torturador da história moderna brasileira, eu nunca acreditaria. Juro mesmo.
Honestamente, não consigo ver da mesma forma diversas pessoas que votaram e vão votar nesse cara outra vez, ainda mais porque são pessoas que conheço e sei que sabem quem foi o Ustra e tudo que o Bolsonaro já disse a respeito do assunto. A tortura é inadmissível até mesmo contra os piores criminosos condenados à morte em países de “Primeiro Mundo”, vide Estados Unidos. Isso é uma prova de que devemos ser melhores, não piores. Inclusive sou contra a pena de morte.
Eu gostaria que essas pessoas que acreditam na violência como solução para os nossos problemas assistissem um filme do Werner Herzog chamado “Into the Abyss”, sobre a pena de morte, que me fez admirar ainda mais esse cineasta alemão. Não somos bárbaros para endossar tortura. Nada resta se assim como criminosos legitimamos o desrespeito à vida.
Manipulação da opinião pública durante as eleições
Assisti hoje um vídeo (ao final do texto) sobre a manipulação da opinião pública durante as eleições. É realmente interessante. Vale a pena assistir. Eu só faria algumas observações como por exemplo o fato de haver no Brasil um desprezo crônico a um determinado espectro político hoje. Quando se fala em esquerda, há um preconceito e um desconhecimento visceral, e vindo de pessoas que na realidade nem sabem o que é de fato a esquerda, por isso há uma generalização crônica.
Na realidade, são pessoas que nem mesmo entendem o que são espectros políticos (confundem, por exemplo, centro com esquerda e vice-versa). E é fácil conduzir essas pessoas a uma visão equivocada da realidade e da história política nacional, principalmente se não a estudaram parcialmente ou integralmente – desde que o Brasil se tornou presidencialista, e como se deu as transições de poder no processo democrático e fora dele.
Estamos vivendo um momento de grande dissimulação e que tem como terreno fértil as fake news. Quem tem dúvidas, é só pesquisar e ver qual é o partido e candidato que mais tem espalhado fake news nessas eleições. Inclusive recusando-se a firmar um pacto ético. É claro que o PT errou bastante, foi negligente e parte da rejeição vem daí, mas é estranha a maneira como as pessoas desprezam o PT, mas não outros partidos ainda mais corruptos como é o caso do PP, que é o partido do qual Bolsonaro fez parte por 11 anos em dobradinha com Paulo Maluf.
E o que sem dúvida facilita a crença nas fake news é a rejeição e o desprezo. A passionalidade motiva as pessoas a não se importarem com a veiculação de inverdades. Afinal, a má predisposição e a rejeição que desconsidera até mesmo fatos já estava previamente instalada. Há algumas considerações no vídeo que achei interessante sobre como levar alguém com visões de extrema direita ao poder:
Anti-intelectualismo: Steve Bannon disse que é sobre emoção. Afinal, raiva leva as pessoas à eleição.
Você quer que a sua propaganda seja apelativa para as pessoas com limitada formação educacional.
Irrealidade: Você precisa destruir a verdade. Então razão é substituída por teorias da conspiração.
Na política fascista o grupo dominante é melhor que todos os outros. Eles foram os leais, as grandes pessoas do passado, que merecem respeito apenas porque são quem são.
Vitimismo: No fascismo, o grupo dominante são as maiores vítimas.
Lei e ordem: Eles são vítimas de que? Eles são vítimas do outro grupo, que são os únicos criminosos.
Realidade é a maior ameaça ao fascismo, porque o fascismo é construído por meio de um poder que depende da negação, da descrença na realidade.
Eles dizem algo como: “Apenas lembrem-se, o que vocês estão vendo e lendo não é o que está acontecendo.”
Bolsonaro, Pinochet e economia
Outra estranha curiosidade. Assim como pretende Bolsonaro, na figura do seu economista Paulo Guedes, Pinochet também tinha um modelo econômico baseado na Escola de Chicago. Pinochet, ditador, que matava seus opositores, privatizou a previdência social e hoje 39% da população chilena não dispõe de nenhum tipo de seguridade social. Como consequência disso, o Chile atualmente é recordista em suicídio entre idosos, que sem condições de viver com dignidade decidem tirar a própria vida.
Bolsonaro quer entregar a economia brasileira para um seguidor do Reaganomics
Querem entregar o Brasil para um economista que segue um plano econômico instituído nos Estados Unidos da década de 1980. Paulo Guedes, que o candidato à presidência Jair Messias Bolsonaro (PSL) quer nomear como ministro da fazenda, tem como referência o plano econômico de Reagan (Reaganomics). Isso mesmo, que foi presidente nos EUA há mais de 30 anos.
O Reaganomics não apenas cortou impostos dos ricos quando foi instituído, como realizou grandes cortes em gastos sociais. Os cortes foram feitos para compensar a redução no corte de impostos, o que acabou beneficiando os ricos e lesando os mais pobres. Com os cortes sociais, a meta era ampliar os investimentos que favorecessem o crescimento econômico.
Então eles cortaram custos para os negócios visando gerar mais capital que pudesse impulsionar o crescimento econômico. Mas capital próprio não impulsiona crescimento e em vez da economia crescer ela encolheu. Inclusive o último que tentou imitar isso no Brasil foi o Collor. E o resto vocês já sabem.
Pesquisem sobre esse plano Reaganomics. É apontado como logicamente insustentável e matematicamente desacreditado, mas há aqueles que vivem tentando duplicar, triplicar e quadriplicar essa filosofia como política econômica sólida porque não admitem os próprios erros, e também porque acreditam que o segredo da boa economia está em financiar e incentivar sempre os mais ricos. Quando a ganância supera a razão a história nos cega para o futuro.
Um candidato que desconsidera valores humanos e sociais
Bolsonaro, um candidato que desconsidera valores humanos e sociais, que faz piadas sobre tortura, negros, gays e quilombolas; que acha normal desrespeitar mulheres; que não vê palestinos como cidadãos; que diz que “índio” não tem que viver no mato, mas sim aprender a se virar na cidade (não respeitando valores culturais); que fala em destruir o meio ambiente com a maior naturalidade possível, alegando que temos “áreas de proteção ambiental demais”; que chama caça de “esporte saudável”; que é o primeiro candidato à presidência do Brasil recente a ter apoio massivo das bancadas mais perigosas do congresso (BBB), que sempre colocaram os interesses pessoais e econômicos muito acima dos interesses humanos. Como isso pode ser aceitável?
Nada disso é ser sincero, verdadeiro ou do tipo que “fala o que tem pra falar”, mas sim apenas uma figura arbitrária que ao longo de sua vida não aprendeu a lidar com a pluralidade; alguém que não tem um arcabouço cultural sobre a premência de valores sociais porque esteve sempre imerso em vaidades, veleidades e em uma realidade unilateral. Estou falando de um candidato que foi despejado pelo Exército, que se exalta e fica nervoso diante de contrariedades, que em sua ficha militar consta: “Tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos.”
Basicamente, uma pessoa que não tem perfil para ser o presidente do quinto maior país do mundo. Como um sujeito que desconsidera valores básicos como o respeito, as diferenças, tem condições de melhorar a realidade de um país? Se você não respeita as diferenças e as margens sociais de uma nação você está fadado a continuar sacrificando pessoas em benefício de interesses que você, na sua ignorância ou indiferença, considera mais urgentes.
Nas sociedades contemporâneas mais evoluídas, o tratamento dispensado às chamadas minorias é sempre um indicativo dos níveis de progresso de uma nação. Porque há um entendimento de que se você respeita “um diferente” você naturalmente respeita “um igual”. Não existe boa economia que beneficie toda uma população quando valores sociais são desconsiderados. Não existe boa economia se isso ofusca ou suprime outros valores. O Brasil precisa é de políticas econômicas que se voltem para modelos de referência como aqueles defendidos pelo sueco Olof Palme, modelos econômicos que consideram os valores humanos e sociais na formulação de um plano econômico, valores que combinam economia justa com bem-estar social.
O que vejo nos discursos e nas propostas do candidato, que me parecem vagas ou confusas, é apenas interesse em sacrificar todos ou quaisquer valores visando elevar a economia sem considerar de que forma isso pode efetivamente beneficiar quem mais precisa, não somente uma pequena parcela da população. Vamos considerar que o candidato consiga elevar a geração de renda. Se a apropriação dessa renda continuar, por exemplo, nas mãos dos 10% mais ricos, não há como alcançar mudanças substanciais, e pelo discurso de desconsiderações de outros valores, não tenho dúvida de que é isso que vai acontecer. O Brasil é um país que só vai ser capaz de melhorar quando a social-democracia for levada a sério.









