Archive for the ‘barba’ tag
A barba e o menino Yusuf
“Nunca imaginei que um dia o veria falando português. Surpreendente, filho!”
Quando eu era bem mais jovem, jamais tinha cogitado deixar a barba crescer. A verdade é que nem mesmo sabia se havia uma barba a se desenvolver. No entanto, desde muito cedo fiquei intrigado com a quantidade de pensadores e escritores barbudos até o início do século 20.
Dentre os brasileiros, minhas primeiras lembranças da época do colégio envolvem autores como Machado de Assis, José de Alencar e Gregório de Matos. Não sei se o fato de cultivarem barba era uma preferência com motivação estética ou se tinha relação com o zeitgeist. Ademais, reconheço também que antigamente era costume manter os pelos faciais para velar imperfeições e cicatrizes provocadas por doenças como a varíola.
Pensando internacionalmente, Platão, Chaucer, Melville, Victor Hugo, Ibsen, Tolstói, Dostoiévski, Whitman, Bram Stoker, Hemingway, D.H. Lawrence, Bernard Shaw e Ginsberg são alguns barbudos que me veem a mente no momento. E analisando períodos, é justo dizer que desde os primórdios da filosofia e da literatura, a barba se fez presente, e aqui não falo como forma de distinção social, e sim como um recurso de construção pessoal. Porém, hoje, diferente de outros tempos, barbas volumosas e longas são quase sempre associadas a hipsters, terroristas e fanáticos religiosos. E claro, partidos políticos.
Pensando nisso, me lembrei de uma singular experiência após me tornar barbudo. Um dia, saí de manhã, por volta das 8h, e fui até a casa de um senhor chamado Francisco que chegou a Paranavaí em 1944. Ele concordou em me conceder uma entrevista sobre os tempos de colonização do Noroeste do Paraná. Em frente à sua casa, toquei a campainha e observei um cãozinho rolando dentro de uma casinha de madeira.
Não demorou e alguém gritou da distante varanda: “Entre, meu filho. Venha até mim.” Abri o portão, subi alguns degraus e atravessei o jardim. Lá estava ele, alto e magro, sentado numa confortável cadeira acastanhada de madeira com estofado bege. Sob seus pés, havia uma porção de areia lavada dentro de uma caixinha. “Legal esse senhor!”, pensei depois que nos cumprimentamos com um firme aperto de mão. De repente, ele olhou nos meus olhos com atenção e comentou: “Aposto que você entende mais disso do que eu.” Não captei a mensagem e notei seus pés afundando lentamente na areia.
“Areia é vida, não é mesmo? Quantos tons de areia você consegue reconhecer?”, questionou. Fiquei confuso e ri, suspeitando que o homem estivesse alcoolizado ou sob efeito de forte medicação. Ainda assim, respondi: “Depende da incidência do sol, dos fatores de ação e reação. Hum…pensando bem, acho que consigo identificar 25 a 30.”
— Esplêndido! Eu já imaginava algo assim. Desconfiei logo que vi – declarou.
E a conversa tomou um rumo completamente diferente, me deixando por vezes hesitante. Pouco falamos sobre a sua vida porque a maior parte das perguntas era feita por ele. “Nunca imaginei que um dia o veria falando português. Surpreendente, filho!”, assinalou nos primeiros dez minutos com um sorriso dúbio.
Ele divagava bastante, e ocasionalmente pedia para ver a palma da minha mão. “Você pode não ver, só que os traços da sua mão dizem muito sobre a sua barba. E tolo daquele que resume a barba a pelos sobre a face. Ela diz muito a respeito dos caminhos da vida do homem. Ela, na sua sinuosidade, é como uma extensão física da própria mente. Sei disso porque cultivo barba há quase 60 anos”, defendeu, tocando a barba branca e já rala que cobria o queixo. Então lamentou que aos 86 anos não tivesse mais a barba de 20 anos antes.
Também notei seus olhos úmidos quando ele se curvou e deslizou o dedo indicador dentro da caixinha de areia. Algumas lágrimas pingaram dolorosas, como se saídas de um conta-gotas. Vendo aquilo, me desculpei e sugeri que talvez fosse melhor marcarmos a entrevista para outro dia. Trêmulo, Francisco se levantou e pediu para me dar um abraço.
— Claro, Seu Francisco – respondi.
Quando suas mãos enrugadas e translúcidas me envolveram, ouvi seus refreados soluços e seu coração palpitando. “Agora eu até poderia fazer a barba”, sussurrou, fragilizado. Logo ele esmaeceu. Gritei e sua esposa apareceu. Pediu que eu o colocasse na cama. Desmaiado, preservava expressão serena e sorriso delgado. Em respeito, não pedi explicações, me despedi e caminhei até a varanda, onde encontrei ao lado da cadeira uma foto de uma criança de sete ou oito anos sentada sobre os ombros de Francisco ainda jovem.
Na semana seguinte, fiquei sabendo que o garotinho sorridente da foto era um órfão egípcio que seria adotado por Francisco, um ex-soldado do Batalhão de Suez. Em 1957, o menino chamado Yusuf morreu em seus braços, depois de ser alvejado na cabeça por um soldado israelita em missão em Porto Said. “Nunca mais vou fazer a barba na minha vida, nunca mais! Juro por tudo neste mundo, a não ser que Yusuf retorne à vida”, teria gritado Francisco aos prantos naquele dia.
“Nunca vou cortar com ela não!”
Kengo Toyokawa fala sobre a estranheza dos homens de Paranavaí ao ver uma mulher barbeira em 1949
Em 1949, na barrenta Rua Manoel Ribas, no Centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, por onde trafegavam muitas carroças, não tinha quem não olhasse uma senhora no interior de um salão de duas portas, contíguo ao Bar São Paulo, aparando barba ou cortando os cabelos de algum cliente. “Mas, rapaz, mulher cortando cabelo de homem? Nunca vou cortar com ela não!”, diziam copiosamente os mais conservadores.
A cena rendia muita conversa. Um curioso chamava o outro e quando menos se esperava havia muita gente em frente ao salão discutindo sobre o assunto. “Essa mulher era minha avó, a dona da barbearia que se tornou a mais famosa da região. Naqueles primeiros anos, muita gente não aceitava e agia com preconceito”, diz o comerciante Kengo Toyokawa, proprietário do famoso bar homônimo.
Outros não se importavam, apenas ignoravam a conversa na entrada enquanto esperavam a vez de receber uma toalhinha confortável, quente e cheirosa que amaciava a pele do rosto. O corte de barba ou cabelo era sempre metódico e como diferencial privilegiava os detalhes. As técnicas seguiam os preceitos da tradição japonesa.
Mas a maioria da população masculina de Paranavaí, no Noroeste Paranaense, acostumada a ser freguês de homens, estranhava os cuidados daquela mulher habilidosa de mãos leves e finas que além disso era uma boa administradora. “No começo foi esquisito, mas depois me acostumei. Quando saía de lá alguém sempre perguntava como foi e se valia a pena. Eu explicava que ela comandava o salão. Aí que o povo estranhava ainda mais: ‘Ué, será, mas a muié memo?’”, lembra o pioneiro João Mariano sem velar o sorriso.
A barbearia da avó de Kengo surpreendia também pela rapidez no atendimento. A equipe era formada por cinco profissionais. “Você pode me apontar uma barbearia hoje que tenha cinco barbeiros? É raridade!”, destaca o comerciante, acrescentando que o interesse por trabalhar no comércio surgiu com os avós.
Aos poucos, a fama da barbearia aumentou e em finais de semana muitos trabalhadores do campo, desde colonos até peões que atuavam na mata, vinham a Paranavaí de charrete. Percorriam quilômetros para cortar cabelo e barba no salão ao lado do popular Bar São Paulo que tinha três portas e também pertencia aos Toyokawa. “A boa fama foi longe”, resume Kengo Toyokawa.
Antes de se mudar para Paranavaí, a família trabalhou um bom tempo nas lavouras de café, pelo menos até conseguir guardar um pouco de dinheiro. “Antes meus avós e meus pais moraram em Guaritá [atual Nova Aliança do Ivaí]. O mais curioso é que depois decidiram investir no comércio sem saber falar português”, relata Toyokawa.
A princípio, foi bem complicado, mas a persistência e a vontade de garantir um bom futuro fez os avós de Kengo superarem até mesmo a barreira do idioma. “No começo, eles negociavam tudo por gestos, uma comunicação universal. Depois aprenderam a falar bom dia e outras frases básicas. As coisas foram se ajeitando”, enfatiza.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Book of Beards
Uma das imagens do livro “Book of Beards”, do fotógrafo estadunidense Justin James Muir. A obra reúne fotos de 86 “barbudos profissionais”, ou seja, pessoas que realmente tratam a barba como uma extensão do próprio corpo. Todos os personagens do livro são moradores de West Chester, na Pensilvânia, onde o culto à barba tem relação com a identidade cultural do município e dos moradores. Não é à toa que a cidade abriga as maiores competições de barba dos EUA.
Onde estão os artistas da navalha?
Barbeiros resistem, alentados por quem encara o ato de se barbear como um ritual
Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o auge das barbearias foi entre os anos de 1969 e 1975, quando era quase impossível atender a demanda. Já nos últimos vinte anos, a modernidade tirou do barbeiro a importância junto à população. Mas há quem resista, estimulado por clientes que veem no ato doméstico de “fazer a barba” um fragmento de solidão.
Para as gerações mais jovens, o ato de se barbear geralmente é assimilado a imagem de alguém sozinho, em frente ao espelho, segurando um barbeador descartável. “Acho que fazer a barba é bem chato, mas necessário. A pele parece mais clara, limpa e jovial. Ainda bem que não preciso de mais do que cinco minutos pra fazer isso”, diz o estudante Gabriel Maia, 21.
O universitário, que nunca se barbeou com uma navalha, mantém dentro de uma gaveta no centro do quarto, uma pequena coleção de barbeadores de design arrojado, multicoloridos e cada um com três lâminas. Maia é um retrato da juventude que visa praticidade.
No início da década de 1980, antes do nascimento de Gabriel, mais da metade das barbearias de Paranavaí já tinham desaparecido, o que justifica o fato do estudante resumir a função do barbeiro a de personagem de uma cultura obsoleta. “Quando passo em frente a uma barbearia, me surpreendo porque logo penso que é uma coisa de um tempo muito antigo”, comenta o universitário.
Maia teve a oportunidade de ver uma barbearia, onde um senhor ainda mantém a mesma fachada e decoração de quarenta anos atrás, o que o surpreendeu. “Achei que isso não existisse mais”, comenta. Já o comerciante Luiz Chemin, adepto de barbearias desde a adolescência, diz ser irrelevante a praticidade trazida com a modernidade. Chemin é de uma geração que prefere o calor humano irradiado pelas barbearias em vez do solitário banheiro de casa. Além disso, não troca a tradicional navalha por lâminas descartáveis.
O comerciante considera o barbeiro um artista da navalha. “O trabalho dele não é apenas deslizar uma lâmina. Ele está sempre atento aos detalhes, as falhas que cada um tem no rosto ou na barba. Leva em conta até mesmo o clima e o tipo de pele da pessoa. É um profissional que merece ser mais valorizado”, afirma.
Chemin utiliza os serviços do barbeiro Irineu Pantarotto pelo menos uma vez por semana, às vezes duas. O contato é tão frequente que surgiu um vínculo quase familiar. “Quando não apareço aqui na barbearia é porque viajei. Logo que retorno, ele diz que estava preocupado, pensando que aconteceu alguma coisa comigo”, confidencia o comerciante sorrindo.
Irineu Pantarotto, que se tornou barbeiro há 45 anos, é tomado por um sentimento de nostalgia ao se recordar da Paranavaí de 1969, ano em que não era difícil encontrar um barbeiro em cada esquina. “O fluxo de pessoas era tão grande que mesmo com tantas barbearias havia filas de espera. Tínhamos de pedir ao freguês pra voltar no dia seguinte. Foi assim até 1975”, frisa, referindo-se a um tempo em que o barbeiro também desempenhava papel de confidente e conselheiro.
Divulgação era feita boca a boca
A formação de barbeiro, Irineu Pantarotto adquiriu praticando em um sítio nas imediações de Santa Cruz do Monte Castelo, no Noroeste do Paraná. “A gente vivia lá e comecei a cortar cabelo e fazer a barba do meu irmão, primos, tios e avô”, narra. Pouco tempo depois, se mudou para Paranavaí, onde abriu o primeiro salão. À época, não tinha dinheiro para fazer qualquer tipo de publicidade, então saiu pelas ruas avisando todos os conhecidos. “Quem aparecia uma vez sempre voltava e também trazia amigos. Conquistei clientes aos poucos, mas logo aprendi a trabalhar bem”, salienta.
De acordo com Pantarotto, houve uma época em que receio do vírus da AIDS contribuiu para reduzir o número de fregueses. “É tolice pensar que aqui se contrai alguma doença. O procedimento é o mesmo em uma clínica; esterilizo tudo”, assegura. Mesmo não sendo procurado por tantos clientes quanto nas décadas anteriores, o barbeiro destaca que vale a pena manter a barbearia aberta. “Tive muitos amigos que desistiram, só que eu prefiro continuar. Fiz inúmeras amizades valiosas”, reitera.
O trabalho de Pantarotto também é reconhecido pelos cabeleireiros locais, que em alguns casos recomendam o barbeiro para os clientes. “Tenho amigos do ramo que não fazem barba, então mandam o camarada pra cá”, justifica.



