David Arioch – Jornalismo Cultural

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A barba

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Nunca imaginei que passaria por situação tão imprevisível e desconfortável

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Ela voltou para casa. Ao lado da cama, havia um pente e uma série de produtos

Acordei e continuei deitado na cama, com sensação estranha. Mesmo que eu não o visse refletindo no teto, notei meu rosto menor. Quando encostei o polegar e o dedo indicador da mão direita no queixo, estremeci. Ele estava liso. Não havia nenhum fio da minha barba volumosa, fechada e preta. Saltei da cama e corri até o banheiro, sem sentir a barba raleando o peito nu.

Diante do espelho, meu rosto parecia tão pequeno. “Não! Este não sou eu! Não está certo! O que aconteceu?” Até minha cabeça tinha encolhido. Cabeça de pombinha, cabeça de alfinete – julguei-me. E para piorar, rejuvenesci pelo menos dez anos, o que me incomodava sobretudo.

Sem pelos, o rosto lucilava tanto que precisei fechar parcialmente os olhos e me proteger com as palmas das mãos em direção ao espelho. Nunca imaginei que passaria por situação tão imprevisível e desconfortável. Saí do quarto e bati a porta. Senti a brisa tocando a pele desacostumada com a ausência de pelos.

Minha face estava vulnerável, extremamente sensível, desprotegida. Enleado, fui ao banheiro e lancei um pouco de água sobre o rosto. “Como é estranho perceber a água tocando a pele com tanta facilidade.” Escovei os dentes e voltei para o quarto. Sentado na cama, pensei, sem velar melancolia.

Definitivamente não fiz a barba na noite anterior. Nem me aproximei de qualquer tipo de lâmina ou barbeador. De onde surgiu a face lisa, como de alguém que nunca teve pelos faciais? Fiquei irritado, crente de que algum cobiçoso tivesse me furtado os pelos na calada da noite.

Lembrei dos invejosos desbarbados, que não eram poucos. Sempre havia um ou outro em cada esquina, observando de soslaio a minha barba à altura do peito, tremulando com os afagos da aragem. Mostravam os dentes fingindo cordialidade. Patifes! Devem ter-se unido na noite passada.

Me debrucei no chão e comecei a observar atentamente o piso, tentando encontrar pelo menos um fio de barba. Não havia nada. Nada! Nada! A conspiração foi tão bem planejada que não restou sequer um vestígio. “Como? Como? Como? Que pesadelo terrível!”, monologuei, desconcertando o sobrecenho.

Vesti calça jeans, camiseta, par de tênis e saí às ruas na tentativa de amenizar a agitação que me consumia. O céu persistia claro e o sol espalhava sua luz sem reservas. Um belo dia. Para minha surpresa, amigos e conhecidos não me reconheciam. Abordei um camarada, ele franziu a testa, cuspiu no chão e esbravejou que nunca me viu.

— Afaste-se, senhor, afaste-se ou chamarei a polícia – advertiu outro.

Tudo bem. Cruzei a Rua Marechal Cândido Rondon e entrei no Banco do Brasil da Rua Getúlio Vargas. Atravessei a porta com detector de metais e, como sempre fiz, me aproximei do segurança para cumprimentá-lo. O homem se esquivou e ameaçou me golpear.

— Nunca mais se aproxime desse jeito! Nunca mais, senhor! Eu poderia machucá-lo – declarou.

Sem dizer palavra, recuei, peguei uma senha para atendimento no caixa e sentei em uma poltrona azul, observando o painel eletrônico. Preocupado com o tempo, abri minha carteira, mas não encontrei o cartão do banco. “O que vou fazer? Mais tempo perdido, francamente…” Ansioso e irritadiço, respirei profundamente e mirei meus olhos num ponto fixo em um pequeno espaço transparente da divisória que separa a clientela dos guichês do caixa.

Não acreditei no que vi. Condenei-me à insanidade. Algo peludo e esguio na sua pequenez caminhou do outro lado da divisória carregando um cartão alaranjado. Não tinha mãos humanas, mas improvisava dedos com os próprios pelos. Quando percebeu que eu o observava, adiantou-se numa correria fremente por entre as pernas do segurança. Era como um pequeno rei das balizas.

Bastardo! Ingrato! Desgraçado! Seu pequeno filho da puta! Como pôde fazer isso comigo? – gritei dentro da minha própria consciência, sentindo comichão na boca.

Era a minha barba! Na saída do banco, balançou o meu cartão e correu em disparada com seus pés pelosos que mantinham higiênica distância do chão, como se flutuassem. Com receio de chamar atenção, ou com medo do constrangimento de ser ignorado, caminhei disfarçadamente. Lá fora, minha barba corria com ligeireza, quase desaparecendo na esquina.

Desesperado, levei as mãos à cabeça e vociferei:

— Parem! Parem essa barba aí na esquina! Olhem! Parece um homenzinho felpudo! Mas não é! Está fingindo! É um ser dissimulado! É uma barba! Não deixem esse bandido de pelos fugir! Ele furtou meu cartão! Seu pilantra maldito!

Quase ninguém me ouviu. Os poucos que assistiram meu clamor, gargalharam e gritaram: “Mais um bêbado nesta cidade! Sai daí, seu louco! Era só o que faltava! Estou de saco cheio desses estrupícios!” Um deles chamou uma viatura da polícia enquanto eu corria pela calçada. Perto de encostar minhas mãos na barba fujona, senti alguém me puxar pelo braço.

O aroma da barba se desvaneceu como a mais efêmera das ilusões. Travessa, ela parou de correr e começou a caminhar lentamente, chacoalhando meu cartão e fazendo troça da minha situação. Antes de entrar na Casa do Cabeleireiro, esticou as extremidades do longo bigode, empinou a bunda peluda e a balançou diante da soleira.

Minha vontade era esganá-la e afiná-la a socos e pontapés, mas eu não poderia fazer isso com a minha barba. Eu precisava dela inteira. Dela? Não sei! Como definir um substantivo feminino de forma masculina? Tanto faz! Fui levado para a delegacia. Fizeram o boletim de ocorrência, qualificando-me como infrator, perturbador do sossego. Encontrei três colegas de trabalho e, mais uma vez, não fui reconhecido por ninguém.

— Não, nunca o vi. Conheço uma pessoa com esse nome, mas não é ele. Deve ser mera coincidência – comentou um dos camaradas.

Paguei a fiança e fui liberado. Sem nada a perder, narrei ao investigador tudo que aconteceu naquela manhã. Ele recomendou uma consulta com seu cunhado, um psiquiatra. Enfezado, voltei para casa reconhecendo a derrota e decidi escrever uma história sobre o desaparecimento da minha barba. O jornal não quis publicá-la, qualificando-a como inverossímil. Tudo bem. Me contentei em publicar uma nota nos classificados online.

Procura-se barba preta, volumosa e fechada. Tem perfil independente, forma masculina, porte atlético, andar espaçoso, bigode alongado, tipo handlebar, e oculta entre os pelos um cartão alaranjado do Banco do Brasil. Paga-se boa recompensa.
Somente os mais ardilosos oportunistas responderam ao anúncio, trazendo-me barbas de terceiros e das mais variadas cores e formas. A maioria, provavelmente colhida do chão das barbearias.

Ao final da tarde, desisti de procurá-la. Na manhã seguinte, quando levantei e cocei o queixo, corri em direção ao espelho do banheiro. Apenas sorri. Ela voltou para casa. Ao lado da cama, havia um pente e uma série de produtos. Pois é. Deveria ter cuidado mais da minha barba.





Written by David Arioch

October 16th, 2016 at 2:44 pm

O burrinho sentado

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Achei melhor começar pelo aparelho de gêmeos (Foto: Reprodução)

Aconteceu um fato inusitado na academia quando eu estava terminando o treino. Enquanto eu desmontava o leg press, notei um senhor me olhando. Acredito que ele mirava especificamente meu rosto. Talvez a minha barba. Simplesmente fingi que não percebi. Tirei uma grande quantidade de anilhas do leg press e decidi treinar panturrilhas.

Achei melhor começar pelo aparelho de gêmeos. Como a última pessoa a usá-lo foi justamente aquele senhor, atravessei até o outro lado da academia, onde ele fazia abdominais num canto, para perguntar se já tinha terminado de usar o tal aparelho, também chamado carinhosamente de “burrinho sentado”.

Depois de uma série de abdominais, o homem continuou deitado, com as mãos na testa e mirando o teto. Então me aproximei e perguntei: “O senhor terminou de usar o aparelho para panturrilha?” Acho que a minha presença era tudo que ele não esperava naquele momento. Levou um susto tão grande que seu corpo chegou a ficar suspenso no ar por um segundo, não sei ao certo. Só lembro da resposta e das balançadas de cabeça: “Terminei sim! Sim! Terminei sim!” Agradeci e caminhei em direção ao “burrinho sentado”.

Written by David Arioch

October 13th, 2016 at 11:44 pm

Na fila do caixa

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“Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia”

Na fila do caixa do mercado havia um senhor na faixa dos 80 anos, desinibido e conversador. De repente, percebi ele conversando com minha mãe e sorrindo. Curioso, me aproximei e ele comentou: “Que filho mais bonito que a senhora tem! Olhem pra esse rapaz!” Sem falar nada, até porque sou tímido, fiquei sorrindo que nem cachorro de porcelana na estante.

Àquela altura, enquanto muita gente me observava, o senhor emendou: “Quantos filhos a senhora tem?” Minha mãe respondeu três e ele interpelou: “Tudo bonito que nem esse?” Sem dar trégua, o homem chamou a atenção da moça do caixa e disse: “Olhe pra esse rapaz! E essa barba preta, como pode? Nunca vi uma barba preta como essa na minha vida. E como é bonito! Parece um galã!”, repetia. Calado, eu continuava sorrindo e balançando a cabeça, sem saber pra onde, também lembrando aqueles animaizinhos que os taxistas colocam no painel do carro.

“Não case, meu filho, não faça essa besteira. Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia. Quando acabar o sal, daí sim você pode pensar em se casar”, recomendou. Depois o homem apontou para um senhor ao seu lado e declarou: “Esse aqui é meu filho, já tá feio, coitado! Engordou e nem tem mais cabelo.”

A vítima, conhecendo o pai que tem, só riu, sem esculpir expressão de desconforto. Antes de pagar a moça do caixa e partir, o senhor mais velho sentiu o cheiro de pão quente saindo de um pacote nas mãos de minha mãe. “É pão quente? Posso pegar?” Minha mãe consentiu, abriu o saco, o homem tirou um pão, agradeceu e começou a comer tranquilamente.

Sem demora, caminhou até a saída dando um tapinha amistoso nas costas do filho, que retribuiu o gesto encostando a mão no ombro do pai. Em menos de minuto, desapareceram na escuridão solene, e por assim dizer transparente, da primavera.

Written by David Arioch

October 6th, 2016 at 12:09 am

Um convite no semáforo

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Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Saindo do mercado, parei em um semáforo na Avenida Rio Grande do Norte. De repente, um sujeito encostou o seu carro bem próximo do meu. Havia bastante espaço, mas ele preferiu ficar bem perto de mim. Ok! Não me preocupei. Continuei ouvindo música.

Para minha surpresa, o rapaz começou a acelerar sucessivas vezes enquanto o sinal continuava vermelho. Ele estava me desafiando, me convidando para um racha. Como o vidro do meu carro tem uma película bem escura, à noite é quase impossível ver quem está dentro.

Então pensei que talvez fosse uma boa ideia abaixar o vidro e fazer um aceno de mão cordial, mas desinteressado. Assim que o vidro desceu, o sujeito pareceu amedrontado e se desculpou. Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção – o sinal abriu. Segui meu caminho ouvindo “Sistem te laže”, do Beogradiski Sindikat. Pelo retrovisor, notei que o rapaz continuava no mesmo lugar.

Written by David Arioch

October 2nd, 2016 at 1:51 pm

Por que os muçulmanos usam barba

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Segundo a lei islâmica, a barba só pode ser aparada quando atingir o tamanho de uma mão fechada

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Segundo Abu Darba, o profeta Maomé diz não ter nenhuma ligação com aquele que não tem barba (Foto: Reprodução)

No mundo todo, é grande o número de pessoas que não sabem o motivo pelo qual os muçulmanos usam barba. Foi pensando nisso que o Mufti Afzal Hoosen Elias, jurisconsulto e intérprete do Alcorão, escreveu o folhetim “Sobre o Comprimento da Barba”.

Nele, Elias explica que o uso da barba é uma forma dos homens sentirem-se mais próximos dos ensinamentos do profeta Rasulullah (Maomé). “Para aqueles que veem a barba como algo trivial, que Alá possa guiá-los. Mas para aqueles que desejam aprender e praticar o que é certo, tenho provas suficientes da importância da barba. E elas foram extraídas do Hadith, do Alcorão”, escreveu o Mufti Elias.

Nas palavras registradas por Abu Darda no Hadith 501, do Alcorão, o profeta Maomé diz não ter nenhuma ligação com aquele que não tem barba. Segundo os ensinamentos de Hadhrat Ammar Bin Yaasir, Abdullah Ibn Umar, Sayyidina Umar, Abu Hurairah e Jaabir, a barba deve ser cultivada longa. Somente durante o Haji ou Umrah, quando os muçulmanos peregrinam até a Meca, que eles aparam suas barbas, mas sem deixá-las menores do que o tamanho de um punho.

“Aqueles que imitam os descrentes e morrem nesse estado, se juntarão a eles no Dia do Qiyamat (juízo final]”, escreveu Hadhrat Abdullah Ibn Umar em referência aos que abandonam, por exemplo, a barba. Em relato de Ibn Umar, no Hadith 498, Rasulullah recomenda que os homens mantenham o bigode curto, mas deixem a barba crescer. Recomendação parecida aparece no Hadith 500.

Maomé diz também que nenhum homem sem barba tem direito ao perdão de Alá, de acordo com transcrição de Ibn Abbas. Além disso, a recomendação de Al-Tirmidhi, registrada por Ibn Umar, é de que a barba seja aparada somente quando ela atingir o tamanho de uma mão fechada.

No contexto do islamismo fazer a barba se enquadra como haraam, ou seja, um ato proibido pela fé islâmica. O Muwatta, uma das primeiras coleções do Hadith, escrito por Imam Malik, o primeiro sheik do Islã, diz que os únicos que não usam barba são os hermafroditas, ou seja, pessoas que possuem tanto o órgão sexual masculino quanto o feminino.

Para a Hanbali, uma das quatro escolas sunitas ortodoxas, referência em jurisprudência islâmica, o crescimento da barba é fundamental e cortá-la é pecado. Tal defesa pode ser encontrada em livros como “Sharahul Muntahaa” e “Sharr Manzoomatul Aadaab”.

“Um homem sem barba é um sujeito injusto e legalmente falando jamais seria concedido a ele o direito de ser um imã [um estudioso do Islã]”, consta na página 523 do primeiro volume do livro islâmico “Shami”. Para os fundamentalistas, muçulmanos sem barba não devem ter o direito de votar ou de se candidatar a algum cargo no contexto da Charia. “A chave para a felicidade total encontra-se em seguir a Sunnah e imitar a vida de Rasulullah no que diz respeito a tudo, incluindo sua maneira de comer, dormir e falar”, escreveu o Imã Ghazzali.

“Santo é o ser rodeado de homens com barba e mulheres com tranças”, consta na página 331 do terceiro volume de “Takmela e Bahr al Raiw.”

 Saiba Mais

Abu Darda era um dos companheiros do profeta Maomé.

O Hadith é o registro dos preceitos de Maomé.

Após o Alcorão, a Sunnah é a segunda fonte mais importante das leis islâmicas.

Referências

Elias, Agzal Mufti. From The Shari Length of the Beard.

http://www.islam.tc/beard/beard.html

Contribuição

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Written by David Arioch

September 30th, 2016 at 10:45 pm

A barba luminosa

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Na fila de um mercado em Nova Esperança, um senhor sendo atendido pelo caixa gesticulava, falava e sorria. Daí notei o caixa, o empacotador e outro homem também sorrindo. A princípio, não entendi o que estava acontecendo. Parecia-me até um tipo de conferência – com os quatro formando um semicírculo . “Quando eu era jovem tive uma barba grande e luminosa igual a daquele rapaz ali. Qualquer dia trago a foto pra vocês darem uma olhada”, disse o cliente na faixa dos 60 anos. Em seguida, mais gente virou o rosto e seguiu o dedo do homem, apontando para o portador da tal barba luminosa – eu.

Written by David Arioch

September 22nd, 2016 at 12:04 am

Kali

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15073405_1229816640443062_66558832310908531_nCheguei da academia, tomei banho e, faminto, preparei meu prato. Assim que sentei para jantar, houve um blecaute na minha rua. Sem me estressar, caminhei da cozinha até o quintal com o prato em mãos. Sentei numa dessas cadeiras tradicionais de varanda e jantei à luz da lua. Uma lua enorme que lançava uma luz anilada sobre mim e tudo que me cercava.

Depois descasquei uma laranja e a chupei. Assim que terminei, ouvi um som tétrico. Era a Kali, a frajola daqui de casa, me estranhando. Enquanto eu tentava entender a situação, ela soltou um miado oxítono e saltou em minha direção, enroscando suas unhas em minha barba. De repente, ela se acalmou, recolheu as garras e a expressão macabra em sua face desapareceu.

Não entendi nada até o momento em que fui ao banheiro escovar os dentes. Diante do espelho, havia duas sementes de laranja em minha barba, parecendo dois olhos miúdos. Provavelmente ela pensou que minha barba tivesse assumido a forma de um animal e ficou enciumada. O jantar à luz da lua não saiu tão barato. Me custou algumas unhadas no pescoço.

Written by David Arioch

September 9th, 2016 at 10:16 pm

Eu e minha barba III

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Encontrei um jovem encolhido em frente ao Banco do Brasil, daí vi que ele era pedinte e estava recolhendo moedas caídas no chão. Me aproximei, tirei uns trocados do bolso e coloquei na latinha ao seu lado. Ele se levantou, olhou para a minha barba atentamente e disse: “Não, irmão! Que isso! Você também deve tá precisando!”

Passando novamente pelo centro, um rapaz subiu na calçada com uma bicicleta tipo Barra Circular, veio em minha direção e gritou sorrindo: “Ô Bin Laden, tá a fim de uma paçoca?” E mostrou logo atrás do banco uma cestinha repleta de paçocas caseiras. Sorri, agradeci e segui andando, ainda percebendo alguém me observando.

Written by David Arioch

September 2nd, 2016 at 11:51 pm

Eu e minha barba II

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Foto: David Arioch

Foto: David Arioch

Saí do Super Muffato e lá fora escutei um cara gritando em frente ao semáforo. Demorei pra perceber que era comigo. Um malabarista chileno soltou os facões no chão e começou a apontar pra mim e gritar: “Esa es la barba! Eso sí es la barba! Mira la barba de la barba!” Todo mundo ficou me olhando e eu só sorrindo.

Daí entrei no carro e, desacostumado a receber elogios por causa da minha barba, quando passei do lado do cara, até dei uns trocados, mesmo sem ele ter feito nenhum tipo de malabarismo. E o cara sorrindo, ainda grita quando estou saindo: “Oh, eres la barba! Fantástico! Mejor barba!”

Na mesma semana, saindo de uma loja no centro, um sujeito me parou e perguntou quanto eu cobro. Daí fiquei assustado e perguntei: “Quê?” Ele respondeu: “O metro! O metro, cara!” – Daí interpelei: “Metro de que?” – “O metro de lenha!”

Written by David Arioch

September 1st, 2016 at 12:52 am

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Eu e minha barba

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Passando pelo caixa do hipermercado, uma moça me perguntou de onde eu sou. Daí respondi naturalmente: “Sou daqui!” Com um olhar de surpresa, e acredito que até estranhando a minha fluência em português, ela replicou: “Não é não!” Então comentei: “Talvez você tenha razão, nunca se sabe!”

— Ah! É que você tem uns traços diferentes, parece que veio do Oriente Médio.

Written by David Arioch

July 23rd, 2016 at 1:09 am

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