Archive for April, 2013
Uma espada com mais de 350 anos
Objeto histórico foi confundido com facão nos anos 1950
Situada na região de Paranavaí, no Noroeste Paranaense, Terra Rica foi uma importante rota de fuga dos índios caiuá, principalmente quando os bandeirantes paulistas invadiram a localidade nos anos 1600, na tentativa de espoliar riquezas, dominar e escravizar os indígenas.
Mais tarde, materiais históricos desse tempo foram encontrados casualmente por pioneiros de Terra Rica. Nos anos 1950, o agricultor Angelo Calírio comprou alguns lotes rurais perto do Rio Paranapanema. Em um dos imóveis, localizado nas imediações do “Bairro do Garimpo”, se deparou com um objeto muito antigo e desgastado. O pesquisador e geógrafo Edson Paulo Calírio conta que o pai andava em meio ao que sobrou da derrubada para o plantio de café, quando viu um pedaço de ferro enferrujado. Estava quase todo enterrado em posição diagonal, coberto por húmus e folhas.
Angelo Calírio recolheu o objeto e o levou para casa, acreditando que fosse apenas um facão. “O estado do ferro chamou muita atenção porque nada foi deteriorado. Talvez a umidade do solo, que concentra grande quantidade de argila, tenha facilitado a conservação do material”, supõe Edson Calírio. Em casa, Angelo limpou o objeto cuidadosamente com limão e o guardou, sem ter a mínima ideia de que por muitos anos preservou em casa um importante material histórico sobre o Noroeste do Paraná, o Paraná e o Brasil.
“O tal ‘facão’ sempre ficava guardado. Décadas depois, quando crescemos e ganhamos um pouco de noção das coisas, decidimos pesquisar sobre o objeto. Descobrimos que se tratava de uma espada de algum bandeirante ou espanhol que lutou na nossa região no período de colonização. Provavelmente, a partir de 1620”, revela. Após avaliação, pesquisadores de várias universidades do Paraná e São Paulo constataram que a espada tem mais de 350 anos e deve ter pertencido a um invasor.
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Fafipa, a faculdade mais antiga do Noroeste do Paraná
Nelson Akiyoshi: “Falavam que nossa cidade não tinha importância social nem estrutura para comportar uma faculdade”
Em 1965, Nelson Akiyoshi era professor do Colégio Estadual de Paranavaí. Naquele tempo, Paranavaí tinha uma grande demanda de profissionais com formação superior. Então dentro do colégio surgiu uma discussão sobre a viabilidade de se fundar uma faculdade, a primeira do Noroeste do Paraná. “Nossa principal necessidade era formar professores, pois tínhamos poucos. O problema é que outros envolvidos aproveitaram a oportunidade para fazer propaganda política em cima dessa ideia, angariando votos”, contou Akiyoshi.
À época, o prefeito criou uma comissão com representantes do Núcleo Regional de Educação, além de autoridades de classe e magistrados. Segundo o professor, a preocupação maior do administrador municipal era mostrar que estavam se mobilizando. Em outro sentido, o presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual de Paranavaí, Ivo Cardoso, pediu para Nelson Akiyoshi assumir o trabalho da agremiação. “Fiquei como representante da criançada, dos alunos. Cada um tinha sua finalidade e aos poucos fomos afastando a comissão que criaram com intenção política”, explicou.
Os primeiros passos da Faculdade de Filosofia de Paranavaí
Preocupado, Akiyoshi começou a se aprofundar em estudos sobre implantação de instituições públicas de ensino superior. Algum tempo depois, acompanhado por alunos e professores, realizou uma viagem até Curitiba para conversar com a superintendente de ensino superior Maria de Lourdes Zanardini de Camargo. Entusiasmada com a ideia de uma faculdade em Paranavaí, a superintendente pediu que elaborassem um projeto detalhado e depois o encaminhassem a Curitiba.
Bem articulada, a equipe sob o comando de Nelson Akiyoshi preparou um projeto completo que incluiu levantamento socioeconômico de toda a região e declaração de autoridades públicas, inclusive do prefeito. “Foi um bom trabalho de base. Mandamos tudo para Curitiba e logo foi apreciado pelo Conselho Estadual de Educação. Era o primeiro passo para implantação da faculdade que começou municipal e se tornou estadual”, frisou.
Por problemas políticos e burocráticos, o Grêmio Estudantil e os professores engajados na conquista tiveram de recorrer a deputados estaduais e federais para agilizar o processo de instalação da instituição. “Vários abraçaram a causa porque entenderam como uma excelente oportunidade de conquistar mais eleitores”, declarou o professor.
Em 1966, apesar dos obstáculos, conseguiram a permissão para o funcionamento da Fundação Faculdade de Filosofia de Paranavaí que começou a operar com poucos professores de graduação superior. “Ficamos entusiasmados e contratamos mais docentes. O próximo passo foi a adequação dos professores. Incentivamos cada um a fazer especializações, cumprindo os quesitos legais para conseguirmos a certificação estadual. Foi muito trabalhoso, mas valeu a pena”, admitiu Akiyoshi.
“Maringá não gostou nem um pouco”
Paranavaí teve motivos para comemorar. Foi pioneira em ensino superior no Noroeste do Paraná, superando Maringá que apenas três anos depois conseguiu fundar a Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Maringá não gostou nem um pouco. Autoridades políticas foram até Curitiba reclamar de Paranavaí. Falaram que a nossa cidade não tinha importância social nem estrutura para comportar uma faculdade”, confidenciou.
A qualidade do ensino norteou a instituição logo no início. O entusiasmo dos professores em lecionar estimulou os acadêmicos a se tornarem docentes. “Tivemos essa felicidade. Se você der uma olhada no quadro de professores vai ver que há muitos anos formamos profissionais para darem aula na Fafipa. Claro, eles fizeram pós-graduação, mestrado e doutorado fora, mas a base é aqui”, defendeu o professor Nelson. No começo, não foram poucos os profissionais contratados pela faculdade que deixaram outros estados e cidades.
Akiyoshi se recordou da professora Lucinda Michelon que saiu do Rio Grande do Sul para dar aula de história em Paranavaí, além de muitos professores vindos de Curitiba. Nos primeiros anos, a instituição oferecia os cursos de pedagogia, iniciação em ciência (curso válido para lecionar a alunos de primeira e quarta série do ensino fundamental), geografia, história e letras. Como havia grande procura de professores em toda a região, o aperfeiçoamento era obrigatório para se manter no mercado de trabalho. A instalação da faculdade também permitiu que muitos regularizassem a própria situação.
Os vestibulares mais exigentes
Os primeiros vestibulares da Fafipa estavam entre os mais exigentes do Paraná, tanto que poucos inscritos conseguiam a aprovação. A solução era realizar segunda chamada para preencher o número de vagas. Mas isso não acontecia por desinteresse dos estudantes. A verdade é que nos anos 1960 e início de 1970, muitos alunos eram chefes de família com graves problemas financeiros. “Eles recorriam a nós pedindo ajuda. E o mais incrível é que sempre davam um jeito de participar dos movimentos estudantis. Havia uma seriedade surpreendente, rara hoje em dia”, avaliou o ex-diretor da Fafipa.
A instituição passou por sérias dificuldades econômicas nos primeiros anos. Houve várias promessas de repasse de recursos do Governo do Paraná, mas nada foi concretizado. O único apoio recebido foi do poder público municipal. Para evitar que a faculdade fosse fechada, Nelson Akiyoshi sugeriu a criação de uma mensalidade a ser paga de acordo com as condições financeiras dos estudantes. A ideia foi colocada em prática e mesmo recebendo pouco, os professores entendiam a situação e se empenhavam em ajudar.
A primeira sede da Fafipa foi na Avenida Rio Grande do Norte, onde é hoje o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). O prédio foi doado para a faculdade pela Câmara Municipal de Paranavaí. “Nosso compromisso era proporcionar educação. Bem diferente de uma instituição que visa lucro, fazíamos tudo com a intenção de evitar onerar os responsáveis pelo funcionamento da Fafipa e os estudantes”, ressaltou. Mais tarde, levando em conta as necessidades da região, a instituição foi atrás de novos cursos que contribuíram para transformar Paranavaí em um dos destinos preferidos dos estudantes do Norte do Paraná.
“Me afastei porque a Fafipa virou um trampolim político”
Nelson Akiyoshi lamentou que após algumas décadas a faculdade se tornou uma “sucursal” de outras universidades, recebendo poucos investimentos e tendo de se submeter a conflitos de interesses e jogos políticos. “Não começamos o nosso trabalho para tudo ser sucateado. Sofremos muito para que a Fafipa existisse. Depois a vimos perder o seu valor se comparada a tantas universidades bem mais jovens que se tornaram prioridade para o Governo do Paraná”, desabafou.
Sobre as dificuldades na implantação da faculdade, o professor citou as eleições de 1965, quando o prefeito José Vaz de Carvalho, comprometido em trabalhar para o candidato a governador Affonso Camargo Neto, mudou de lado e apoiou o adversário Paulo Pimentel. Já os professores e o Grêmio Estudantil seguiram a recomendação do governador Ney Braga e apoiaram Camargo Neto que prometeu agilizar a instalação da faculdade.
“O prefeito enganou o Ney Braga e nos deixou sozinhos, sem qualquer explicação. Pagamos o preço porque o Camargo Neto foi derrotado. Quando íamos até Curitiba pedir algo, o Paulo Pimentel se recusava a nos atender. Fazia aquele jogo de empurra”, reclamou. Independente dos problemas, os professores de Paranavaí perseveraram e em menos de um ano alcançaram o objetivo. Embora falasse a quem quisesse ouvir que a Fafipa o deixou muito orgulhoso e lhe trouxe algumas das melhores lembranças ao longo da vida, Nelson Akiyoshi nunca escondeu a mágoa de ver a faculdade transformada em uma instituição diferente da sonhada.
“Começamos a trabalhar com quatro turmas, uma de cada curso. Havia muito idealismo. Isso foi se acabando e me afastei porque a Fafipa virou um trampolim político. Sempre fui o que sou, dentista, então voltei pra minha profissão. Tinha largado tudo para me dedicar à faculdade”, enfatizou o professor que em 1966 teve que enfrentar uma pessoal crise financeira para se empenhar na conquista da permissão de funcionamento da instituição.
“Nelson Akiyoshi foi o maior batalhador da história da Fafipa”
Akiyoshi começou a lecionar porque gostava de trabalhar com adolescentes e jovens adultos. Se sentia realizado em uma sala de aula e envaidecido por mostrar o conhecimento que tinha para dividir com os alunos. “Eu desconhecia minha vocação como professor. Foi por uma casualidade que a descobri. Muitas vezes, passamos a vida sem saber que temos certos talentos”, salientou e disse que quando era professor de biologia se sentia mais jovem em contato com os estudantes.
O entusiasmo o animava tanto que sempre foi lembrado como um dos mais ativos líderes de grupos de estudantes e professores de Paranavaí. “Eu digo que o Nelson Akiyoshi foi o maior batalhador da história da Fafipa. Ninguém lutou tanto. Ele fez tudo acontecer com o trabalho de uma boa equipe formada por professores e alunos”, pontuou o comerciante Romeu Valmor Voida que ingressou na Fafipa em 1970 e se graduou em geografia.
Voida se conduziu pelo passado ao detalhar como era quando a instituição funcionava onde é o atual Senac. Segundo o comerciante, havia um prédio de “material” e outro de madeira com salas, biblioteca e diretório acadêmico. Na década de 1970, geografia, letras (inglês e francês) e pedagogia eram os cursos mais disputados. Pessoas de pelo menos 50 cidades do Paraná participavam do vestibular da Fafipa que oferecia também os cursos de estudos sociais e matemática.
Muitos chegavam sujos na sala de aula
Quando o professor Roberto Ferreira assumiu a diretoria, a instituição obteve o reconhecimento do governo federal. A carga horária mínima a ser cumprida era de 75%. A maior parte dos alunos evitava ao máximo faltar às faltas, mesmo que isso significasse chegar sujo à sala de aula. “Muita gente ia de kombi fretada pra faculdade. Não tinha asfalto e quando atolava tinha que descer e ajudar. Era lama pra todo lado e isso acontecia com frequência”, testemunhou Romeu Voida que se recorda dos contratempos enfrentados pelos muitos colegas de Porto Rico, Querência do Norte, Diamante do Norte, Itaguajé, Paranacity e outras cidades.
A Fafipa tinha fama de ser uma das melhores faculdades do interior do Paraná pelo alto nível dos professores, tanto que não havia reclamações quanto ao corpo docente. Voida decidiu cursar geografia quando retornou do exército e ingressou na empresa Transparaná. Foi convencido por quatro amigos que também se interessaram pelo curso. “Meu sonho era agronomia, mas era praticamente particular, não dava pra mim. Fui o último a entrar no grupo e o único a concluir geografia”, assinalou rindo.
Turma de geografia de 1973 se reúne a cada cinco anos
A turma de Voida já se reuniu várias vezes. Um dos eventos mais marcantes foi a festa de 25 anos após a conclusão do curso que contou com 33 dos 39 acadêmicos formados – 60% atuam na área. Depois realizaram o encontro de 30 anos com 22 ex-alunos. Houve uma queda no total de participantes porque vários faleceram. Alguns colegas de Romeu Valmor se tornaram prefeitos. Os exemplos são Cláudio Pauka em São João do Caiuá e Mário Miyamoto em Paranacity. Apesar de tudo, o grupo mantém o compromisso de se reunir a cada cinco anos.
Voida foi vice-presidente do diretório acadêmico em 1970. Nos anos subsequentes, assumiu como secretário, diretor e presidente. A responsabilidade da diretoria era lidar com os aspectos sociais da vida acadêmica. “Estávamos lá sempre que precisavam da gente. Organizamos muitas festas comemorativas. Quase tudo tinha nossa participação”, garantiu. Comparando passado e presente, o comerciante se queixou que na atualidade há muito individualismo entre os estudantes.
Para Romeu Valmor, a Fafipa só sobreviveu as adversidades graças ao empenho dos primeiros diretores e de muitos professores. “Foram profissionais excelentes, bem respeitados. Por isso a faculdade ainda está aí. As dificuldades existem sim e sempre vão existir, mas sempre cabe a diretoria correr atrás do que é melhor para a instituição, professores e alunos”, sugeriu.
Frase de Nelson Akiyoshi, primeiro diretor da Fafipa
“Hoje existe menos dedicação e menos compromisso. O aluno não sabe o que quer e larga um curso para fazer outro.”
Curiosidades
Antes da faculdade ser instalada na Avenida Rio Grande do Norte, atual Senac, o local já abrigava o Colégio Estadual de Paranavaí (CEP).
Em maio de 2013, a Fafipa completa 47 anos.
Observação do autor
Em 2006 tive a oportunidade de conversar por algumas horas com um dos principais fundadores da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí (Fafipa), o ex-diretor, ex-vereador, professor e dentista Nelson Akiyoshi, falecido em 6 de julho de 2009, que desabafou e se emocionou ao relembrar os primeiros anos de funcionamento da faculdade. Infelizmente, perdi o arquivo da entrevista há alguns anos, mas o recuperei recentemente e o transformei nesta longa matéria. Outra importante e valiosa fonte sobre o assunto foi o comerciante Romeu Valmor Voida que ingressou na Fafipa em 1970.
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Um banho de sangue sérvio
A incrível história de sobrevivência de Bogdan Bukumiric
Em 13 de agosto de 2003, Bogdan Bukumiric tinha 15 anos quando foi baleado oito vezes. O motivo? Ser sérvio. Apesar da crueldade com a qual foi surpreendido, o jovem sobreviveu e dias depois já estava fora do coma. Até hoje, Bukumiric não sabe quem foi o responsável pelo banho de sangue contra todas as crianças e adolescentes que descansavam no Rio Bistrica, perto de Goraždevac, uma aldeia do Kosovo, na península balcânica.
É impossível visitar Goraždevac sem se emocionar com o monumento em homenagem aos jovens vitimados pelos terroristas albaneses. Os rostos de Panto Dakic e Ivan Jovovic estampam a obra que denuncia a maldade vivida por sérvios em um gueto que até então era considerado um oásis. Panto e Ivan foram assassinados enquanto brincavam no Rio Bistrica com um grupo de amigos.
É chocante saber que essa carnificina jamais esquecida pelos sérvios teve a conivência da Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan), segundo testemunhas que viviam em Goraždevac. Perto das fotos de Dakic e Jovovic há uma frase profunda em sérvio com os dizeres: “Mais assustador que a morte é ser enterrado vivo.”
Panto e Ivan foram surpreendidos por um grupo de desconhecidos que abriram fogo contra todos que estavam nas imediações do Rio Bistrica. “Quatro de nós ficaram gravemente feridos. O meu quadro era o pior. Os médicos disseram que eu tinha 96% de chance de morrer e 4% de chance de sobreviver”, conta Bogdan Bukumiric, alvejado com oito tiros na emboscada de 13 de agosto de 2003.
Superando todas as expectativas, Bukumiric sobreviveu e hoje vive em Belgrado, na Sérvia, onde lamenta o desrespeito dos albaneses ao monumento de seus amigos mortos. Há várias marcas de tiros na escultura erigida em memória de Panto Dakic e Ivan Jovovic. Nascido em Goraždevac, no Kosovo, Bogdan aprendeu a conviver com os abusos e agressões dos albaneses e da Otan, organização militar intergovernamental que em tese deveria garantir a segurança dos civis em regiões de guerra.
A situação na localidade só começou a melhorar depois de 1999, com o fim da Guerra do Kosovo. “Naquele tempo, a aldeia tinha uma população de apenas mil pessoas e era cercada por assentamentos albaneses. A cidade mais próxima era Peć. Tínhamos sempre que sair para comprar comida escoltados pela Kfor [Força do Kosovo]”, relata Bogdan Bukumiric.
Mas a emboscada no Rio Bistrica não foi o primeiro atentado sofrido pela família Bukumiric. Anos antes, Milica Bukumiric, tia de Bogdan, foi assassinada em frente a própria casa, quando terroristas albaneses arremessaram granadas no seu quintal. O garoto cresceu sendo obrigado a se isolar para sobreviver. Teve uma infância difícil, sem entretenimento ou possibilidade de viajar para outros lugares. “Só tínhamos a nossa comunidade e a escola. Viver era muito arriscado”, admite.
Em 13 de agosto de 2003, cansados da monotonia na aldeia, os amigos de Bukumiric passaram em sua casa e o convidaram para dar um mergulho no Rio Bistrica. Como se prevesse o pior, o pai de Bogdan disse que ele deveria ficar em casa, até porque a água estava muito fria, especialmente naquele dia. “Então eu perguntei de novo, ele acabou cedendo, mesmo sem querer. Havia bastante crianças no rio, além de jovens adultos e pais. Como fazia muito frio, fiquei perto do fogo. Em menos de dez minutos, ouvi tiros de metralhadora. Eu e meus amigos estávamos mais próximos dos terroristas”, lembra.
Em questão de segundos, três balas atingiram o lado esquerdo de Bogdan que conseguiu ver uma grande movimentação na floresta. Outros tiros o acertaram no peito, estômago e cabeça. Ele se recorda que a oitava bala se alojou em sua perna esquerda. O garoto só teve tempo de gritar bem rápido por ajuda, cair, tentar se levantar e em seguida sentir a vida se esvaindo.
Os sérvios não atingidos pegaram Bukumiric nos braços e o levaram para um hospital na base militar da Kfor. Infelizmente, não havia médicos e os primeiros socorros foram feitos em uma pequena clínica local. A primeira medida era estancar o sangramento. Ainda consciente, Bogdan pediu para afastarem seu irmão da sala de emergência, evitando ser visto em estado tão preocupante. Um senhor sérvio exigiu que a Kfor levasse Bukumiric para o hospital em Peć. O pedido foi negado e muitas desculpas foram dadas.
Por conta e risco, o irmão de Bogdan e um vizinho o transportaram de carro até Peć, uma cidade de predomínio albanês. Tentando mantê-lo acordado, os dois disseram: “Bogdan, espere, você é um herói e vai sobreviver!” O garoto retribuiu afirmando: “Não me renderei!” Perto de um mercadinho em Peć o motor do carro parou. Como a placa do veículo era sérvia, os albaneses os atacaram. O automóvel foi destruído e nenhuma das janelas ficou intacta. Para piorar, tentaram arrastar os três garotos para fora do carro. O vizinho e o irmão de Bogdan foram atingidos com pedras enquanto tentavam ligar o veículo e se defender, mantendo os punhos sobre a cabeça.
Mesmo com uma pessoa quase morta dentro do carro, os albaneses não demonstraram misericórdia. A sorte dos três foi que minutos depois apareceram dois carros de patrulha da Kfor. “Só os vi atirando para o ar, espantando os agressores. Não demorou e entrei em coma. O que soube depois me foi relatado por amigos”, enfatiza Bukumiric, levado para um hospital de Peć, onde também estava em estado grave o amigo Panto Dakic que não sobreviveu.
Naquele dia, uma médica albanesa tentou examinar Panto, mas o pai do garoto não permitiu, preocupado que garantissem sua morte. Um médico sérvio alertou sobre a importância de levar Bogdan de helicóptero até o Norte de Kosovska Mitrovica. Para isso, era preciso a permissão da Kfor. Três horas depois, Marco Bogicevic, outra criança ferida no atentado, chegou a Peć em um helicóptero. No mesmo veículo, enviaram Bukumiric para o hospital da Kfor em Mitrovica.
Depois de operarem o baço do garoto e extraírem uma bala a dois milímetros do rim esquerdo, os médicos franceses da Kfor perceberam que dificilmente o garoto sobreviveria, pois não havia nenhum neurocirugião para dar continuidade aos procedimentos. Ciente da gravidade da situação, o médico Milenka Cvetkovic desempenhou um papel crucial que evitou a morte de Bogdan. Cvetkovic insistiu para o levarem até Belgrado, na Sérvia. Aí surgiu um dilema porque a Kfor não permitia o desembarque de helicópteros sérvios sem autorização.
A solução apresentada pelo médico foi transportar Bukumiric de carro até a Academia Médica Militar de Belgrado. Mesmo com a pressão extremamente baixa, e perdendo os sinais vitais, tiveram de aguardar 11 horas para chegar a Belgrado com toda a documentação necessária. Bogdan já estava com pouco sangue, então foi preciso realizar uma transfusão emergencial na Academia Militar. A cirurgia só pôde ser feita no dia seguinte.
Em 19 de agosto, o prognóstico ainda era o mesmo. As chances de sobrevivência se resumiam a 4%. Logo que saiu do coma, o garoto teve muita febre em função das lascas de ossos que danificaram o córtex cerebral. Quatro cirurgias mais tarde e uma meningite, Bukumiric conseguiu recuperar os movimentos do lado direito do corpo. Passados alguns meses de muita luta, peserverança e exercícios intensos, Bogdan voltou a andar.
A história de sobrevivência do jovem sérvio chamou a atenção do alto escalão da Missão das Nações Unidas para a Administração Interina do Kosovo (Unmik), inclusive do líder Harri Holkeri, ex-primeiro-ministro da Finlândia que o visitou em Belgrado, onde desejou-lhe melhoras e um rápido retorno a Goraždevac. Bogdan supreendeu Holkeri ao perguntar se ele já havia prendido os criminosos.
“Ele não esperava esse tipo de pergunta de um jovem de 15 anos”, confidenciou um funcionário da Unmik. O finlandês explicou que estavam trabalhando nisso, mas não tinham conseguido recolher provas o suficiente. A verdade é que muito tempo se passou e até hoje nada de concreto foi feito. Ao longo dos anos, Bukumiric tentou buscar justiça, se correspondendo com várias organizações internacionais. Algumas assumiram o compromisso de ajudá-lo.
As boas intenções para resolver o caso se estenderam até 2007, quando as investigações cessaram. Apesar de tudo, Bogdan ainda busca justiça. “Fomos atacados por monstros enquanto nos divertíamos no rio. Eles não se importaram nem com as crianças de cinco anos. Foi um plano extremo, de atacar os mais jovens para atingir os mais velhos”, avalia Bukumiric. Embora tenha uma vida praticamente normal, o sobrevivente sérvio ainda não tem controle total sobre o braço esquerdo, mas se anima com a ideia de viajar para a Rússia, onde soube que há excelentes médicos dispostos a tratá-lo.
Desde 2003, Bukumiric, que perdeu a mãe quando tinha apenas cinco anos, mora com o pai e o irmão em um apartamento arrendado em Belgrado. Sensibilizado com a difícil situação financeira de Bogdan, o tabloide sérvio Večernje Novosti lançou uma campanha para arrecadar 59 mil euros para que a família compre um imóvel. “O governo nunca esteve interessado em meu caso, então sou obrigado a contar com a ajuda das pessoas. Tenho formação técnica de eletricista, mas como ainda sofro por causa de algumas limitações preciso me cuidar a maior parte do tempo”, frisa.
Bogdan até hoje não teve a chance de retornar a Goraždevac porque precisa estar em constante observação médica em Belgrado. Os demais sobreviventes do atentado ainda vivem na aldeia, assim como os pais de Panto e Ivan. “Sou orgulhoso de minha aldeia. Temos a igreja mais antiga dos Bálcãs. Ela foi construída há oito séculos sem um único prego. Acredito que ela protege minha terra natal porque superamos a Primeira e Segunda Guerra Mundial, o Conflito do Kosovo e muitas outras tragédias”, comenta Bukumiric emocionado.











