David Arioch – Jornalismo Cultural

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Um outro olhar sobre o “Leitão à Pururuca” servido no Natal

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Trata-se de um pequeno animal que não raramente é morto aos 21 dias

Encontrei uma foto que me chamou a atenção, acompanhada de uma receita. Estava com a seguinte legenda: “Leitão à Pururuca – o delicioso sabor mineiro na sua ceia.” É um dos pratos indicados para o Natal. Trata-se de um pequeno animal que não raramente é morto aos 21 dias. Claro, pode ir além. Afinal, ele vive até o momento em que chega ao auge do que podemos chamar de palatável.

Temperado com óleo, cebola, alho, salsa, limão, pimenta dedo-de-moça, sal e azeite, o leitão, morto precocemente, é assado e servido com a pele torrada, parcialmente derretida em alguns pontos. Com uma boa e bela combinação de ingredientes, muitas pessoas não verão um animal, mas apenas um grande pedaço de carne.

Não importa se o que está diante delas ainda têm olhos, focinho, pernas, boca ou até mesmo unhas. Podemos chamar isso de dissimulação estética. Claro, cheiro e apresentação têm um grande poder de sugestão sobre o paladar. Para romantizar um pouco, podemos colocá-lo sobre uma caminha cuidadosamente enfeitada, que pode ser uma porção de farofa, alguns belos tomatinhos e um raminho de alecrim. Pronto! Agora é só dizer às crianças que aquela criatura morta e caprichosamente adornada não era um animal de verdade.

Observem as fotos do chamado “Leitão à Pururuca” e perceberão que sempre, ou quase sempre, o leitão está com os pés retorcidos. Não é difícil reconhecer que não se trata de uma criatura que morreu tranquilamente. Imagino que muitos se alimentarão de um animal assim no Natal. Infelizmente, não há como contestar. Entre uma garfada e outra, gestos e ações de empatia, celebrarão à vida com morte. Do leitão, não tenho dúvida que não sobrará nada. Na realidade, pode até sobrar. Talvez os ossos sejam lançados ao lixo, ou entregue aos cães que, diferentes de nós, comerão sem saber do que se trata.





Written by David Arioch

November 20th, 2017 at 5:18 pm

O Natal e os açougues

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Com a proximidade do Natal, os açougues estão cheios, suas filas são quilométricas, mas muitos ainda não percebem que a desproporcionalidade entre vida e morte é gritante. Quem sorri do lado de cá, não pondera que sua satisfação custou o choro daquele do lado de lá.

Written by David Arioch

December 24th, 2016 at 7:20 pm

Sobre a Campanha de Natal na Vila Alta

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Momento inesquecível da entrega de presentes para as crianças da Vila Alta (Foto: Douglas Alves)

Tem algumas pessoas fazendo comentários estranhos sobre a campanha de Natal que realizamos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Bom, só para esclarecer, eu e meus amigos que decidimos fazer esse trabalho, não vamos à periferia somente no Natal.

Na realidade, tentamos ajudar de alguma foma o ano todo, e já tem anos. A diferença é que pela primeira vez decidimos fazer uma campanha de Natal, isto porque percebemos que mesmo com tantas campanhas realizadas nessa época do ano ainda existe carência em relação a isso.

Já produzi inclusive alguns documentários sobre a realidade da periferia, então sugiro que procurem conhecer o trabalho das pessoas envolvidas em campanhas antes de julgá-las de algum modo. Tem muita gente que não faz isso somente no Natal. Ademais, não divulgo fotos e textos sobre o assunto para me promover, mas sim para mostrar que qualquer um é capaz de ajudar, o que pode motivar mais pessoas.

Outro ponto positivo é que serve como um gratificante registro de nossas ações e também uma boa lembrança para os moradores do bairro que também usam Facebook, acessam blogs e outras mídias.

Written by David Arioch

December 24th, 2016 at 7:00 pm

Campanha de Natal na Vila Alta

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Sem dúvida, o Natal já valeu a pena

Sem dúvida, o Natal já valeu a pena

Hoje, distribuímos mais de 700 presentes para crianças e pré-adolescentes na casa do Tio Lu, na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Fiquei muito feliz em fazer parte disso. Foi uma iniciativa que contou com a ajuda de muitos doadores, muita gente boa. Eu seria até injusto de citar nomes de doadores porque não tenho dúvida alguma de que alguém acabaria por ficar de fora.

Mas preciso destacar que nada disso seria possível sem a parceria de grandes amigos como Luzimar Ciríaco Andrade e João Henrique de Andrade, além da minha mãe e do Tio Lu, pessoas que fizeram parte de todo o processo iniciado em novembro. Também agradeço meus irmãos Guimarães Jvnior e Douglas Alves que ajudaram muito, assim como minha cunhada Adri e sua mãe Lina.

Como o período que antecede o Natal é marcado por muitas campanhas, fiquei preocupado com a possibilidade de não conseguirmos alcançar a meta. Mas com a ajuda de tanta gente legal, foi tolice de minha parte tal insegurança. É difícil acreditar que mais de 600 pessoas foram beneficiadas com um trabalho realizado ao longo de um mês.

Também tive o grande e inédito privilégio de ser o Papai Noel da vez. Fiquei emocionado em ver crianças felizes só pelo fato de serem lembradas. É isso. Acredito que o Natal não poderia ser melhor, pessoas se unindo para fazer algo pelos outros. Posso dizer que meu Natal foi hoje, e claro que valeu a pena.

Written by David Arioch

December 23rd, 2016 at 11:36 pm

Uma premiada Estrela da Guia

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Grupo de folia de reis mantém-se na ativa vencendo dezenas de concursos 

Comemoração é misto de religião e folclore (Foto: Aracruz)

Comemoração é misto de religião e folclore (Foto: Aracruz)

Parte de uma tradição que une religião e folclore, o grupo de folia de reis Estrela da Guia, de Paraíso do Norte, surgiu há quase 30 anos. À época, foi criado para honrar uma promessa envolvendo doença. Mas desde o princípio houve tanta dedicação que além de cumprir compromissos religiosos o grupo venceu mais de 50 concursos no Paraná.

Tudo começou na década de 1980, quando o irmão de Hilda Maria da Silva descobriu um grave problema cardíaco. “Ele foi desenganado pelo médico e começou a viver como se esperasse pela morte. Então lembrei que quando nosso pai ficou paralítico, ele fez uma promessa para os três reis magos. Deu tudo certo, e meu irmão foi curado, assim como meu pai”, conta Hilda que em seguida assumiu o compromisso de fundar o primeiro grupo de folia de reis de Paraíso do Norte.

Após a convalescença, o irmão de Hilda cumpriu a promessa de sair com a companhia de reis durante sete anos consecutivos. Gostou tanto da experiência que continuou e se tornou embaixador do grupo. “Fiquei doente pouco tempo depois. Então todos os membros do grupo se ajoelharam e assumiram um novo compromisso”, relata Maria da Silva. No dia seguinte à promessa, Hilda recebeu alta médica e passou o Natal em casa com os familiares.

Ainda com dificuldades para caminhar, a coordenadora da companhia estimulou os confrades a continuarem a tradição. Porém, antes de deixarem a casa, os membros do grupo iniciaram uma cantoria, um ato que representou o desejo de que Hilda carregasse a bandeira da companhia. “Quando a segurei, consegui andar normalmente”, garante a coordenadora que participa todos os anos de concursos de folia de reis.

Festivais

O grupo formado por 14 integrantes já conquistou mais de 50 prêmios em inúmeros municípios do Norte do Paraná. “Vencemos em Paranavaí, Maringá, Sarandi, Nova Esperança, Campo Mourão, São Tomé, Paraíso do Norte, Apucarana, entre muitas outras cidades. A gente sempre ganha algum prêmio. Significa que o nosso grupo é bem aceito”, declara Hilda. Cada concurso de folia de reis tem, em média, 30 companhias. Quando o Estrela da Guia participa de algum festival fora de Paraíso do Norte, a prefeitura se responsabiliza pelas despesas.

Três reis magos são personagens centrais dos festejos (Crédito: SECMG)

Três reis magos são personagens centrais dos festejos (Crédito: SECMG)

Qualquer pessoa pode participar do grupo que tem integrantes de 7 a 70 anos. A diversificação da faixa etária é importante para uma boa encenação que inclui saltos acrobáticos, danças, cantos e declamações. A coordenadora da companhia é a responsável pela confecção da bandeira e dos trajes de todos os membros do grupo: embaixador, contra-embaixador, bastiões e marungos (palhaços).

Doze dias de folia

O grupo de folia de reis Estrela da Guia, de Paraíso do Norte, inicia os festejos em 25 de dezembro e os encerra no dia 6 de janeiro. “Na primeira hora, eu corto um bolo, eles comem e seguem viagem”, conta a coordenadora Hilda Maria da Silva. Ao meio-dia do Natal, depois de passarem a noite em claro, cantando e batendo nas portas, os foliões param pela primeira vez. “Onde estiverem, eles deixam a bandeira e vão almoçar, retornando às 16h”, explica Hilda. Para a companhia, o mais importante não é o morador dar algo para os foliões, mas sim aceitar a bandeira dos três reis magos.

Durante a encenação que tem como trilha de fundo o som do cavaquinho, viola e caixa, o grupo Estrela da Guia já se deparou com outros grupos pelas ruas; momentos em que o duelo é inevitável. “Quando isso acontece, os palhaços se escondem. A gente canta pedindo a bandeira. Quem vencer no verso fica com ela. Enquanto isso os foliões fazem pedidos e os palhaços ficam chorando e enrolando. É uma bagunça”, frisa sorrindo Hilda Maria.

 Saiba Mais

O respeito e carinho pelo grupo Estrela da Guia é tão grande que mais de mil pessoas participam das anuais festas realizadas por Hilda Maria.

Folia de reis é um festejo folclórico de tradições cristãs que celebra o encontro dos três Reis Magos com o menino Jesus.

Os reis Baltazar, Belchior e Gaspar, guiados pela estrela de Belém, são os personagens centrais da festa trazida pelos colonos portugueses. A comemoração brasileira foi semelhante a portuguesa até o século XVII, quando o folclore de cada região do Brasil se misturou, de modo peculiar, a folia de reis.

Written by David Arioch

December 30th, 2015 at 12:03 pm

Uma pequena história de Natal

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Quanto mais eu andava pelo local, mais me sentia circulando pela loja do avô de Nell Trent

"Sem jeito, mostrei a ela um velho bauzinho acastanhado" (Foto: Arquivo Pessoal)

“Sem jeito, mostrei a ela um velho bauzinho acastanhado” (Foto: Arquivo Pessoal)

Aconteceu em Paranavaí quando eu tinha 14 anos. Caminhando pela Rua Pernambuco na véspera de Natal, a chuva caía fina sobre o movimentado centro da cidade. Eu olhava para o céu túrbido e não entendia como a água que tocava meu corpo podia ser morna enquanto a que umedecia minha cabeça impactava um curto frio intervalado e solene.

Fiquei intrigado e enxerguei um propósito. As gotas que se chocavam contra o meu couro cabeludo e minha testa, escorrendo entre meus olhos, deslizando pelo meu nariz e perfazendo os contornos de minha boca, antes de saltarem do meu queixo até o meu peito, reduziam a minha sonolência e me enviavam sinais de alerta, como se exigissem minha atenção por onde eu passasse.

Até então eu caminhava como um tipo peculiar de sonâmbulo incorrigível. Tinha dormido menos de cinco horas e sentia meus olhos cálidos, defessos e afogueados. Meu reflexo nas vitrines das lojas revelava um aspecto enleado e abstrato. Ouvia vozes agudas, suaves, graves e oscilantes por todos os lados, mas não identificava palavras. “Será que estão falando realmente português?”, ecoava a questão que despontava da minha consciência.

Misturado à gotejada de chuva, ora violenta, ora calma, que caía dos galhos das árvores que sombreavam a estreita calçada, o inopinado cheiro da terra molhada na Rua Minas Gerais me sopitava. Os piscas-piscas ligados coloriam as gotas que retomavam a natural transparência quando se soltavam de seus hospedeiros de plástico e de vidro. A verdade é que eu percebia somente o que cintilava ou amplificava meus sentidos.

Pessoas falavam comigo. Eu não sabia quem eram ou o que diziam. Confuso, eu me limitava a sorrir na medida do possível, sem mostrar demais os dentes. Me sentia muito cansado e meus olhos turvos e amiudados pouco me ajudavam a lidar adequadamente com a interação humana naquela manhã.

Depois de muito caminhar, cocei meus olhos com sofreguidão e parei diante de um espelho de uma lojinha de antiguidades. “Ah! Agora estou melhorando de verdade. Logo mais vou me sentir 100%”, concluí. Uma senhora simpática me convidou para conhecer o local. A entrada era estreita, mas o espaço interno se alongava de maneira tão convidativa e misteriosa que tive um abrupto anseio de passar horas ali.

Entre fragrâncias de cravo, baunilha, âmbar, sândalo e almíscar, distribuídas em vários pontos do antiquário, conduzindo o visitante a se sentir como parte de uma realidade dividida em fragmentos, com olências que ciceroneavam os objetos, a dona da loja perguntou se eu gostaria de ver algo em especial. Respondi que não e ela me deixou bem à vontade, explicando antes que dedicou muitos anos de sua vida comprando e reunindo objetos das décadas de 1910 a 1970.

“Sabe, meu pai faleceu há mais de 30 anos. Ele era um colecionador de coisas que as pessoas consideravam ultrapassadas ou de pouco valor. ‘Como algo que marcou um período, exigiu do ser humano dias e até meses de esforço pode algum dia ser visto como insignificante? Não há nada no mundo que mereça tal depreciação’, dizia ele”, comentou Marta, a dona do antiquário antes de se afastar para atender uma cliente que procurava um caixinha de música.

Quanto mais eu andava pelo local, mais me sentia circulando pela loja de antiguidades do avô de Nell Trent, imortalizada por Charles Dickens. Por um momento, também me recordei do filme “A Felicidade Não Se Compra”, de Frank Capra. Bom, no meu caso e naquele momento, comprava sim. Porém a realidade era uma suplantadora de desejos. Abri minha carteira ruça e surrada, contei as notas e as moedas que balouçavam dentro do meu bolso e rapidamente tive certeza de que nada ali se encaixava no meu orçamento.

A tristeza me atingiu sobremaneira. Me fez transpirar, umedecendo minhas mãos e as poucas notas de baixo valor que eu observava cabisbaixo. As moedas perderam o brilho, como se fossem impotentes, inutilizadas pela circunstância. De longe, Marta notou o momento em que eu rapidamente me encolhi para guardar o dinheiro e sair do antiquário.

Ela me interrompeu e perguntou se não apreciei nada. Titubeante, disse que gostei sim. “Ué, e por que não vai levar nada?” Hesitei por alguns segundos e me senti encurralado como um animalzinho indefeso. Notando no seu rosto uma expressão reconfortante de benevolência, acabei confidenciando que não tinha dinheiro para comprar nada em sua loja. “Como não? Quanto você tem aí?” A contragosto, minhas mãos tremiam vaporosamente quando tirei as notas e as moedas do bolso. Marta sorriu e pediu que eu mostrasse qual dos objetos mais me agradou.

Caminhei até o fundo da lojinha de antiguidades e sem jeito mostrei a ela um velho bauzinho acastanhado de madeira que custava mais do que o dobro das minhas economias. “Pra quem você vai dar? É um belo presente de Natal! Você tem bom gosto!”, avaliou Marta, me fazendo corar. Expliquei que seria para minha mãe. Então ela perguntou se havia mais alguma coisa em meu bolso. Retirei um pedaço de papel branco que trazia um pequeno poema de minha autoria chamado “Criança de Faiança”.

Marta o leu com atenção, sorriu e, para minha surpresa, declarou que a “obra” cobria o restante do valor. Antes de sair, pediu que eu autografasse o poema e a ajudasse a colocá-lo em uma moldura dourada de inspiração barroca. “Agora temos um quadro de bom valor”, enfatizou.

Nos despedimos e ela me acompanhou até a entrada da lojinha, onde a vi sorrindo graciosamente até o momento em que desapareci do seu campo de visão. Segui animado pela Rua Getúlio Vargas e voltei para casa assistindo o sol clareando a manhã nebulosa, secando o asfalto e iluminando o cenário, os veículos, as pessoas e os animais, cobertos pelo mesmo manto morno e cadenciado.

No mês seguinte, chamei minha mãe para conhecer o antiquário. Quando chegamos lá, não havia mais nada no lugar, somente uma placa de aluga-se. “Um vislumbre de rostos passageiros flagrados pela luz de uma lâmpada ou pela janela de uma loja é frequentemente melhor para os meus propósitos do que a sua total revelação à luz do dia”, escreveu Dickens em “A Loja de Antiguidades”.