David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Balsas em extinção

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A balsa já foi um importante meio de ligação entre a região Sul e o Centro-Oeste 

A balsa, solitária, ainda percorre as águas do Rio Paraná (Foto: Reprodução)

A balsa, solitária, ainda percorre as águas do Rio Paraná (Foto: Reprodução)

No extremo Noroeste do Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul, balsas que atravessam o Rio Paraná já tiveram fluxo diário de centenas de veículos. Nos últimos dez anos, isso mudou em função das pontes interestaduais. Hoje é comum ver no horizonte o solitário balseiro transportando apenas um automóvel, tendo como companhia o sol escaldante – referência do início e fim da jornada de trabalho.

Em meados de 1960, o grande número de pessoas que precisavam ir para o Mato Grosso do Sul ou vir ao Paraná estimulou a construção de dezenas de balsas. Um emblemático exemplo é a de Porto Caiuá/Felício, localizada a 33 km de Querência do Norte, inaugurada em 1963.  “Foi uma necessidade da época. O fluxo até Naviraí, no Mato Grosso do Sul, era muito grande”, conta o empresário Veigui Bérgamo.

Os ribeirinhos foram os primeiros a se engajar na atividade. Viajavam até Guaíra, no Oeste do Paraná, onde recebiam, por parte da Marinha, qualificação profissional. Todas as despesas eram custeadas pelos donos de balsas. “Sempre demos oportunidade para gente daqui, nunca alguém de fora. É desse jeito há mais de 40 anos”, destaca o empresário.

Na década de 1960, a balsa já garantia o intercâmbio entre o Sul e o Centro-Oeste (Foto: Reprodução)

Na década de 1960, a balsa já garantia o intercâmbio entre o Sul e o Centro-Oeste (Foto: Reprodução)

No princípio, investia-se muito no transporte fluvial, e tudo era proporcional aos lucros, tanto que durante décadas os donos de balsas foram responsáveis pela manutenção das principais vias de acesso aos portos. “Se a estrada estivesse ruim, a pessoa desistiria, então mantê-la em bom estado era o único meio de garantirmos a freguesia”, revela Bérgamo.

Há 10 anos, havia duas balsas em funcionamento no Porto Caiuá/Felício, tempo em que pelo menos 200 veículos por dia usavam o transporte fluvial. “Quando tinha uma no Mato Grosso do Sul, a outra estava deste lado, aqui no Paraná”, lembra Bérgamo, se referindo a um período em que os funcionários da balsa se revezavam ao longo de 24 horas. O serviço nunca parava, em respeito à demanda.

Hoje em dia, o trabalho começa às 6h e termina às 22h. “Quem chega aqui de madrugada encontra a balsa desativada”, conta o marinheiro de convés Robson Mendes Barbosa. A justificativa é que muitos motoristas preferem usar a Ponte Ayrton Senna, em Guaíra, e as cinco pontes do complexo de Porto Camargo.

Grande fluxo de veículos no final da década de 1990 (Foto: Reprodução)

Grande fluxo de veículos no final da década de 1990 (Foto: Reprodução)

“É difícil acreditar que já passou tanta gente por aqui. Como balseiro, conheci viajantes de Paranavaí, Umuarama, Maringá, Campo Mourão, Londrina, Cascavel, Curitiba, Presidente Prudente, Araçatuba, São Paulo, Campo Grande, Cuiabá e muitas outras cidades”, reitera o contra-mestre Cirço Sedano Silva.

Na atualidade, o transporte fluvial normalmente é usado apenas por pessoas da região noroeste. Entretanto, o contra-mestre percebe uma pequena mudança durante os feriados. “No mais, é normal atravessar apenas um veículo. Ainda estamos aqui por causa da fé. Restam poucas balsas na ativa. Acho que é o fim da profissão”, avalia.

Entre os poucos que ainda preferem a balsa, a justificativa é uma só – a praticidade do serviço. De acordo com Veigui Bérgamo, há proprietários de terras na região que se não fosse pelo transporte fluvial teriam de dirigir por mais de 200 quilômetros. “Com a balsa, percorremos 2,5 quilômetros em 15 minutos e o problema está resolvido”, finaliza.

Empresário ainda tem esperanças

As despesas com o transporte fluvial, que não são poucas, segundo o empresário Veigui Bérgamo, deveriam ser subsidiadas com a rentabilidade obtida nas travessias da balsa. “Na prática, isso não acontece. Se não fosse pelas minhas outras atividades econômicas, teria parado faz tempo. Gastamos aproximadamente dois mil litros de óleo diesel por mês. Além disso, temos despesas com funcionários e manutenção”, destaca.

Entretanto, Bérgamo diz ter esperança de que no futuro a situação melhore e o transporte fluvial não precise ser desativado. Faz um apelo para que o governo do Paraná contribua, se responsabilizando pela manutenção de uma rodovia. “A Jorge Baggio é a única estrada paranaense que liga Querência do Norte ao porto. Se for bem cuidada, acredito que poderemos atrair mais viajantes”, pondera.

Origem ribeirinha é trunfo na profissão de balseiro

Na infância, Cirço Sedano Silva brincava sobre um bote, fazendo de conta que era piloto de balsa. A criatividade era estimulada pelas experiências relatadas por três tios balseiros. Aos 19 anos, conseguiu o primeiro emprego com transporte fluvial, um cargo de cobrador na balsa do Porto Caiuá/Felício.

“A gente se divertia muito. Havia pelo menos quinze pessoas trabalhando em cada balsa”, relembra o contra-mestre sorrindo. Com o passar do tempo, o número de empregados caiu para 12 e depois para nove. “Hoje, são cinco, mas nos dividimos em três turnos. Agora é normal trabalhar sozinho”, afirma.

O fato de Cirço ser um ribeirinho é um trunfo na profissão de contra-mestre. Ninguém conhece melhor o Rio Paraná do que alguém criado diante de sua imensidão. “Sei onde estão todos os bancos de areia. Sendo assim, tenho o compromisso de desviar deles. Já o marinheiro de convés tem que ficar esperto e controlar o peso da balsa, distribuindo bem os veículos”, revela. Sedano sente falta de quanto trabalhava à noite. Antes de completar a travessia, via do outro lado um sem número de faróis piscando – um sinal de que o aguardavam.

Saiba Mais

Em caso de acidente, o contra-mestre entra em contato com o rebocador que chega ao local em 15 minutos.

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O dia em que a água acabou

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Em 1957, Joaquim Pereira Briso abasteceu Terra Rica com água de um poço particular

Moradores exibem como troféu a água trazida do centro de Terra Rica (Crédito: Reprodução)

Moradores exibem como troféu a água trazida do centro de Terra Rica (Foto: Reprodução)

Em 1956, durante a colonização, a população de Terra Rica, no Noroeste do Paraná, enfrentou muitas dificuldades envolvendo saneamento básico. Mas o diferencial veio no ano seguinte, quando uma eventualidade fez um serrador se tornar o principal fornecedor de água da cidade.

De acordo com o pioneiro Antônio Carlos Lage, ex-vice-prefeito e ex vereador, a população de Terra Rica enfrentou problemas com o abastecimento de água de janeiro de 1957 a 1970. À época, o município ainda não tinha sistema de saneamento. “A gente tinha que buscar água em um caminhão pipa que ficava parado no centro”, conta Lage.

Segundo o pesquisador Edson Paulo Calírio, a situação era tão complicada que muitos moradores perdiam horas do dia carregando grandes baldes até a região central, onde os enchiam com água e, mesmo muito pesados, percorriam quilômetros até chegar em casa. Naquele tempo, o déficit era tão grande que as famílias se reuniam para decidir se a água seria usada para lavar roupa ou louça.

Centro da cidade na época da chegada de Joaquim Briso (Crédito: Reprodução)

Centro da cidade na época da chegada de Joaquim Briso (Foto: Reprodução)

Tudo ficou mais difícil em 1957, quando, certo dia, os moradores foram até o centro da cidade e não encontraram água. O problema se tornou calamidade ao saberem que, por uma eventualidade, ficariam sem o caminhão pipa por tempo indeterminado. O veículo era o único meio para transportar a água do rio até o cidade. “Terra Rica foi fundada por pessoas pobres e humildes. Então naquele tempo era difícil encontrar alguém com condições financeiras para fazer um poço”, relata o pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso.

Naquele ano, Briso era o único morador de Terra Rica que tinha um poço. Segundo ele, não como um artifício de luxo, mas de necessidade, pois constantemente precisava de água no trabalho. “Eu tinha uma serraria, e o poço foi feito ali mesmo pra abastecer a minha máquina a vapor. Mas quando soube do problema, resolvi ajudar. No mesmo dia, o pessoal foi lá buscar água. Alguns iam a pé, outros iam de carroça”, lembra Joaquim Briso emocionado.

O pioneiro passou dias sem dormir ajudando a população a tirar água do poço que tinha pouco mais de 50 metros de profundidade. Segundo Antônio Lage, era uma época de muita solidariedade. “As pessoas naturalmente tinham muito calor humano para dar”, salienta o ex-vice-prefeito em tom calmo e reflexivo.

No início da década de 1960, as primeiras torneiras foram instaladas no centro de Terra Rica. Porém, Edson Calírio reitera que a água ainda era limitada. “Agora a gente vê a recompensa. Não dependemos diretamente do governo estadual. Temos uma autarquia municipal que oferece água e rede de esgoto para toda a população. Além disso, a nossa água atualmente é a mais barata do Paraná”, assegura o pesquisador.

“Viajava porque era obrigado”

O pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso chegou a Terra Rica em 1956, já com a intenção de construir uma serraria. “Dava para contar nos dedos das mãos quantas casas tinha aqui”, afirma Briso que descobriu a cidade por acaso.

Durante uma viagem, deixando a cidade natal de Paraguaçu Paulista, em São Paulo, Joaquim Briso atravessou a fronteira com o Paraná e chegou ao Porto São José. Viajou motivado pela curiosidade. “Tinha só um boteco montado aqui. O resto, era só mata, daqui até Nova Londrina”, explica.

Surpreso pela quantidade exorbitante de terras devolutas, o pioneiro não pensou duas vezes e decidiu começar uma nova vida no Paraná.  Retornou a Paraguaçu Paulista para avisar os familiares e se mudou para Terra Rica.

A motivação foi determinante para aguentar uma nova viagem de 14 horas dentro de um jipe. “Não existia nem estrada, só carreador. Então viajar naquele tempo era visto como coisa de aventureiro”, conta o pioneiro. Joaquim Luiz tinha pouco ou nenhum prazer durante as viagens, já que toda vez corria o risco do veículo atolar. Segundo o pioneiro, era muito comum encontrar caminhões e carros abandonados pelo caminho.

“Viajava porque era obrigado. Tinha negócios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Então pegar a estrada era uma luta. Saía daqui hoje para chegar a uma cidade próxima amanhã. Quando viajava, demorava uns dias pra voltar, cansava demais”, revela.

À época, os moradores de Terra Rica mantinham mais contato com Estados da região Sudeste do que do Sul. “Nossa ligação era com o Estado de São Paulo”, complementa Briso em referência aos primeiros pioneiros que eram paulistas.

Viagem a Paranavaí durava cinco horas

Até o final da década de 1950, uma viagem de Terra Rica a Paranavaí durava em média cinco horas. O pioneiro Antônio Carlos Lage é testemunha disso. Ele e o também pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso tinham negócios com o Banco Comercial, então quando precisavam vir a Paranavaí, iam até um boteco em frente a Estação Rodoviária de Terra Rica e convidavam mais pessoas para viajarem de graça.

Antônio Lage buscava pessoas em frente a Estação Rodoviária (Crédito: Reprodução)

Antônio Lage buscava pessoas em frente a Estação Rodoviária (Foto: Reprodução)

Mas a cortesia de vez em quando tinha um preço. Quando o jipe atolava, todo mundo tinha de descer e ajudar. “Eram 60 quilômetros. Hoje, um trajeto curtíssimo. Naquele tempo, por causa da precariedade da estrada, parecia que estávamos no fim do mundo”, avalia Lage que, acompanhando Joaquim Briso, chegou a Terra Rica em 1956.

Briso se recorda com clareza de outra desventura muito comum na década de 1950: o atraso na entrega de correspondências. Certa vez, a mãe de Joaquim Briso adoeceu e, como não havia serviço telefônico na região, a mulher do então serrador enviou um telegrama para informá-lo do acontecido.

A correspondência despachada de Paraguaçu Paulista, São Paulo, chegou em Terra Rica depois de 20 dias. “Fiquei aqui seis dias e depois decidi viajar para a minha terra. Quando cheguei lá, vi minha mãe doente. Fiquei uns dias lá e retornei. Passaram-se mais uns dias antes do telegrama chegar”, assinala Joaquim Luiz.

Frases de destaque – Antônio Carlos Lage

“Tudo faz parte do começo de uma cidade, mas ela não se faz logo com tudo, surge aos poucos.”

“Terra Rica é uma cidade onde um dava a mão ao outro, até por questão de necessidade.”

Saiba mais

Em 1965, Terra Rica chegou ao ápice da produção cafeeira: 400 mil sacas de café beneficiado.

A colonização de Terra Rica foi feita por pioneiros paulistas que vieram ao Paraná com a intenção de produzir café.

As derrubadas de mata começaram em 1949 e se intensificaram de 1950 a 1952.

A colonização de Terra Rica foi feita pela Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná (Sinop).

Três Morrinhos: dos índios aos esportistas

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Morro Três Irmãos foi cenário de importantes acontecimentos envolvendo a civilização indígena   

 Via lateral do Morro Três Irmãos nos anos 1950 (Acervo: Ordem do Carmo)

Via lateral do Morro Três Irmãos nos anos 1950 (Acervo: Ordem do Carmo)

Com uma geomorfologia que ultrapassa milhares de anos, o Morro Três Irmãos, em Terra Rica, é o ponto mais alto do extremo Norte do Paraná. Além do atrativo turístico, surpreende também pelos fatos, mitos e lendas relatados por quem, de forma abnegada, se dedica a perpetuar a história da própria terra.

Na microrregião de Paranavaí, é raro encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar do Morro Três Irmãos, mais conhecido como “Três Morrinhos”. Com 190 metros de altura, o pico desponta como o ponto turístico mais importante de Terra Rica. Nem poderia ser diferente, já que desde 1985 sedia campeonatos de voo livre com participantes do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Argentina, Paraguai e Bolívia.

O fato do morro existir em uma região totalmente plana desperta curiosidade em quem o visita pela primeira vez. “É um extra na paisagem. Desde criança isso já me chamava a atenção”, afirma o pesquisador Edson Paulo Calírio que na infância passava horas observando no horizonte, a uma altitude de 640 metros, a imponência hipnotizante da natureza.

Misterioso relevo em uma região de planícies (Foto: Cláudia Lanziani)

Misterioso relevo em uma região de planícies (Foto: Cláudia Lanziani)

Motivado em conhecer mais sobre a história de Terra Rica e das belezas naturais que a circundam, Calírio pesquisou sobre o assunto. Entre as surpresas, a descoberta de que o “Morro Três Irmãos”, antes de ser patrimônio do Paraná e até mesmo do Brasil, pertenceu ao Paraguai. Fazia parte de um dos mais valorizados pontos turísticos do Estado de Guairá.

À época, a região era habitada por índios guaranis catequizados pelos espanhóis. Segundo Calírio, a situação ficou tensa quando os portugueses chegaram ao local. Houve um grande confronto e, vitoriosos, os lusos expulsaram os espanhóis.

A justificativa para milhares de índios vivendo em torno dos Três Morrinhos era o fácil acesso aos recursos necessários à subsistência, além da privilegiada perspectiva do Pontal do Paranapanema. “Aqui servia como um ponto de referência para eles. O município de Terra Rica é rico em rios, então podemos perceber que eles quiseram desfrutar deste privilégio”, enfatiza o pesquisador apontando, de cima do primeiro morro, as correntes fluviais mais próximas.

Formação rochosa existe há milhares de anos (Foto: Prefeitura de Terra Rica)

Formação rochosa existe há milhares de anos (Foto: Prefeitura de Terra Rica)

Há algumas décadas, apesar da falta de bibliografia, e partindo de uma experiência empírica ou relativamente in loco, moradores de Terra Rica tiveram os primeiros contatos com materiais que confirmam a presença espanhola e indígena na área.

O pai de Edson Calírio, por exemplo, encontrou, às margens do Rio Paranapanema, uma espada que há centenas de anos pertenceu a um espanhol. A confirmação veio após o instrumento ser enviado para análise em São Paulo. “Ele não sabia do que se tratava na época. Pensou que fosse um facão ou algo do tipo. Curioso, decidi buscar mais informações”, explica o pesquisador.

Estrutura rochosa impede definhamento

Sobre o passado, uma prova que ratifica a existência de índios no Morro Três Irmãos, em Terra Rica, é uma machadinha encontrada pelo pesquisador Edson Paulo Calírio. A arma, feita a partir de uma rocha, é relativamente arredondada e possui um corte lateral. “É bem provável que tenha sido utilizada em batalhas. Aqui mesmo do alto deste morro”, avalia o pesquisador.

Caverna do Sol Nascente: contraste de lenda e realidade (Foto: Prefeitura de Terra Rica)

Caverna do Sol Nascente: contraste de lenda e realidade (Foto: Prefeitura de Terra Rica)

Naquele tempo, era uma prática indígena comum a de conceber armas a partir de rochas. A justificativa são os três morros que existem justamente em função desse mineral tão abundante. “Aqui temos apenas rocha matriz do arenito Caiuá, e todas têm aproximadamente cinco mil anos. É muito resistente. Você percebe que o relevo se desgastou, mas não os Três Morrinhos que são formados por esse material rochoso”, argumenta.

História X Lenda

Com o passar dos anos, moradores locais se interessaram em conhecer de perto os Três Morrinhos. A vontade foi impulsionada por uma vigorosa resistência física, já que era necessário pensar nas adversidades envolvendo a fauna e a flora local. “Antigamente tinha que subir isso aqui passando pela mata. O povo sofria muito porque não havia nenhum caminho delimitado”, conta o pesquisador Edson Paulo Calírio.

Com a oportunidade de conhecer o Morro Três Irmãos, vieram histórias que contrastam com lendas. De acordo com o pesquisador, houve uma época, há 50 anos, em que muitos capangas eram designados por grileiros a roubarem terras nas imediações. “Temos uma senhora de Terra Rica que quando era criança o tio dela lhe contou que matou um homem e colocou o corpo dele dentro de uma caverna no terceiro morro”, afirma Calírio.

Morro Três Irmãos está entre os melhores do Brasil para praticantes de voo livre (Foto: Carlos Sica)

Morro Três Irmãos está entre os melhores do Brasil para praticantes de voo livre (Foto: Carlos Sica)

Um dos melhores pontos do Paraná

 No início da década de 1980, a construção de um pequeno caminho cimentado, dando acesso aos Três Morrinhos, foi determinante para atrair centenas de praticantes de voo livre. Por se situar em uma região, a probabilidade de riscos durante o salto é menor.

Em 1985, quando o primeiro campeonato de voo livre foi realizado em Terra Rica, pouco tempo depois a cidade se tornou parada obrigatória para os amantes do esporte radical. Foram sete anos consecutivos como sede do Campeonato Brasileiro e Paranaense.

Todos esses eventos, aliados à condição topográfica, tiveram grande  importância para que o Morro Três Irmãos, de acordo com especialistas em voo livre, fosse visto como um dos melhores lugares do Paraná para a prática do esporte. “Terra Rica é a capital paranaense do voo livre”, diz orgulhoso o pesquisador Edson Paulo Calírio.

Outro motivo de orgulho para os 15 mil habitantes de Terra Rica é o fato de nunca ter acontecido nenhuma fatalidade durante um campeonato ou curso de voo livre. “Tivemos alguns acidentes, mas poucos de alta gravidade. Quem vem pra cá é profissional. Além disso, temos instrutores muito bem preparados”, assegura Calírio.

Carnavais do passado deixaram saudade

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Época de carnaval é marcada pela lembrança dos grupos que fazem parte da história de Paranavaí

Dorival Torrente e a sua famosa boneca: diversão garantida (Acervo: Sesc)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, os carnavais da década de 1970 e 1980, marcados pelos grupos Escola do Biga, Clube da Binidita e Bloco dos Sujos, se caracterizaram como ícones da liberdade. A magia emblemática que deu origem aos ritos carnavalescos se desvaneceu no final dos anos 1990, mas ainda subsiste no ideário de quem viveu esse período. Hoje, prevalece um saudosismo rememorado nos balcões de bares.

Célebre, o ex-jogador e ex-técnico do Atlético Clube Paranavaí (ACP), o falecido Chico Venâncio, conhecido como Biga, é o responsável pelo surgimento do carnaval de rua local. “Em 1975, ele trouxe para a nossa cidade uma realidade conhecida apenas por quem passou pelos grandes centros”, conta o comerciante e ex-integrante do extinto Clube da Binidita, Luís Carlos do Amaral, em referência ao surgimento da Escola do Biga.

Segundo o técnico em atividades do Serviço Social do Comércio (Sesc) e ex-coordenador do extinto Bloco dos Sujos, Dorival Torrente, Biga corria atrás de tudo sozinho, representando magistralmente o ideal de uma época. “Naqueles anos, o pessoal não simplesmente curtia o carnaval, mas vivia. Passavam 12 meses pensando nisso”, comenta Amaral, exemplo pródigo da realidade.

O comerciante foi um membro importante do Clube da Binidita, o segundo grupo carnavalesco da cidade, fundado em 1977, com origem no salão. Somente após dez anos de festividades no Clube Campestre e nas ruas é que houve uma queda no número de participantes da “Binidita”. “Nos primeiros anos, quase todo mundo era solteiro ou só namorava, então a presença era garantida. Já em 1987, muitos estavam casados e se tornaram pais de família”, lembra Luís Carlos.

O terceiro grupo a entrar para a história do carnaval de Paranavaí foi o irreverente Bloco dos Sujos, criado em 1981. Com cunho social e político, os participantes aproveitavam o período de folia para expressar as insatisfações da época. “Era tudo muito divertido. Tinha homem travestido de mulher e vice-versa. Não esqueço até hoje que fizeram um camelo em tamanho original e uma pessoa representando o Saddam Hussein, além de outros personagens políticos”, destaca Dorival Torrente.

Personagens irreverentes do extinto Bloco dos Sujos (Foto: Sesc)

Personagens irreverentes do extinto Bloco dos Sujos (Acervo: Sesc)

O Bloco dos Sujos foi o último dos três a chegar ao fim, encerrando atividades em 1999, quando o Carnaval de rua local perdeu sua importância junto à população.  “Desapareceu a magia de antigamente, pelo menos no interior do Paraná. Vai ser sempre uma época que deixa saudades porque as coisas não voltam”, desabafa Luís Carlos do Amaral.

Torrente concorda e atribui a desvalorização do carnaval a um processo de desvirtuação e individualismo gerado pela tecnologia. “A juventude não valoriza mais o congraçamento social. As pessoas preferem o isolamento diante da TV, aparelhos de DVD e computadores”, lamenta.

Hoje em dia, Torrente, Amaral e outros ex-integrantes dos três grupos ainda relembram o passado quando se reúnem diante de um balcão. “O bar é o local ideal para parir novas ideias e relembrar carnavais de antigamente”, avalia Dorival Torrente.

Auge do carnaval de rua foi na década de 1980

Na década de 1960, os clubes de Paranavaí estavam sempre lotados de foliões no mês de fevereiro. Os maiores exemplos eram o Paranavaí Tênis Clube, Harmonia Country Cub, Clube Campestre e Salão Paroquial da Igreja São Sebastião. “Nessa época, o pau comia”, diz, às gargalhadas, o técnico em atividades do Serviço Social do Comércio (Sesc) e ex-coordenador do extinto Bloco dos Sujos, Dorival Torrente.

O carnaval de rua local teve seu auge na década de 1980, quando a folia era baseada em canções como “Mamãe eu quero”, “Você pensa que cachaça é água?”, “Meu coração é corinthiano” e “Atirei o pau no gato”. As marchinhas compostas na década de 1950 eram determinantes e ditavam o carnaval paranavaiense. “Me recordo das canções do Moacyr Franco e do Sílvio Santos. Eram como símbolos. Bem diferente disso que tocam hoje em dia”, frisa Torrente. A opinião é partilhada pelo comerciante e ex-integrante do extinto Clube da Binidita, Luís Carlos do Amaral que considera inadequado celebrar o carnaval com outros gêneros musicais.

Até 1999, o tradicional carnaval de rua de Paranavaí tinha como ponto de partida a Avenida Distrito Federal, em frente ao Posto São José. “A gente descia até onde está localizado o atual Bar Toyokawa. O movimento nas ruas era imenso, havia muita gente”, explica Torrente. O evento começava às 20h30 e terminava por volta das 23h. Amaral revela que no Clube Campestre reuniam até 20 blocos carnavalescos.

 Clube da Binidita teve quase 300 integrantes

Clube da Binidita colecionava prêmios no carnaval do Campestre (Acervo: Sesc)

Clube da Binidita colecionava prêmios no carnaval do Campestre (Acervo: Sesc)

De acordo com o comerciante Luís Carlos do Amaral, o Clube da Binidita chegou a ter aproximadamente 300 integrantes quando se tornou uma escola de samba. “Esse foi o número de componentes por volta de 1986, quando tínhamos até samba-enredo e resolvemos homenagear o radialista José de Matos, falecido em um acidente automobilístico”, conta.

À época, a conquista de recursos era feita junto ao comércio local que contribuía e muito com o Clube da Binidita. “Foi mais difícil quando resolvemos levar o carnaval do salão para as ruas. Tivemos de montar uma estrutura com instrumentos e roupas”, relata Amaral, mas admite que o esforço valeu a pena.

Com base nas escolas dos grandes centros, o Clube da Binidita tinha samba-enredo, puxador de samba (o próprio Amaral), abre-alas, 60 componentes na bateria, ala das baianas, das crianças e da velha guarda. “Seguimos os moldes do que vimos em São Paulo e Rio de Janeiro. Queríamos fazer bonito perto da Escola do Biga”, revela Luís Carlos, referindo-se ao primeiro grupo carnavalesco da cidade.

O técnico em atividades do Serviço Social do Comércio (Sesc) e ex-coordenador do extinto Bloco dos Sujos, Dorival Torrente, admite ter sido um fã incondicional do Clube da Binidita e afirma que a maior qualidade dos integrantes era o respeito mútuo. “Sempre chegavam a um denominador comum quando queriam decidir algo. Nunca havia briga. Era tudo extremamente organizado”, comenta.

Quando o Clube da Binidita chegou ao fim, Amaral e outros ex-integrantes resolveram fundar a Ala do Cachorro Louco. “Apenas os mais jovens da época participaram. Ficamos alguns anos, só que não era a mesma coisa. O pessoal mais antigo já tinha se desligado do carnaval”, garante o comerciante.

Saiba mais

Origem do Clube da Binidita – Em 1977, Jacaré e Mineiro estavam em um bar próximo à Praça da Xícara. Era sábado, e a pinga com limão era sagrada para os dois no final de semana. Então pediram a birita e em seguida verteram um pouquinho no chão. Quando questionados sobre o ato, disseram que era para São Benedito. Então alguém perguntou: “Por que não Binidita?” Em seguida, batizaram como Clube da Binidita o bloco formado principalmente por apreciadores da cachacinha.

Se estivesse na ativa, o Clube da Binidita completaria 32 anos.

Durante o carnaval de rua da década de 1980, comerciantes aproveitavam a oportunidade parar criar “camarotes” improvisados, com o objetivo de agregar mais renda. Normalmente reservavam espaços privilegiados.

No final da década de 1980, a bateria da Binidita fez uma parceria com o Bloco dos Sujos, dando sustentação musical para o desfile. Mas no final da década de 1990 alguns participantes do Bloco dos Sujos fizeram brincadeiras pejorativas, surgindo embate com a proposta inicial do grupo. Assim a coordenadoria do bloco optou por encerrar as atividades.

O Bloco dos Sujos era conhecido como uma fusão de Clube da Binidita com Escola do Biga. Na década de 1980, os três grupos atraíam pelo menos 12 mil pessoas para as ruas de Paranavaí, uma quantidade superior ao público que prestigiava o desfile de 7 de setembro.

Emblemáticos no carnaval de rua do Bloco dos Sujos eram o bumba-meu-boi e a boneca nega maluca de Dorival Torrente.

Em uma edição do Carnaval de Rua, Lourival Félix Carneiro, que posteriormente se tornaria prefeito de São João do Caiuá, provocou comoção popular ao participar do Bloco dos Sujos com um pênis de três metros usando uma camisinha. A proposta era educativa e alertava para os riscos do HIV.

O ritual do Clube da Binidita antes de se apresentar em público era se concentrar na residência de alguém para tomar caipirinha.

O Clube da Binidita ganhava todos os anos o prêmio disputado por todos os blocos que participavam do carnaval no Clube Campestre.

O folião Luís Carlos do Amaral não costumava entrar em férias. Aproveitava para folgar alguns dias no período do carnaval.

 

 

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Written by David Arioch

February 18th, 2009 at 3:08 pm