David Arioch – Jornalismo Cultural

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Tyke, uma elefanta africana explorada pela indústria do entretenimento

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O documentário está disponível na Netflix.

Assisti ao documentário “Tyke Elephant Outlaw”, de Susan Lambert e Stefan Moore, que conta a história da elefanta africana Tyke que foi tirada de seu habitat e obrigada a trabalhar em um circo. O documentário lançado em 2015 discute a ignorância, os abusos e os riscos de se levar um animal selvagem para viver uma vida que não condiz com a sua natureza.

Em 1994, Tyke se revoltou com o seu treinador e o matou pisoteado durante um espetáculo. Depois fugiu pelas ruas de Honolulu, no Havaí. Como se a culpa fosse dela por essa consequência desastrosa, a mataram no centro da cidade com 87 tiros. Quando se aproximaram dela, antes do suspiro final, ainda havia lágrimas em seus olhos. Até o final da semana vou escrever algo maior sobre a vida dela.

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Written by David Arioch

August 11th, 2017 at 2:46 pm

Saramago: “Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo”

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“Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo”

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Saramago: “Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação” (Foto: Fundação José Saramago)

“Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás das grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a natureza”, escreveu o controverso escritor português José Saramago em seu blog no dia 20 de fevereiro de 2009.

Um dos maiores autores de língua portuguesa contemporânea, Saramago é mais conhecido por obras como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de 1991, e “Ensaio Sobre a Cegueira”, de 1995, embora para conhecê-lo melhor seja importante ler “As Intermitências da Morte”, “História do Cerco de Lisboa”, “Memorial do Convento” e “Levantado do Chão”, livros lançados entre os anos de 1980 e 2005.

A dúvida, o sobrenatural, a viagem interiorizada e exteriorizada e o experimentalismo linguístico são características que reforçam a identidade de Saramago como autor preocupado tanto com o conteúdo quanto com a forma. No entanto, o que mais me chamou a atenção nos seus últimos anos de vida foi a sua frequente preocupação em abordar de forma implícita e explícita os direitos dos animais.

José Saramago, o escritor que brincava com a pontuação e pouco se abstinha em suas críticas, registrou em “Suzi”, publicado em 2009 no livro “O Caderno”, que os circos conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis:

“Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até a agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana.”

Segundo o escritor português, por muito tempo, e pela desinformação, as pessoas tiveram motivos para crer que as visitas ao zoológico poderiam ser instrutivas, mas não mais, já que há tanta informação disponível através de documentários que revelam a realidade sobre o sofrimento animal. “Se é educação que se pretende, ela está aí à espera”, sugeriu.

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“Para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?)” (Foto: Reprodução)

Saramago jamais esqueceu de uma elefanta solitária que vivia em um zoológico de Barcelona. Acometida por infecções intestinais, ela sofria pela perda de uma companheira com quem dividia um espaço reduzido, insuficiente para movimentarem-se adequadamente. “O chão que ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis partes destes animais que talvez ainda tenham na memória a macieza do solo das savanas africanas. Cuidar de Suzi, dar lhe um fim de vida mais digno. A quem devo apelar? À direção do zoológico? À Câmara? À Generalitat?”, desabafou o escritor.

Em “Penas Chinesas”, que integra o livro “O Caderno”, Saramago confidencia sua surpresa e choque ao saber como os animais são tratados pela indústria alimentícia. “Um dia vi num documentário como alimentam os frangos, como os matam e destroçam, e pouco me faltou para vomitar”, registrou.

Também se sentiu muito mal ao ler um artigo a respeito da utilidade dos coelhos nas fábricas de cosméticos. Soube que as provas sobre a irritação causadas pelos ingredientes dos xampus são feitas por aplicação direta nos olhos dos animais. ”Agora, uma curta notícia aparecida nos jornais, informa-me de que, na China, as penas de aves destinadas a recheio de almofadas de dormir são arrancadas assim mesmo, ao vivo, depois limpas, desinfetadas e exportadas para delícia das sociedades civilizadas que sabem o que é bom e está na moda”, lamentou.

Vencedor do Prêmio Camões em 1995 e do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, o primeiro concedido a um autor de língua portuguesa, José Saramago publicou em 2008 o livro “A Viagem do Elefante”, qualificado como romance, mas considerado conto pelo autor. A obra é inspirada no episódio em que o rei de Portugal e Algarves, Dom João III, resolveu presentear com um elefante o arquiduque austríaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos Quinto.

Com uma estilística inovadora e linear, Saramago apresenta a história de solimão (com s minúsculo mesmo), um elefante que se torna alvo da corrupção, individualismo, egocentrismo e outras falhas que permeiam a natureza humana. E essas deficiências mostram como o animal é vitimado pela superioridade que os personagens da história julgam possuir sobre o elefante de quatro toneladas.

“Que leves o elefante à porta da basílica e o faças ajoelhar-se ali, Não sei se serei capaz, Tenta-o, Imagine vossa paternidade que eu levo lá o elefante e ele se recusa a ajoelhar-se, embora eu não entenda muito destes assuntos, suponho que pior que não haver milagre é encontrar-se com o milagre falhado, Nunca terá sido falhado se dele ficarem testemunhas”, sugere o padre em diálogo com o tratador na página 79 de “A Viagem do Elefante”.

O sacerdote propõe usarem o animal para forjar um milagre e angariar recursos para o caixa da igreja. E a suposta graça é apenas a primeira etapa de um plano para fazer do elefante o mais valioso dos bens em mãos humanas. “Não é todos os dias que um elefante se ajoelha à porta de uma basílica, dando assim testemunho de que a mensagem evangélica se dirige a todo o reino animal e que o lamentável afogamento daquelas centenas de porcos no mar da galileia foi apenas resultado da falta de experiência, quando ainda não estavam bem lubrificadas as rodas dentadas dos mecanismos de milagres”, ironiza Saramago.

Logo são formados acampamentos em torno do elefante e a exploração do animal ganha outros rumos a partir do momento que seu pelo é extraído para ser vendido aos crédulos. “Amanhã se dirá que uma infusão de pelo de elefante, três vezes ao dia, é o mais soberano dos remédios. Fritz não tem mãos a medir, no bolsinho que traz atado ao cinto as moedinhas já pesam, se o acampamento permanecesse aqui uma semana acabaria rico”, satiriza.

Solimão, tornado salomão, e que chegou a salvar uma criança quando chegou ao seu destino, faleceu no inverno de 1553, depois de amargar uma vida de servidão humana. “Além de o terem esfolado, a salomão cortaram-lhe as patas dianteiras para que, após as necessárias operações de limpeza e curtimento, servissem de recipientes, à entrada do palácio, para depositar as bengalas, os bastões, os guarda-chuvas e as sombrinhas de verão. Como se vê, a salomão não lhe serviu de nada ter-se ajoelhado”, concluí José Saramago. Assim é justo dizer que além de ser uma metáfora da vida humana, “A Viagem do Elefante” é um retrato da abusiva relação dos seres humanos com os animais e também da obtusa forma como o homem enxerga o seu papel no mundo.

Saiba Mais

Nascido em 16 de novembro de 1922 em Azinhaga, Portugal, José Saramago faleceu em 18 de junho de 2010, em Tías, Espanha.

O livro “O Caderno” reúne textos escritos por Saramago entre setembro de 2008 e março de 2009.

Referências

Saramago, José. O Caderno. Companhia das Letras (2009).

Saramago, José. A Viagem do Elefante. Companhia das Letras (2008).

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Uma terapia em forma de alegria

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Grupo Pausa para o Riso leva diversão e esperança para crianças da Santa Casa de Paranavaí

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As visitas dos doutores palhaços duram em média duas horas (Foto: Divulgação)

Fundado em 2014, o grupo Pausa para o Riso nasceu de uma iniciativa de três atores de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que são apaixonados por circo e teatro. Em 2005, eles criaram um grupo de doutores palhaços chamado Amigos do Riso. Com o passar dos anos e algumas mudanças, hoje a trupe de oito voluntários se reveza nas visitas à Santa Casa de Paranavaí, onde leva alegria, diversão e esperança às crianças internadas na ala pediátrica.

“Também visitamos os adultos quando temos tempo”, explica a fundadora Karina Lima que prevê em breve a inclusão de asilos e abrigos na agenda do grupo. Além das visitas semanais com duração média de duas horas, os integrantes do Pausa para o Riso se reúnem uma vez por mês para compartilharem experiências. “Nosso grupo trabalha de forma espontânea. Quando vemos que alguém se enquadra no perfil do grupo, fazemos um convite para ingressar na trupe”, conta.

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“Também somos um abraço, um sorriso, um detalhe que faz a diferença na vida de quem passa por nós” (Foto: Divulgação)

O convidado ou a convidada responde a um questionário e participa de uma simulação, começando a se familiarizar com o trabalho dos doutores palhaços. “Fazemos com que tentem imaginar como será quando estiverem no ambiente hospitalar”, argumenta Karina. Em média, o Pausa para o Riso atende pelo menos 200 pessoas por mês. Além dos internos, eles interagem com acompanhantes e funcionários da Santa Casa de Paranavaí.

“Logo no início percebemos que o ambiente hospitalar é o local ideal para levarmos a alegria proporcionada pelo circo”, comenta Karina Lima, acrescentando que muitas pessoas já passaram pelo grupo, mas as mudanças são naturais quando alguém decide trilhar um novo caminho. Como o Pausa para o Riso é 100% voluntário e não tem fins lucrativos, a maior recompensa dos integrantes é o sorriso das crianças, o agradecimento das mães e as amizades que surgem com as visitas.

“Muitas mães aproveitam as nossas brincadeiras com seus filhos para se ausentarem por alguns minutos, respirar um ar que não seja o do hospital e restabelecer a energia. Lá somos palhaços, amigos, companheiros, confidentes. Também somos um abraço, um sorriso, um detalhe que faz a diferença na vida de quem passa por nós”, declara Karina. Quem quiser contribuir com o Pausa para o Riso, realizando algum tipo de doação, pode ligar para (44) 9927-4486.

Formação

Doutora Naninha – Karina Lima, Doutor Tramela – Cristiano Oliveira, Doutor Clavinho – Bruno Alécio, Doutora Soninho – Tais Fernanda, Doutor Goiabinha – Paulo Queiroz, Doutora Leãozinho – Kátia Batista, Doutora Frida Não Kalo – Gislaine Pinheiro.

O Circo dos Irmãos Cervantes

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De sua boca, saíram fumaças coloridas que serpenteavam e se fundiam, ganhando formas

Local onde o Circo dos Irmãos Cervantes foi montado em 1993 (Foto: David Arioch)

Local onde o Circo dos Irmãos Cervantes foi montado em 1993 (Foto: David Arioch)

Na minha infância, quando o circo chegou a Paranavaí, pedi à minha mãe que me levasse para assistir um espetáculo. Tradicionalmente, o picadeiro foi instalado ao lado da delegacia, na Avenida Heitor Alencar Furtado. Pelas ruas do centro da cidade, eu ouvia carros de som circulando e anunciando atrações quiméricas que na minha imaginação pareciam saídas de alguma série como Amazing Stories ou filme como Freaks. “Alô, alô, criançada, o circo chegou!”, repetia o refrão glutinoso que me lembrava a musiquinha de abertura do programa do Bozo.

Traziam adesivos enormes de personagens histriônicos na lataria. Às vezes, alguns artistas atravessavam a região central e alguns bairros na carroceria de uma caminhonete. Acenavam para as crianças, arremessavam balas, pirulitos e os convidavam para a estreia. Muitos pais se animavam com a ideia dos filhos conhecerem o circo, já outros assumiam um aspecto sorumbático e arreliado que não escondia o fato de que o circo tinha chegado na pior hora, quando lhes faltava dinheiro para gastar com qualquer tipo de diversão. “Porcaria de circo! Melhor seria se não viessem a Paranavaí. Tenho raiva e nojo dessa gente que vem pra cá com esses showzinhos ridículos só pra buscar nosso dinheiro. Lazarentos mercenários!”, esbravejou um senhor dentro de uma F-1000 na primavera de 1993 ao ver o carro de som passar em frente à Escola São Vicente de Paulo, onde ele buscava diariamente um dos filhos que estudava comigo.

Ao perceber a ofensa, o palhaço sorriu, fez uma micagem escalafobética e arremessou algumas balas sobre o chapéu de abas largas do homem. Os doces de cores sortidas deram ao sujeito trombudo uma expressão tão sarapintada e cômica que muita gente gargalhou. Confuso, só depois que a caminhonete do circo se afastou que o homem percebeu o que aconteceu. O episódio levou dezenas de crianças para o centro da Rua Getúlio Vargas. Dois guardas tiveram de interditar a rua para que as crianças da escola vissem de perto o rastro de cores formando inúmeros arco-íris de dimensões irregulares no meio do asfalto. Me aproximei, ajoelhei e senti um perfume floral que me sopitou mais do que o chá de camomila preparado pela minha mãe.

“Como aquele carro criou esse caminho de arco-íris? Como isso é possível?”, perguntavam e se entreolhavam as crianças mais abelhudas. Algumas garotinhas tentavam em vão raspar os arco-íris do asfalto com pedaços de graveto. Parecia feito de tinta sem ser tinta. Continuava impérvio e etéreo, como se entranhado em um chão do qual curiosamente não fazia parte. Para mim, na minha completude meninil, aquilo era mágica, um encantamento para ser visto e sentido sem ser tocado ou compreendido.

Tinha textura vaporosa e astuciosa de um nada revestido de um todo e vice-versa. Se estendia por mais de 50 metros, resplandecendo beleza tão portentosa que fazia os motoristas desviarem com receio dos pneus deixarem marcas de borracha sobre a curta estrada de arco-íris. Insigne era o fato de que um pequeno caminho colorido pacificou tanta gente. Fez muitos sorrirem e se tornarem complacentes, inclusive pais javardos, com fama de serem os mais aterrorizantes e bocudos da escola. Naquele final de setembro, por volta das 17h, o sol incidiu sobre a rua com tanto viço que o caminho de arco-íris ficou parecido com a estrada dos tijolos amarelos do conto “O Maravilhoso Mágico de Oz”, de Frank Baum.

Continuei no centro até escurecer, mas ao retornar com minha mãe pela Getúlio Vargas vi os arco-íris se desvanecendo após os primeiros toques suaves da garoa fleumática. Ainda assim as cores já inexistentes irradiaram uma mescla de cheiros que atravessou o centro da cidade quando a garoa se espessou, transformando-se em chuva delgada. Sem parcimônia, a olência deslizava com graça e paciência pelo asfalto, pelas beiradas dos meios-fios, espalhando fragrâncias que reafirmavam a mais pura das sinestesias. Funcionários em fim de expediente e donos de lojas olhavam de um lado para o outro, procurando a incompreensível origem do bálsamo matizado. Invisível era o vermelho resumido a um aroma de rosa. Havia também olores inebriantes de hibisco, ipê-de-jardim, trevo-de-cheiro, hortênsia, lótus e violeta.

No início da noite recortei do jornal o cupom de desconto de 50% do valor do ingresso e pedi para meus pais levarem eu e meu irmão ao Circo Espanhol dos Irmãos Cervantes. Afinal era sexta-feira e não precisaríamos acordar tão cedo no sábado. Chegando lá, por volta das 19h30, havia uma fila enorme como uma centopeia humana. Para entrar no picadeiro era preciso atravessar uma rampa de tábuas, onde um casal de anões recolhia os bilhetes enquanto um homenzarrão de mais de dois metros, com bigode trançado nas pontas e trajando collant, observava a movimentação.

Eufóricas, muitas crianças batiam os pés sobre a rampa. Se aquietavam ao notarem o olhar fixo e enviesado do galerão bigodudo. Para aliviar a tensão pré-espetáculo, o anão chamado Flecha explicou na entrada, num portunhol caricato: “Boa noche, mis amigos. Tengo certeza que verás cosas ahí que nunca olvidará. Quando saírem de qui, no verão o mundo de la misma manera. Diviértete! Boa suerte!” Em seguida, arremessou algumas bolinhas de fogo atiradas com o dedão da mão esquerda, as engoliu, abriu a boca, mostrou a língua, sorriu e exibiu os dentes de ouro. Depois tirou a cartola da cabeça, se curvou e girou os braços em direção ao picadeiro, convidando o público a se sentar nas ásperas, rangentes e modestas arquibancadas de madeira.

Mesmo com a chuva repentina, o ambiente estava quase completamente seco. Havia apenas orvalho nas rebarbas da lona. Assim que nos acomodamos, luzes vermelhas, laranjas, amarelas, verdes, anis e violetas percorreram aleatoriamente o cenário por alguns minutos, até se alinharem e formarem um arco-íris. Logo um homem de meia-idade, vestindo uma curta calça preta, camisa branca com botões pretos, gravata borboleta preta e um colete aveludado vermelho, caminhou até o centro do picadeiro e se apresentou como Ramón Cervantes, El Animal. “Respetable público. Estoy muy feliz de verlos aquí. Es genial estar en Paranavaí. Para los que vieram ver los animales, una advertência: neste circo somos los únicos animales. Y no somos pocos. Somos decenas, muchos. Só peço-te que fecha los ojos. No tengas miedo!”, disse Ramón. O apresentador bateu cinco palmas, as luzes se apagaram e a contragosto de alguns o silêncio tomou conta do ambiente.

Um cheiro de selva rapidamente se alastrou pelo picadeiro. Ouvi passos pesados e um barrir que fez meus cabelos esvoaçarem. Tive a impressão de que um elefante estava próximo de mim, encostando sua pata em meu joelho miúdo, até que desapareceu antes que eu pudesse enxergar alguma coisa. Então escutei o rugido de um tigre acompanhado de um mau hálito ferino que me causou arrepios. Era como se os animais estivessem circulando pelas arquibancadas, nos observando, analisando nossas reações e sentindo a energia emanada de nossos corpos. “No tengas miedo! No tengas miedo! Sinta la belleza de la vida y los sentidos”, repetia Ramón no microfone a cada 20 ou 30 segundos.

Também notei algo voando em minha direção. Senti um par de garras sobre o ombro direito e um bico tocando-me a cabeça. De repente ouvi o crocitar de um falcão que parecia bater as asas e voar para fora do picadeiro. Antes das luzes voltarem, uma mão aparentemente humana sem ser tocou a minha. Escutei um barulho ressonante e indecifrável. Com o retorno da iluminação, Ramón observou atentamente as expressões em nossos rostos. Apesar de não ter ouvido gritos, vi que parte do público tinha deixado o picadeiro sem entender a proposta do apresentador. Ramón não lamentou nem comentou nada sobre a evasão. Apenas agradeceu a compreensão dos que ficaram e convidou seu irmão Juanito Cervantes, El Boticario para comandar a segunda parte do espetáculo.

“Que hermoso! Quantas personas para ver nuestro show. Gracias, muchas gracias, mis amigos!”, elogiou Juanito num sorriso largo evidenciando dentes com as cores do arco-íris. O rapaz de pouco mais de 30 anos, e traje igual ao de Ramón, fechou os olhos, inspirou profundamente e expirou. De sua boca saíram fumaças coloridas que serpenteavam e se fundiam, ganhando formas de animais transformados em pessoas e pessoas transformadas em animais. As cores tinham aromas florais muito mais vigorosos do que aqueles deixados na Rua Getúlio Vargas.

Da plateia, Juanito convidou uma garotinha de sete ou oito anos para acompanhá-lo até o centro do picadeiro. “No tengas miedo. Será muy divertido”, prometeu. El Boticário se afastou aproximadamente um metro e meio e assoprou suavemente. O rosto da criança se coloriu, ganhando aspecto místico e refulgente reforçado pela imagem de um lírio amarelo que tinha o nariz miúdo e afilado da menininha como núcleo. Juanito mostrou o resultado em um espelho e perguntou se ela queria que ele lhe tirasse a pintura do rosto. Como a resposta foi negativa, o artista mostrou o desenho de um mosqueado Olho de Hórus em seu antebraço direito e assoprou. Em poucos segundos o olho se fechou e se apagou.

A plateia naturalmente se levantou e aplaudiu com palmas tão fortes e cadenciadas que El Boticário se ajoelhou e reverenciou o público. Antes de encerrar o espetáculo, Juanito fez um comentário em portunhol que reproduzo num português mais claro. “Se vê, sente ou ouve cores, cheiros e sons sem bolores, onde eles pouco existem ou até inexistem, é porque a liberdade te cativa com a tenra intensidade da sensibilidade.” Lá fora, andei em torno da lona antes de ir embora e percebi que não havia animais ou jaulas, somente uma caminhonete, um caminhão e um velho trailer variegado onde viviam os irmãos Cervantes, Flecha e sua esposa, e o gigante circunspecto.

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A beleza invisível aos olhos

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David Lynch mostra que um corpo deformado não anula as qualidades de um homem

Apesar da condição física, John Merrick é inteligente, sensível e gentil (Foto: Reprodução)

O Homem Elefante, do cineasta estadunidense David Lynch, é um filme de 1980 sobre a história de John Merrick (John Hurt), um jovem inglês com 90% do corpo deformado que mesmo vivendo sob a condição de aberração preserva grandes qualidades. Merrick vive sob a tutela do senhor Bytes (Freddie Jones) que explora a degradação física do personagem em um show de horrores. Constantemente violentado pelo tutor, só começa a reconhecer a própria existência como ser humano quando conhece o médico Frederick Treves (Anthony Hopkins). Sensibilizado com a situação, Treves consegue tirar Merrick do circo.

A degradação física de John representa muito mais do que o seu definhamento existencial. É um espelho da própria sociedade; como se cada pessoa que se assustasse com a feiura do rapaz confrontasse a si mesmo, seus defeitos e preconceitos. O cineasta David Lynch desmitifica também a ideia de que apenas pessoas de classes baixas se interessam pelo grotesco, o que é provado se compararmos duas cenas. Em uma, John Merrick é atração para um grupo de bêbados. Já em outra, é o novo entretenimento da aristocracia.

David Lynch mostra que a decadência humana independe de classe (Foto: Reprodução)

Os burgueses camuflam a curiosidade pelo mórbido agindo como se tivessem real interesse pela saúde do rapaz. Dessa maneira, independente de classe social, todos compõem o espectro da decadência humana. No início do filme, é possível crer que o cineasta apresenta uma história maniqueísta, com pessoas boas e más. Porém, aos poucos tal ideia desvanece e Lynch mostra que no fundo todos são seres humanos, guiados por interesses, seguros e inseguros, e conscientes e inconscientes de suas intenções. O momento em que o médico questiona a própria conduta, comparando-se ao cruel senhor Bytes, é um exemplo de como a culpa surge a partir de critérios subjetivos.

Se nas primeiras cenas é perceptível a influência do cinema expressionista alemão, principalmente nos momentos em que há distorções envolvendo cenários e personagens, em uma tentativa de ressaltar o caótico e aberrante, tudo parece mudar quando o cineasta David Lynch propõe uma viagem pelo interior de John Merrick. Gradativamente o espectador sente empatia pelo horripilante protagonista. Merrick é dotado de uma beleza interior que se contrapõe a aparência: é inteligente, sensível e gentil.

Balsas em extinção

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A balsa já foi um importante meio de ligação entre a região Sul e o Centro-Oeste 

A balsa, solitária, ainda percorre as águas do Rio Paraná (Foto: Reprodução)

A balsa, solitária, ainda percorre as águas do Rio Paraná (Foto: Reprodução)

No extremo Noroeste do Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul, balsas que atravessam o Rio Paraná já tiveram fluxo diário de centenas de veículos. Nos últimos dez anos, isso mudou em função das pontes interestaduais. Hoje é comum ver no horizonte o solitário balseiro transportando apenas um automóvel, tendo como companhia o sol escaldante – referência do início e fim da jornada de trabalho.

Em meados de 1960, o grande número de pessoas que precisavam ir para o Mato Grosso do Sul ou vir ao Paraná estimulou a construção de dezenas de balsas. Um emblemático exemplo é a de Porto Caiuá/Felício, localizada a 33 km de Querência do Norte, inaugurada em 1963.  “Foi uma necessidade da época. O fluxo até Naviraí, no Mato Grosso do Sul, era muito grande”, conta o empresário Veigui Bérgamo.

Os ribeirinhos foram os primeiros a se engajar na atividade. Viajavam até Guaíra, no Oeste do Paraná, onde recebiam, por parte da Marinha, qualificação profissional. Todas as despesas eram custeadas pelos donos de balsas. “Sempre demos oportunidade para gente daqui, nunca alguém de fora. É desse jeito há mais de 40 anos”, destaca o empresário.

Na década de 1960, a balsa já garantia o intercâmbio entre o Sul e o Centro-Oeste (Foto: Reprodução)

Na década de 1960, a balsa já garantia o intercâmbio entre o Sul e o Centro-Oeste (Foto: Reprodução)

No princípio, investia-se muito no transporte fluvial, e tudo era proporcional aos lucros, tanto que durante décadas os donos de balsas foram responsáveis pela manutenção das principais vias de acesso aos portos. “Se a estrada estivesse ruim, a pessoa desistiria, então mantê-la em bom estado era o único meio de garantirmos a freguesia”, revela Bérgamo.

Há 10 anos, havia duas balsas em funcionamento no Porto Caiuá/Felício, tempo em que pelo menos 200 veículos por dia usavam o transporte fluvial. “Quando tinha uma no Mato Grosso do Sul, a outra estava deste lado, aqui no Paraná”, lembra Bérgamo, se referindo a um período em que os funcionários da balsa se revezavam ao longo de 24 horas. O serviço nunca parava, em respeito à demanda.

Hoje em dia, o trabalho começa às 6h e termina às 22h. “Quem chega aqui de madrugada encontra a balsa desativada”, conta o marinheiro de convés Robson Mendes Barbosa. A justificativa é que muitos motoristas preferem usar a Ponte Ayrton Senna, em Guaíra, e as cinco pontes do complexo de Porto Camargo.

Grande fluxo de veículos no final da década de 1990 (Foto: Reprodução)

Grande fluxo de veículos no final da década de 1990 (Foto: Reprodução)

“É difícil acreditar que já passou tanta gente por aqui. Como balseiro, conheci viajantes de Paranavaí, Umuarama, Maringá, Campo Mourão, Londrina, Cascavel, Curitiba, Presidente Prudente, Araçatuba, São Paulo, Campo Grande, Cuiabá e muitas outras cidades”, reitera o contra-mestre Cirço Sedano Silva.

Na atualidade, o transporte fluvial normalmente é usado apenas por pessoas da região noroeste. Entretanto, o contra-mestre percebe uma pequena mudança durante os feriados. “No mais, é normal atravessar apenas um veículo. Ainda estamos aqui por causa da fé. Restam poucas balsas na ativa. Acho que é o fim da profissão”, avalia.

Entre os poucos que ainda preferem a balsa, a justificativa é uma só – a praticidade do serviço. De acordo com Veigui Bérgamo, há proprietários de terras na região que se não fosse pelo transporte fluvial teriam de dirigir por mais de 200 quilômetros. “Com a balsa, percorremos 2,5 quilômetros em 15 minutos e o problema está resolvido”, finaliza.

Empresário ainda tem esperanças

As despesas com o transporte fluvial, que não são poucas, segundo o empresário Veigui Bérgamo, deveriam ser subsidiadas com a rentabilidade obtida nas travessias da balsa. “Na prática, isso não acontece. Se não fosse pelas minhas outras atividades econômicas, teria parado faz tempo. Gastamos aproximadamente dois mil litros de óleo diesel por mês. Além disso, temos despesas com funcionários e manutenção”, destaca.

Entretanto, Bérgamo diz ter esperança de que no futuro a situação melhore e o transporte fluvial não precise ser desativado. Faz um apelo para que o governo do Paraná contribua, se responsabilizando pela manutenção de uma rodovia. “A Jorge Baggio é a única estrada paranaense que liga Querência do Norte ao porto. Se for bem cuidada, acredito que poderemos atrair mais viajantes”, pondera.

Origem ribeirinha é trunfo na profissão de balseiro

Na infância, Cirço Sedano Silva brincava sobre um bote, fazendo de conta que era piloto de balsa. A criatividade era estimulada pelas experiências relatadas por três tios balseiros. Aos 19 anos, conseguiu o primeiro emprego com transporte fluvial, um cargo de cobrador na balsa do Porto Caiuá/Felício.

“A gente se divertia muito. Havia pelo menos quinze pessoas trabalhando em cada balsa”, relembra o contra-mestre sorrindo. Com o passar do tempo, o número de empregados caiu para 12 e depois para nove. “Hoje, são cinco, mas nos dividimos em três turnos. Agora é normal trabalhar sozinho”, afirma.

O fato de Cirço ser um ribeirinho é um trunfo na profissão de contra-mestre. Ninguém conhece melhor o Rio Paraná do que alguém criado diante de sua imensidão. “Sei onde estão todos os bancos de areia. Sendo assim, tenho o compromisso de desviar deles. Já o marinheiro de convés tem que ficar esperto e controlar o peso da balsa, distribuindo bem os veículos”, revela. Sedano sente falta de quanto trabalhava à noite. Antes de completar a travessia, via do outro lado um sem número de faróis piscando – um sinal de que o aguardavam.

Saiba Mais

Em caso de acidente, o contra-mestre entra em contato com o rebocador que chega ao local em 15 minutos.

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