David Arioch – Jornalismo Cultural

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“Por que o senhor chama a ditadura de revolução?”

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Imagem: Canal Notícias Comentadas (https://www.youtube.com/watch?v=eh4NMsN4Sm4)

Conversando, com um amigo, do nada ele me falou que com o retorno da ditadura tudo iria melhorar no Brasil. Achei melhor ficar calado, sorrir e seguir o meu caminho. Há momentos em que não é difícil perceber que o silêncio diz mais do que qualquer palavra, apesar do clichê.

Isso me lembrou das vezes em que, entrevistando pessoas idosas, principalmente homens, alguns se referiram à ditadura como revolução. Assim, é sempre difícil não suspeitar que tenham sido simpatizantes do Golpe de 1964. Um dia, quando um senhor me disse isso, perguntei:

— Por que o senhor chama a ditadura de revolução?
— Porque foi uma verdadeira revolução. Tudo melhorou.
— Sério?
— Sim…
— Então fale isso para o meu tio que levou uma camaçada de pau e foi preso porque estava tocando violão em frente de casa numa noite de 1978.

Ademais, quem quiser conhecer as muitas histórias de corrupção nos tempos da ditadura, recomendo os livros “A Chave do Tesouro”, “Os Mandarins da República” e “A Dupla Face da Corrupção”, os três publicados pelo economista José Carlos de Assis, vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo em 1983. Outra boa referência sobre a ditadura militar é o documentário “O Dia que Durou 21 Anos”, de Camilo Tavares, lançado em 2013.

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Written by David Arioch

July 27th, 2017 at 12:37 pm

Dos males, o menor?

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Arte: Pawel Kuczynski

Dos males, o menor? Não quando se trata de política. Acredito que tal reflexão quando se fala em política e políticos é algo que acaba por soar como um tipo de anuência em relação às atrocidades que são cometidas em nome da politicagem e da ânsia por poder.

Muitas das desgraças que testemunhamos hoje no mundo têm relação com o raciocínio de conivência baseado na conveniência. “O cara comete excessos, mas é linha dura. Ninguém faria melhor” ou “Ele é ladrão, mas tem lá suas qualidades.” Esse tipo de conformismo tem lesado não somente a humanidade, mas obviamente outras espécies.





Written by David Arioch

April 22nd, 2017 at 7:51 pm

Por que torcer para que tudo dê errado na gestão de um político?

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Uma das piores coisas que você pode fazer quando um candidato é eleito é torcer para que tudo dê errado, porque isso faz parecer que a sua prioridade é mostrar aos outros que eles estão errados. Ou seja, o que importa não é a coletividade, mas um anseio individualista, que é o triunfo da sua visão política. Torcer para que o outro esteja errado é melhor do que aceitar a possibilidade de que você pode ter uma boa surpresa? Acho que não.

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Written by David Arioch

February 8th, 2017 at 10:40 am

Posted in Reflexões

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Sobre discussões políticas

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Política parece-me um bom pretexto para pessoas provarem que no fundo são incapazes de demonstrar respeito por quem não partilha da mesma opinião. De certo, faz muito sentido xingar quem não pensa como você. Acho que mais do que democracia, falta humanização.

Written by David Arioch

September 1st, 2016 at 4:15 pm

Posted in Autoral

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Uma situação que diz muito sobre a nossa política

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Deputados se apropriando de parte do salário de seus assessores não é prática incomum na Alep (Arte: Reprodução)

Depois de ler uma matéria sobre o secretário estadual acusado de ter mantido dois funcionários fantasmas em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) em 2014, quando atuava como deputado estadual, lembrei de uma história que um amigo me contou há algum tempo.

A sua prima foi convidada para trabalhar como assessora de um deputado na Alep, só que o que ela não imaginava era que 50% do seu salário teria de ser entregue ao deputado, provavelmente para o “caixinha” da próxima campanha ou talvez para ajudar a financiar o partido.

Constrangida com a situação e também em ser conivente com tal improbidade, ela optou por pedir exoneração do cargo. Não tenho dúvida alguma de que a prática seja muito comum. O problema é que não há tantas notícias sobre o assunto porque muitos ainda são coniventes. Enfim, uma lástima que endossa o fato de que há muita gente capaz de abrir mão da honra e da dignidade por causa de dinheiro.

Política e desconforto

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Pintura "Doubt", de Ralph McDonald

Pintura “Doubt”, de Ralph McDonald

Um grande problema que percebo hoje em dia é a dificuldade de muitas pessoas em aceitar que alguém não se sinta confortável em apoiar a qualquer custo nenhuma ideologia política, ainda mais levando em conta o nosso mais do que híbrido cenário atual.

A partir do momento que você defende cegamente qualquer lado, seja de situação ou oposição, você está deixando claro que não reprova nem mesmo falhas excruciantes. E isto é um grande problema de algumas formas de militância da atualidade, a incapacidade em reconhecer erros.

E vejo muito desse “maniqueísmo ideológico e político” na internet. Existe uma unilateralidade visceral de raciocínio. Tenho opinião formada sobre algumas coisas, mas elas podem e em certas circunstâncias até devem ser mutáveis.

Written by David Arioch

May 23rd, 2016 at 11:53 pm

A política no Brasil é tratada como uma prostituta

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Mesmo com a saída de Dilma, Ricardo Barros foi convidado a assumir o Ministério da Saúde (Foto: Reprodução)

A política no Brasil é tratada como uma prostituta. E uso um exemplo simples para ilustrar isso. O atual ministro da saúde, Ricardo Barros, foi da base governista da Dilma até pouco tempo atrás, quando era deputado federal. Já sua esposa, Cida Borghetti, se lançou como vice-governadora do Paraná ao lado de Beto Richa, do PSDB, em 2014. Ou seja, supostamente lados opostos. Curioso, não? Ainda mais levando em conta que os dois sempre tiveram inclinações políticas convergentes. Esse é o clássico exemplo de win-win situation.

No dia 7 de abril de 2016, há pouco mais de um mês, a Gazeta do Povo publicou uma reportagem destacando que Barros era o mais cotado para assumir o Ministério da Saúde, caso Dilma conseguisse se manter no cargo. Mas o mais intrigante é que foi justamente com a queda dela que Ricardo Barros assumiu a pasta. Na minha opinião isso deixa bem claro que a maior parte dos políticos não têm ideologia alguma, caso tivessem, provavelmente a conduta seria bem diferente.

Enquanto muitas brigas são travadas entre quem é de situação e quem é de oposição, os políticos simplesmente fazem seus acordos e seguem suas vidas como se nada mais importasse ou tivesse valor. Partidos e suas políticas hoje em dia pouco significam em meio a tantas negociatas. A verdade é que leva a melhor quem tem mais a oferecer.

As controvérsias do comunismo e do socialismo

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Houve sim uma grande apropriação de ideias que serviram tão somente como mecanismo de propaganda (Arte: Reprodução)

Várias vezes já me perguntaram o que eu acho dos governos considerados “comunistas” ou “socialistas” no decorrer da história moderna. Bom, não acho fácil responder uma questão como essa porque acredito que seja importante fundamentar bem qualquer resposta. De qualquer modo, meu raciocínio costuma seguir por essa linha:

Basicamente eu acredito que nunca existiu de verdade um governo comunista ou socialista. Na minha opinião o que foi ou o que deveria ser o comunismo e o socialismo nunca saiu da teoria. O que a história mostra é que a partir dessas ideologias houve sim uma grande apropriação de ideias que serviram como mecanismo de propaganda, um recurso para camuflar alguns regimes totalitaristas que em um primeiro momento precisavam conquistar a simpatia das classes mais baixas, principalmente do proletariado.

Gosto de citar um exemplo também para ilustrar essa ideia: “O que houve com o comunismo e o socialismo foi o que aconteceu com a suástica, uma apropriação de algo que em essência significava uma coisa, mas que por uma obliteração simbólica e semântica perdeu quase que completamente o sentido original e diverso.”

Aí alguém pode me perguntar se acho que o comunismo ou o socialismo em essência funcionariam. Sinceramente, não sei. O que posso dizer é que sou avesso a qualquer forma de governo que interfira nas liberdades individuais. Além disso, políticas precisam ser pensadas dentro de um contexto atual. E se a política vai mal é exatamente porque ela não atende essas necessidades. Em breve pretendo publicar um texto em que abordo com alguma profundidade esse assunto mais do que controverso.

Written by David Arioch

May 4th, 2016 at 3:09 pm

Há diferenças entre viver na época da ditadura e entendê-la enquanto poder político

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Analfabetismo no Brasil da década de 1960 chegava a 60 e até 70% em muitos estados

Góes Monteiro, general que inspirou a Ditadura Militar no Brasil (Foto: Divulgação)

Góes Monteiro, general que inspirou a Ditadura Militar no Brasil (Foto: Divulgação)

Me sinto deslocado quando encontro pessoas enaltecendo a ditadura como se tivesse sido um período majestoso e edênico. “Meu pai, minha mãe, meu avô, minha avó, meu tio, minha tia e tantos outros contam que só apanhava na época da ditadura quem era bandido”, dizem muitos.

Francamente? Todo mundo tem alguém na família que diz isso e não é algo que me surpreenda porque interpreto de uma forma completamente diferente. Eles não reclamavam e ainda não reclamam da ditadura porque na realidade não se importavam muito com os rumos da política brasileira. Também gozavam de pouco entendimento sobre as responsabilidades de se viver em sociedade.

O individualismo naquela época já era uma coisa aberrante e foi exatamente isso que fez com que a ditadura perdurasse por 21 anos no Brasil. Ademais, tinha uma face sombria e uma néscia. A sombria era encampada por aqueles que se beneficiavam do sistema político vigente, e a néscia era a dos menos instruídos ou incultos que tinham linha de raciocínio azêmola e solene, e por assim dizer até macabra de que “se o governo não me incomoda, tudo está perfeito, mesmo que pessoas morram à minha volta”.

A verdade que vejo pouca gente divulgando nos debates sobre o assunto é que nos tempos da ditadura militar havia uma grande massa de pessoas que não se importavam realmente com a democracia ou a liberdade de expressão. Muitos nem sabiam o significado dessas palavras, o que é aceitável, levando em conta que o analfabetismo no Brasil da década de 1960 chegava a 60 e até 70% em muitos estados, segundo o IBGE.

Por isso grande parcela da população brasileira da atualidade não teve e não tem familiar que foi perseguido nessa época, o que é muito normal, levando em conta que quando a ditadura chegou ao fim o Brasil contava com mais de 136 milhões de pessoas. E tudo isso pode ser usado para reforçar o discurso falseado de que só os “piores cidadãos” eram perseguidos pelos militares. A mim. isso significa algo bem simples. O que veio depois não foi graças ao esforço da maioria, o que na minha modesta opinião endossa mais ainda as histórias de luta de quem seguiu na contramão da obviedade.

Pondero que ter vivido na época da ditadura e tê-la compreendido na essência são coisas completamente diferentes. Conheço muitos idosos que a enaltecem, inclusive da minha família, mas esses não desempenhavam atividades intelectuais, culturais, artísticas ou econômicas que pudessem ser cerceadas. Sendo assim, considero no mínimo incoerente citar um familiar que pouco ou nada contribuiu para os rumos da democracia no Brasil, mesmo que não exercida na sua plena funcionalidade.

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, tivemos até obras musicais e poemas censurados no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), principalmente nas décadas de 1960 e 1970, porque o Dops suspeitou que havia conteúdo subversivo nos trabalhos enviados, o que não era verdade. E são pessoas que qualificam a ditadura militar como revolução que falam mal de ditadores. Ou seja, um entranhado e estrambólico paradoxo.

Além disso, acredito que embora o Golpe de 1964 tenha sido colocado em prática como uma promessa de transformar o Brasil em um país do futuro, o que ele fez foi instituir uma retrógrada forma de colonialismo baseada em relações de trabalho fundamentadas no barateamento e precarização da mão de obra, o que já acontecia na Europa e nos Estados Unidos na década de 1920.

Ou seja, inspirados na velha Doutrina Góes Monteiro, da Era Vargas, os generais fizeram com que o Brasil evoluísse sim em industrialização, não tenho dúvida disso, mas um progresso que a exemplo de outras versões beneficiou a menor parcela de brasileiros.

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Um breve desabafo sobre a política nacional

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Imagem do cartunista Roque Sponholz que retrata a vergonha da nossa política

Imagem do cartunista Roque Sponholz que retrata a vergonha da nossa política

O Brasil tem 35 partidos políticos ativos, além de 20 partidos em vias de legalização. Para que tudo isso? Quantos desses partidos conhecemos de verdade? Precisamos de reforma política urgente. Acho que se existisse um eficaz sistema de fiscalização de atuação partidária ficaria mais fácil saber quais são relevantes e contribuem para o desenvolvimento do Brasil.

Na realidade, o que defendo como substancial e imprescindível é que os partidos sejam obrigados a atingir metas com base na proporcionalidade de seus candidatos eleitos. O partido que não honrasse seus compromissos deveria ter seu registro cassado. Outra vantagem é que isso minimizaria a desforra de pré-candidatos que lançam o próprio nome apenas visando especulação.

Muitos eleitores ingênuos e desinformados não sabem que há sujeitos com certa popularidade que se lançam como pré-candidatos visando apenas ganhar um bom dinheiro, pois sabem que os concorrentes de maior poder aquisitivo podem remunerá-los muito bem para que desistam da candidatura.

Defendo que promessas de campanha sejam punidas quando não são honradas. Afinal, o eleitor votou com base na cartilha defendida pelo seu candidato. Além disso, quem deseja concorrer às eleições deveria obrigatoriamente participar de um curso específico sobre política, com ênfase na função pretendida.

Dessa forma, muita gente sem qualificação política seria obrigada a desistir do pleito. Também seria salutar a realização de uma nova triagem com os pré-candidatos, levando em conta a coerência e aplicabilidade de suas propostas. Assim os eleitores mais ingênuos não seriam obrigados a escolher o melhor entre os piores.

Duvido que haveria tanta bagunça na política nacional se exigências como essas fossem colocadas em prática. A política no Brasil é deplorável e constrangedora porque é amadora. Vivemos em um país que realiza eleições desde 1532 e até hoje tem uma carência hercúlea de políticos profissionais. O que vemos são amadores e libertinos rendidos à politicagem.

Written by David Arioch

April 1st, 2016 at 11:24 pm