David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“E aí, dando muitas braçadas ainda?”

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Eu na academia, terminando meu treino de mobilidade. Várias vezes, notei um cara me observando. Quando levantei, ele comentou: “E aí, dando muitas braçadas ainda?” Não entendi muito bem, mas respondi numa boa: “Sim, tudo transcorrendo normalmente.”

Quando o rapaz se afastou, só consegui pensar: “Não tenho a mínima ideia de quem seja, mas tenho certeza que esse cara me confundiu com alguém que nada aqui. Será que ele acha que todos os barbudos são iguais?”

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January 28th, 2017 at 8:31 pm

O teste ergométrico

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Como faço todos os anos, fui até a clínica cardiológica fazer o teste ergométrico, e quando terminei ainda tinha pique para ir um pouco além. O técnico me disse que de centenas de pessoas que passam pela clínica anualmente, não mais do que dez conseguem chegar até o final do teste ergométrico. Recebi vários parabéns da equipe da clínica. E há outro ponto a se considerar, o fato de que sou vegano. Enquanto muitos usam a desculpa de que é impossível garantir força, resistência e massa muscular sem carne, laticínios e ovos, eu continuo rendendo muito bem nas atividades físicas; e simplesmente porque eu quero e me empenho para isso.

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January 28th, 2017 at 8:24 pm

O Rapunzel das barbas

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Hoje, na clínica cardiológica, um dos técnicos, um cara bem gente boa, perguntou há quanto tempo uso barba. Então respondi que faz um ano. “Só isso, e cresceu tanto assim? Sério mesmo?” Quando confirmei, ele não escondeu a surpresa e emendou: Então você é o Rapunzel das barbas!”

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January 28th, 2017 at 8:22 pm

Correndo com o Pantera

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Saí da academia, passei em casa, peguei o Pantera e fomos correr. Na volta, cansado, ele deitou na grama e não quis levantar. Esperei um pouco e acabei o carregando. Andei com o pit bull nos braços por mais de dois quilômetros antes de colocá-lo no chão. Até uma viatura da polícia parou para assistir a cena. Quando o Pantera percebeu que tenho força para carregá-lo, deitou de novo no chão e não quis mais saber de levantar. Acabei trazendo ele até na esquina de casa. Enfim, era para eu treinar só peito e abdômen hoje. Acabei treinando braços também.

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January 19th, 2017 at 1:08 am

“Acho que ficou doente e acabou morrendo dentro de uma semana”

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Esses dias, conversando com um camarada, perguntei sobre uma cachorrinha que nunca mais vi em sua casa. Ele me disse que ela faleceu. Então questionei o motivo. “Ah, ela foi parando de comer, acho que ficou doente e acabou morrendo dentro de uma semana”, revelou com naturalidade, sem grande preocupação. Nem chegaram a levá-la ao veterinário ou a pedir ajuda.

A cadelinha tinha oito anos, e sempre me pareceu feliz e bem tratada. Mas não consegui deixar de considerar isso como um triste descaso. E tem gente que ainda critica o veganismo por tentar ampliar a conscientização em relação a forma como nos relacionamos com os animais.

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January 9th, 2017 at 12:07 am

O peso da sua barba

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Na quarta-feira, sentindo um pouco de tontura, me consultei com um bom médico. Na quinta-feira, retornei para apresentar os resultados dos exames. Ele leu tudo e disse que aparentemente estou bem, embora tenha sugerido a realização de outros exames mais específicos. Antes de eu me despedir, ele perguntou: “Tem certeza que essa tontura não é por causa do peso da sua barba?”

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January 8th, 2017 at 11:59 pm

Entre saúde pública, privada e falta de empatia

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Quanto mais ela gritava, mais eu me sentia como se minha mente dilatasse

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“Falta de empatia, empatia, empatia…realmente…isso independe de classe social” (Arte: Reprodução)

Na quarta-feira, sentindo um estranho mal-estar, liguei para o médico. Ele estava de férias. Na dúvida, acabei indo ao Pronto Atendimento Municipal (PA). Na recepção, expliquei a minha situação. O recepcionista estranhou o fato de não existir meu nome no cadastro deles e perguntou de onde sou. Talvez a barba tenha ajudado a potencializar ainda mais a suspeita. Mas tudo bem. Informei que eu nunca tinha usado o SUS e que aquela era a primeira vez.

Enquanto eu aguardava atendimento, fiquei prestando atenção ao meu redor. Havia uma calmaria intrigante. Ao meu lado, um senhor que se esforçava para ajeitar os óculos agonizava, e, na minha análise superficial, ele parecia o que mais necessitava de ajuda. Ainda assim, sequer reclamava. Num ato de desassossego, uma garota logo atrás de mim, em companhia da mãe ou avó, começou a berrar que estava com dor, fazendo balbúrdia. Levantou-se, correu entre os assentos e apontou dedos.

A senhora que a acompanhava foi até a recepção e começou a ofender o recepcionista, exigindo atendimento imediato. Achei aquilo constrangedor, mas eu estava com um pouco de tontura e optei por não intervir. Posso estar fazendo um mau julgamento, mas considerei exagerada a atitude daquela jovem. A maioria continuava em silêncio, talvez inerte na própria dor, e o senhor prosseguia gemendo quase em sigilo.

Depois de passar pela enfermeira, ela sugeriu que eu retornasse para o meu assento e aguardasse atendimento médico. Acabei desistindo da segunda chamada, até porque mais pessoas chegavam e provavelmente precisavam de mais assistência do que eu. Então fui até a Santa Casa. Expliquei a minha situação na recepção, entreguei a carteirinha da Cassi e prestei atenção no ambiente.

Ar-condicionado, bons assentos, televisor de melhor qualidade, ambiente bem arejado com direito a banheiros impecavelmente limpos. Normal, a ordinária realidade de quem tem um bom plano de saúde ou condições de custear atendimento particular, sem necessidade de passar pelo PA. Enquanto eu aguardava a minha vez, uma mulher se aproximou e disse que queria se consultar com um clínico geral.

Após inúmeras reclamações, e muita paciência por parte da recepcionista, a mulher sentou ao meu lado. Falava incessantemente e não aguardou nem 20 minutos. Se levantou enraivecida. Gesticulou, balançando os braços adornados por belas joias, e gritou que não ficaria mais um segundo ali porque era um descaso muito grande ter que esperar tanto por atendimento. Assim como no PA, eu e outras pessoas ficamos em silêncio.

Quanto mais ela gritava, mais eu me sentia como se minha mente dilatasse e eu fosse submetido a um caleidoscópio de ressonâncias impessoais. Pelo que percebi por parte dela, o seu caso não era emergencial. Me recordei da moça e sua mãe ou avó que fizeram um pandemônio no PA. “Falta de empatia, empatia, empatia…realmente…isso independe de classe social”, concluí.

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January 8th, 2017 at 11:58 pm

“Esse é bom! Muçulmanos sabem!”

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Fui ao mercado há pouco. Chegando lá, apertei o botão do alarme do carro e nada. Não funcionou. Então me dei conta que o pressionei com tanta força que o botão afundou. Tentando resolver a situação, notei algumas pessoas me observando por causa da minha barba. Não consegui evitar de pensar: “Agora, além de terrorista, vão achar que sou ladrão.”

Depois, no setor de hortifruti, comecei a analisar alguns pacotes de romãs. De repente, cinco haitianos se aproximaram e começaram a observá-los também. Enquanto eles conversavam em crioulo, eu seguia procurando as melhores porções.
Quando eu tirava a mão de um pacote, os haitianos faziam o mesmo.

Dois ou três minutos depois, peguei em definitivo um pacote. Então um deles fez o mesmo. Assim que me afastei, ouvi alguém dizendo algo como: “Sa a se bon. Mizilman an konnen!”, que significa: “Esse é bom! Muçulmanos sabem!”

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December 24th, 2016 at 7:35 pm

“Tu é do Estado Islâmico, né não?”

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Enquanto eu conversava com um amigo em frente à sua casa na Vila Alta, um rapaz embriagado se aproximou e ficou me olhando atentamente, sem dizer palavra. Ele passou duas vezes por mim, ensaiou falar alguma coisa, desistiu e caminhou até a esquina. Na terceira vez, estufou o peito e retornou cambaleante. Subiu na calçada, inclinou o corpo de um lado para o outro e falou em tom baixo, como se quisesse confidenciar algo muito sério:

“Aqui na Vila já vi gente do PCC, TCP, Comando Vermelho e Yakuza, mas do Estado Islâmico é a primeira vez. Tu é do Estado Islâmico, né não? Tu veio recrutar alguém? Como faço pra participar da Jihad? O senhor pode me ensinar a fazer bomba? Quero uma coisa leve, só pra assustar a sogra que não me deixa em paz com a birita.” Respondi que não, mas me segurei para não rir, até para não decepcioná-lo. E o rapaz continuou:

“Já sei! É segredo! Não pode falar disso assim. Você já degolou alguém? Tem quantas mulheres? Aposto que cê tem um harém. Já matou quantos? É fácil andar de camelo? Gosto de calor, kibe, tempestade de areia. Alguma chance de me levar pra Síria? Iraque? Aqui tá muito parado. Me ajude, meu senhor! Mas e a bomba? Vai me ensinar mesmo? E flor de papoula, cê pode me arrumar um pouco?” Reconhecendo uma oportunidade, eu disse que poderia ajudá-lo, desde que ele abandonasse a bebida. Fiquei sabendo que faz 21 dias que Galego não bebe.

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November 8th, 2016 at 10:29 pm

Uma ligação amiga

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Foto: David Arioch

Uma amiga me ligou para falar de seus problemas (Foto: David Arioch)

Uma amiga me ligou para falar de seus problemas. Como ouvinte que sou, fiquei em silêncio, assimilando seu descontentamento. De repente, ela pediu minha opinião. “Então, David, o que você acha que devo fazer?” Quando comecei: “Bom, eu penso que…”, ela me interrompeu e reclamou:

“Não, David! Não! Olha só! Deixa eu continuar!” Então me calei mais uma vez e ela prosseguiu: “Mas não sei também. É uma situação difícil e acho que minha mãe não vai aceitar. Você concorda?” Quando fui falar, ela me impediu novamente. Tudo bem! Preferi me abster, ciente de que qualquer resposta pudesse ser mal interpretada.

“Então! Você vai falar ou não?”, interpelou. Me preparando para o pior, fiz dois exercícios com o maxilar. Quando tentei abrir a boca para fazer uma sugestão, não consegui. Meu bigode de fios longos simplesmente se entrelaçou à barba. Me empenhei para abrir a boca em vão.

Enquanto eu me esforçava para resolver a situação, a tal amiga gritou: “Nossa, David! Como você é insensível! Você é muito egoísta, sabia? Como você pode ser assim? Aposto que não ouviu o que falei! As pessoas deveriam saber quem você é de verdade. Ah, quer saber? Tchau! Adeus!”

Ao final da ligação, fui ao banheiro convencer meu bigode a não fazer mais a barba de refém. Para minha surpresa, recebi uma mensagem pelo Whatsapp: “Não esqueça de me mandar sua opinião. Estou aguardando. Beijo!”

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Written by David Arioch

October 30th, 2016 at 10:18 pm