Archive for the ‘Cotidiano’ tag
Um motorista embriagado
Em novembro de 2014, eu estava em frente a um mercado quando um motorista bateu à esquerda do meu carro e seguiu ziguezagueando pela rua. Quando vi o amassado pelo retrovisor, fui atrás dele. Sinalizei para que parasse e ele encostou o seu Corcel II bem deteriorado, com o escapamento arrastando no asfalto.
Desci e caminhei em sua direção. Embriagado, o sujeito mal falava. Sua esposa também desceu e expliquei que ele bateu no meu carro. Constrangida, a mulher se desculpou enquanto o marido fazia caretas, ria e tamborilava as mãos sobre o capô do carro. Ele parecia não se importar com a situação. No banco de trás, uma garotinha de tranças, com três ou quatro anos, assistia tudo em silêncio, segurando uma bonequinha inteiriça de plástico duro, dessas mais baratas.
A esposa do motorista me deu o número do seu telefone e implorou para não chamar a Polícia Militar. Na realidade, eu nem tinha essa intenção. Ela sugeriu que eu entrasse em contato para passar o orçamento do conserto. Antes de ir embora, perguntei de onde eles eram e o que faziam. “A gente mora e trabalha na roça dum homi aí, ‘samo lavrador’. Tamu ino visita o túmulo da minha mãe. Pedi pra ele não beber, mas é teimoso demais. Cê pode ligar qualquer hora”, se justificou constrangida.
Nunca liguei. Só assisti o sujeito serpenteando o carro e desaparecendo dois quarteirões abaixo enquanto a fumaça do escapamento ocultava o veículo. A sinuosidade de suas vidas talvez fosse representada pelos traços sulcados no rosto daquela mulher precocemente envelhecida. Meu prejuízo material nem de longe se aproximava do seu padecimento existencial.
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Minha mãe conta…
Minha mãe conta que quando eu era criança, não sei exatamente a série, a professora de matemática me perguntou se um dia eu não gostaria de ganhar muito, mas muito dinheiro. Hesitei por um instante, na minha inocência característica, e respondi:
— Não, num quero!
— Mas por que não, David?
— Porque vou ter que parar de brincar só pra juntar papel.
Sete pãezinhos e um fujão
Na padaria do mercado, peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade. De repente, escuto um som fofo e morredouro na sua sutilidade – do tipo “ploft” suave. O pãozinho agoniza no chão. Gerado há pouco tempo, já não tem mais razão de ser, caído sem chance de se restabelecer. Posso ver nos olhos da atendente que ela discorda. Me observa de soslaio, esperando apenas uma distração e, quem sabe, numa plena desatenção, uma oportunidade de enfiar no saco o “pãozinho sujo”, privado da própria vocação.
Não tiro os olhos dela. Ela reage virando as costas para mim, e manipula o saco de pão com uma astúcia que parece sem fim. Não desiste! E meus olhos continuam mirando-a. Escuta meus passos. Sei disso porque vejo suas orelhas vibrando e seus olhos titubeando. Estamos mais próximos do que antes. E minha sombra desarmoniza suas intenções. Ela disfarça por mais um ou outro segundo, sorri em minha direção, e encosta o pãozinho na parte externa do saco marrom.
Há um ou dois minutos, ele era igual aos outros. Ninguém pode negar, mas foi maculado, e aos seus irmãos já não pode se juntar. Que assim seja feita a justiça do alimento! Juro que por um segundo vi um traço que parecia um sorriso. Um pão sorrindo? Impossível! Ou não? A moça da padaria me entrega o saco de pão quente. Ruborizada, me dá um último sorriso, sem velar o ar de derrota.
Quando abro o saco, e, descuidado, inalo a fumaça que me esbraseia o salão, vejo sete irmãozinhos parifomes repousando. Do outro lado, o pãozinho fujão se esconde de baixo de um segundo balcão, e desaparece em um buraco do tamanho de minha mão.
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As duas senhorinhas
Hoje, na fila do caixa rápido do Cidade Canção, notei duas senhorinhas conversando. Uma delas olhou para a outra e disse: “Vá na minha frente porque você é mais velha.” E a outra replicou: “Aé? É mesmo? Grande coisa!” Idosos e sua espontaneidade inimitável…
Um bom pedido
Ontem, quando eu estava saindo de casa, um garoto, morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, gritou meu nome e veio correndo em minha direção. Ele estava fazendo um “bico”, ajudando outro rapaz em um frete.
Nos cumprimentamos, e ele me disse que ainda não foi para a escola desde que as aulas começaram porque não tem nem caderno, e perguntou se eu não poderia conseguir pra ele os materiais exigidos pela escola.
Respondi que sim, que posso dar um jeito, e pedi para ele deixar a lista na Oficina do Tio Lu que passo lá no sábado para buscar. Esse garoto não tem estrutura familiar, foi abandonado pelos pais, testemunhou o assassinato do avô em um bar no ano passado e ainda convive com um tio que é viciado em crack.
Apesar de tudo, tenta se afastar dessa realidade, pedindo apenas uma porção de materiais escolares. Tem gente que mesmo diante das piores adversidades ainda sonha ou luta pelo menos para sobreviver, desde que alguém dê alguma oportunidade ou acredite neles.
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Um resgate incidental
Saí para correr, e na volta, perto do posto da polícia rodoviária federal, ouvi um gatinho miando, correndo atrás de mim. Parei, ele ficou me olhando e continuei, então ele veio atrás. Peguei ele e voltei correndo. E as pessoas olhando um barbudo musculoso correndo com um gatinho miando e cheirando à manga. Provavelmente foi jogado num descampado.
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O riso das crianças
Saí para correr há pouco, e depois de cinco quilômetros encontrei um Monza parado no meio da rua. Então ajudei um senhor a empurrá-lo por pouco mais de um quilômetro. Nesse ínterim, duas crianças, provavelmente suas filhas, brincavam que também empurravam o veículo enquanto me olhavam, se entreolhavam e gargalhavam com bonomia. Não sei se riam da minha barba ou de algum outro aspecto da minha aparência. Sem saber o motivo, ou mesmo me importar com isso, comecei a rir também, porque sei que esse tipo de espontaneidade é uma das joias da infância.
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O boi e a família

Obra “Mr Moo”, de Ruth Aslett
Rubens parou o carro na beira da estrada. Ele, a esposa e os três filhos desceram para admirar um boi que coçava a cabeça em uma porteira a poucos metros de distância. Se aproximaram e perceberam que o animal era bem manso.
Então as três crianças acariciaram sua cabeça e riram como nunca. Não imaginavam que um animal daquele tamanho pudesse ser tão dócil. Sem se incomodar, o boi apenas os observava com seus olhos cristalinos.
Duas horas depois, já estavam em casa almoçando, servindo-se de bifes grelhados, sorrindo e se lembrando da doçura do boi que roçava a cabeça suavemente sobre uma porteira que trazia no cerne uma cruz de madeira. E, mais uma vez, como tantas outras, a beleza da vida foi celebrada com morte.
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Uma breve amizade com uma barata coruscante
Tive uma breve amizade com uma pequena barata coruscante. Entrei no banheiro e ela parecia me observar diante do batente. Ameacei me aproximar, mas ela não reagiu. Em vez de matá-la, posicionei meu dedo, ela saltou em minha mão, percorreu meu braço e subiu em meu deltoide. Menos de um minuto depois, ela enjoou da nossa amizade, pulou na parede, correu janela afora e desapareceu na escuridão.
Cortando o cabelo
Enquanto um camarada cortava o meu cabelo, ouvi um cara falando alto na sala ao lado. Era um desses sujeitos que sempre se destacam por falar num tom tão hiperbólico que se torna praticamente impossível não ouvir a conversa.
Na realidade, não sei se posso considerar o que ouvi uma conversa, pois parecia mais um solilóquio, já que eu não ouvia o cabeleireiro que o atendia se manifestando. Cinco minutos depois, esse homem começou a esbravejar que os Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha deveriam se juntar para explodir o Oriente Médio, já que esses “povos estranhos” que espalham o mal estão “infestando” inclusive o Brasil.
No momento em que ele disse isso, coincidiu do camarada me pedir para acompanhá-lo até a outra sala, para lavar o meu cabelo. Quando me levantei e passei pelo orador, ele arroxeou, começou a gaguejar e, antes de articular uma nova frase, parou de falar. Ele não disse mais nada até a hora em que fui embora.


