Archive for the ‘Cotidiano’ tag
O banheiro

Abri a porta, ela entrou e continuei ali, trançando as pernas de vontade de urinar (Foto: Reprodução)
Eu e uma garota fomos até uma pizzaria, mas naquela pizzaria só havia um banheiro. Para não parecer grosseiro, sugeri que ela usasse primeiro e fiquei esperando a minha vez. Abri a porta, ela entrou e continuei ali, trançando as pernas de vontade de urinar. Nos primeiros minutos, chegou um rapaz e avisei que havia uma garota usando o banheiro. Ele me ignorou completamente e começou a gritar enquanto esmurrava a porta:
“Meu Deus! Quem tá aí dentro? Eu preciso entrar! Ande! Vamos! Eu quero usar! Saia logo daí, senão vou mijar na porta, cacete!” Incomodado com tamanha falta de educação, pedi ao sujeito que se retirasse e ameacei chamar o gerente. Surpreso, ele se afastou, levantou as mãos, fez um V com os dedos, em sinal de paz e amor, e foi embora.
Não passou mais de 30 segundos, a porta abriu e ela gritou comigo: “Qual é a sua, cara? Tem problema de raiva?” Ruborizado, tentei explicar o que aconteceu. Ela simplesmente riu. Claro, um daqueles risos vis de quem quer esfaqueá-lo vagarosamente. “Por acaso esse outro cara tem a mesma voz que a sua? Me mostre onde ele está! Agora eu quero ver!”, interpelou.
Respondi que era tarde demais, e provavelmente ele já tinha ido embora da pizzaria. Ainda irritada e descrente, esbravejou: “Vai lá, cara! Despeja tudo que você tem aí, porque pela forma como você falou não tenho dúvida alguma de que seu pirulito vai explodir.” Sem pensar duas vezes, corri para dentro do banheiro. Quando saí, já aliviado, ela tinha sumido.
A mulher do apartamento ao lado
Há algum tempo, eu estava saindo com uma garota que morava em um apartamento bem pequeno. Então sempre que eu chegava quando ela estava no banho, a gente tinha o costume de conversar pela porta. Eu nem entrava, simplesmente ficava no corredor. Só que um dia uma senhora que morava no apartamento ao lado abriu a porta e apareceu só de toalha, me pedindo para falar baixo porque ela se sentia vulnerável com o som da minha voz. Me desculpei e ela replicou:
“Você não entende que eu estou pelada? Só com esta toalha por cima? Não quero ouvir a sua voz, ela me traz lembranças desconfortáveis. Simplesmente não quero ouvi-la! Você não entende?” Fiquei confuso, mas respondi que entendi sim. Ela retrucou que se eu entendia não deveria falar mais nada no corredor, já que ela se sentia incomodada. Alegou que eu estava interferindo em sua privacidade de sentir-se nua e livre. Ainda disse que minha voz afugentava seu corpo.
Fiquei assustado e preocupado. Comecei a bater com força na porta do apartamento e minha garota disse que logo sairia. A idosa continuou me observando de longe, com um olhar inquisidor, muito esquisito e desafiador. Insatisfeita, ela abriu um pouco mais a porta e arregalou os olhos. Mesmo titubeante, declarei:
“Olha, senhora, eu só estou aguardando a minha garota aqui. Por favor, não quero confusão. Talvez a senhora esteja muito sensível. Me perdoe se fiz algo de errado.” Sobressaltada, franziu a testa e gritou: “O quê? Como ousa, seu filho da puta!” Então ela soltou a toalha, abriu bem a porta, deu dois passos completamente pelada, parou e ficou me olhando fixamente.
Ruborizado, sem saber como reagir, mirei a parede à minha direita e mantive meus olhos em um ponto fixo. Antes de fechar a porta, aquela senhora fez uma careta e gritou: “Seu porco!” várias vezes. Segundos depois, minha garota saiu e caímos fora de lá o mais rápido possível.
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Na saída da academia
Dias atrás, saindo da academia com a minha mala esportiva à mão esquerda, me recordei que assumi o compromisso de passar na casa de uma amiga antes das seis horas da tarde para buscar um livro. Como faltavam apenas dez minutos, corri até o meu carro que estava estacionado na Rua Luiz Spigolon. Nesse ínterim, notei que quatro pessoas também começaram a correr, e inclusive a atravessar a rua, se distanciando de mim.
Estranhei porque as duas moças e os dois rapazes usavam uniformes. Provavelmente não estavam se exercitando. “Por que estariam correndo?”, me questionei subitamente, sem dar grande margem para interpretações. Ainda suspeito que ouvi um ou dois gritos, mas como eu estava com fones de ouvido, não posso confirmar. De repente, me vi sozinho na calçada. Joguei a mala no banco direito, entrei no carro, ajeitei a barba e fui embora.
Você é o contador de histórias?
Quando eu estava na seção de hortifruti do mercado, um camarada muito gente boa caminhou em minha direção e perguntou: “Você é o contador de histórias?” Hesitei por um instante e ele continuou: “Tu que é o David Arioch!” Acenei com a cabeça e respondi com um sorriso benevolente, mas ainda longe de amadurecer: “Sou sim…”
“Cara, suas histórias são muito boas. Curto muito as histórias da sua barba.” Fiquei muito feliz em saber disso e agradeci, mas creio que nunca à altura do carinho que me ofertam quando me param na rua ou em outro lugar para fazer comentários elogiosos.
Algum tempo depois, o rapaz voltou e emendou: “Me acabei rindo com aquela do sinaleiro. É verdade mesmo?” Sorri, sem mostrar muito os dentes, e respondi automaticamente que sim.
Agradeci mais uma vez e me mantive no mesmo lugar onde em instantes senti a pele aveludada dos pêssegos. Depois pensei que eu deveria ter dito outra coisa, algo como: “Não totalmente, mas tudo passa a ser verdade na proporção daquilo em que acreditamos.”
Nos meus últimos anos como cabeludo…
Nos meus últimos anos como cabeludo, a pedido da minha mãe, fui até uma cidadezinha buscar alguns materiais de pavimentação que seriam descartados. Chegando lá, com cabelo comprido, e acompanhado de dois amigos também cabeludos, fiz o que tinha de fazer. Depois, aproveitando o tempo livre, passamos em um bar/restaurante. Meus amigos pediram cerveja e eu tomei um suco.
Nesse ínterim, chegou um senhor, desses bem animados, que envelhecem com muita alegria, e disse: “Ô meu filho, vocês que vieram tocar hoje à noite, né? Pode pedir o que quiser. É tudo por conta da casa. Daqui a pouco, vocês vão lá passar o som! O ambiente já tá todo ajeitado! É hoje! É hoje que o piso do salão vai afundar.”
Mesmo após explicar que tudo não passava de um equívoco, na saída do bar ainda vieram algumas pessoas sorrindo nos cumprimentar. Uma moça tirou até um CD de dentro da bolsa e pediu um autógrafo.
Quando eu raspava a cabeça…
Passei por muitas situações curiosas quando eu raspava a cabeça. Um dia, em Salto del Guairá, no Paraguai, enquanto aguardava meu irmão perto da Queen Anne, três ambulantes, desses que vendem palhetas de para-brisas, se aproximaram. Me recordei de um deles, de quem mais cedo tive pena e acabei comprando um par de palhetas que eu não precisava.
O mesmo rapaz estava de volta. Com um sorriso amarelecido e um olhar sobressaltado e dúbio, veio em minha direção e disse:
“Amigo, usted es federal, es la policía? Por lo tanto, quiero devolver el dinero de las palas que ha adquirido. Ellas son defectuosas. No quiero problemas, por favor. Perdóname, yo no sabía que era la policía. Por favor, quédate con este perfume. No necesita pagar nada.” Sem querer, e após muita insistência, acabei aceitando o perfume. Depois disso, os três foram embora sorrindo e recuando. Mais adiante, dei o “presente” a uma criança que vendia CDs em uma rua paralela.
No final da tarde, saindo do Paraguai, passei pela alfândega. Dois fiscais me cumprimentaram com muita cordialidade e falaram algo que até hoje não sei o que era. Naquele horário, enquanto meu carro foi liberado, os demais foram parados.
O Papai Noel e o muçulmano
Na entrada do mercado, uma criança veio em minha direção e me cutucou. Sem entender, perguntei se ela queria alguma coisa. “Por que você pintou a barba de preto, Papai Noel? Por quê? Por quê?” E o tom de voz da criança crescendo e ficando cada vez mais estridente, revelando irritação.
Constrangido, e notando algumas pessoas me observando, senti um alívio quando a mãe da criança se aproximou a passos céleres. A mulher se desculpou, pegou a filha pela mão e partiu. Mais adiante, ainda ouvi um princípio de conversa entre as duas: “Ele não é papai noel, filhinha. Ele é muçulmano, e muçulmanos não gostam de Papai Noel!”
A morte da senhora vizinha
Uma senhora que morava na minha rua morreu. O anúncio foi feito por dois cães mestiços que tentavam invadir a casa. Eles uivaram e deixaram marcas de garras na porta da cozinha. Em poucos minutos, esculpiram um emaranhado de riscos, sincretismo de tristeza e desespero. Sentiram sua ausência antes de testemunhá-la morta, caída na cozinha, vítima de AVC.
Juntos, cavaram um buraco no quintal, na ingênua tentativa de chegar até ela. Não se deixaram abater. Só abandonaram o buraco quando ouviram alguém abrindo o portão. Era o filho. “Mãe…mãe…cheguei!” Lorenzo e Matino se aproximaram do rapaz. Com os focinhos cheios de terra, latiram simultaneamente.
Desafinados pela estafa e pela desarticulação da surpresa, lamentaram como crianças órfãs, que ainda não aprenderam a falar. Lágrimas escorreram, assim como o uivo fragilizado e prolongado que, oscilante, se perdia como os fios de água que desciam incertos pelas bocas de lobo. O filho abriu a porta e os cães se adiantaram até a cozinha. Lamberam as mãos da mulher que já não existia.
O rapaz tapou a boca e gritou, reprimindo o som e engolindo o bafo quente como rajada de fogo. Enxugou as lágrimas na camiseta e chamou o Corpo de Bombeiros. “Não há mais o que ser feito.” Circulando o corpo, Lorenzo e Matino uivaram mais uma vez. Roufenho, o filho berrou: “Perdão, mãe! Perdão!” Sem fazer barulho, os cães se aproximaram e lamberam as mãos do rapaz.
Com a chegada dos funcionários da funerária, embalaram o corpo em um saco de PVC e partiram. O filho foi atrás, em seu carro, acompanhado por Lorenzo e Matino. Com a cabeça atravessando a janela, seguiram uivando para o nada, ou para o tudo, já que a vida celebra a morte tanto quanto a morte celebra a vida.
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O burrinho sentado
Aconteceu um fato inusitado na academia quando eu estava terminando o treino. Enquanto eu desmontava o leg press, notei um senhor me olhando. Acredito que ele mirava especificamente meu rosto. Talvez a minha barba. Simplesmente fingi que não percebi. Tirei uma grande quantidade de anilhas do leg press e decidi treinar panturrilhas.
Achei melhor começar pelo aparelho de gêmeos. Como a última pessoa a usá-lo foi justamente aquele senhor, atravessei até o outro lado da academia, onde ele fazia abdominais num canto, para perguntar se já tinha terminado de usar o tal aparelho, também chamado carinhosamente de “burrinho sentado”.
Depois de uma série de abdominais, o homem continuou deitado, com as mãos na testa e mirando o teto. Então me aproximei e perguntei: “O senhor terminou de usar o aparelho para panturrilha?” Acho que a minha presença era tudo que ele não esperava naquele momento. Levou um susto tão grande que seu corpo chegou a ficar suspenso no ar por um segundo, não sei ao certo. Só lembro da resposta e das balançadas de cabeça: “Terminei sim! Sim! Terminei sim!” Agradeci e caminhei em direção ao “burrinho sentado”.
Na fila do caixa
Na fila do caixa do mercado havia um senhor na faixa dos 80 anos, desinibido e conversador. De repente, percebi ele conversando com minha mãe e sorrindo. Curioso, me aproximei e ele comentou: “Que filho mais bonito que a senhora tem! Olhem pra esse rapaz!” Sem falar nada, até porque sou tímido, fiquei sorrindo que nem cachorro de porcelana na estante.
Àquela altura, enquanto muita gente me observava, o senhor emendou: “Quantos filhos a senhora tem?” Minha mãe respondeu três e ele interpelou: “Tudo bonito que nem esse?” Sem dar trégua, o homem chamou a atenção da moça do caixa e disse: “Olhe pra esse rapaz! E essa barba preta, como pode? Nunca vi uma barba preta como essa na minha vida. E como é bonito! Parece um galã!”, repetia. Calado, eu continuava sorrindo e balançando a cabeça, sem saber pra onde, também lembrando aqueles animaizinhos que os taxistas colocam no painel do carro.
“Não case, meu filho, não faça essa besteira. Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia. Quando acabar o sal, daí sim você pode pensar em se casar”, recomendou. Depois o homem apontou para um senhor ao seu lado e declarou: “Esse aqui é meu filho, já tá feio, coitado! Engordou e nem tem mais cabelo.”
A vítima, conhecendo o pai que tem, só riu, sem esculpir expressão de desconforto. Antes de pagar a moça do caixa e partir, o senhor mais velho sentiu o cheiro de pão quente saindo de um pacote nas mãos de minha mãe. “É pão quente? Posso pegar?” Minha mãe consentiu, abriu o saco, o homem tirou um pão, agradeceu e começou a comer tranquilamente.
Sem demora, caminhou até a saída dando um tapinha amistoso nas costas do filho, que retribuiu o gesto encostando a mão no ombro do pai. Em menos de minuto, desapareceram na escuridão solene, e por assim dizer transparente, da primavera.




