David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for January, 2016

A professora e o troco em balas

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Ao longo de um ano, ela, que não as consumia, acumulou uma grande quantidade (Foto: Reprodução)

Ao longo de um ano, ela, que não as consumia, acumulou uma grande quantidade (Foto: Reprodução)

Tive uma professora de matemática no ensino fundamental que além de lecionar também era uma autêntica contadora de histórias. Uma vez ela relatou em sala de aula algo que jamais esqueci. Sempre que a professora ia ao mercado ou loja de conveniência de um posto de combustíveis, as operadoras de caixas, seguindo determinações da gerência, lhe devolviam o troco em balas. Ao longo de um ano, ela, que não as consumia, acumulou uma grande quantidade.

Então, depois de estocá-las por um período mais do que considerável, um dia ela saiu de casa com dois sacos de balas e fez compras na mesma loja de conveniência e no mesmo mercado de sempre. Quando chegou ao caixa para pagar pela compra, ela não abriu a carteira. Simplesmente posicionou o saco de balas diante da operadora. A quantidade era mais que suficiente para abater o valor total dos produtos.

Assustada, a moça do caixa perguntou: “O que é isso?” E ela respondeu: “O troco que vocês me deram ao longo de um ano. Me dei o direito de usá-lo agora para pagar pelas minhas compras.” Assustada e sem saber como proceder, a moça chamou o gerente. Apesar da resistência inicial, o sujeito acabou dando razão para a professora que saiu do local sorrindo, fazendo valer o seu direito.

Written by David Arioch

January 6th, 2016 at 10:05 pm

Breve história de Paranavaí

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Conheça alguns dos fatos mais importantes de Paranavaí de 1910 até a década de 1980

Perímetro urbano de Paranavaí em 1956 (Foto: Toshikazu Takahashi)

Perímetro urbano de Paranavaí em 1956 (Foto: Toshikazu Takahashi)

Em 1910, a Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco), de propriedade do jornalista e empresário baiano Geraldo Rocha, começou a desbravar o Noroeste do Paraná, nominando Paranavaí e região como Gleba Pirapó.

Em 1926, a Braviaco criou uma estrada com 110 quilômetros de extensão ligando a Fazenda Ivaí, que se tornaria a Vila Montoya, ao Porto São José, com a finalidade de promover transações comerciais com Guaíra e Porto Mendes, no Oeste Paranaense, e Argentina para onde o café produzido seria transportado. Pelo mesmo caminho foi enviado todo o equipamento necessário para a viabilização de uma serraria, empreendimento determinante para a construção da sede da Fazenda Ivaí, atual Paranavaí.

A década de 1920 é apontada como a mais difícil para os moradores da colônia pelo fato de terem vivido isolados no meio da mata, correndo o risco de serem atacados por animais selvagens. Além disso, o difícil acesso a outras localidades complicava mais ainda a situação. Até mesmo a carne consumida na Fazenda Ivaí vinha de muito longe, era comprada no Mato Grosso do Sul, para onde um encarregado e alguns peões viajavam enfrentando uma série de desventuras para trazer a boiada em um barco a vapor.

Em 1928, a Vila Montoya, baseada na monocultura cafeeira, ganhou contornos de cidade. A colônia oferecia tudo que era necessário à sobrevivência dos mais de seis mil moradores. No entanto, o único acesso ao distrito era a estrada do Porto São José, na divisa com o atual Mato Grosso do Sul. Todos que iam para Montoya usavam a mesma via, que servia também para ligar a colônia ao Porto Ceará e a Presidente Prudente, no Oeste Paulista, segundo o livro “História de Paranavaí”, do escritor Paulo Marcelo Soares da Silva.

Em 1930, foram trazidas à Fazenda Brasileira cerca de 1,2 mil famílias de migrantes para trabalharem nas lavouras de café sob regime de colonato. O trabalho foi interrompido inesperadamente um ano depois. Após a Revolução de 1930, o título de propriedade da Gleba Pirapó foi cassado, o que comprometeu o desenvolvimento de Montoya.

Em 8 de abril de 1931, ano em que a extinta Vila Montoya foi nominada como Fazenda Brasileira, o interventor federal do Paraná, o general Mário Tourinho, assinou um decreto retomando as terras da localidade e autorizou o início dos loteamentos.

Também na década de 1930, quem precisava viajar para outras cidades do Paraná era obrigado a atravessar a divisa com o Estado de São Paulo, embarcar em um trem que percorria a antiga Estrada de Ferro Sorocabana até Ourinhos, e de lá partir para Tibagi, no Centro Oriental Paranaense, a quem o distrito de Montoya pertencia.

Em 1933, o interventor Manoel Ribas visitou a Fazenda Brasileira. Para facilitar o contato com outras colônias e cidades do Paraná, além de diminuir a influência paulista na localidade, Ribas pediu que o engenheiro civil Francisco Natel de Camargo iniciasse a abertura de outra estrada que começava em Arapongas, no Norte Central do Paraná, se ligando à Estrada Boiadeira. Entretanto, a colonização da Brasileira só voltou a ser intensificada em 1935.

Em 1942, Ulisses Faria Bandeira, funcionário da Inspetoria de Terras do Estado do Paraná, dirigida por Francisco de Almeida Faria, foi transferido de Londrina à Fazenda Brasileira para demarcar a primeira via da colônia, a Avenida Paraná. Bandeira e o administrador da colônia, Hugo Doubek, fizeram o trabalho de demarcação territorial da colônia a pé, tendo como referência a localização de todos os moradores do povoado. Pelo fato da colônia ter surgido sob a égide da cafeicultura, as principais ruas e avenidas foram traçadas visando o escoamento das produções, não o desenvolvimento urbano.

O nome Paranavaí surgiu apenas em 1944, por sugestão do engenheiro Francisco de Almeida Faria que destacou a necessidade de batizar a cidade com nome único. Pouco tempo depois, a partir do neologismo que é uma junção dos Rios Paraná e Ivaí, surgiu a Colônia Paranavaí. Logo muitos investidores se interessaram pela região considerada ideal para a cafeicultura em função das grandes áreas de solo virgem.

A partir de 1946, a colonização na região de Paranavaí ganhou tanta força que anos depois superou as regiões de Maringá e Umuarama, de acordo com dados do IBGE. À época, o que contribuiu para o desenvolvimento local foi o trabalho das colonizadoras de capital privado.

Entre os anos de 1940 e 1950, já viviam em Paranavaí, além de migrantes de todas as regiões do Brasil, portugueses, italianos, alemães, poloneses, russos, ucranianos, espanhóis, japoneses, franceses, suíços, húngaros, sírios e libaneses, além de povos de outras etnias. Muitos moradores diziam que Paranavaí tinha tudo para ser a “terceira capital do Paraná”, logo atrás de Curitiba e Londrina.

Em 14 de dezembro de 1951, com o empenho do primeiro vereador de Paranavaí em Mandaguari, Otacílio Egger, que teve ajuda do pioneiro paulista Paulo Tereziano de Barros, a colônia conquistou a emancipação política por meio da lei estadual nº 790. No entanto, foi necessário esperar mais um ano para a elevação de Paranavaí a município, após a eleição que elegeu o médico José Vaz de Carvalho como prefeito de Paranavaí. Ele obteve 2702 votos contra 1607 do adversário Herculano Rubim Toledo. De acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Paranavaí contava com 22.260 habitantes em 1951. À época, Mandaguari tinha 15.434 e Maringá possuía 8.898 moradores.

Em 14 de dezembro de 1952, quando Paranavaí se tornou município, a população local somava 25.520 habitantes, segundo o IBGE.

Em 1960, com exceção de Curitiba, se tratando de desenvolvimento, Paranavaí só perdeu para a região de Londrina que chegou aos 600 mil moradores. A cidade teve uma evolução exemplar. Era vista como símbolo de progresso no Paraná, uma imagem que ganhou solidez em 1956, quando uma pesquisa da Associação Brasileira dos Municípios apontou Paranavaí como uma das cinco cidades com maior índice de desenvolvimento do país.

Nos anos 1980, a pecuária já ocupava mais de um milhão de hectares na região de Paranavaí. De acordo com a Secretaria Nacional de Defesa Civil, uma reação ao que aconteceu em 1969, quando a última e mais grave geada dizimou 80% da produção cafeeira. A diversificação de culturas surgiu tardiamente em Paranavaí, marcada por investimentos mais maciços em citricultura e mandiocultura. Desde então a economia local passou por uma nova pluralização. Exemplo disso é o fato de que na atualidade os setores de prestação de serviços, construção civil e comércio também respondem por importante parcela da geração de renda e empregos em Paranavaí.

Written by David Arioch

January 6th, 2016 at 11:53 am

Cultura como necessidade primária

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O brasileiro é estimulado diariamente a não ter uma noção plausível do que significa cultura

Cultura também é muito daquilo que as pessoas fazem, mas infelizmente não têm a mínima ideia de sua importância (Arte: Reprodução)

Cultura é muito daquilo que as pessoas fazem, mas muitas vezes não têm a mínima ideia de sua importância (Arte: Reprodução)

Em um país onde não se investe mais que 0,6% em cultura, ou seja, menos de 1% do orçamento da União, poucos políticos se importam em defender a bandeira da área cultural, tão menosprezada em comparação a outros setores considerados primários. Ora, se a cultura não é uma necessidade primária, já que se vincula à identidade humana, o que mais poderia fazer o homem reconhecer a si mesmo e seus semelhantes como parte de algo? Já passou da hora de se entender que educação, saúde, segurança e questões sociais serão sempre incompletas se não forem devidamente relacionadas à cultura.

O próprio desconhecimento do local onde se vive e do espaço dividido com outros é uma consequência do descaso cultural. Pessoas cometem homicídios diariamente por causa da banalização da vida. Não se reconhecem como parte de nada e tornam-se incapazes de encararem outro ser humano como alguém da mesma espécie, que já nasce embutido de valor. Tudo isso é reforçado pela falta de pertencimento, o que tem relação direta com a ausência de uma sólida formação cultural.

Se tratando de saúde, principalmente emocional e psicológica, sabemos o quão terapêutica é a cultura. Nada mais atribui ao homem um senso de valor tão pleno, rico e heterogêneo em âmbito individual ou coletivo. Gênios da humanidade surgiram graças à edificação da capacidade de se universalizar pensamentos, emoções e sentimentos que têm como base uma bagagem cultural. Se me emociono com um fazer artístico, logo não estou sozinho, deixando de me sentir só, assim se reduz alguns dos males da hipermodernidade.

Quem avalia a realidade sob um prisma exíguo, paliativo e superficial se restringe ingenuamente a falar apenas em investir em mais armamentos e construir mais prisões. Prefiro que priorizem a construção de espaços culturais e que sensibilizem crianças e adolescentes através da inclusão de atividades culturais nas escolas e universidades. É preciso dar oportunidades para que cada um descubra em si uma habilidade ou afinidade cultural. A cultura é tão vasta que é impossível que alguém não se identifique com nada.

Com a sensibilização cultural, imagino que possamos minimizar problemas comportamentais, além de contribuir para a descoberta precoce de potencialidades que podem culminar na revelação de dons. Cultura também é muito daquilo que as pessoas fazem, mas muitas vezes não têm a mínima ideia de sua importância.

O brasileiro é estimulado diariamente a não ter uma noção plausível do que significa cultura, já que isso implica em uma conscientização e distanciamento do analfabetismo funcional. Ainda falando de cultura, não tenho dúvidas de que é preciso ser guerreiro para descer caminhando e subir correndo.

Written by David Arioch

January 5th, 2016 at 1:50 pm

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Morro Três Irmãos era usado por criminosos

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Muitos moradores de Terra Rica se recusam a frequentar o local quando escurece (Foto: Cláudia Lanziani)

Muitos moradores de Terra Rica se recusam a frequentar o local quando escurece (Foto: Cláudia Lanziani)

Na década de 1950, o Morro Três Irmãos, em Terra Rica, mais conhecido como Três Morrinhos, era usado por criminosos como refúgio. No local, dizem que foram assassinadas muitas pessoas. Uma senhora que ainda mora na cidade me contou que nos tempos da colonização de Terra Rica, o tio dela torturou, matou e escondeu o cadáver de um homem em uma caverna de difícil acesso no terceiro morro. Outros pioneiros relataram que dependendo do dia, quando se passa perto do morro à noite, é possível ver uma “luzinha” seguindo os passantes. Por tal motivo, muitos moradores de Terra Rica se recusam a frequentar o local quando escurece.

 

 

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January 4th, 2016 at 12:25 pm

A fé do sertanejo

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A autoria da foto é desconhecida até hoje

Embora embutida de poesia, a autoria da foto é desconhecida até hoje

A foto que parece tirada do filme “O Pagador de Promessas”, do grande Anselmo Duarte, na realidade é a imagem de um sertanejo que se mudou para Paranavaí no início da década de 1950 em busca de um futuro melhor. Em meio ao vazio, percebe-se um todo que o migrante sonhava em preencher com a própria esperança.





Written by David Arioch

January 4th, 2016 at 12:20 pm

Coca-cola foi criada por um médico e farmacêutico

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Pemberton Pemberton era um especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas (Foto: Reprodução)

Pemberton era um especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas (Foto: Reprodução)

Existe algo mais paradoxal do que a Coca-Cola ter sido inventada por um médico e farmacêutico que queria criar um refresco para amenizar cefaleia? E mais, John Pemberton era um estudioso e especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas. Pois é, a contradição nos acompanha desde sempre.

Written by David Arioch

January 4th, 2016 at 12:18 pm

APDE faz a diferença em Paranavaí

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Na foto, a equipe da APDE que faz a diferença na vida de muita gente em Paranavaí (Foto: David Arioch)

Equipe da APDE que oferece assistência aos portadores de câncer em Paranavaí (Foto: David Arioch)

No dia 15 de dezembro de 2015, passei quase a manhã toda conversando com o pessoal da Associação dos Portadores de Doença Especial (APDE), entidade que atende vítimas de câncer em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. A primeira vez que estive lá foi em 2006. É muito bom retornar e ver quanto amor eles dedicam a tantas pessoas passando pelo momento mais delicado de suas vidas. Nas poucas horas que estive lá, presenciei a chegada de inúmeros voluntários entregando doações. Em síntese, assisti pessoas recebendo não apenas atendimento de boa qualidade, mas também muitos abraços.

Written by David Arioch

January 4th, 2016 at 12:13 pm

Um dia de foca

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Visivelmente encolerizada, a mulher pensou que fomos lá para prejudicá-los, criar um factoide

Não havia muitas pessoas circulando pelas ruas pacatas da cidade (Foto: Reprodução)

Não havia muitas pessoas circulando pelas pacatas ruas de Querência do Norte (Foto: Reprodução)

Ser jornalista já me permitiu passar por muitas situações insólitas. Uma delas surgiu em Querência do Norte, no extremo Noroeste do Paraná, em 2006. Na manhã daquele dia, que pouco importa a data específica, o meu amigo e jornalista Cleber França saiu de Maringá, passou em Paranavaí e juntos fomos para Querência a bordo de um Renault Clio prata, acostumado a circular pelos terrenos mais inóspitos da região.

Sem dúvida, era um carro que surpreendia pelo viço, chegando a voar por metros em áreas de estradas ruins, onde muita gente só trafegaria de caminhão ou caminhonete. A verdade é que ele parecia acostumado a nos transportar pelos mais diferentes destinos da região, em busca de curiosidades, personagens e histórias pitorescas.

No caminho para Querência do Norte encontramos animais silvestres mortos na estrada, o que me parecia sempre trágico, principalmente quando os filhotes cercavam o pai ou a mãe que nunca mais veriam, emitindo gemidos vigorosos ou fragilizados. O som não transformava nada ao seu redor. Sequer parecia mover a tiririca que brotava no canto do asfalto tórrido. Ainda assim a iteração da cena não a tornava menos adventícia. Talvez fosse reles para tantos outros, não para mim que via cada morte animal como um exemplo da nossa displicência e efemeridade existencial.

Bom, continuando. Chegamos em Querência por volta das 9h30. Era um dia quente, dando a impressão de um Sol maior e mais baixo, e não havia muitas pessoas circulando pelas pacatas ruas da cidade, onde os cantos dos pássaros se misturavam aos sons de rodas, latidos e miados. No centro, fomos até uma lanchonete e pedi informações sobre onde poderíamos encontrar um líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da cidade, considerado um dos mais antigos do Paraná.

Então um senhor simpático, usando sandálias, bermuda e camisa, parou de polir as garrafas de cachaça e sugeriu que deixássemos o assunto de lado, alegando que desconhecidos, principalmente jornalistas, poderiam ser hostilizados. “Procure outra história porque essa daí acho que não vai prestar. Vai por mim”, disse o homem sem piscar, mantendo um sorriso enviesado e um olhar fixo em nossa direção. Agradecemos e saímos da lanchonete.

A verdade é que nosso objetivo principal era coletar informações sobre a realidade dos produtores de arroz irrigado. No entanto, como éramos movido pela abelhudice dos focas, jornalistas recém-formados, queríamos fazer muito mais. Em poucas horas, fomos aos portos Natal, Felício e 18. Entrevistamos proprietários e funcionários de balsas, além de ribeirinhos e pescadores. À tarde, voltamos para a área urbana de Querência do Norte e conversamos com alguns produtores de arroz. Todos foram bem receptivos.

Antes de nossa partida, conhecemos um personagem aparentemente bonachão, um agricultor de meia-idade que no passado ocupou posição de destaque no MST da cidade. Ele nos convidou para ir até uma cooperativa fotografá-lo com um saco de arroz. Chegando lá, entramos em um enorme barracão de estocagem, onde havia centenas de sacos bem posicionados. Para ser fotografado, sugerimos que o homem sorrisse, mostrando o conteúdo do saco e também deixando o cereal escorrer entre seus dedos.

Depois de fotografá-lo várias vezes, quando estávamos saindo do barracão fomos interrompidos pela diretora da cooperativa. “O que vocês pensam que estão fazendo?”, questionou. Respondemos que fomos convidados por um senhor bigodudo que se apresentou como sócio da cooperativa. Assim que olhamos para o lado, o homem entrou em seu carro e partiu sem dar explicações.

Visivelmente encolerizada, a mulher pensou que fomos lá para prejudicá-los, criar um factoide. Chamou a atenção de seis ou sete homens que estavam mais próximos e, esbravejando, ordenou: “Tranquem todas as saídas! Eles não vão sair daqui tão cedo!” Na sequência, ouvi o som retumbante do denso portão de ferro se fechando, com a trava já acionada. Dei um sorriso amarelecido e, mesmo tentando velar a tensão, estremeci, sentindo uma perna mais leve que a outra.

Alguns caras à nossa volta nos observavam com desprezo e chalaça, inclusive pressionando as próprias mãos, num gesto de intimidação. Quando tentei explicar quem éramos e o que fazíamos ali, ela disse que não interessava. “Sei muito bem que trabalho vocês fazem. Já recebemos gente como vocês há poucos dias. Única coisa que quero é essa câmera fotográfica”, exigiu olhando diretamente para o Cleber que a segurava com as duas mãos, como se embalasse o próprio filho.

Ele se negou a entregar a câmera e a mulher caminhou em nossa direção. Balançou os braços no ar e ordenou que as fotos fossem apagadas. Com receio de perder todo o nosso trabalho, não deixamos ela tocar no equipamento. Contudo, concordamos em deletar as fotos da cooperativa diante dela. Embora ainda irritadiça, algum tempo depois ela concordou em abrir o portão.

“Olhe a placa do carro e o adesivo no vidro traseiro. Nunca estivemos aqui. A senhora nos confundiu com alguém,” justifiquei, tentando amenizar a situação pela última vez. Sem interesse em dialogar, a mulher apenas recomendou: “Só digo mais uma coisa. Se sair uma foto daqui em algum jornal, pode ter certeza que vou atrás de vocês. Ah, se vou!”, prometeu.

Diante de tanta intransigência, apenas nos calamos e deixamos aquele lugar. Lá fora, rimos pateticamente, como se o medo jamais tivesse nos alcançado. E não evitei de me recordar da profética recomendação do dono da lanchonete ao saber que a diretora da cooperativa também fazia parte do MST. Nem esqueci da expressão do agricultor falsamente bonachão que talvez estivesse rindo de nós e não para nós nas fotos, antevendo a confusão.