David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“É intrigante a forma como tratamos certos animais, não?”

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Acervo: Animal Equality

— Posso fazer uma pergunta?
— Sim, sem problema.
— O que o senhor vê nessa imagem?
— Um animal selvagem sendo morto.
— E o que o senhor acha disso?
— Claro que acho terrível. É uma coisa grotesca. Inadmissível!
— Entendo.
— E o que o senhor acha dessas outras imagens?
Mostro imagens de um boi, um porco e uma galinha sangrando durante o abate.
Silêncio.
— É intrigante a forma como tratamos certos animais, não?
— É sim…mas é a nossa cultura, né? Afinal, a maioria come carne.
— Entendo…realmente.
— Agora convido o senhor a pensar em uma outra situação. E se o animal que as pessoas mais comessem fosse aquele da primeira imagem?
— Isso não seria possível.
— Por quê?
— Porque seria doentio, nojento.
— Mas não é carne também?
— Sim, mas não é inerente à nossa cultura. Comemos bois, vacas, porcos, frangos, galinhas…animais comuns, que existem para isso.
— Pois é. Mas neste caso não é um condicionamento, uma construção cultural, alimentar-se de um animal e não de outro?
— Talvez, pode ser.
— Será realmente que os animais concordam com essa perspectiva de que eles existem para nos servir? Sendo isso um fato, eles não deveriam morrer felizes, trazendo nos olhos uma expressão de contentamento e nobreza?
— Isso eu não sei, mas creio que não importe tanto pra maioria.
— E se eu disser ao senhor que do ponto de vista da ciência tanto o animal da primeira imagem quanto os demais estão em níveis muito próximos de senciência? Sentem medo, ansiedade, desespero. Enfim, reagem a dor e, sempre que possível, resistem à morte.
— É triste, mas fazer o que…
— Se possível, peço que o senhor reflita sobre essa dissonância na maneira como julgamos que uns animais têm direito à vida e outros não. Realmente precisamos matar? Devemos matar? Ou podemos viver muito bem sem matar nenhuma criatura? É só uma sugestão de reflexão. Obrigado.
— Tudo bem…

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Quatro horas ministrando palestra sobre a história de Paranavaí

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Foto: Unipar

Hoje de manhã, ministrei uma palestra de quatro horas sobre a história de Paranavaí para professores de história e geografia. Falei um pouco da colonização e formação de Paranavaí. Depois enveredei pela história de importantes personagens locais e regionais, além de abordar a história e a realidade de bairros da periferia, como a Vila Alta.

Estou sem voz, mas a experiência foi muito boa. Boa interação e todo mundo prestando atenção; ninguém bocejando ou dormindo. Foi mais uma experiência gratificante. Sem dúvida, uma das melhores partes de uma palestra é quando as pessoas conversam com você ao final, elogiam o seu trabalho e pedem para tirar foto contigo. É um bom indicativo.





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July 3rd, 2017 at 8:38 pm

O Ocidente no Oriente e o Oriente no Ocidente

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Se no passado o Ocidente foi ao Oriente, hoje é o Oriente que mais uma vez chega ao Ocidente das mais diferentes formas. O que não me parece surpreendente, já que desde sempre o Ocidente flerta com o Oriente, e vice-versa. Não há como ser purista em um mundo em constante metamorfose.

O sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri, é considerado um dos maiores poetas da cultura árabe, e foi influenciado substancialmente pelos gregos no século 11. Por outro lado, o alemão Arthur Schopenhauer, um dos mais importantes filósofos do século 19, escreveu sobre a moralidade tendo como uma de suas principais referências o sânscrito védico, de origem indiana.

Written by David Arioch

January 16th, 2017 at 1:32 pm

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Drnovšek: “Comemos carne porque infelizmente fomos criados dessa forma”

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Slovenija,Brdo pri Kranju,26.04.2007,Predsednik drzave je na dvorcu Brdo sprejel ciprskega predsednika Tasosa Papadopulosa.Foto:Matej Druznik/DELO

“Me tornei vegetariano há anos e depois aderi ao veganismo (Foto: Matej Druznik/Delo)

“Comemos carne porque infelizmente fomos criados dessa forma. Mas me tornei vegetariano há anos e depois aderi ao veganismo. Temos grande quantidade de opções, alimentos vegetais bem variados que são o suficiente para nossas necessidades. Dei esse passo seguindo um forte sentimento pessoal. Algumas pessoas acreditam que a alimentação vegana é limitada ou sem graça, e claro que isso não é verdade. Ela pode ser bem diversificada.”

Janez Drnovšek, ex-presidente da Eslovênia em entrevista à Revista Liberation of Animals, edição de janeiro de 2006, editada pela Sociedade pela Libertação e Direitos Animais da Eslovênia. Drnovšek é apontado como o principal responsável pelo progresso da Eslovênia a partir de 1992, após o fim da Iugoslávia.

Graças ao seu trabalho, o país entrou para a lista de nações com maiores índices de desenvolvimento humano do mundo. Além de projetos bem-sucedidos de reconstrução econômica, Janez Drnovšek fundou o Movimento para Justiça e Desenvolvimento Social da Eslovênia. Com uma proposta de fortalecer a consciência humanitária, englobando também a defesa dos direitos animais, ele obteve grande aprovação por parte dos eslovenos.

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Written by David Arioch

December 27th, 2016 at 12:56 pm

Barbas e olheiras

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Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, conversando com o artista Henrique Moura

Barbas e olheiras – Os homens que não dormem. Eu e meu brother Henrique Moura. Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, onde o artista e criador do icônico Predo Bandeira (seu alter ego) dedica seu dia e sua noite a produzir vídeos independentes de animação.

Muitas referências, muitas colagens e muita coisa autoral da mais alta qualidade. O encontro rendeu horas de papo sério, bobagens e muito café. Disso aí vai sair uma narrativa veloz, intensa e reveladora.

Para quem quiser conhecer o cinema independente de animação da Oficina Raspa Língua, acesse: http://raspalingua.com/site/

Written by David Arioch

November 23rd, 2016 at 1:29 am

Vale-cultura, um pequeno investimento que pode fazer a diferença

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Embora o valor do benefício seja pequeno, um ponto positivo é que ele é cumulativo

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Adesão ao programa pode ser feita no site do Sistema Vale-Cultura (Foto: Divulgação)

Criado em 2012 pelo Ministério da Cultura (Minc), o Vale-Cultura ainda é pouco difundido no interior do Brasil, principalmente em cidades de pequeno e médio porte. O maior obstáculo é que muitos empresários ainda desconhecem o funcionamento do benefício mensal de R$ 50 que pode ser concedido aos trabalhadores, e sem risco de oneração.

Embora o valor do benefício seja pequeno, um ponto positivo é que ele é cumulativo, o que é vantajoso caso o trabalhador opte por não retirar o Vale-Cultura mês a mês, já que o dinheiro pode ser usado não apenas na compra de ingressos para shows e espetáculos, mas também de CDs, DVDs, equipamentos musicais, artesanato e pagamento de cursos de artes, etc. O objetivo é fazer com que os trabalhadores tenham mais acesso à cultura.

Um benefício trabalhista nos moldes do auxílio-alimentação, o Vale-Cultura depende estritamente da adesão das empresas, já que elas são as responsáveis pela oferta. De acordo com o Ministério da Cultura, as empresas tributadas com base no lucro real têm o direito de deduzir do imposto de renda a maior parte do valor destinado ao Vale-Cultura. Sendo assim, cada empresa paga R$ 5 para que seus funcionários tenham direito aos R$ 50, dinheiro que pode ou não ser cobrado na folha de pagamento dos empregados. Os outros R$ 45 são descontados do IR.

Todas as empresas em situação de regularidade fiscal e que tenham empregados com vínculo empregatício formal podem se cadastrar no sistema. Após a adesão, os empresários asseguram o direito de receber incentivos especiais oferecidos pelo Governo Federal. Segundo o Ministério da Cultura, o investimento é uma forma de ajudar a fomentar a produção cultural.

Os R$ 50 do Vale-Cultura são entregues aos trabalhadores através de um cartão magnético pré-pago aceito em 40 mil empresas do Brasil, inclusive lojas virtuais. Outra informação interessante e pouco divulgada é que as prefeituras também podem aderir ao Vale-Cultura, usando como referência o modelo do programa e então aprovando uma legislação para regulamentá-lo.

O Minc defende que o Vale-Cultura pode fazer a diferença na vida de muitos trabalhadores que ainda não têm condições de pagar por produtos e serviços culturais. Ampliando esse consumo, todos se beneficiam. A empresa por oferecer novas oportunidades aos seus funcionários, os valorizando mais; o trabalhador por se sentir recompensado no ambiente de trabalho; e os artistas e outros profissionais da área cultural por conquistarem mais público, consumidores e alunos.

É importante lembrar que empresas interessadas em receber o Vale-Cultura como forma de pagamento podem se cadastrar como recebedoras no site do Ministério da Cultura, assim incentivando a produção e a circulação de cultura no Brasil.

Como cadastrar uma empresa no Sistema do Vale-Cultura

Acesse: http://vale.cultura.gov.br, clique no link “Cadastrar Beneficiária” e preencha o formulário.

Written by David Arioch

March 31st, 2016 at 1:24 pm

Museu de Paranavaí vai ser reinaugurado em abril

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Nova sede vai abrigar mais de 600 objetos e 2,8 mil fotos sobre a história local

Fachada do Museu de Paranavaí que vai funcionar ao lado da Casa da Cultura (Foto: David Arioch)

Fachada do Museu de Paranavaí que vai funcionar ao lado da Casa da Cultura (Foto: David Arioch)

Fundado em 2007, o Museu de Paranavaí sempre funcionou nas dependências da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade. Porém, a partir da segunda quinzena de abril, o museu começa a atender em um novo espaço – na antiga Estação do Ofício. Atualmente o local está passando por reformas e adaptações feitas pelos colaboradores da Fundação Cultural de Paranavaí.

“Estamos fazendo um trabalho com muito amor e carinho, baseado no improviso e na criatividade”, comenta a coordenadora do Museu Histórico, Antropológico e Etnográfico de Paranavaí, Rosi Sanga, que ao longo dos anos conseguiu reunir mais de 600 peças que remetem às mais diferentes fases da formação de Paranavaí.

Há inclusive objetos dos tempos da Fazenda Brasileira, como Paranavaí era conhecida nas décadas de 1930 e 1940, e um acervo com 2,8 mil fotos. Muitas já foram digitalizadas e devem compor o Memorial Digital do Pioneiro. “Assim que o Museu for reinaugurado, vamos continuar com nossas exposições. Elas são baseadas em histórias que começam na época dos índios, embora eles não tenham vivido exatamente onde a cidade surgiu. Também falaremos da derrubada da mata, da fase econômica do café e de outros ciclos. O mais interessante é que aqui cada objeto tem uma memória a ser narrada”, revela Rosi.

Uma das paredes do museu está abrigando quadros que ajudam a contar a história de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Uma das paredes do museu está abrigando quadros que ajudam a contar a história de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Uma das paredes do museu já está abrigando quadros que ajudam a contar a história de Paranavaí através das pinturas da artista Cecília Tortorelli. Importante referência para quem quer aprender um pouco sobre a colonização local e regional, o museu possui coleções, objetos do cotidiano, itens numismáticos, documentos e instrumentos de trabalho. Visitar o museu é uma grande oportunidade para entender o surgimento de Paranavaí e o seu desenvolvimento, principalmente nas décadas de 1930, 1940, 1950 e 1960.

Outra novidade é que no entorno do museu vai ser criado um canteiro com ervas medicinais usadas nos tempos da colonização. “Do lado de fora, vamos exibir depoimentos de pioneiros sobre essas ervas. Também vamos deixar dois tipógrafos em exposição na parte externa”, enfatiza. A tradicional Sala de Imagem e Som, que funcionava na Casa da Cultura e reunia um bom acervo de materiais e equipamentos de rádio, TV e cinema, também vai funcionar nas dependências do museu.

“A partir da segunda quinzena de abril, se tudo der certo, vamos atender das 8h às 17h, mas caso alguém nos ligue com antecedência, querendo conhecer a exposição, podemos abrir também fora do horário comercial”, declara a coordenadora. O Museu de Paranavaí continua recebendo doações, desde que sejam itens com relevância histórica. Para mais informações, ligue para (44) 3422-5018.

Saiba Mais

O Museu Histórico, Antropológico e Etnográfico de Paranavaí é administrado pela Fundação Cultural de Paranavaí.

Não confunda skinhead com bonehead

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Derrick Morgan, até hoje lembrado como um dos maiores nomes do movimento skinhead (Foto: Reprodução)

O rapaz da foto é o jamaicano Derrick Morgan, um dos maiores expoentes do movimento skinhead. Na juventude, ele fez importantes parcerias com músicos como Desmond Dekker, Bob Marley e Jimmy Cliff.

Levando isso em conta, acho válido enfatizar que a cultura skinhead em essência nunca defendeu o uso de violência, muito menos qualquer forma de racismo ou preconceito. Esse tipo de conduta é inerente aos boneheads, um movimento completamente diferente que inclusive se apropria de forma equivocada e ilícita da palavra skinhead, um termo hoje totalmente vulgarizado e descontextualizado por causa da desinformação.

Por isso é muito importante não chamar de skinhead qualquer careca que incentive a violência. Sem dúvida, é uma ofensa tremenda e uma grande injustiça contra muita gente não só do Brasil, mas do mundo todo que contribuiu e continua contribuindo com os ideais de liberdade do movimento. Para quem quiser entender a real história dos skinheads, sugiro que assista ao filme “This Is England”, do cineasta inglês Shane Meadows. Originalmente, os skinheads se identificaram com gêneros musicais como rocksteady, reggae, soul, ska e mais tarde punk-rock.

Written by David Arioch

January 27th, 2016 at 11:08 pm

Cultura como necessidade primária

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O brasileiro é estimulado diariamente a não ter uma noção plausível do que significa cultura

Cultura também é muito daquilo que as pessoas fazem, mas infelizmente não têm a mínima ideia de sua importância (Arte: Reprodução)

Cultura é muito daquilo que as pessoas fazem, mas muitas vezes não têm a mínima ideia de sua importância (Arte: Reprodução)

Em um país onde não se investe mais que 0,6% em cultura, ou seja, menos de 1% do orçamento da União, poucos políticos se importam em defender a bandeira da área cultural, tão menosprezada em comparação a outros setores considerados primários. Ora, se a cultura não é uma necessidade primária, já que se vincula à identidade humana, o que mais poderia fazer o homem reconhecer a si mesmo e seus semelhantes como parte de algo? Já passou da hora de se entender que educação, saúde, segurança e questões sociais serão sempre incompletas se não forem devidamente relacionadas à cultura.

O próprio desconhecimento do local onde se vive e do espaço dividido com outros é uma consequência do descaso cultural. Pessoas cometem homicídios diariamente por causa da banalização da vida. Não se reconhecem como parte de nada e tornam-se incapazes de encararem outro ser humano como alguém da mesma espécie, que já nasce embutido de valor. Tudo isso é reforçado pela falta de pertencimento, o que tem relação direta com a ausência de uma sólida formação cultural.

Se tratando de saúde, principalmente emocional e psicológica, sabemos o quão terapêutica é a cultura. Nada mais atribui ao homem um senso de valor tão pleno, rico e heterogêneo em âmbito individual ou coletivo. Gênios da humanidade surgiram graças à edificação da capacidade de se universalizar pensamentos, emoções e sentimentos que têm como base uma bagagem cultural. Se me emociono com um fazer artístico, logo não estou sozinho, deixando de me sentir só, assim se reduz alguns dos males da hipermodernidade.

Quem avalia a realidade sob um prisma exíguo, paliativo e superficial se restringe ingenuamente a falar apenas em investir em mais armamentos e construir mais prisões. Prefiro que priorizem a construção de espaços culturais e que sensibilizem crianças e adolescentes através da inclusão de atividades culturais nas escolas e universidades. É preciso dar oportunidades para que cada um descubra em si uma habilidade ou afinidade cultural. A cultura é tão vasta que é impossível que alguém não se identifique com nada.

Com a sensibilização cultural, imagino que possamos minimizar problemas comportamentais, além de contribuir para a descoberta precoce de potencialidades que podem culminar na revelação de dons. Cultura também é muito daquilo que as pessoas fazem, mas muitas vezes não têm a mínima ideia de sua importância.

O brasileiro é estimulado diariamente a não ter uma noção plausível do que significa cultura, já que isso implica em uma conscientização e distanciamento do analfabetismo funcional. Ainda falando de cultura, não tenho dúvidas de que é preciso ser guerreiro para descer caminhando e subir correndo.

Written by David Arioch

January 5th, 2016 at 1:50 pm

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Neusa Sanches conta a história do Femup

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Neusa fez parte da turma de estudantes que criou um dos festivais mais antigos do Brasil em atividade

Neusa Sanches: “A ideia de se chamar de festival partiu do professor Gomes da Silva” (Foto: Amauri Martineli)

Neusa Sanches: “A ideia de se chamar de festival partiu do professor Gomes da Silva” (Foto: Amauri Martineli)

“Nós éramos a turma pioneira do curso clássico do Colégio Estadual de Paranavaí [CEP]. Nos reunimos em 13 alunos para discutir sobre a formatura e pensamos em realizar alguma promoção”, conta a professora Neusa Sanches, uma das fundadoras do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), criado em 1966.

A princípio, por iniciativa de Osvaldo Cruz, vários estudantes cogitaram a possibilidade de fazer um baile, até que Neusa Sanches sugeriu uma noite de artes. Todos concordaram com a ideia e procuraram o professor Gomes da Silva, do Rio de Janeiro, que ministrava aos alunos um curso de oratória e liderança. “Fomos até o Hotel Elite, onde ele estava hospedado. Falamos a nossa ideia e ele achou ótima”, lembra Neusa.

A primeira sugestão da turma foi a abertura de inscrições de poemas inéditos. Como não havia categoria música, a animação do evento era feita por professores e alunos do Conservatório Nice Braga. “A ideia de se chamar de festival partiu do professor Gomes da Silva. Ele disse o seguinte: ‘Façam o primeiro festival e depois deem continuidade’. Começamos o trabalho antes das férias, em junho. Não tivemos muito tempo. Mas tudo deu certo com a orientação dele. Logo saímos às ruas colando cartazes”, relata.

O primeiro festival teve um formato elitizado, já que os convites eram vendidos para pessoas que os alunos consideravam interessadas em arte. Além dos envolvidos na organização, 50 convidados participaram da primeira edição realizada no Paranavaí Tênis Clube, em frente ao Ginásio de Esportes Lacerdinha. Quem fez a apresentação foi o professor Ângelo Sebastião de Andrade, diretor do Colégio Estadual de Paranavaí.

Gomes da Silva à esquerda e Neusa Sanches ao centro no primeiro festival em 1966 (Acervo: Neusa Sanches)

Gomes da Silva à esquerda e Neusa Sanches ao centro no primeiro festival em 1966 (Acervo: Neusa Sanches)

Dos 16 poemas inscritos, um era “Maria Rio Bahia”, do professor Gomes da Silva.

Neusa declamando no Femup de 1967 (Acervo: Neusa Sanches)

Neusa declamando no Femup de 1967 (Acervo: Neusa Sanches)

Toda a divulgação do evento era feita a pé e o dinheiro arrecadado com a venda de convites era destinado às despesas gerais, incluindo confecção dos pequenos e simplórios troféus. Para evitar imprevistos e desorganização, como a maior parte dos estudantes trabalhava, eles assumiram o compromisso de usar a hora do almoço para contribuir na coordenação do evento. “Eu, por exemplo, fazia o curso clássico à noite e escola normal durante o dia. Ninguém tinha muito tempo. Era preciso fazer sacrifícios”, garante Neusa.

No segundo festival, que teve um público três vezes superior ao primeiro, o radialista Fernando da Silva declamou “João das Dores” e também “Maria Rio Bahia”. “Ele foi excelente e ajudou a dar uma cara popular ao festival. O segundo Femup foi realizado em parceria com o pessoal da turma do clássico do período noturno. Não tinha mais a turma da manhã. A repercussão só foi melhorando”, declara Neusa que se emociona ao se recordar do empenho do professor Gomes da Silva.

A partir do terceiro festival, ainda sob coordenação da turma pioneira do curso clássico, não houve mais cobrança de convite nem de ingresso. O 4º Femup, realizado no Cine Ouro Branco em 1969, e pela primeira vez fora do Paranavaí Tênis Clube, contou com o 1º Concurso de Contos de Paranavaí. O grande vencedor foi o escritor Paulo Marcelo Soares da Silva com o conto “O Cafezal”, publicado no Diário do Noroeste.

Desde as primeiras edições os organizadores convidavam professoras de português para participarem da comissão julgadora. “Sempre tivemos essa preocupação. A professora Maria Alice Penteado, que depois casou com o João Vitorino Franco, depois de estreitarem contato através do festival, teve importante participação na comissão de poesia”, declara Neusa Sanches.

Se nos dois primeiros festivais a participação se restringia mais a Paranavaí, a partir do terceiro o Femup começou a atrair atenção de pessoas de todo o Paraná. “Vinha muita gente de Londrina. E com a criação do concurso de contos o festival cresceu muito. Tínhamos apoio do radialista Fernando da Silva que fazia entrevistas com artistas e organizadores do Femup em horário nobre. O Diário do Noroeste e a Folha de Londrina também ajudaram muito”, garante.

Outra característica que distingue o Festival de Música e Poesia de Paranavaí de muitos outros festivais é que desde o surgimento já existia uma preocupação em publicar os trabalhos vencedores. “Começamos em 1966 com um livrinho bem simples, encadernado, até feinho, feito no mimeógrafo. Fazíamos tudo com material doado, desde a tinta até as folhas. Não tínhamos condições financeiras de ir além”, justifica Neusa, lembrando que só os quatro melhores trabalhos eram premiados.

Após décadas de envolvimento com o festival, a professora Neusa Sanches se afastou para cuidar dos filhos pequenos. “Quando me tornei professora do Colégio Estadual, eu sempre participava das comissões julgadoras de contos e poesia. Mais tarde, preferi me distanciar para não fazer um trabalho mal feito. Mas posso dizer que passei muitos anos sem perder nenhum, era macaca de auditório”, comenta às gargalhadas.

João Franco e Leonar Cardoso se emocionam ao falar do Femup

João Vitorino Franco e Leonar Araújo Cardoso também fizeram parte da primeira turma do curso clássico do Colégio Estadual de Paranavaí (CEP) que criou o Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup). Os dois se recordam com muita emoção das primeiras edições. “Até então a gente nem pensava em festival. Queria só fazer uma atividade cultural. E a pessoa mais indicada para nos ajudar era o professor Gomes da Silva. Ele abraçou a ideia e explicou o que era preciso fazer”, conta Franco.

Leonar Cardoso: “Tínhamos mais público e mais experiência. Não estávamos mais restritos ao curso clássico e ao Colégio Estadual de Paranavaí” (Foto: Arquivo Pessoal)

Leonar Cardoso: “Tínhamos mais público e mais experiência. Não estávamos mais restritos ao curso clássico e ao Colégio Estadual de Paranavaí” (Foto: Arquivo Pessoal)

Leonar relata que o 1º Femup teve um público modesto, mas que serviu de estímulo para levar a iniciativa mais a sério, ampliando a qualidade do festival. “Procuramos algumas empresas de Paranavaí porque já achávamos importante fazer um troféu para entregar aos vencedores. Todos ajudaram. Só não vou citar nomes dos patrocinadores porque posso esquecer algum e ser injusto”, justifica João Vitorino.

O segundo festival trouxe novo fôlego e começou a chamar a atenção da população de Paranavaí. “Tínhamos mais público e mais experiência. Não estávamos mais restritos ao curso clássico e ao Colégio Estadual de Paranavaí”, comenta Leonar Cardoso. A comissão organizadora do 3º Femup foi presidida por João Franco que considera um privilégio a oportunidade de organizar um festival que hoje tem abrangência nacional e quase 50 anos. “Se tudo deu certo em 1968 é porque todos os meus colegas contribuíram. A gente ainda não tinha ideia da dimensão que o festival alcançaria. Foram anos inesquecíveis no Paranavaí Tênis Clube e Cine Ouro Branco”, avalia Franco.

Hoje, os ex-alunos do curso clássico do Colégio Estadual acham mais do que justo dizer que o mérito também é de Paranavaí. “A cidade, indireta e indiretamente, tomou consciência do festival a partir da segunda edição e se tornou muito participativa”, defende João Vitorino, lembrando que o festival não existiria hoje sem o apoio da população e da classe artística local.

Neusa Sanches, Leonar Cardoso e João Franco, que estão entre os homenageados do 50º Festival de Música e Poesia de Paranavaí, lamentam apenas a ausência de importantes nomes que ajudaram a moldar o Femup desde a primeira edição. “Dói saber que um amigo como Osvaldo Cruz, uma figura extraordinária, já não está mais entre nós. Mas a vida é assim. Também sentimos a falta de Hermenegildo Garcia que foi embora de Paranavaí há muito tempo. Ele trabalhava na Rádio Cultura e ajudou demais na divulgação. Torcemos para que o Femup nunca chegue ao fim”, declara João Franco.

Primeira página da antologia mimeografada do 1º Femup, resguardada pela professora Elmita Simonetti Pires (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Primeira página da antologia mimeografada do 1º Femup, resguardada pela professora Elmita Simonetti Pires (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Quem era o professor Gomes da Silva

O professor José Gomes da Silva, graduado em letras e professor no Rio de Janeiro, é considerado pelos criadores do Femup como a “alma do festival”. Responsável por ensinar como fazer um bom evento de artes, inclusive como julgar, morou em Paranavaí até o final do terceiro festival. “Uma das declamadoras, a Célia, se casou com ele. Numa das viagens para Curitiba, eles sofreram um acidente e caíram na serra. A Célia morreu e o professor Gomes da Silva conseguiu salvar o bebezinho deles depois de subir a serra para pedir socorro. Eu soube que ele deixou a criança no hospital e desapareceu”, confidencia a professora Neusa Sanches.

Comissão organizadora do 1º Femup

Professor José Gomes da Silva, Alzira Suguino, Clóvis Costa Cordeiro, Edna Parpinelli, Elizeu Petrelli de Vitor, Else Ravelli, Gentil Carraro, Hermenegildo Garcia, João Vitorino Franco, Juarez Echeli, Leonar Araújo Cardoso, Luiz Geraldi Sobrinho, Luiz Volzzi Neto, Mara Watanabe, Neusa Sanches, Osvaldo Cruz (In memoriam), Pedro Jardim e Terezinha Silva de Oliveira.

 Vencedores do 1º Concurso de Contos de Paranavaí

1º lugar – O Cafezal – de Paulo Marcelo Soares da Silva
2º lugar – Simone – de Guido Feuser
3º lugar – O Sorriso de Terê – de Ana Maria Bordim
4º lugar – Erradicação na Sociedade – de Lucas Trenhenhém e Dermeval Chapadura
5º lugar – Soninha – de Paulo Marcelo
6º lugar – A Cozinheira – de Saul Bogoni
7º lugar – A Pasta – de Nêodo Noronha Dias
O conto “O Cafezal” foi publicado na época no Diário do Noroeste. Infelizmente, por causa de um incêndio, foram perdidos todos os registros nesse sentido e eu não guardei o original.

Curiosidades

Na primeira edição o Femup recebeu cerca de 60 inscrições.

Em 1987, o troféu Barriguda, então feito de ferro e desenvolvido pelo artista plástico Saulo Suguimati, foi entregue pela primeira vez aos participantes que ficaram em primeiro lugar no festival.

Outra boa lembrança era frequente participação do declamador José Maria Cavalcanti.

Frases da professora Neusa Sanches

“O falecido Osvaldo Cruz era da linha de frente em 1966. Muito companheiro, assim com o Hermenegildo Garcia.”

“A Elmita Simonetti Pires era pequeninha e já declamava nas primeiras edições. Era muito bonito de se ver.”

“O Paulo Cesar de Oliveira depois injetou mais ânimo no Femup com o Grupo Gralha Azul.”

“Quando o doutor Atílio planejou criar o curso clássico em Paranavaí, a menina dos olhos dele, trouxe muita gente de fora. Veio o professor Apolo e vários outros professores de português, francês e latim que eram de Curitiba. Todos deram sua contribuição.”

“O professor Gomes da Silva foi o melhor orador que conheci na minha vida.”

Contribuição

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