David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Aos animais a liberdade

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Bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes

Sonhei que bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes; um tipo de chamamento que fazia com que nada temessem, apenas reconhecessem a sua força em evidência por uma subitânea expansão da consciência.

Arrebentavam gaiolas, grades, correntes, atravessavam pastos e cidades. Se articulavam como nunca, como seres sociais que são. Fugiam de matadouros e laboratórios. Não podiam mais ser tocados, mas simplesmente observados. Aos seres humanos, incapazes de se moverem por um artifício romanesco, restava o direito e a obrigação de assistir tudo como meros espectadores.

A cada passo dos sobreviventes em direção à vida, os seres humanos eram presenteados com flashes da libitina, do decesso, da ortotanásia, da morte; não da própria morte, nem de mortes humanas, mas da finitude dos familiares daqueles animais que remanesceram. Os olhos de uma vaca que corria em celeridade, mesmo com os úberes morrudos e quase tocando o chão, projetavam titânicos hologramas de crianças mortas. Todos os seus filhos executados ao longo de anos de ordenha.

Uma galinha sem bico e com olhos cor de terra projetava o exato momento de sua debicagem, calvário que perdurou por semanas. Na cumeeira, no ponto mais alto de muitas cidades, havia projeções colossais de pintinhos sendo triturados em máquinas. Não paravam de cair, não paravam de morrer. Lembranças de um passado hodierno.

Pessoas tentavam cobrir suas cabeças, temendo que o sangue das pequenas criaturas pudesse lavar suas ignorâncias, insipiências. O obnóxio apedeutismo sufocaria. Mas o ser humano é recalcitrante. Pessoas de todas as idades persistiam; tentavam vendar os olhos, seus e dos outros. Não era mais possível abrenunciar a realidade.

Aqueles que privaram os filhos da verdade também amargaram consequências; as crianças não foram poupadas. Por que seriam? Os animais corriam, e os hologramas se expandiam. A morte evidenciada visceralmente por todos os lados, sem romantismo, sem subversão conscienciosa. A verdade avançava. O céu virou um painel.

Cenas de peixes sufocados em tralhas e devolvidos (ou não) ao mar agonizavam, incapazes de sobreviver por mais do que minutos sempiternos. O fim chegaria, mas custaria. Oceanos, mares e rios cuspiam a humanidade, seus barcos, suas bargas e tralhas. Porquinhos soluçavam pendurados sobre grilhões. Era o último registro do último matadouro. Caprinos e ovinos saltavam sobre os carros; amassavam latarias e corriam.

Aos animais a liberdade, à humanidade o reconhecimento da fealdade. Mais adiante, animais telúricos desapareciam através de tocos de árvores transformados em troncos que se alargavam e funcionavam como portais. Nas águas, os não humanos atravessavam crateras, furnas e lapas quiméricas que repeliam os indesejados. Do outro lado, na terra, na água ou no céu, não havia humanidade, somente reciprocidade semeada pela vontade.





Além do barulho desconfortável, fogos de artifício contêm insumos de origem animal

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Além de fogos de artifícios causarem um grande mal aos animais por causa da audição sensível, que acarreta demasiado desconforto em situações de muito barulho, ou até mesmo fobias, outro ponto a se considerar é que fogos de artifício normalmente têm insumos de origem animal em sua composição.

O insumo mais comum é o ácido esteárico (proveniente de gordura animal), o mesmo usado na fabricação de pneus. Mas por que colocam esse ácido em fogos de artifício? Os fabricantes fazem isso para revestir o pó metálico (de alumínio ou magnésio), assim evitando a oxidação.

Dessa forma, podemos concluir que os animais também são usados como matéria-prima para criar algo que vai incomodar outros animais, levando em conta a produção e aplicação dos fogos de artifício.

 

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Sobre testes com animais na indústria tabagista

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Foto: Occupy for Animals

Algumas pessoas ficaram chocadas com o meu artigo sobre o cigarro ser testado em animais. Achei isso intrigante. Afinal, estamos falando de um produto com 5.315 toxinas. Se usam animais até em testes de papel higiênico e alimentos, é claro que tratando-se de cigarro não é possível esperar o melhor para os animais quando eles são usados em testes da indústria tabagista. Também é importante ponderar que há animais que têm uma grande facilidade de desenvolver dependência química em estado de subjugação, como é o caso dos macacos.

 





Written by David Arioch

September 25th, 2017 at 1:23 am

Como falar em respeito às plantas quando não há respeito aos animais?

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Quando as pessoas falam em respeito às plantas, mas se alimentam de animais, às vezes pergunto: “Como você fala em respeito às plantas quando ainda não há respeito aos animais?” O respeito é um questão de gradação, as coisas vão evoluindo conforme vamos nos mobilizando e nos predispondo às mudanças que representem uma real preocupação com outras formas de vida.

E a preocupação só existe, de fato, quando nossas ações condizem com nossos discursos. Não é muito coesivo falar em respeito às plantas se antes não há respeito aos animais, já que as duas coisas estão associadas. Ademais, como falar em respeito às plantas quando o fim delas está associado principalmente à morte de animais? Pode parecer duro, mas considero uma resposta justa a essa pergunta.

 

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Written by David Arioch

September 25th, 2017 at 12:51 am

Walter Brain: “Pessoalmente, não vejo razão para conceder uma mente aos meus congêneres humanos e negá-la aos animais”

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Foto: Walter Bird (1962)

Pessoalmente, não vejo razão para conceder uma mente aos meus congêneres humanos e negá-la aos animais (…) Pelo menos, não posso negar que os interesses e atividades dos animais estão relacionados com uma consciência e uma capacidade de sentir da mesma forma que os meus, e que estes podem ser, tanto quanto sei, tão vívidos quanto os meus.

Cada partícula de evidência factual apoia o argumento de que os mamíferos vertebrados superiores experimentam as sensações dolorosas de forma pelo menos tão intensa como nós. Dizer que eles sentem menos porque são animais inferiores é absurdo: pode facilmente demonstrar-se que muitos dos seus sentidos são muito mais desenvolvidos do que os nossos – a acuidade visual em certas aves, a audição na maior parte dos animais selvagens, e o tato noutros; hoje em dia, estes animais dependem mais do que nós de uma consciência o mais alerta possível em relação a um ambiente hostil.

Com exceção da complexidade do córtex cerebral (que não se relaciona diretamente com a dor), os seus sistemas nervosos são quase idênticos aos nossos e a sua reação à dor é extraordinariamente semelhante à nossa, embora encontrando-se ausentes (tanto quanto sabemos) os matizes filosóficos e morais. O elemento emocional é por demais evidente, expressando-se sobretudo sob a forma de medo e ira.

Walter Russell Brain, 1st Baron Brain, um dos mais importantes neurologistas do século 20. Página 27 do livro “Animal Liberation”, de Peter Singer.





Animais não humanos podem sofrer mais do que nós

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Acervo: Peta

Por vezes, os animais podem sofrer mais devido à sua compreensão limitada. Se, por exemplo, fizermos prisioneiros de guerra, podemos explicar-lhes que, embora eles tenham de se sujeitar à captura, a serem revistados e a perderem a liberdade, não serão molestados de outras formas e que terão a liberdade concedida no final das hostilidades. No entanto, se capturarmos animais, não podemos explicar-lhes que não pensamos em colocar suas vidas em risco. Um animal não consegue distinguir uma tentativa de dominação e limitação de movimentos de uma tentativa de matar: tanto terror lhe causa uma como a outra.

Página 30 do livro “Animal Liberation”, de Peter Singer.





Sobre carne e cadáver

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Há quem diga que é errado usar o termo cadáver para se referir à carne proveniente de animais abatidos pela indústria da carne. A justificativa é que cadáver é a carne já estragada, em estado de decomposição. Na realidade, não é. O termo é duro sim, até porque a palavra não é bonita, mas não é equivocado. Veja o que informam os dicionários Michaelis e Aurélio.

Corpo de animal humano ou não, após a morte, ainda não decomposto.

Corpo morto, inteiro (ou quase inteiro), e não decomposto, de um animal.

Cadáver é o corpo de todo animal humano ou não a partir da constatação da morte. Por uma questão cultural, rejeitamos tal palavra quando falamos da alimentação baseada na morte de animais. Afinal, a não ser que você seja alguém que mate animais com suas próprias mãos, dificilmente a palavra cadáver parecerá menos do que horrível.

Um fato intrigante é que entre pessoas que praticam a caça com fins de nutrição o termo cadáver não causa real estranheza. O choque costuma ser maior entre consumidores comuns, pessoas que evitam a associação entre carne e morte, até por um condicionamento histórico baseado em propaganda e políticas de consumo.





Written by David Arioch

September 16th, 2017 at 10:15 pm

O arrependimento do frei

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Foto: Ordem do Carmo

Um fato jamais esquecido por Frei Estanislau foi uma caça a um grupo de macacos que comiam todo o milho da plantação de um colono local nos anos 1950. “Acertei um dos animais e ele caiu ferido aos meus pés. Gritava igualzinho a uma criança e ainda estendia as mãozinhas ensanguentadas, pedindo ajuda. Foi terrível! Nunca mais atiro em macaco, mesmo que roubem todo o milho”, desabafou o frei quando retornou para casa. Na foto, Frei Estanislau é o segundo da esquerda à direita.





Written by David Arioch

September 16th, 2017 at 10:04 pm

Eu exploro, tu exploras, ele explora, nós exploramos

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Viver é um paradoxo, existir e resistir para não cair em contradição o tempo todo. É não explorar explorando, como um eterno espetáculo que denuncia a exploração, mas é financiado por quem a edifica e a avulta. Tartufismo, mendacidade, jacobice. Vivo imerso nessas palavras que não reconheço.

Eu exploro, tu exploras, ele explora, nós exploramos. É isso. É alentador não cair em armadilhas por alguns instantes. Minutos, talvez horas do dia em que não me torno refém de incongruências, degenerescências legitimadas. Amanhã vai ser diferente. Ou não. Farisaísmo. Arataca. Estratagema.

Não sou tão ruim. Não. Sou muito bom. Fecho os olhos. Me entorpeço com a minha ablepsia, inculpabilidade, condescendência, torpor. Sou ineludivelmente bom. Compro sorrindo o que alguém chorou produzindo. Não sei se quero reconhecer que morreu para ser transformado num algo ausente de i-den-ti-da-de.

Dissociado da verdade. É bonito. Não, é lindo. Mais lindo ainda se acredito que nasceu como produto final, sem gênese. Não tenho do que me queixar se enxergo apenas o que anseio vislumbrar. É só mais um dia, da bonomia à hipocrisia.

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Written by David Arioch

September 14th, 2017 at 12:37 am

Escritores protovegetarianos e vegetarianos de literatura ficcional

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Gosto muito da literatura ficcional de escritores protovegetarianos e vegetarianos, e não falo isso de forma segregacionista. O que quero dizer com isso é que mesmo quando eles não fazem qualquer menção ao vegetarianismo ou aos direitos animais em suas obras, normalmente trazem de forma implícita ou explícita o discurso da não violência como expressão de uma realidade a ser alcançada. E muitas vezes isso não é feito nem de forma idealizada, mas sim cognoscível. Em menor ou maior proporção, eles imprimem o reconhecimento do respeito à vida, seja ela humana ou não. Alguns autores sobre quem já pesquisei:

Colagem: David Arioch

01 – Al Ma’arri
02 – Mary Shelley
03 – Percy Shelley
04 – Lord Byron
05 – Liev Tolstói
06 – Jaime de Magalhães Lima
07 – Franz Kafka
08 – Sadeq Hedayat
09 – Vydūnas
10 – Nikolai Leskov
11 – Sergei Yesenin
12 – Carlos Dias Fernandes
13 – Alphonse de Lamartine
14 – George Bernard Shaw
15 – Romain Rolland
16 – Shmuel Yosef Agnon
17 – Isaac Bashevis Singer
18 – Guy Endore
19 – Upton Sinclair
20 – Allen Ginsberg
21 – J.M. Coetzee

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Written by David Arioch

September 9th, 2017 at 6:30 pm