David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Um convite no semáforo

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Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Saindo do mercado, parei em um semáforo na Avenida Rio Grande do Norte. De repente, um sujeito encostou o seu carro bem próximo do meu. Havia bastante espaço, mas ele preferiu ficar bem perto de mim. Ok! Não me preocupei. Continuei ouvindo música.

Para minha surpresa, o rapaz começou a acelerar sucessivas vezes enquanto o sinal continuava vermelho. Ele estava me desafiando, me convidando para um racha. Como o vidro do meu carro tem uma película bem escura, à noite é quase impossível ver quem está dentro.

Então pensei que talvez fosse uma boa ideia abaixar o vidro e fazer um aceno de mão cordial, mas desinteressado. Assim que o vidro desceu, o sujeito pareceu amedrontado e se desculpou. Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção – o sinal abriu. Segui meu caminho ouvindo “Sistem te laže”, do Beogradiski Sindikat. Pelo retrovisor, notei que o rapaz continuava no mesmo lugar.

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October 2nd, 2016 at 1:51 pm

A barba luminosa

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Na fila de um mercado em Nova Esperança, um senhor sendo atendido pelo caixa gesticulava, falava e sorria. Daí notei o caixa, o empacotador e outro homem também sorrindo. A princípio, não entendi o que estava acontecendo. Parecia-me até um tipo de conferência – com os quatro formando um semicírculo . “Quando eu era jovem tive uma barba grande e luminosa igual a daquele rapaz ali. Qualquer dia trago a foto pra vocês darem uma olhada”, disse o cliente na faixa dos 60 anos. Em seguida, mais gente virou o rosto e seguiu o dedo do homem, apontando para o portador da tal barba luminosa – eu.

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September 22nd, 2016 at 12:04 am

O fura-fila

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O homem tinha pressa em comprar quatro pães (Foto: Reprodução)

Voltando para casa, entrei em Nova Esperança e passei em um supermercado. Caminhei até o fundo e vi uma fila modesta em frente à padaria. Algumas pessoas conversavam e outras mantinham-se em silêncio. De repente, um senhor ficou ao lado de uma mulher que aguardava alguns pães. Ele furou a fila.

Quando olhou para mim, mantendo o corpo recôndito pela senhora que nos separava, ele sabia que eu sabia o que ele estava fazendo. Então desviou o olhar algumas vezes e sorrateiramente voltou a me observar. “Me vê quatro pães”, pediu à atendente com voz em tom baixo e tapando parcialmente a boca com a mão direita, como se quisesse impedir que eu o ouvisse.

Continuei assistindo aquele senhor. Arreliado e claudicante, ele desviava a cabeça, coçava os parcos cabelos brancos e esfregava o par de sandálias no piso esmerado. Seus olhos iam de caroço de azeitona à caroço de abacate em segundos. Quando a atendente entregou os quatro pães, foi como se ele se sentisse livre do meu olhar que talvez espelhasse uma confissão, revelando mais do que ele gostaria de ponderar – ou talvez não, vai saber.

Written by David Arioch

September 22nd, 2016 at 12:03 am

Eu e minha barba III

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Encontrei um jovem encolhido em frente ao Banco do Brasil, daí vi que ele era pedinte e estava recolhendo moedas caídas no chão. Me aproximei, tirei uns trocados do bolso e coloquei na latinha ao seu lado. Ele se levantou, olhou para a minha barba atentamente e disse: “Não, irmão! Que isso! Você também deve tá precisando!”

Passando novamente pelo centro, um rapaz subiu na calçada com uma bicicleta tipo Barra Circular, veio em minha direção e gritou sorrindo: “Ô Bin Laden, tá a fim de uma paçoca?” E mostrou logo atrás do banco uma cestinha repleta de paçocas caseiras. Sorri, agradeci e segui andando, ainda percebendo alguém me observando.

Written by David Arioch

September 2nd, 2016 at 11:51 pm

Um almoço na casa do Tio Lú

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Tio Lú convidou dezenas de crianças e adolescentes da Vila Alta para um almoço em sua casa (Foto: David Arioch)

Hoje, o artista plástico Tio Lú preparou um almoço para dezenas de crianças e adolescentes da Vila Alta, na periferia de Paranavaí. A garotada deveria chegar após às 12h, mas a fome falou mais alto e eles chegaram às 11h. Nesse ínterim, ficaram rindo e brincando, até o momento em que Tio Lú colocou uma panela de 60 litros de sopa de mandioca sobre uma mesinha improvisada. Enquanto ele dizia que a sopa não ficou tão boa quanto esperava, os convidados nem se importavam, comiam com alegria e satisfação.

Seguindo as diretrizes da casa, levaram colheres, copos e pratinhos ou vasilhas de plástico e alumínio. Presenciar um almoço na casa do Tio Lú significa ver crianças extremamente felizes comendo sopa de mandioca. E durante o encontro virei alvo das brincadeiras: “Ô tio, você vai ser Papai Noel agora? Quero meu presente de Natal!”, perguntou uma das crianças. William, de oito anos, o mais falante da turma, indagou como posso ter uma barba tão grande sem ser velho. “Ah, tio! Você comprou essa barba branca e pintou de preto. Pode falar!”, insistiu William. Depois começou a rir quando encostou a mão na minha barba e percebeu que não era de mentira.

Após às 13h, restavam poucos litros de sopa. E antes de partir, as crianças pediam para levar um pouco de sopa para casa, pensando em algum familiar. “Seu Luiz, posso levar um pouco pra minha avó?” “Seu Luiz, posso pegar um pouquinho pro meu pai?”, questionavam. E Tio Lú erguia uma concha gigantesca e enchia os pratinhos e as vasilhas. Os convidados saíam felizes, satisfeitos e repetiam a mesma frase de agradecimento: “O senhor é muito bom, Seu Luiz! Deus te abençoe!”

Written by David Arioch

July 23rd, 2016 at 7:40 pm

Eu e minha barba

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Passando pelo caixa do hipermercado, uma moça me perguntou de onde eu sou. Daí respondi naturalmente: “Sou daqui!” Com um olhar de surpresa, e acredito que até estranhando a minha fluência em português, ela replicou: “Não é não!” Então comentei: “Talvez você tenha razão, nunca se sabe!”

— Ah! É que você tem uns traços diferentes, parece que veio do Oriente Médio.

Written by David Arioch

July 23rd, 2016 at 1:09 am

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O leitãozinho da vitrine

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A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar

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O leitãozinho passava despercebido pelos fregueses (Foto: Reprodução)

A fila do açougue parecia não ter fim, quase encostando em uma distante parede branca, onde centenas de pacotes de cereais preenchiam os expositores. Pessoas e mais pessoas compravam imensas quantidades de carne. “Me vê vinte quilos de costela!”, “Quero dez quilos de costelinha de porco!” Ah! E também sete quilos de linguiça toscana!”, “Não! Pedi quinze quilos de cupim!”, “Isso! Isso! Dezoito quilos de miolo de paleta!”

Carne moída, asinhas de frango, coxas e sobrecoxas, coxão mole, alcatra, fraldinha, maminha, bacon. A demanda era tão grande que um dos açougueiros teve de checar na sala de corte se ainda havia carne o suficiente para atender toda aquela gente. Alguns fregueses se desesperaram com a possibilidade de faltar um ou outro corte. “Pelo Amor de Deus! Se eu não conseguir um bom pedaço de picanha, sei nem o que fazer. É pra acabar com o feriado da família!”, reclamou um homem que empurrava um carrinho repleto de bandejas de carne congelada e resfriada.

Em meio ao ranger de dentes e roer de unhas, os mais discretos chutavam sutilmente as rodinhas do carrinho enquanto aguardavam a resposta do açougueiro, a quem foi dada a missão mais importante do dia. “Quero bife, mãe! Quero bacon, mãe!”, gritava uma criança chorosa de menos de oito anos. O carnólatra mirim abria tanto a boca para reclamar que não era difícil ver fiapos de carne entre seus dentes.

E quanto mais o açougueiro demorava, mais a tensão aumentava. Notei mãos trêmulas, gente coçando o próprio corpo, como se tomada por comichão. Enfim, olhares inquietos, expressões de desalento, raiva e reprovação engrossavam o baluarte da inquietação. Quando o açougueiro retornou, acenou com a cabeça e sorriu, uma multidão de clientes o aplaudiu.

Rapidamente as vozes e as palmas foram abafadas pelo som das serras elétricas fatiando colossais pedaços de costela. E ninguém se importava com a névoa de farelos de ossos que caíam sobre suas cabeças. Diante do álgido e sortido cheiro de carne, um leitãozinho era mantido sob a vitrine. Ele passava despercebido com uma maçã na boca. A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar.

Os fregueses se entreolharam e não viram nenhuma mão ou perna humana tocando a vitrine. E do lado de dentro, o leitãozinho tentava quebrar o vidro com a maçã na boca. Fazia um esforço descomunal para se livrar da fruta. Quando conseguiu, grunhiu como nunca. Assustados, adultos gritaram e crianças choraram. Mas ninguém se emocionou mais do que o porquinho que escorregou sobre as próprias lágrimas.

“Meu Deus! Que isso! Que nojo! Que sacanagem! Um porco vivo! Que brincadeira de mau gosto! Misericórdia! Que maldade! Onde o mundo vai parar!”, diziam. A imagem do leitãozinho vivo fez os clientes abandonarem a fila do açougue, e se não por horror, por constrangimento. A exceção foi o homem que estava na fila para comprar picanha:

— O que o senhor quer?

— Quero o leitão.

— Mas, meu senhor, ele ainda está vivo!

— É assim mesmo que eu quero.

— Vou ver o que posso fazer.

— Então?

— Tá tudo certo! Pode levar o porco. O senhor paga isso aqui lá no caixa.

— Muito bem! Obrigado, amigo.

Naquele dia, o último cliente do açougue abandonou o carrinho onde transportava muitas bandejas de carne resfriada e congelada. Com o leitãozinho nos braços, atravessou o mercado e ignorou dezenas de olhares. No caixa, pagou por algo que não considerava mais um produto e caminhou até a saída como se embalasse um bebê. Lá fora, a noite não parecia escura e fria. Então o leitãozinho da vitrine encostou o focinho no ombro do homem e não chorou, somente cochilou.

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July 17th, 2016 at 2:47 pm

Uma manhã insólita no banco

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Senti uma dor de cabeça que parecia premer tudo que havia dentro da minha caixa craniana

Uma manhã insólita no banco

Chegando lá, retirei minha senha da máquina e caminhei até uma das poltronas vagas (Foto: Reprodução)

Fui ao banco antes do almoço. Chegando lá, retirei minha senha da máquina e caminhei até uma das poltronas vagas. Olhei para o painel eletrônico e me surpreendi porque não demoraria muito para eu ser atendido.

Como nunca fui do tipo que mexe no celular enquanto aguarda atendimento, fiquei observando tudo ao meu redor com discrição. As pessoas pareciam tão tranquilas. Não ouvi nenhuma reclamação. Até as poucas crianças que acompanhavam os pais se mostravam educadas e compreensivas, caladinhas, assistindo a vida transcorrer sem muita pressa.

“Uau! Inacreditável! Se há dez anos alguém falasse que eu passaria por uma situação assim no banco, provavelmente eu não acreditaria”, deduzi. Tudo ia bem. Pessoas silenciosas ao meu lado, inertes em seus próprios pensamentos, mostravam que idas ao banco nem sempre são ruins.

De repente, chegou um sujeito falante, na faixa dos 40 anos, dando tapas nas costas de um senhor beirando os 60. O mais jovem falava alto, gesticulava e extasiado coçava a barriga saliente, desproporcional ao restante do corpo magro, que se avolumava conforme ele a estufava orgulhosamente sob os botões de uma camisa bege.

Ouvi o de 40 anos comentando sobre o preço da cerveja. Porém, não demorou, e o homem mais velho se despediu. Àquela altura, eu já não estava mais atento à sua presença. E para minha surpresa, o desconhecido se aproximou e sentou ao meu lado. Além da camisa de linho, ele usava calça social preta e um par de sapatos pretos. À primeira vista, um sujeito bem vestido – na ótica social tradicional.

Quando eu estava cabisbaixo, lendo “As babas do diabo”, de Cortázar, um amigo, Renato Frata veio até mim e me parabenizou pelo conteúdo do meu blog. Agradeci e nos despedimos. Então voltei a ler “cobria seu rosto de rugas, alguma coisa mudava de lugar e de forma porque a boca tremia e o trejeito ia de um lado a outro dos lábios como uma coisa independente e viva, alheia à sua vontade…”

Não consegui continuar a leitura. Senti uma dor de cabeça que parecia premer tudo que havia dentro da minha caixa craniana – era lancinante. “Que dor estranha, que desconforto”, refleti. Logo que levantei a cabeça, ouvi queixas incompreensíveis de duas senhoras sentadas atrás de mim. E o homem ao meu lado fedia tanto que me esforcei para não levantar e sair dali.

Ele sorria sozinho com tanto paroxismo que fiquei sem entender. “Será que esse cara está rindo de mim? Acho que não! Que tipo de pessoa faria algo assim?”, inferi. Ao meu lado, o sujeito ignorava tudo. Virei o rosto à minha esquerda e levei a mão ao nariz disfarçadamente. Quando voltei à posição normal, a pestilência ficou mais vigorosa, me dando náusea.

Era a mais medonha das combinações de odores – um misto de chulé, axilas hidrofóbicas (um eufemismo neológico para suvaqueira) e mau hálito que superava o pior dos chorumes. E vinha num crescendo tão grande que dava a impressão de se desenvolver em estágios de tempo. Angustiado, observei o painel. Ainda não era a minha vez. Para piorar, o homem inclinou o corpo e deslizou o dedo pelo calcanhar nu do pé esquerdo. De lá, ele tirou uma bolinha esverdeada de sebo e começou a esfregá-la com os dedos médio e polegar.

A liberdade veio em boa hora. Olhei para o painel e vi minha senha piscando. Assim que me levantei, uma senhora em um vestido longo, acompanhada de uma idosa, provavelmente sua mãe, me puxou pelo braço. “Nossa, filho! Um moço tão bonito que nem você poderia se cuidar um pouquinho mais, né?”, se queixou. Preocupado em perder a vez, não falei nada, só me dirigi ao caixa.

Quando saí do banco, notei algumas pessoas com olhares carrancudos e reprovadores. Caminhei apressado, sem entender nada até o momento em que entrei no carro e encostei o nariz na minha camiseta. Ela continuava cheirosa do lado esquerdo, mas do lado direito tinha uma mancha esverdeada como a bolinha de sebo que o desconhecido tirou do próprio calcanhar.

Written by David Arioch

July 1st, 2016 at 2:45 pm

Quem é a paciente?

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O sol das 7h50 iluminava o ambiente com uma intensidade que relegava as lâmpadas acesas à inutilidade

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Depois de ter os dois peitos pressionados várias vezes e em inúmeras posições, deixei a sala de exames (Foto: Reprodução)

Fui até uma clínica fazer um exame. Chegando lá, entreguei a guia da Cassi para a recepcionista e ela questionou: “Quem é a paciente?” Respondi que eu era o paciente. Sem graça, a moça se desculpou. Por um momento, tive vontade de rir ao lembrar dela dizendo “a paciente”, mas me esforcei porque não queria deixá-la constrangida. Assim que confirmou meus dados e me entregou um crachá rosa escrito MAMOGRAFIA, entendi porque ela perguntou “Quem era a paciente”.

Com a identificação do exame em mãos, caminhei até uma tranquila sala de espera. O sol das 7h50 iluminava o ambiente com uma intensidade que relegava as lâmpadas acesas à inutilidade. Quando me viram, três mulheres não tiraram mais os olhos do meu crachá escrito MAMOGRAFIA. E fiquei pensando, inerte num sorriso velado e sem dizer palavra: “Sim! Sou homem e vou fazer mamografia. É isso aí. Tirem suas conclusões. Também posso me divertir interpretando seus pensamentos.”

O meu crachá rosa cintilava mais ainda com a cálida incidência do sol que mirava com mais veemência justamente onde eu sentava. Sem problema! Não demorou e as três foram chamadas até uma sala de exames. Sozinho, troquei de lugar porque havia luz solar por todos os lados, aquecendo minhas costas, braços e rosto. Tudo melhorou quando consegui me ocultar sob uma parede branca.

Fiquei lá parado com meu crachá enquanto a TV exibia histórias de corrupção e trapaça. Assisti um cara falando que o furto de energia elétrica no Brasil corresponde à energia consumida no Paraná. Ok! Naquele instante, tudo parecia girar em torno de energia, inclusive do sol que continuava se esgueirando pela janela.

Logo a sala começou a encher. E ninguém evitou de olhar o meu crachá. “Tudo bem! Tudo bem! É isso mesmo. Vou fazer MAMOGRAFIA”, refleti outra vez. Nesse ínterim, um amigo, Rafael Otaviano, me viu e veio me parabenizar pelos meus textos, o que me agradou muito porque ajudou a me distrair diante de tantos olhares inquiridores.

Fiquei pelo menos 40 minutos aguardando a minha vez, o que era incomum, já que vi pessoas que chegaram depois de mim sendo atendidas antes. Me levantei, fui até a recepção e perguntei se demoraria muito para que eu fosse atendido. Ao meu redor, mais pessoas observavam meu crachá rosa. Em outra sala de espera, vi alguém apontando para mim e comentando: “Aquele rapaz vai fazer mamografia. Que estranho!”

Quando pronunciaram meu nome: “Daví!”, não Deivid, como sou chamado desde bebê, caminhei até a responsável técnica e ela se desculpou. Me informou que o exame da forma como foi pedido pelo mastologista exigia adaptações na máquina, justificando a demora. “Alguém com câncer de mama na família?” Respondi que não. Eu estava lá para fazer mamografia bilateral com a intenção de avaliar o desaparecimento de uma leve ginecomastia.

Após ter os dois peitos pressionados várias vezes e em inúmeras posições, deixei a sala de exames com o peitoral marcado e caminhei até a saída. Antes de ganhar às ruas, ouvi uma mulher cochichando perto da porta: “Não sabia que homem também tinha câncer de mama.” Sem me preocupar em explicar o motivo da minha ida até a clínica, repliquei: “Pois é, senhora, diga ao seu marido e aos seus filhos para terem muito cuidado. O maior perigo surge quando de repente começa a sair leite dos mamilos.” Assustada, ela se encolheu num canto com olhos esgazeados.

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Written by David Arioch

June 29th, 2016 at 1:48 pm

Quando eu comprava cigarro para os meus pais

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Suspeitei que o inventor do cigarro tivesse errado a escolha dos ingredientes e criado algo indesejado

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Eu e meu irmão íamos até o bar da Dona Maria comprar Free (Foto: Reprodução)

Na infância, eu comprava cigarro para os meus pais. Sim, eu e todos os meus amigos e colegas que nasceram nos anos 1980 e tinham pais fumantes. Minha mãe abandonou o vício na minha adolescência, mas meu pai, um tabagista inveterado, faleceu em decorrência de um câncer de pulmão. Começou a fumar muito cedo, quando astros de Hollywood ajudaram a transformar o cigarro em um obtuso símbolo de charme, rebeldia e sensualidade.

Nunca perguntei porque ele fumava, só que um dia, ainda criança, comentei com minha mãe que “só o trem a vapor tinha motivo para soltar fumaça, já que o movimento dele dependia da queima do carvão”. Desde pequeno, eu não via graça na ideia de colocar algo na boca simplesmente para soltar fumaça. Eu associava aquela imagem com a da fumaça preta que saía dos escapamentos dos caminhões velhos que víamos nas ruas. Óxido de carbono, óxido sulfúrico, óxido de nitrogênio e hidrocarboneto aromático, fiquei sabendo mais tarde.

“Quem sabe as pessoas que fumam sejam como os escapamentos dos caminhões, a diferença é que soltam menos fumaça porque são menores. E talvez ela seja menos suja porque sai diretamente da boca”, escrevi num caderno quando tinha sete ou oito anos. Nunca coloquei um cigarro na boca. Também não me gabo disso. Não! Minto! Coloquei sim, aquele de chocolate lançado pela pan e que trazia uma criança negra sorrindo na caixinha. Não vou negar. Fingi fumar com o cigarrinho de chocolate entre os lábios. Afinal, a ideia de fumar, por pior que fosse, preservava seu ardil romanesco nas brincadeiras.

Aos dez anos, suspeitei que o inventor do cigarro tivesse errado a escolha dos ingredientes e criado algo indesejado. Quem sabe a ideia inicial fosse fazer com que saísse algo de bom da boca das pessoas em vez de uma fumaça ruça e malcheirosa. E a ironia já subsistia no fato de que a fumaça por si só era suspeita na sua nebulosidade, como um mandrião velando suas verdadeiras intenções.

Comecei a comprar cigarros com sete anos, quando morávamos na Rua Pernambuco. Eu e meu irmão Douglas caminhávamos 100 metros para buscar um ou dois maços de Free em um bar na Avenida Distrito Federal. Por causa da fumaça, entrar lá era como subir num palco instantes antes de um show. A diferença era que o gelo seco não escurecia como a fumaça do cigarro. Nem fedia como aqueles corpos macerados pelo vício em álcool e tabaco.

Alguns sujeitos tossiam como se estivessem prestes a vomitar ou expelir pedaços de tecido do organismo. Aquela era a realidade dos dependentes mais figadais, e me vi diante dela nos primeiros anos de vida. Eu gostava do lugar, de testemunhar a salada social composta por pessoas das mais diferentes faixas etárias – onde pobres e ricos, vagabundos e trabalhadores se misturavam sem formalidades.

Ações, expressões e reações de alegria, tristeza, inconformismo, cólera, sabedoria, ignorância, tudo poderia ser encontrado no bar da Dona Maria, mãe do meu amigo Fabiano. Porém, nenhum sentimento parecia mais destacável do que um híbrido de ilusão e decepção. Naquele lugar, homens de poucas palavras chegavam sorrindo e partiam chorando assim que as aparências descortinavam as essências.

Junto ao balcão, Dona Maria mantinha um taco de beisebol, apelidado de “Juízo”, para conter os desordeiros. Repreendia bêbados, dava conselhos e às vezes alimentava os mais miseráveis. Era visceral a forma como seu semblante mudava de um segundo a outro caso alguém fizesse algo de errado. Chapas (carregadores de mercadorias), vendedores ambulantes e artistas de rua passavam por lá com frequência. Um dia ganhei um quadrinho de madeira com a minha imagem entalhada por Maneta, um escultor que viajava por todo o Brasil de carona.

Enquanto alguns sentavam diante das mesas laterais, outros preferiam o balcão, sentindo o aroma das conservas, ouvindo o som dos congeladores e da TV com caixa de madeira. Incomum era encontrar alguém no bar que não fumasse. Eu ziguezagueava pelo espaço, tentando evitar inalar a fumaça que se movia pelo ambiente como uma serpente tentando me engolir. Pior ainda era quando meu nariz entupia por causa da rinite alérgica.

Diante do balcão, eu sentava em um banquinho, balançava as pernas, pedia dois maços de cigarro e observava os doces das vitrines. Assim que Dona Maria me entregava as duas carteiras de Free, eu pagava, guardava os maços no bolso esquerdo da bermuda e o troco no bolso direito. Saía de lá desviando da fumaça e ouvindo gargalhadas e gritos de três ou quatro homens entretidos em uma partida de truco. “Ladrão! ladrão! Isso que tu é, seu porco malandro!”, berrou numa tarde um homenzarrão barbudo com voz tão grave que meus tímpanos latejaram. Me senti como se estivesse diante do próprio demônio.

Ele sentava sobre duas cadeiras em vez de uma, e sua mão chegava a ser maior do que a cabeça dos seus adversários. Assustado, assisti as cartas miúdas desaparecendo entre suas mãos. Era como se fossem miniaturas em papel. De repente, o sujeito olhou para mim e disse: “Que foi, garoto? Perdeu alguma coisa?” Sem abrir a boca, movimentei a cabeça negativamente e me afastei. Antes de pisar na calçada, vi ele tirando um Belmont do bolso da camisa, o acendendo e o tragando com tanta sofreguidão que em poucos segundos o cigarro foi reduzido às cinzas, restando apenas um filtro diminuto resvalando dentro de um cinzeiro de madeira.

Sua boca também era descomunal. Quando ele mirou o teto e expirou a fumaça, foi como se uma nuvem pesada demais para suportar a própria sustentação se formasse sobre sua cabeça, como uma névoa eivada e gulosa. Aquele era o Terebintina, fumante e bebedor profissional, diziam. Trabalhou para as maiores empresas de tabaco e destilados do Brasil na década de 1980. Não era difícil encontrar jovens e até pessoas mais velhas que sonhavam com essa vida. Beber, fumar e nada mais, sim, era o ideal de muita gente. Em casa, enquanto minha mãe sovava uma massa de pão na cozinha, comentei o que aconteceu no bar. Ela se divertiu com o meu relato embora não conhecesse o gigante mal-encarado.

Naquela época, cheguei a acreditar que o mundo era dos fumantes. Por onde eu andasse, falava-se em cigarro. Na TV, no rádio e nos outdoors perseverava a glamourização do fumo. No centro, na saída da escola, eu sempre via embalagens vazias e bitucas de cigarro próximas do meio-fio. Ofereciam até amostras grátis. E, claro, alguns tabagistas eram mais educados do que outros. Minha mãe, por exemplo, evitava fumar perto de mim e do meu irmão. Quando notava que eu o observava, meu pai copiosamente passava o cigarro da mão direita para a esquerda, tentando ocultar a fumaça por trás do livro, e declarava: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”

Pela manhã, vez ou outra, eu assistia minha mãe trocando os lençóis queimados pelas brasas do cigarro. Talvez aqueles furos com bordas negras significassem mais do que imaginávamos. Afinal, eram disformes e incertos como pequenos tumores. “Ontem, disse para mim mesmo que era o último. Eu não quis imaginar que seria o fim, que eu não fumaria mais até a minha morte. Preferi pensar que se eu parasse agora, teria a possibilidade de fumar de vez em quando”, escreveu Henri-Pierre Jeudy em “O Último Cigarro”.

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