David Arioch – Jornalismo Cultural

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A mulher do apartamento ao lado

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Eu nem entrava, simplesmente ficava no corredor (Foto: Reprodução)

Há algum tempo, eu estava saindo com uma garota que morava em um apartamento bem pequeno. Então sempre que eu chegava quando ela estava no banho, a gente tinha o costume de conversar pela porta. Eu nem entrava, simplesmente ficava no corredor. Só que um dia uma senhora que morava no apartamento ao lado abriu a porta e apareceu só de toalha, me pedindo para falar baixo porque ela se sentia vulnerável com o som da minha voz. Me desculpei e ela replicou:

“Você não entende que eu estou pelada? Só com esta toalha por cima? Não quero ouvir a sua voz, ela me traz lembranças desconfortáveis. Simplesmente não quero ouvi-la! Você não entende?” Fiquei confuso, mas respondi que entendi sim. Ela retrucou que se eu entendia não deveria falar mais nada no corredor, já que ela se sentia incomodada. Alegou que eu estava interferindo em sua privacidade de sentir-se nua e livre. Ainda disse que minha voz afugentava seu corpo.

Fiquei assustado e preocupado. Comecei a bater com força na porta do apartamento e minha garota disse que logo sairia. A idosa continuou me observando de longe, com um olhar inquisidor, muito esquisito e desafiador. Insatisfeita, ela abriu um pouco mais a porta e arregalou os olhos. Mesmo titubeante, declarei:

“Olha, senhora, eu só estou aguardando a minha garota aqui. Por favor, não quero confusão. Talvez a senhora esteja muito sensível. Me perdoe se fiz algo de errado.” Sobressaltada, franziu a testa e gritou: “O quê? Como ousa, seu filho da puta!” Então ela soltou a toalha, abriu bem a porta, deu dois passos completamente pelada, parou e ficou me olhando fixamente.

Ruborizado, sem saber como reagir, mirei a parede à minha direita e mantive meus olhos em um ponto fixo. Antes de fechar a porta, aquela senhora fez uma careta e gritou: “Seu porco!” várias vezes. Segundos depois, minha garota saiu e caímos fora de lá o mais rápido possível.

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Written by David Arioch

October 25th, 2016 at 11:43 pm

Eu cuido dela e ela cuida de mim

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Na semana passada, tive que sair da cidade para fazer um freela, daí não encontrei nenhum lugar com comida sem ingredientes de origem animal. Enquanto eu pensava no que fazer, como numa imitação do pensador de Rodin, escorei a mão direita sobre o meu queixo barbudo. De repente, das entranhas da minha barba caiu uma barra de proteína que fiz na noite anterior. Só pensei em uma frase enquanto engolia um pedaço da barra: “Eu cuido dela e ela cuida de mim.”

Written by David Arioch

October 23rd, 2016 at 8:47 pm

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Na saída da academia

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Dias atrás, saindo da academia com a minha mala esportiva à mão esquerda, me recordei que assumi o compromisso de passar na casa de uma amiga antes das seis horas da tarde para buscar um livro. Como faltavam apenas dez minutos, corri até o meu carro que estava estacionado na Rua Luiz Spigolon. Nesse ínterim, notei que quatro pessoas também começaram a correr, e inclusive a atravessar a rua, se distanciando de mim.

Estranhei porque as duas moças e os dois rapazes usavam uniformes. Provavelmente não estavam se exercitando. “Por que estariam correndo?”, me questionei subitamente, sem dar grande margem para interpretações. Ainda suspeito que ouvi um ou dois gritos, mas como eu estava com fones de ouvido, não posso confirmar. De repente, me vi sozinho na calçada. Joguei a mala no banco direito, entrei no carro, ajeitei a barba e fui embora.

Written by David Arioch

October 23rd, 2016 at 8:46 pm

Nos meus últimos anos como cabeludo…

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Eu, nos tempos de cabeludo, quando fui confundido com outra pessoa

Nos meus últimos anos como cabeludo, a pedido da minha mãe, fui até uma cidadezinha buscar alguns materiais de pavimentação que seriam descartados. Chegando lá, com cabelo comprido, e acompanhado de dois amigos também cabeludos, fiz o que tinha de fazer. Depois, aproveitando o tempo livre, passamos em um bar/restaurante. Meus amigos pediram cerveja e eu tomei um suco.

Nesse ínterim, chegou um senhor, desses bem animados, que envelhecem com muita alegria, e disse: “Ô meu filho, vocês que vieram tocar hoje à noite, né? Pode pedir o que quiser. É tudo por conta da casa. Daqui a pouco, vocês vão lá passar o som! O ambiente já tá todo ajeitado! É hoje! É hoje que o piso do salão vai afundar.”

Mesmo após explicar que tudo não passava de um equívoco, na saída do bar ainda vieram algumas pessoas sorrindo nos cumprimentar. Uma moça tirou até um CD de dentro da bolsa e pediu um autógrafo.

Written by David Arioch

October 20th, 2016 at 10:35 pm

Quando eu raspava a cabeça…

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Passei por muitas situações curiosas quando eu raspava a cabeça. Um dia, em Salto del Guairá, no Paraguai, enquanto aguardava meu irmão perto da Queen Anne, três ambulantes, desses que vendem palhetas de para-brisas, se aproximaram. Me recordei de um deles, de quem mais cedo tive pena e acabei comprando um par de palhetas que eu não precisava.

O mesmo rapaz estava de volta. Com um sorriso amarelecido e um olhar sobressaltado e dúbio, veio em minha direção e disse:

“Amigo, usted es federal, es la policía? Por lo tanto, quiero devolver el dinero de las palas que ha adquirido. Ellas son defectuosas. No quiero problemas, por favor. Perdóname, yo no sabía que era la policía. Por favor, quédate con este perfume. No necesita pagar nada.” Sem querer, e após muita insistência, acabei aceitando o perfume. Depois disso, os três foram embora sorrindo e recuando. Mais adiante, dei o “presente” a uma criança que vendia CDs em uma rua paralela.

No final da tarde, saindo do Paraguai, passei pela alfândega. Dois fiscais me cumprimentaram com muita cordialidade e falaram algo que até hoje não sei o que era. Naquele horário, enquanto meu carro foi liberado, os demais foram parados.

Written by David Arioch

October 20th, 2016 at 10:31 pm

O Papai Noel e o muçulmano

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Na entrada do mercado, uma criança veio em minha direção e me cutucou. Sem entender, perguntei se ela queria alguma coisa. “Por que você pintou a barba de preto, Papai Noel? Por quê? Por quê?” E o tom de voz da criança crescendo e ficando cada vez mais estridente, revelando irritação.

Constrangido, e notando algumas pessoas me observando, senti um alívio quando a mãe da criança se aproximou a passos céleres. A mulher se desculpou, pegou a filha pela mão e partiu. Mais adiante, ainda ouvi um princípio de conversa entre as duas: “Ele não é papai noel, filhinha. Ele é muçulmano, e muçulmanos não gostam de Papai Noel!”

Written by David Arioch

October 20th, 2016 at 10:28 pm

A barba

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Nunca imaginei que passaria por situação tão imprevisível e desconfortável

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Ela voltou para casa. Ao lado da cama, havia um pente e uma série de produtos

Acordei e continuei deitado na cama, com sensação estranha. Mesmo que eu não o visse refletindo no teto, notei meu rosto menor. Quando encostei o polegar e o dedo indicador da mão direita no queixo, estremeci. Ele estava liso. Não havia nenhum fio da minha barba volumosa, fechada e preta. Saltei da cama e corri até o banheiro, sem sentir a barba raleando o peito nu.

Diante do espelho, meu rosto parecia tão pequeno. “Não! Este não sou eu! Não está certo! O que aconteceu?” Até minha cabeça tinha encolhido. Cabeça de pombinha, cabeça de alfinete – julguei-me. E para piorar, rejuvenesci pelo menos dez anos, o que me incomodava sobretudo.

Sem pelos, o rosto lucilava tanto que precisei fechar parcialmente os olhos e me proteger com as palmas das mãos em direção ao espelho. Nunca imaginei que passaria por situação tão imprevisível e desconfortável. Saí do quarto e bati a porta. Senti a brisa tocando a pele desacostumada com a ausência de pelos.

Minha face estava vulnerável, extremamente sensível, desprotegida. Enleado, fui ao banheiro e lancei um pouco de água sobre o rosto. “Como é estranho perceber a água tocando a pele com tanta facilidade.” Escovei os dentes e voltei para o quarto. Sentado na cama, pensei, sem velar melancolia.

Definitivamente não fiz a barba na noite anterior. Nem me aproximei de qualquer tipo de lâmina ou barbeador. De onde surgiu a face lisa, como de alguém que nunca teve pelos faciais? Fiquei irritado, crente de que algum cobiçoso tivesse me furtado os pelos na calada da noite.

Lembrei dos invejosos desbarbados, que não eram poucos. Sempre havia um ou outro em cada esquina, observando de soslaio a minha barba à altura do peito, tremulando com os afagos da aragem. Mostravam os dentes fingindo cordialidade. Patifes! Devem ter-se unido na noite passada.

Me debrucei no chão e comecei a observar atentamente o piso, tentando encontrar pelo menos um fio de barba. Não havia nada. Nada! Nada! A conspiração foi tão bem planejada que não restou sequer um vestígio. “Como? Como? Como? Que pesadelo terrível!”, monologuei, desconcertando o sobrecenho.

Vesti calça jeans, camiseta, par de tênis e saí às ruas na tentativa de amenizar a agitação que me consumia. O céu persistia claro e o sol espalhava sua luz sem reservas. Um belo dia. Para minha surpresa, amigos e conhecidos não me reconheciam. Abordei um camarada, ele franziu a testa, cuspiu no chão e esbravejou que nunca me viu.

— Afaste-se, senhor, afaste-se ou chamarei a polícia – advertiu outro.

Tudo bem. Cruzei a Rua Marechal Cândido Rondon e entrei no Banco do Brasil da Rua Getúlio Vargas. Atravessei a porta com detector de metais e, como sempre fiz, me aproximei do segurança para cumprimentá-lo. O homem se esquivou e ameaçou me golpear.

— Nunca mais se aproxime desse jeito! Nunca mais, senhor! Eu poderia machucá-lo – declarou.

Sem dizer palavra, recuei, peguei uma senha para atendimento no caixa e sentei em uma poltrona azul, observando o painel eletrônico. Preocupado com o tempo, abri minha carteira, mas não encontrei o cartão do banco. “O que vou fazer? Mais tempo perdido, francamente…” Ansioso e irritadiço, respirei profundamente e mirei meus olhos num ponto fixo em um pequeno espaço transparente da divisória que separa a clientela dos guichês do caixa.

Não acreditei no que vi. Condenei-me à insanidade. Algo peludo e esguio na sua pequenez caminhou do outro lado da divisória carregando um cartão alaranjado. Não tinha mãos humanas, mas improvisava dedos com os próprios pelos. Quando percebeu que eu o observava, adiantou-se numa correria fremente por entre as pernas do segurança. Era como um pequeno rei das balizas.

Bastardo! Ingrato! Desgraçado! Seu pequeno filho da puta! Como pôde fazer isso comigo? – gritei dentro da minha própria consciência, sentindo comichão na boca.

Era a minha barba! Na saída do banco, balançou o meu cartão e correu em disparada com seus pés pelosos que mantinham higiênica distância do chão, como se flutuassem. Com receio de chamar atenção, ou com medo do constrangimento de ser ignorado, caminhei disfarçadamente. Lá fora, minha barba corria com ligeireza, quase desaparecendo na esquina.

Desesperado, levei as mãos à cabeça e vociferei:

— Parem! Parem essa barba aí na esquina! Olhem! Parece um homenzinho felpudo! Mas não é! Está fingindo! É um ser dissimulado! É uma barba! Não deixem esse bandido de pelos fugir! Ele furtou meu cartão! Seu pilantra maldito!

Quase ninguém me ouviu. Os poucos que assistiram meu clamor, gargalharam e gritaram: “Mais um bêbado nesta cidade! Sai daí, seu louco! Era só o que faltava! Estou de saco cheio desses estrupícios!” Um deles chamou uma viatura da polícia enquanto eu corria pela calçada. Perto de encostar minhas mãos na barba fujona, senti alguém me puxar pelo braço.

O aroma da barba se desvaneceu como a mais efêmera das ilusões. Travessa, ela parou de correr e começou a caminhar lentamente, chacoalhando meu cartão e fazendo troça da minha situação. Antes de entrar na Casa do Cabeleireiro, esticou as extremidades do longo bigode, empinou a bunda peluda e a balançou diante da soleira.

Minha vontade era esganá-la e afiná-la a socos e pontapés, mas eu não poderia fazer isso com a minha barba. Eu precisava dela inteira. Dela? Não sei! Como definir um substantivo feminino de forma masculina? Tanto faz! Fui levado para a delegacia. Fizeram o boletim de ocorrência, qualificando-me como infrator, perturbador do sossego. Encontrei três colegas de trabalho e, mais uma vez, não fui reconhecido por ninguém.

— Não, nunca o vi. Conheço uma pessoa com esse nome, mas não é ele. Deve ser mera coincidência – comentou um dos camaradas.

Paguei a fiança e fui liberado. Sem nada a perder, narrei ao investigador tudo que aconteceu naquela manhã. Ele recomendou uma consulta com seu cunhado, um psiquiatra. Enfezado, voltei para casa reconhecendo a derrota e decidi escrever uma história sobre o desaparecimento da minha barba. O jornal não quis publicá-la, qualificando-a como inverossímil. Tudo bem. Me contentei em publicar uma nota nos classificados online.

Procura-se barba preta, volumosa e fechada. Tem perfil independente, forma masculina, porte atlético, andar espaçoso, bigode alongado, tipo handlebar, e oculta entre os pelos um cartão alaranjado do Banco do Brasil. Paga-se boa recompensa.
Somente os mais ardilosos oportunistas responderam ao anúncio, trazendo-me barbas de terceiros e das mais variadas cores e formas. A maioria, provavelmente colhida do chão das barbearias.

Ao final da tarde, desisti de procurá-la. Na manhã seguinte, quando levantei e cocei o queixo, corri em direção ao espelho do banheiro. Apenas sorri. Ela voltou para casa. Ao lado da cama, havia um pente e uma série de produtos. Pois é. Deveria ter cuidado mais da minha barba.





Written by David Arioch

October 16th, 2016 at 2:44 pm

O burrinho sentado

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Achei melhor começar pelo aparelho de gêmeos (Foto: Reprodução)

Aconteceu um fato inusitado na academia quando eu estava terminando o treino. Enquanto eu desmontava o leg press, notei um senhor me olhando. Acredito que ele mirava especificamente meu rosto. Talvez a minha barba. Simplesmente fingi que não percebi. Tirei uma grande quantidade de anilhas do leg press e decidi treinar panturrilhas.

Achei melhor começar pelo aparelho de gêmeos. Como a última pessoa a usá-lo foi justamente aquele senhor, atravessei até o outro lado da academia, onde ele fazia abdominais num canto, para perguntar se já tinha terminado de usar o tal aparelho, também chamado carinhosamente de “burrinho sentado”.

Depois de uma série de abdominais, o homem continuou deitado, com as mãos na testa e mirando o teto. Então me aproximei e perguntei: “O senhor terminou de usar o aparelho para panturrilha?” Acho que a minha presença era tudo que ele não esperava naquele momento. Levou um susto tão grande que seu corpo chegou a ficar suspenso no ar por um segundo, não sei ao certo. Só lembro da resposta e das balançadas de cabeça: “Terminei sim! Sim! Terminei sim!” Agradeci e caminhei em direção ao “burrinho sentado”.

Written by David Arioch

October 13th, 2016 at 11:44 pm

O fura-fila

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O homem tinha pressa em comprar quatro pães (Foto: Reprodução)

Voltando para casa, entrei em Nova Esperança e passei em um supermercado. Caminhei até o fundo e vi uma fila modesta em frente à padaria. Algumas pessoas conversavam e outras mantinham-se em silêncio. De repente, um senhor ficou ao lado de uma mulher que aguardava alguns pães. Ele furou a fila.

Quando olhou para mim, mantendo o corpo recôndito pela senhora que nos separava, ele sabia que eu sabia o que ele estava fazendo. Então desviou o olhar algumas vezes e sorrateiramente voltou a me observar. “Me vê quatro pães”, pediu à atendente com voz em tom baixo e tapando parcialmente a boca com a mão direita, como se quisesse impedir que eu o ouvisse.

Continuei assistindo aquele senhor. Arreliado e claudicante, ele desviava a cabeça, coçava os parcos cabelos brancos e esfregava o par de sandálias no piso esmerado. Seus olhos iam de caroço de azeitona à caroço de abacate em segundos. Quando a atendente entregou os quatro pães, foi como se ele se sentisse livre do meu olhar que talvez espelhasse uma confissão, revelando mais do que ele gostaria de ponderar – ou talvez não, vai saber.

Written by David Arioch

September 22nd, 2016 at 12:03 am

Diante do banheiro

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Experiências diante do banheiro de uma clínica de mastologia (Foto: Reprodução)

De manhã, fui ao mastologista entregar alguns exames que fiz nos últimos meses. Antes de ser atendido, senti muita vontade de urinar. Atravessei a clínica e, diante do banheiro, girei a maçaneta – a porta estava trancada. Havia uma pessoa lá dentro. Tudo bem! Me afastei e aguardei a minha vez.

Nesse ínterim, chegou uma mulher grávida acompanhada do marido. Me observaram suspeitosamente. Assim que um homem saiu do banheiro, ela se adiantou e, sem perguntar nada, entrou e trancou a porta. Não vi problema algum nisso, mesmo ansiando por usá-lo. Afinal, era uma mulher grávida. Eu poderia continuar esperando, mesmo intranquilo.

Em menos de minuto, o marido da grávida se afastou e continuou me analisando. Não movimentei minha cabeça ou olhos para retribuir a dúvida, curiosidade ou suspeita. Enquanto simulava minha atenção em ponto fixo, notei o marido se aproximando, retirando uma toalha de papel de um balcão a centímetros de mim e se afastando. Por poucos segundos, o vi caminhando em direção à sala de espera.

Continuei ali, imóvel, com semblante imperscrutável, sentindo-me tão fleumático que por pouco não me tornei uma extensão do balcão. Sem demora, o homem retornou. Ainda me observava. Não conseguia fingir que não o fazia. Fortuitamente se esforçava para fazer algum tipo de oposição a si mesmo. Talvez estivesse em conflito. Então sua esposa saiu do banheiro. Ela direcionou os olhos pra mim, sem que eu precisasse fazer o mesmo. Percebi sem qualquer esforço que eles me assistiam à direita e à esquerda. Ok!

Tive a impressão de que tentavam me comprimir com os olhos. Sem me comunicar, ignorei. Entrei no banheiro sem olhar para trás, e pareceu-me que havia algum tipo de surpresa nisso, pelo menos por parte deles que demonstravam não entender o que eu fazia ali. Enquanto urinava, senti o corpo mais leve, principalmente minha cabeça que parecia carregar o peso de olhos que não eram meus. Lavei as mãos, tirei minha blusa, ajeitei a barba e os cabelos. Atravessei o corredor e a segunda sala de espera sem mirar coisa alguma.

Notei alguns pares de olhos e caminhei até a primeira sala de espera, onde deixei os resultados dos meus exames sobre uma das poltronas. Depois que fui atendido pelo mastologista, pedi a recepcionista que me entregasse a guia original da solicitação de exames porque eu precisava apresentá-la no laboratório. Logo o casal dantes se aproximou. Quando o marido viu que eu estava me preparando para sair, apoiou o capacete em um dos braços e cordialmente sorriu, abrindo a porta do consultório para que eu partisse.

Written by David Arioch

September 21st, 2016 at 11:56 pm