David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Crônica’ tag

O tio eremita

without comments

Andando pelo centro, uma jovenzinha me parou na rua para pedir “bença”. Depois se desculpou, alegando que me confundiu com seu tio que abandonou tudo para viver como eremita na Ilha Mutum, às margens do Rio Paraná.

Written by David Arioch

January 26th, 2017 at 12:03 am

Posted in Crônicas/Chronicles

Tagged with , ,

O presente do Pantera

without comments

Pantera voltou para sua casa. Ontem eu o carreguei no colo e ele ficou me observando por um bom tempo, com sua língua de fora, olhar atento e expressão de bonachão. Hoje à tarde, antes de partir, ele deixou um presente na sala – uma porção de cocô.

Written by David Arioch

January 19th, 2017 at 1:08 am

A tontura e a barba

without comments

Na quarta-feira, sentindo um pouco de tontura, me consultei com um bom médico. Na quinta-feira, retornei para apresentar os resultados dos exames. Ele leu tudo e disse que aparentemente estou bem, embora tenha sugerido a realização de outros exames mais específicos. Antes de eu me despedir, ele perguntou: “Tem certeza que essa tontura não é por causa do peso da sua barba?”

Written by David Arioch

January 16th, 2017 at 2:07 pm

“Ela se interessou por você. Ela tem fetiche por jornalista”

without comments

Dias atrás, um amigo veio me falar que uma amiga dele quer muito me conhecer. Então questionei o motivo:

– Ah, cara! Ela se interessou por você. Ela tem fetiche por jornalista.
– Como assim?
– Como assim o quê?
– O que seria fetiche por jornalista?
– Sei lá, cara! Tá perguntando demais!
– Cara, pra ela ter fetiche por jornalista, ela precisa primeiro ter fetiche pela pobreza, porque uma coisa está associada à outra.

Written by David Arioch

January 9th, 2017 at 12:11 am

O peso da sua barba

without comments

Na quarta-feira, sentindo um pouco de tontura, me consultei com um bom médico. Na quinta-feira, retornei para apresentar os resultados dos exames. Ele leu tudo e disse que aparentemente estou bem, embora tenha sugerido a realização de outros exames mais específicos. Antes de eu me despedir, ele perguntou: “Tem certeza que essa tontura não é por causa do peso da sua barba?”

Written by David Arioch

January 8th, 2017 at 11:59 pm

Entre saúde pública, privada e falta de empatia

without comments

Quanto mais ela gritava, mais eu me sentia como se minha mente dilatasse

heartbeat-clipart-clipart-best-amaeun-clipart

“Falta de empatia, empatia, empatia…realmente…isso independe de classe social” (Arte: Reprodução)

Na quarta-feira, sentindo um estranho mal-estar, liguei para o médico. Ele estava de férias. Na dúvida, acabei indo ao Pronto Atendimento Municipal (PA). Na recepção, expliquei a minha situação. O recepcionista estranhou o fato de não existir meu nome no cadastro deles e perguntou de onde sou. Talvez a barba tenha ajudado a potencializar ainda mais a suspeita. Mas tudo bem. Informei que eu nunca tinha usado o SUS e que aquela era a primeira vez.

Enquanto eu aguardava atendimento, fiquei prestando atenção ao meu redor. Havia uma calmaria intrigante. Ao meu lado, um senhor que se esforçava para ajeitar os óculos agonizava, e, na minha análise superficial, ele parecia o que mais necessitava de ajuda. Ainda assim, sequer reclamava. Num ato de desassossego, uma garota logo atrás de mim, em companhia da mãe ou avó, começou a berrar que estava com dor, fazendo balbúrdia. Levantou-se, correu entre os assentos e apontou dedos.

A senhora que a acompanhava foi até a recepção e começou a ofender o recepcionista, exigindo atendimento imediato. Achei aquilo constrangedor, mas eu estava com um pouco de tontura e optei por não intervir. Posso estar fazendo um mau julgamento, mas considerei exagerada a atitude daquela jovem. A maioria continuava em silêncio, talvez inerte na própria dor, e o senhor prosseguia gemendo quase em sigilo.

Depois de passar pela enfermeira, ela sugeriu que eu retornasse para o meu assento e aguardasse atendimento médico. Acabei desistindo da segunda chamada, até porque mais pessoas chegavam e provavelmente precisavam de mais assistência do que eu. Então fui até a Santa Casa. Expliquei a minha situação na recepção, entreguei a carteirinha da Cassi e prestei atenção no ambiente.

Ar-condicionado, bons assentos, televisor de melhor qualidade, ambiente bem arejado com direito a banheiros impecavelmente limpos. Normal, a ordinária realidade de quem tem um bom plano de saúde ou condições de custear atendimento particular, sem necessidade de passar pelo PA. Enquanto eu aguardava a minha vez, uma mulher se aproximou e disse que queria se consultar com um clínico geral.

Após inúmeras reclamações, e muita paciência por parte da recepcionista, a mulher sentou ao meu lado. Falava incessantemente e não aguardou nem 20 minutos. Se levantou enraivecida. Gesticulou, balançando os braços adornados por belas joias, e gritou que não ficaria mais um segundo ali porque era um descaso muito grande ter que esperar tanto por atendimento. Assim como no PA, eu e outras pessoas ficamos em silêncio.

Quanto mais ela gritava, mais eu me sentia como se minha mente dilatasse e eu fosse submetido a um caleidoscópio de ressonâncias impessoais. Pelo que percebi por parte dela, o seu caso não era emergencial. Me recordei da moça e sua mãe ou avó que fizeram um pandemônio no PA. “Falta de empatia, empatia, empatia…realmente…isso independe de classe social”, concluí.

Written by David Arioch

January 8th, 2017 at 11:58 pm

O homem e o carrinho

without comments

No mercado, vi um senhor fazendo um esforço hercúleo para empurrar um carrinho abarrotado de carne

No mercado, vi um senhor fazendo um esforço hercúleo para empurrar um carrinho abarrotado de carne. Havia tanta carne que por um momento ele parou de empurrá-lo. Em seguida, enxugou o líquido viscoso que escorria de um dos sacos de carne, lambuzando sua mão direita. Seu carrinho não era o único na mesma situação.

Antes que eu me afastasse, um de seus filhos se aproximou e o questionou se não havia carne demais no carrinho. Incomodado, o homem respondeu, num paradoxo ruidoso: “Carne é vida. Melhor sobrar do que faltar.” Por outro lado, ele sentia-se desconfortável porque uma de suas mãos estava grudenta. Sem velar a expressão de repulsa, na tentativa de limpá-la, ele acabou esfregando a mão em uma porção de belas laranjas.

Em menos de minuto, algumas testemunhas se aproximaram e viram as laranjas manchadas pelos glutinosos vestígios de carne. Então reclamaram: “Que sujeito nojento! Eu que não pego essas laranjas!” E partiram empurrando seus carrinhos cheios de peru, tender, pedaços de carne bovina e bandejas de presunto.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





“Esse é bom! Muçulmanos sabem!”

without comments

Fui ao mercado há pouco. Chegando lá, apertei o botão do alarme do carro e nada. Não funcionou. Então me dei conta que o pressionei com tanta força que o botão afundou. Tentando resolver a situação, notei algumas pessoas me observando por causa da minha barba. Não consegui evitar de pensar: “Agora, além de terrorista, vão achar que sou ladrão.”

Depois, no setor de hortifruti, comecei a analisar alguns pacotes de romãs. De repente, cinco haitianos se aproximaram e começaram a observá-los também. Enquanto eles conversavam em crioulo, eu seguia procurando as melhores porções.
Quando eu tirava a mão de um pacote, os haitianos faziam o mesmo.

Dois ou três minutos depois, peguei em definitivo um pacote. Então um deles fez o mesmo. Assim que me afastei, ouvi alguém dizendo algo como: “Sa a se bon. Mizilman an konnen!”, que significa: “Esse é bom! Muçulmanos sabem!”

Written by David Arioch

December 24th, 2016 at 7:35 pm

“Ué, mas nem parece!”

without comments

Saindo da academia, notei que o pneu dianteiro esquerdo do carro começou a fazer um barulho estranho. Desci, olhei e não percebi nada. Então decidi passar em um posto para calibrar os quatro. Enquanto calibrava, vi que havia um parafuso gigante cravado no pneu, embora não houvesse nenhum vazamento.

Então dirigi até uma borracharia na Avenida Tancredo Neves. Chegando lá, enquanto o borracheiro separava a roda do pneu, ele perguntou: “Você é fisiculturista?” “Você é lutador?” Você é professor de educação física?” Respondi não para as três inferências.

Cheio de tentar adivinhar, o borracheiro continuou: “O que tu faz afinal? Parcimonioso, contei que sou jornalista. Ele prontamente emendou: “Ué, mas nem parece!” Pois é…

Cortando o cabelo

without comments

Depois de um bom tempo, fui cortar o cabelo. Sentei na poltrona e o camarada começou o seu trabalho com a maquininha e a tesoura. De repente, senti uma lâmina encostando sutilmente na minha barba. Fui tomado por calafrios e pensei comigo mesmo: “Nossa! Ele encostou a lâmina na minha barba. Por favor, não faça mais isso. Por favor!” Até senti minha barba se encolhendo naquele momento, parecia um tatu-bola na sua forma mais cabeluda. Juro que ela gemeu chorosa. Por um segundo, tive a impressão de ouvi-la me chamando para irmos embora: “Bora, David! Aqui não é lugar pra nós dois! Estão querendo nos separar!”

11 de novembro de 2016.

Written by David Arioch

November 16th, 2016 at 10:42 am

Posted in Crônicas/Chronicles

Tagged with , , ,