David Arioch – Jornalismo Cultural

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Um novo tipo de beleza

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Foto do projeto polêmico de Toledano

Foto do projeto polêmico de Toledano

Foto do controverso livro “A New Kind of Beauty”, de cunho sociopolítico, do conceituado fotógrafo estadunidense Phil Toledano que rediscute o conceito de beleza tendo como foco 27 pessoas que passaram por espontâneas intervenções cirúrgicas.

Acesse: http://www.mrtoledano.com/a-new-kind-of-beauty

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January 25th, 2016 at 10:54 pm

O que fazer com os buracos no asfalto

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Davide Luciano e Claudia Ficca deram ao projeto o nome de Potholes

Davide Luciano e Claudia Ficca deram ao projeto o nome de Potholes

Um dia, no Canadá, os fotógrafos Davide Luciano e Claudia Ficca caíram com o carro dentro de um buraco. A partir daí, surgiu a ideia de criar o projeto Potholes que consiste em uma série criativa sobre o que fazer com os buracos no asfalto. O trabalho deles tem como cenário as cidades de Toronto, Montreal, Los Angeles e Nova York, onde vivem atualmente.

Acesse: www.mypotholes.com

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January 25th, 2016 at 10:20 pm

Andres Amador, o artista da areia

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Amador é especialista na criação de grafismo e formas geométricas na areia (Foto: Andres Amador)

Amador é especialista na criação de grafismo e formas geométricas na areia (Foto: Andres Amador)

Imagem de uma das muitas obras do artista plástico estadunidense Andres Amador, especialista na criação de grafismo e formas geométricas na areia. Inspirado pela técnica britânica “crop circle”, Amador tem criações que foram concluídas em minutos enquanto outras levaram anos, chegando a 15 quilômetros de extensão.

Acesse: andresamadorarts.com

 

 

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January 23rd, 2016 at 10:16 pm

Um sonho sobre trilhos

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Viajantes ilegais atravessam o estado mexicano de Oaxaca sobre um trem de carga (Foto: Michelle Frankfurter)

Viajantes ilegais atravessam o estado mexicano de Oaxaca sobre um trem de carga (Foto: Michelle Frankfurter)

A fotógrafa estadunidense Michelle Frankfurter acompanhou a jornada de imigrantes da América Central para os Estados Unidos. Na foto registrada ao amanhecer, viajantes ilegais atravessam o estado mexicano de Oaxaca sobre um trem de carga. No percurso, é comum muitos se ferirem e até morrerem.

Acesse: michellefrankfurterphotos.com

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January 21st, 2016 at 11:59 pm

Sean Kernan e a essência do confinamento

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Kernan: "Você não pode generalizar sobre raça ou sobre a criminalidade."

Kernan: “Você não pode generalizar sobre raça ou sobre a criminalidade.”

Nos anos 1977 e 1979, o fotógrafo estadunidense Sean Kernan conseguiu autorização para fotografar detentos de duas prisões: uma na Virgínia do Oeste e outra no Alabama. O resultado foi um trabalho que apresenta as emoções mais conflitantes de quem vive em uma prisão.

“Você não pode generalizar sobre raça ou sobre a criminalidade. Mas, acima de tudo, você não pode odiar. Do contrário, vai entender a situação de forma errada”, disse Kernan em entrevista ao New York Times.

Acesse: seankernan.com

Contribuição

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January 21st, 2016 at 11:38 pm

A simplicidade de Faulkner

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William Faulkner

Faulkner preferia a simplicidade ao luxo (Foto: Revista Life)

Sem luxo, era assim que o escritor William Faulkner, um dos maiores nomes da literatura dos EUA, autor de clássicos como “As I Lay Dying”, “Sanctuary”, “The Sound and the Fury”, “A Rose for Emily”, “Light in August” e “Absalom, Absalom!”, gostava de produzir –  imerso num estilo de vida que aspirava à simplicidade.





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January 18th, 2016 at 11:24 pm

Boardwalk Empire e a Crise de 1929

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Série mostra como os mafiosos italianos e irlandeses exploravam as privações da Crise de 1929 (Foto: Divulgação)

Série mostra como os mafiosos italianos e irlandeses exploravam as privações da Crise de 1929 (Foto: Divulgação)

Embora tenha chegado ao fim em 26 de outubro de 2014, Boardwalk Empire é uma das melhores séries de TV dos últimos anos. Recomendo para quem gosta de programas que casam entretenimento com história. A série é ambientada no período da Grande Depressão, quando os Estados Unidos passaram por uma de suas maiores crises econômicas.

Um dos pontos mais interessantes de Boardwalk Empire é que a série mostra como os mafiosos italianos e irlandeses atuavam para explorar ao máximo as privações da Crise de 1929. Inclusive fica bem claro que esse período foi tão benéfico para criminosos quanto para políticos.

Há elementos históricos bem contundentes misturados com boa ficção. Outro atrativo são os muitos personagens enigmáticos, inspirados em figuras reais que comandaram o crime organizado nos EUA, principalmente nas décadas de 1920 e 1930.

Written by David Arioch

January 13th, 2016 at 11:16 pm

Guerra da Tchetchênia, irmãos Tsarnaev e o orgulho “americano”

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Por que esses estadunidenses tão patriotas não se recusaram a enterrar gente como Jeffrey Dahmer?

Nos EUA, muitos cemitérios se recusaram a receber o corpo de Tamerlan Tsarnaev (Foto: Reprodução)

Nos EUA, muitos cemitérios se recusaram a receber o corpo de Tamerlan Tsarnaev (Foto: Reprodução)

Estudei a Guerra da Tchetchênia durante muito tempo. E isso me levou a me aprofundar no perfil e na formação cultural, social, política e religiosa dos tchetchenos. Ainda assim, não me considero um entendido do assunto. Longe disso. Sou apenas um entusiasta, no máximo um curioso. Tenho como referência um jornalista que talvez seja um dos maiores especialistas do mundo no assunto, Barry Renfrew, dos EUA, que por anos conviveu com os tchetchenos quando era correspondente da Associated Press.

Dito isso, afirmo aqui mais uma vez, assim como o fiz em 2013, que suspeito que os irmãos Tsarnaev não sejam os responsáveis pelo atentado da Maratona de Boston. Na minha opinião, parecem bodes expiatórios para ocultar uma realidade mais grotesca, com motivações sociopolíticas.

Acho que a situação é mais surreal ainda quando penso que a família de Tamerlan Tsarnaev teve dificuldades para enterrá-lo. Muitos cemitérios se recusaram a receber o corpo do jovem. Aí eu te pergunto. Por que esses estadunidenses tão patriotas não se recusaram a enterrar gente como Jeffrey Dahmer? Psicopata e canibal que matou 17 pessoas e comeu a maior parte delas à caçarola, mas foi responsabilizado pela morte de 15.

Onde estava a intransigência desses administradores de necrópoles quando Henry Lee Lucas, homem que assumiu a autoria de mais de 600 assassinatos em parceria com Ottis Toole, foi sepultado no cemitério Captain Joe Byrd em Hunstsville, no Texas? E ainda teve plateia pra isso. Claro, um sujeito que come pessoas, estupra, decapita, esquarteja dezenas, centenas, merece uma bela lápide nos EUA, desde que seja verdadeiramente “americano”. Agora se você for imigrante e acusado de um crime com provas inconsistentes e ditas “secretas” merece ter seu corpo jogado em alguma valeta.

Outro ponto que considero importante. Os EUA sempre tiveram bom relacionamento com os tchetchenos, quero dizer, pelo menos por muito tempo. A maior prova disso foram as sanções que o governo estadunidense impôs aos russos por causa de violações de direitos humanos desde a década de 1990. Ou seja, são aliados há muito tempo e inimigos dos russos. Mas infelizmente nada disso vai mudar o destino de Dzhokhar Tsarnaev, o rapaz de 21 anos que aguarda a pena de morte. No entanto, faço questão de ressaltar que nos EUA ele tem o apoio dos “Veteranos Pela Paz”, ou seja, um grande número de ex-combatentes que por tantos anos defenderam a “América”.

Dzhokhar Tsarnaev foi condenado à pena capital (Foto: Reprodução)

Dzhokhar Tsarnaev foi condenado à pena capital (Foto: Reprodução)

Logo abaixo volto a reproduzir a mesma linha de raciocínio que fiz questão de compartilhar em 2013, no dia seguinte ao atentado.

Tenho acompanhado de acordo com minhas possibilidades o suposto atentado da Maratona de Boston e com base em tudo que li até hoje, até mesmo por parte de estadunidenses e outros estrangeiros, ouso dizer que o brasileiro mediano consegue ser extremamente medíocre quando se trata da falta de análise crítica e profunda dos fatos. Que falta de bom senso e mínima capacidade reflexiva é essa que faz as pessoas acreditarem em qualquer informação divulgada pelos meios de comunicação mainstream de países de “Primeiro Mundo”?

Nem mesmo quem mora nessas nações costuma simplesmente absorver essas informações como se fosse apenas uma mera esponja, um receptáculo de pseudo-elucubrações. E ainda com conteúdo reproduzido copiosamente e com uma conivência surreal dos veículos de imprensa do Brasil que tratam os EUA como se fossem um país exemplar, o que não é. Claro, muitas vezes, a grana que os sustenta costuma vir de lá, principalmente de conglomerados comandados por magnatas sionistas. Curioso que os acusados do atentado em Boston são muçulmanos tchetchenos, não? Para citar um exemplo, o que será que Rupert Murdoch pensa a respeito do assunto?

Afinal, todo estadunidense sabe que recentemente ele tentou assumir o controle de toda a grande mídia dos EUA, o que só não foi possível por causa das limitações legais do oligopólio midiático. Claro, e não posso deixar de mencionar que esse mesmo líder das comunicações é um dos maiores incentivadores do Estado de Israel, inclusive financiando ações do governo que partem de Tel Aviv e Jerusalém.

Por que quando um meio de comunicação de um país pobre, subdesenvolvido ou que vive um sério conflito civil divulga algo sempre há brasileiros colocando em xeque o conteúdo, mesmo sem entender do que se trata? E ainda em um tom de superioridade que demonstra uma severa incapacidade de autorreflexão, para não dizer uma inclinação mais do que obtusa e falseada do pensamento “americanizado”.

Eu não diria que o brasileiro desinformado costuma ser apolítico, ele consegue ser pior que isso. Não se importa em aceitar tudo que lê sem questionar – e quando o faz prefere ser jactante e frívolo. Assuntos complexos envolvem sim abstração de raciocínio e exigem boa bagagem cultural. Criticidade e bom senso parte do princípio de que tudo que você lê deve ser avaliado cuidadosamente como um cardápio de restaurante. Ou seja, é imprescindível descartar aquilo que não faz bem ao nosso organismo.

Veteranos de guerra protestam contra a condenação do tchetcheno à pena de morte (Foto: Nicolaus Czarnecki/Metro)

Veteranos de guerra protestam contra a condenação do tchetcheno à pena de morte (Foto: Nicolaus Czarnecki/Metro)

Sinto vergonha ao ver tantos brasileiros reverenciando os EUA por terem encontrado os supostos acusados do atentado de Boston no dito tempo recorde. Há “leitores” dizendo que isso deveria servir de exemplo ao Brasil. E pior, vejo brasileiros divagando na superficialidade, admirando as fardas dos estadunidenses responsáveis pelo assassinato do jovem Tamerlan Tsarnaev (quando ainda era um suspeito, não um criminoso). Dizem que é algo que impõe mais postura e respeito. Vestimenta agora é uma alusão ao senso de justiça?

Se eu não for preguiçoso e quiser saber sobre o que realmente está acontecendo nos EUA, prefiro buscar informações e discutir sobre o assunto com pessoas que acompanham a mídia considerada independente, seja nacional ou internacional – formadores de opinião que não sejam de extrema direita nem esquerdistas radicais. E claro, sempre partindo da base de que em menor ou maior proporção os livros continuam sendo a melhor fonte de informação para entender esse tipo de situação.

Ainda considero Noam Chomsky uma importante referência para compreender as problemáticas mais extenuantes da Terra do Tio Sam – seja com relação a conflitos internos e relações internacionais. Outros nomes interessantes que posso citar por ora e do próprio EUA são Benedict Anderson, Bruce Bueno de Mesquita, Norman Finkelstein e Harold Lasswell.

Não sou Anti-EUA, muito pelo contrário, admiro muito a arte produzida por eles, mas simpatizo pouco com o sistema político daquele país e principalmente com os meios de comunicação “mais populares” que estão sempre inclinados sobre si mesmos – como se o mundo se projetasse ao redor da “América”.

Written by David Arioch

June 25th, 2015 at 1:52 pm

O poder de identificação de Louie

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Série de Louie C.K. surpreende ao mostrar um comediante como uma pessoa comum

Na série, Louie não é celebrado como um comediante de sucesso (Foto: Reprodução)

Na série, Louie C.K. não é celebrado como um comediante de sucesso (Foto: Reprodução)

Há três anos, eu estava procurando uma nova série de comédia e me surpreendi com o que encontrei. Quando li a sinopse pela primeira vez, admito que hesitei, até porque hoje em dia é difícil pensar logo de cara em originalidade ou criatividade quando falamos sobre sitcoms protagonizadas por comediantes de stand up. Ainda mais se você passou a adolescência assistindo séries como Seinfeld, The Cosby Show, The Bob Newhart Show, Home Improvement, Roseanne e só pra citar um exemplo até recente – Everybody Loves Raymond. São programas feitos por artistas que marcaram a história da TV norte-americana ao migrarem das casas de shows para as comédias de situação.

Fizeram a diferença, incrementaram e foram copiados até mesmo por comediantes brasileiros que só não admitem isso porque sabem que a maior parte da população brasileira desconhece esses programas. Mas voltando ao principal, a série que me chamou a atenção é Louie, sobre o estilo de vida e o cotidiano de um comediante de quem eu jamais tinha ouvido falar até 2011. Acho que passei cerca de três meses adiando até o dia de assistir ao primeiro episódio.

Me arrependi de não ter assistido antes. A abreviação do nome do comediante, Louis C.K., é uma brincadeira com o sobrenome húngaro Székely que em português significa guarda da fronteira. É uma palavra até curiosa se levar em conta que Louie, como é mais conhecido, é um estadunidense de origem mexicana com um sobrenome magyar. Além de protagonizar a série lançada em 2010, C.K. é o criador, roteirista e diretor desse programa que se tornou uma das melhores aquisições do canal FX dos últimos anos.

Quando comecei a assistir a primeira temporada da série em 2011, um ano após o lançamento, o primeiro elemento que me chamou a atenção foi a estrutura de obra audiovisual independente e intimista. É interessante ver uma abertura de série em que o protagonista passa despercebido pelas ruas de Nova York, a meca do stand up comedy, em direção a uma pequena casa de shows, um ambiente que moldou e transformou Louie em quem ele é hoje.

Programa estreou em junho de 2010 (Foto: Reprodução)

Programa estreou em junho de 2010 (Foto: Reprodução)

O programa foge da glamourização e realça fatos pouco conhecidos sobre o vasto universo do stand up comedy nos Estados Unidos. Usa a ironia para instigar risos e reflexões sobre uma parcela da realidade do universo do entretenimento norte-americano. Na série, Louie não é celebrado como um comediante de sucesso. Muito pelo contrário. Também é um sujeito reservado e bem solitário quando não está acompanhado das duas filhas.

Há situações em que nem mesmo é respeitado. Por um lado, é uma forma de entrar em concordância com uma proposta peculiar de humor negro e satirização. Por outro, evidencia com certa pessoalidade as dificuldades vividas por centenas de comediantes que apenas lutam para se manter na ativa, sobreviver e garantir o sustento familiar.

S.K. é alvo das suas próprias piadas e das casualidades do cotidiano. Exemplos são os momentos em que é sacaneado por adolescentes e até por prestadores de serviços do prédio onde mora. Quem assiste Louie, percebe que o humor e o riso estão acima de tudo; são prioritários. Se necessário, o autor é capaz de desconstruir a própria imagem para surpreender o público, até porque o ser humano, independente de qualquer coisa, é suscetível à metamorfose. No programa, Louie C.K. se coloca numa posição de homem comum que simplesmente tem como diferencial o fato de ter escolhido trabalhar com a comédia. Tanto que assim como em qualquer profissão vive situações em que é enganado e passado para trás pelas pessoas com quem se relaciona, inclusive colegas de trabalho.

Louie se passa no palco de uma pequena casa de shows de Nova York (Foto: Reprodução)

Parte de Louie se passa no palco de uma pequena casa de shows em Nova York (Foto: Reprodução)

Logo na primeira temporada, Louie brinca que trilhou esse caminho porque provavelmente não saberia fazer outra coisa da vida. A hipocrisia é um tema recorrente nas piadas do comediante e agrada porque não recai na obviedade. Quando decide ser mais crítico e ácido, se volta para as consequências do capitalismo, hipermodernidade, excessos de urbanização, fobias sociais, paroxismos, estereótipos, falhas do american way of life, xenofobia e preconceito contra imigrantes e minorias étnicas. Aborda com criatividade singular a indiferença, apatia, ausência de sensibilidade e de solidariedade.

Em menos de 23 minutos, e ao melhor estilo single-camera, Louie consegue fazer o espectador viajar por situações corriqueiras e insólitas que o fazem rir e refletir sobre as mais simples e imprevisíveis razões. Em uma das cenas de um episódio, o protagonista brinca com a inevitabilidade de envelhecer ao citar um aniversário em que confundiu a própria idade. Em outra, explora uma situação de intimidade com uma garota que tinha fetiche por homens velhos. Para o comediante, não há matéria-prima mais rica do que a própria condição existencial e as experiências do cotidiano.

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O protagonista é alvo das suas próprias piadas e casualidades do cotidiano (Foto: Reprodução)

Na série, o ato de fazer piada de si mesmo não tem uma conotação pejorativa, desrespeitosa ou apelativa. Na realidade, revela uma certa maturidade e até capacidade de aceitação. Quem o faz com sabedoria demonstra autoconhecimento e mais flexibilidade para encarar as dificuldades cotidianas, principalmente se tratando de relações sociais, sejam casuais ou não.

Até uma desconfortável dor nas costas entra para o script de uma cena em que a realidade flerta com o seu potencial inventivo. A situação faz rir porque explora uma perspectiva fantasiosa de um diálogo entre médico e paciente. Na ocasião, o comediante busca amenizar o seu problema. Em vez de apresentar uma solução plausível, o médico diz que o jeito é Louie começar a se locomover na horizontal, já que o homem não foi feito para andar em pé. Cenas como essa fazem parte de uma proposta de humor surreal, baseado na imprevisibilidade. A intenção é subverter as expectativas do público.

Outro exemplo pode ser visto nos minutos iniciais de Back, o primeiro episódio da quarta temporada, iniciada no dia 5 de maio, em que garis passam em frente ao prédio do comediante recolhendo o lixo. Louie não consegue dormir com o barulho. Para piorar, o nível de desconforto sofre uma gradação acelerada. Assim o autor e protagonista explora uma situação de identificação. Ou seja, qualquer espectador já deve ter vivido um momento em que queria dormir, mas o barulho nas imediações era tão incômodo que se tornava cada vez mais extenuante com o passar do tempo.

No show, o comediante é reservado e solitário quando não está com as filhas. (Foto: Reprodução)

No show, o comediante é reservado e solitário quando não está com as filhas (Foto: Reprodução)

Louie usa o humor surreal como intensificador. Logo os lixeiros começam a arremessar as latas de lixo e também a batê-las no chão. Quando o espectador pensa que aquele é o ápice da cena, ele é surpreendido de novo. Dessa vez, com a imagem dos garis chutando a janela do comediante, que não fica nos andares mais baixos do edifício, recolhendo objetos do seu quarto, batendo lata e pulando em sua cama. A ideia é materializar a sensação de perturbação através do surrealismo. Afinal, quem nunca pensou em algo como: “Putz, que barulheira! Parece até que estão aqui no quarto comigo!”

A graça está no fato de que Louie C.K. não se coloca numa posição de comediante de aceitação universal, o que deixa tudo mais engraçado. No episódio Model, da quarta temporada, ele é convidado por Jerry Seinfeld, que também aparece na terceira temporada, para fazer uma breve apresentação em um evento beneficente. Em vez de tentar agradar a um público formado por multimilionários, ele faz piada deles, arrancando risos apenas de uma mulher da plateia. Surge uma situação tão desconfortável quanto cômica.

Louie é tão leve quanto denso, reflexo da sua formação heterogênea como um comediante que além de voyeurista por natureza não esconde suas influências que incluem George Carlin, Richard Pryor, Bill Cosby, Steve Martin, Robert Downey e Jerry Seinfeld. Como a maior riqueza do programa são os diálogos, fica impossível não notar as referências a Woody Allen, o que também se estende à qualidade estética minimalista e trilha sonora, já que tanto o cineasta quanto o comediante partilham do mesmo amor pelo jazz, um recurso que reforça o simbolismo nova-iorquino.

Um ataque suicida por um lugar no paraíso

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Crianças e adolescentes respondem por 80% dos ataques terroristas no Afeganistão

Ataque a santuário em Cabul matou nove familiares de Tarana Akbari (Foto: Reprodução)

Ataque a santuário em Cabul matou nove familiares de Tarana Akbari (Foto: Reprodução)

No início de 2013, o jornalista canadense Shane Smith, um dos fundadores da companhia de mídia Vice, esteve no Afeganistão para produzir o documentário “The Killer Kids of the Taliban”, lançado em abril do mesmo ano. Na ocasião, teve a oportunidade de entrevistar muitas crianças e adolescentes convocados pelo Taliban para participarem de ataques suicidas. São jovens que só não morreram porque a Polícia Secreta Afegã conseguiu impedir que as bombas fossem acionadas.

Ainda hoje muita gente se pergunta por que o maior movimento fundamentalista islâmico do Afeganistão usa crianças em seus ataques terroristas. A reposta é simples. Os mais jovens passam pelos postos de segurança com facilidade e podem circular por qualquer lugar sem serem notados. O porta-voz do Diretório Nacional de Segurança (DNS) da Polícia Secreta Afegã, Lutfullah Mashall, disse a Smith que desde a invasão dos Estados Unidos o país registra todos os anos mais de cem ataques suicidas. Do total, pelo menos 80% são cometidos por crianças e adolescentes. “Eles são os preferidos do Taliban porque muitos são pobres, analfabetos e não conhecem de verdade o Alcorão”, revelou.

“The Killer Kids of the Taliban” é um documentário sobre a realidade dos jovens terroristas afegãos (Fotos: Reprodução)

“The Killer Kids of the Taliban” é um documentário sobre a realidade dos jovens terroristas afegãos (Fotos: Reprodução)

De acordo com Mashall, um talib, estudante do livro sagrado, é capaz de lutar e morrer pelo que acredita, mas jamais usaria um colete-bomba. “The Killer Kids of the Taliban” mostra que as crianças não têm real conhecimento das consequências de seus atos. “O imã Marouf [uma autoridade religiosa] nos disse para ir até a província de Logar e cometer suicídio. Ele falou: ‘Coloque as bombas em seu corpo e aperte o botão. Eles morrerão e você continuará vivo’”, relatou um garoto não identificado.

Entre os convocados pelo Taliban, há muitos jovens que não sabem que os coletes são explosivos. Alguns pensam que estão apenas transportando documentos. Em 2013, para se ter uma ideia da gravidade da situação, uma criança de seis anos conduziu um ataque suicida na Província de Paktika, a 244 quilômetros de Cabul. Com base nesses exemplos, o jornalista da Vice deixa claro que o poder de persuasão, mesmo baseado em mentiras, é a principal ferramenta do Taliban na hora de recrutar crianças e adolescentes.

O discurso de que é preciso ficar em frente a um hotel até a hora certa se repetiu muitas vezes. Normalmente, as bombas são acionadas por controle remoto quando chega algum comboio estadunidense, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou Força Internacional de Assistência para Segurança (Fias). Um garoto afegão preso na sede do DNS, chamado Kanjar, recebeu treinamento quando estudava no Paquistão. Os próprios professores o ensinaram a cometer suicídio, afirmando que assim ele iria para o paraíso.

“Não tivemos tempo de ler o Alcorão o suficiente para entendê-lo. Só nos disseram que o suicídio era permitido e deveríamos nos preparar para o paraíso. Quando coloquei o colete, me perguntei por que eu iria explodir a mim mesmo?”, contou Kanjar que em um grande momento de tensão só pensou na possibilidade de ficar em pedaços. Depois de preso, o jovem percebeu que o suicídio não poderia lhe proporcionar nada de bom. Além disso, a prática é condenada pelo Alcorão. Embora esteja arrependido, Kanjar continua preso, acusado de crime hediondo.

Abdul, outro adolescente entrevistado por Shane Smith, justificou que quis colaborar com o Taliban porque soube que há muitos infiéis rasgando o Alcorão e o jogando na latrina. “Fiquei nervoso ao saber que o nome do profeta é profanado”, comentou. Abdul, que nunca leu o Alcorão, também recebeu treinamento para usar um colete-bomba, crente de que assim ganharia um lugar no paraíso. Na turma do adolescente havia centenas de garotos se preparando para cometer ataques suicidas.

Em 2013, pouco antes da chegada da equipe da Vice a Cabul, um santuário foi alvo de um ataque terrorista que matou 58 pessoas. Entre as vítimas estavam nove familiares de Tarana Akbari, uma garotinha que sobreviveu, mas ficou marcada por estilhaços da bomba. Naquele dia, o fotógrafo afegão Massoud Hossaini tinha ido ao local para registrar a procissão do flagelo com correntes. “Foi quando tudo aconteceu. Vi muitas pessoas correndo da fumaça e, de repente, ela desapareceu. Me vi cercado por cadáveres de crianças, mulheres, homens jovens e idosos”, explicou ao canadense. Hossaini testemunhou o momento em que Tarana começou a chorar e gritar.

Caída ao chão, a mãe de Tarana pediu ao fotógrafo para ajudá-la a pegar o seu filho, uma criança pequena. Um homem que estava mais próximo recolheu o menino do chão e viu que havia muito sangue saindo da cabeça. “Aí ele me disse: ‘Esse menino já foi’. O pôs no chão e simplesmente foi embora”, destacou Hossaini. Tarana enfatizou que os corpos caíram como se fossem ovelhas. No ataque terrorista, além do irmão, a jovem perdeu tias e primos.

“Todas as mulheres estavam lá, assim como muitas crianças. Era um santuário. Não havia um lugar melhor para eles atacarem, como um gabinete do governo? Eles atingiram só pessoas inocentes e indefesas!”, desabafou o pai de Tarana. Outro familiar questionou por que a Al-Qaeda está matando tanta gente no Afeganistão se isso vai contra tudo o que está no Alcorão. “Será que nunca leram o livro sagrado? Se tivessem lido, saberiam que não é permitido matar!”, disparou.

Mesmo com o intenso trabalho do Diretório Nacional de Segurança, que tenta evitar que jovens se tornem terroristas, a prática ainda é frequente e reincidente. Após o lançamento do documentário “The Killer Kids of the Taliban”, Shane Smith foi informado que dois garotos perdoados por serem jovens demais foram coagidos mais uma vez e flagrados se preparando para novos ataques.

Com um calmo tom de voz, um dos homens mais importantes do Taliban, Syed Mohammad Akbar Agha, um ex-jihadista e mujahidin que lutou contra os russos e comandou muitas tropas, deixou claro a Smith que enquanto os EUA estiverem no Afeganistão os ataques vão se intensificar cada vez mais. “Tudo vai Continuar. Não tenha dúvida”, garantiu. Quando o jornalista da Vice o interpelou sobre os ataques suicidas, defendendo que são condenáveis pelo Alcorão, Akbar Agha sorriu e respondeu apenas que o Taliban tem grandes muftis, estudiosos islâmicos, que reconhecem a legitimidade da prática.

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