Archive for the ‘Crônica’ tag
Um banco e duas barbas
Durante o atendimento, o bancário começou a rir. Eu também.
— Eu sou você amanhã.
— É…acho que sim.
— Não…sua barba é mais fechada.
— Será?
— É sim.
— Obrigado.
— Olhe a barba dele – comentou com outro bancário que também começou a rir e chamou a atenção de outro bancário.
— É…são muito parecidas…uma é cinza e a outra é preta…estágios de transformação.
— Já guardou coisas na barba?
— Sim…
— É mágico, não? – comentou atravessando duas canetas pela barba, formando um X peludo.
— X de Xará.
— hahahahaha demais…
Em pouco tempo, quatro bancários riam e eu também, já anestesiado por passar mais de três horas aguardando atendimento, em abstinência de escrever, sentindo as mãos formigando e as ideias pululando. Vi pessoas sorrindo, rindo, reclamando, xingando, praguejando, bocejando, dormindo.
— Sua barba deve ter mais de ano.
— Tem sim…
— Também estou quase lá.
— É isso aí.
— Não vá cortar a barba, hein? — disse o bancário barbudo.
— Não, senhor.
— Ah, outra coisa.
— O quê?
— Não vá cortar a barba, hein?
— Pode deixar.
Quando me levantei e caminhei em direção à saída, senti minha barba esquentando. Alguém estava me odiando. Sem problema. Lá fora, uma criança de quatro ou cinco anos apontou o dedo em minha direção:
— Tio, sua barba parece um algodão-doce preto.
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“Droboy tume Romale! Não vou ler a sua mão”
No centro, uma cigana me parou e pediu um minuto da minha atenção. “Droboy tume Romale! Não vou ler a sua mão. Mas quero te contar uma coisa.” Consenti. Ela disse que já me conheceu, não nesta vida, mas em outras.
— Você pode não acreditar, mas viveu pelo menos dez vezes mais do que eu. E a sua aparência é sempre a mesma, em cada uma dessas vidas. Os olhos pretos, os cabelos pretos e a barba preta ajudam a equilibrar a luz que existe em você. Por isso te reconheci. Seus olhos são os mesmos de sempre. Você é antigo, e acho que não tem ideia do quanto. Mas as pessoas não saberem isso é uma vantagem maior pra você do que pra elas.
— Antigo? Como assim?
— Sim, meu rapaz. Esta é a sua vida agora, mas você traz muito de outras vidas.
— Sei.
— Morro volá, falo sério! Meu bisavô já falava de você quando eu era criança. Ele te conheceu como Oleg, um kalderash que vivia nos Montes Urais; adquiria a sabedoria dos animais e a compartilhava com os humanos. Se um dia o encontrá-lo novamente, prometo mostrar uma pintura que ele fez de você. Vai te surpreender.
— Sério? Seria interessante ver isso.
— Por que não acredita?
— Não duvido da senhora, mas talvez tenha me confundido com alguém ou algo do tipo.
— De modo algum, sua presença é sentida à distância.
— Hum…
— Aposto que você decidiu usar barba longa pela primeira vez quando fez 30 anos.
— Como a senhora sabe? Talvez um palpite?
— Porque você fez isso em todas as suas outras vidas. Nunca usou barba longa antes dos 30 anos.
— Hum…
— Sabe por que?
— Acho que não há um motivo em especial…
— Há sim. Sempre há. Porque os fios longos sempre marcaram um novo ciclo em todas as suas vidas.
— É?
— Pois acredite, porque não tenho porque mentir. Afinal, não estou cobrando nada, estou?
— Nisso a senhora tem razão.
— Óbvio que sim.
— Hum…
— Bato! Meu pai ficaria feliz de vê-lo também. Ele sempre ouvia suas histórias na infância.
— Quais histórias?
— São muitas. Ah, isso eu não vou contar agora. Quem sabe, em outra ocasião.
— Entendi. Bom, senhora, vou indo porque tenho compromisso e já estou atrasado.
— Não se preocupe. Vá em paz. Akana mukav tut le Devlesa!
Caminhei alguns passos e olhei para trás. A cigana tinha desaparecido.
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Um gato no telhado
Existe um gato que mora no telhado. Ele nunca deixa ninguém tocá-lo. Observa a cidade dia e noite, passeando sempre pelo alto, jamais pelo baixo. Seus olhos são incomuns, como esferas de caramelo. Quando o observo tarde da noite, nem preciso ligar a luz porque o que o brilho dos seus olhos reluz perfaz um caminho que ilumina e satisfaz o que a curiosidade conduz.
Às vezes, ele muda de cor. Já o vi caramelo, preto, branco, castanho, verde, azul, púrpura, mas sempre o reconheço pelos seus olhos. Tentaram capturá-lo em vão, sempre em vão, porque ele não quer ninguém, não depende de ninguém. Dizem que tem um traço genético raro que remete aos seus ancestrais selvagens que viviam nas florestas que cercam o Rio Paraná.
Ele não aparece para todo mundo, mas todo mundo quer vê-lo. Os mais supersticiosos falam que quem toca o “gato de caramelo” é abençoado com muita alegria e fortuna. Já a fortuna do “gato de caramelo” é não ser tocado por ninguém. Jamais o viram comendo. Falam que ele se alimenta da luz do luar. Não duvido, porque algumas vezes o vi alheio a tudo, simplesmente mirando a lua que lançava sobre ele uma luz anilada que o fazia ronronar por minutos.
É um zíngaro dos telhados. Sim, eu o chamo de Zíngaro, porque acho que combina mais do que “gato de caramelo”. Ele nunca responde aos meus chamados, mas me observa com um olhar de quem não nega e não rejeita o fato de que aquele é apenas mais um dos nomes que recebeu ao longo de sua vida.
Sua idade? Não tenho a mínima ideia, mas sua postura revela a maturidade de um ancião. Talvez seja o gato mais velho do mundo, vivendo em um corpo jovem, ou talvez não, seja apenas um animal que rejeitou a vida doméstica. Será que ele é feliz? A verdade é que isso não importa, porque a felicidade é um parâmetro humano, não felino. Gatos vivem pelos seus próprios termos, e talvez nem vejam sentido na felicidade.
Quem sabe, Zíngaro desapareça nos próximos dias, e retorne no ano que vem. Ele sempre faz isso quando os humanos insistem na indesejada aproximação. O gato não teme ser notado, observado, mas nem por isso deseja ser mais uma vez domesticado. Como será que ele vê os outros animais cativos? Acho que ele não se importa com isso. Talvez entenda que aquela é a vida dos outros, não a dele.
Parece tão tranquilo na cumeeira, com as patas cruzadas, observando o silêncio na baixada. “Boa noite, Zíngaro!”, repito três vezes. Ele não responde, mas lança um último e longo olhar antes de saltar em direção ao telhado vizinho. Zíngaro corre, e vejo a ponta do seu rabo desaparecer. E com ele, toda a liberdade que a noite ajuda a enternecer.
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Uma gatinha bem linda
Passei na casa da minha tia e, para minha surpresa, lá havia uma gatinha bem linda. Meu primo Felipe que a resgatou. Ela parecia tão doce deitada em sua caminha que acabei por fazer algumas carícias.
Ela ronronava e quase sorria pra mim. Empolgado, logo pensei: “Vou fazer um carinho nela com a minha barba.” Depois de duas acariciadas, a gatinha deu uma dentada na minha barba e uma unhada na minha orelha direita. Bateu um desespero tão grande que imaginei que ela já estava mastigando 1/3 da minha querida barba.
Quando a coloquei no chão, comemorei por continuar com a barba intacta, com exceção de alguns fios que ela arrastou como se fosse megahair de bigode. A gatinha ainda me olhou com expressão de satisfação e se afastou, chicoteando o ar com o rabinho cor de caramelo.
Assim que cheguei em casa, sentei em minha poltrona e Kali saltou sobre mim. Quando sentiu um cheiro estranho, me deu duas unhadas no pescoço, subiu sobre a mesa e saltou janela afora.
Por que você fez isso?
No mercado, enquanto eu lia cuidadosamente o rótulo de um produto, notei uma mulher bem perto de mim. Muito perto mesmo, tanto que por pouco não senti a respiração dela junto do meu pescoço. Então me afastei um pouco e continuei lendo. Ela se aproximou mais uma vez. Achei melhor caminhar até o outro corredor. Impossível. Levei um beliscão na bunda.
— Que isso? O que foi isso?
— Conheço essa barba, esse bumbum, esse corpão, de longe.
— Como é? Quem é você?
— Ah, vai fingir agora, é? Vai ficar de brincadeirinha?
— Nem te conheço, moça. Por que você fez isso?
— Ah, para, né? No ano passado você gostou.
— Nunca te vi, como tu diz uma coisa dessas?
— Ah, nem vem. Aquela vez você gostou e muito.
— Moça, creio que você está me confundindo com alguém.
— Não estou não…
— Tem certeza? Então diga qual é o meu nome.
— Ah, para, né, Yusuf?
— Yusuf? Quem é Yusuf aqui? Meu nome é David.
— Vai mentir o nome agora?
Tirei a minha CNH da carteira e mostrei meu nome. Pensei: “Agora tudo se resolve!“
— Então por que no ano passado você disse que seu nome era Yusuf?
— Quê? Eu nunca disse isso. Nunca disse porque realmente nunca a vi.
— Olha, cara, sei que faz tempo, que depois a gente não se viu mais, mas vamos parar de sacanagem.
— Como assim? Você beliscou a minha bunda e eu que estou de sacanagem?
De repente, uma amiga dela se aproximou.
— Berta, olha quem eu encontrei aqui. É o Yusuf, lembra dele?
— Paula, esse não é o Yusuf. O Yusuf está morando em Ankara, na Turquia.
— Tá de brincadeira comigo?
— Claro que não.
— Sério mesmo?
— Claro que sim.
— Desde quando?
— Desde o ano passado.
— Hummm…
— Olha, moço, nem sei o que dizer, só sentir. Mil perdões pela confusão…
— Moço, desculpe a minha amiga. Ela não é muito boa com fisionomias.
— Tudo bem…
— Mas toma cuidado, viu? Tem mais gente que pode te confundir com o Yusuf.
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“Sim, o plano ainda é o mesmo”
Em uma longa fila, enquanto eu aguardava pacientemente e observava a movimentação, um camarada me ligou.
Eu — Sim, o plano ainda é o mesmo. Não precisa se preocupar.
Eu — Claro que sim. Nada mudou.
Eu — Ele confirmou que vai fazer a instalação.
Eu — Pode confiar. O material realmente é de boa qualidade.
Eu — Melhor, impossível. Com ele, não tem erro.
Eu — Acho que teremos uma explosão daquelas, de felicidade.
Eu — Sim, está tudo acertado. Vai ser uma surpresa tremenda. Só tem que tomar cuidado pra ninguém perceber nada antes.
Eu — Não, creio que não. Ele disse que o trabalho de instalação é garantido. Sim, não precisa ativar nada, vai vir tudo pronto.
Eu — Arriscado? Não, de modo algum.
Conforme a conversa fluía, notei algumas pessoas me assistindo. Mas simplesmente ignorei. Uma senhora com olhar assustado, e que estava logo atrás de mim, apontou o dedo em direção à minha barba, e saiu da fila a passos ligeiros. Não entendi o motivo e continuei a conversa.
Eu — Você avisou?
Eu — Eles vão correr onde depois?
Eu — Eles já tinham me avisado.
Mais duas pessoas saíram da fila.
Eu — Sim, ele não quer que o grupo leve crédito por nada. Já pediu anonimato.
Eu — Claro que não. Não tem a menor chance. Vai acontecer como planejado.
Mais uma pessoa se afastou.
Antes de desligar o celular, Roberto comentou:
— Uma pena que eles não poderão participar por causa do treino, mas espero que o braço mecânico funcione e que o Seu Zé goste, porque deu tanto trabalho pra conseguir um.
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Uma luz estranha
À noite, saindo da academia, notei uma luz estranha, como se estivesse me seguindo; projetando-se rasteira, em direção às minhas pernas. Quando olhei para trás, vi um cachorro com uma lanterninha na cabeça.
Que tudo que você não fala ganha vida “na sua cara”
Quando eu era criança, acredito que por volta dos oito anos, um dia a professora, uma freira, me chamou diante da turma na Escola São Vicente de Paulo e perguntou o que mais gosto de fazer:
— Gosto de escrever.
— O que você escreve, David?
— Histórias…
— Que tipo de histórias?
— Das coisas que vejo na rua, na “cara das pessoas”…
— Como assim na “cara das pessoas”?
— É que a “cara das pessoas” é feita de histórias.
— De que tipo?
— Do tipo que elas não querem contar. Então eu imagino o que é e escrevo…
— Mas isso não é ser mentiroso?
— Não…
— Me explique melhor…
— Se você prestar atenção, muitas vezes a “cara das pessoas” diz aquilo que elas não querem contar.
— E o que elas não querem contar?
— Acho que muita coisa. Meu avô fala que trazemos “na cara” as histórias que não contamos.
— E o que isso significa pra você?
— Que tudo que você não fala ganha vida “na sua cara”.
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O gato branco com o rato na boca
Vejo o gato branco e bem alimentado pela vizinha com algo acinzentado na boca. Paro o carro e reconheço que é um ratinho ainda vivo. O gato retribui o meu olhar com altivez. Encosto o carro, desço e vou atrás do gato.
Ele sai correndo e sigo no encalço. Depois de correr três quarteirões, o gato invade um terreno baldio. Pulo o muro e continuo a perseguição. Ele continua me olhando com ar de vitória, uma expressão capciosa de deboche; como se eu jamais fosse capaz de encurralá-lo.
Então o gato se embrenha no meio da sarça e, sem contar com o imprevisível, fica preso em uma planta rasteira. Me aproximo, ele não vela o desgosto. Massageio seu cangote e, apesar da resistência inicial, acaba soltando o ratinho ainda vivo. Por dois ou três segundos, parece que nem o camundongo acredita no que aconteceu. Quando recobra os sentidos, desaparece através de um buraco no muro.
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O conflito da medonha
Hoje à tarde, passei no trabalho de uma amiga e conversamos um pouco na cozinha da empresa onde ela trabalha. Nesse ínterim, tirei uma barra do bolso e comecei a comer. Curiosa, ela me olhou e perguntou:
— O que você tá comendo?
— Medonha!
— Nossa, David! Que grosseria! Que baixeza!
— Como?
— Me xingando do nada…
— Claro que não! Medonha é o nome da minha barrinha vegana.
— Agora não adianta tentar se justificar.









