Archive for January, 2016
Siku, o urso polar que ganhou um reality show
Em 2012, uma emissora de TV dinamarquesa começou a transmitir ao vivo o estilo de vida de Siku (gelo marinho), um urso polar bebê que vive no Scandinavian Wildlife Park, em Copenhagen. O reality show que não interfere no cotidiano do protagonista surgiu com o objetivo de conscientizar o mundo sobre a preservação do gelo ártico.
Acesse: explore.org/photos/4741/siku-polar-bear-cub-6
ONG mexicana constrói moradias com embalagens Tetra Pak
Desde 2008, nas comunidades de Oaxaca, um dos estados mais pobres do México, situado na região Sudeste, a ONG Techamos Una Mano, formada por estudantes, constrói pequenas moradias para famílias carentes. O que surpreende também é que as principais matérias-primas são embalagens Tetra Pak e garrafas de plástico recicladas, assim atendendo a dois objetivos – social e ambiental.
Acesse: www.tum.org.mx
A arte noturna de Miedza e Wöllert
Obra dos fotógrafos alemães Joerg Miedza e Jan Wöllert que criam arte noturna a partir de lanternas, lâmpadas obsoletas, rolos de alumínio colorido e fogos de artifício. A técnica autoral é conhecida como Light Art Performance Photography (LAPP).
Acesse: lightart-photography.de e realtime-lightart.com
Um novo tipo de beleza
Foto do controverso livro “A New Kind of Beauty”, de cunho sociopolítico, do conceituado fotógrafo estadunidense Phil Toledano que rediscute o conceito de beleza tendo como foco 27 pessoas que passaram por espontâneas intervenções cirúrgicas.
Acesse: http://www.mrtoledano.com/a-new-kind-of-beauty
As esculturas fotográficas de Martin Klimas
Imagem da série Porzellanfiguren, do fotógrafo alemão Martin Klimas que registra a beleza da destruição a partir de peças de porcelana. O obturador da câmera entra em ação ao som do primeiro atrito. É preciso extrema agilidade para moldar cada “escultura fotográfica”.
Acesse: www.martin-klimas.de/
A caverna de Guy Laramée
Escultura criada pelo artista plástico canadense Guy Laramée que teve como inspiração o romance “A Caverna”, de José Saramago. A peça, que compõe uma série de esculturas em livros, foi esculpida na obra “A Auto-Interpretação da Bíblia”, do teólogo John Brown.
Acesse: http://www.guylaramee.com
O que fazer com os buracos no asfalto
Um dia, no Canadá, os fotógrafos Davide Luciano e Claudia Ficca caíram com o carro dentro de um buraco. A partir daí, surgiu a ideia de criar o projeto Potholes que consiste em uma série criativa sobre o que fazer com os buracos no asfalto. O trabalho deles tem como cenário as cidades de Toronto, Montreal, Los Angeles e Nova York, onde vivem atualmente.
Acesse: www.mypotholes.com
Hospital João de Freitas, a saúde com face humana
Referência nacional em cardiologia, hospital de Arapongas se destaca pelo atendimento humanizado

No Hospital Regional João de Freitas é fácil encontrar pessoas das mais diversas regiões do Brasil (Acervo: Hospital Regional João de Freitas)
Chego às 8h no Hospital Regional João de Freitas, de Arapongas, no Norte do Paraná, numa manhã nublada e chuvosa. O estacionamento está movimentado e vejo uma moça correndo para dentro do hospital com uma grande bacia cheia de pequenos pedaços de bolo cobertos com papel alumínio. Em pouco tempo, ela retorna para buscar mais. Despreocupada com a água que cai impetuosa e gelada sobre seu corpo, a jovem se inclina, crente de que o mais importante é proteger os alimentos.
A chuva se intensifica e mais pessoas passam rapidamente pela porta de entrada em direção à recepção. Lá dentro, muitos aguardam atendimento sentados em quatro e cinco fileiras de bancos, cadeiras e poltronas. Os mais jovens cedem espaço aos mais velhos que ocupam quase que completamente os assentos. Não há gritaria, desordem, brigas ou queixas.
Em pé, a poucos centímetros da entrada, assisto tudo à minha volta. Escuto risadas, vejo sorrisos, olhares apreensivos, melancólicos e auspiciosos. Cada pessoa tem uma maneira particular de lidar com um grave problema de saúde. Como distração, enquanto não chega a hora do atendimento, alguns contam piadas. Outros relatam a própria história antes e depois da enfermidade. Há também quem prefere se calar, observando atitudes ou mantendo-se disperso nos próprios pensamentos.
Ao meu lado, um senhor diz que gostaria de ter cuidado mais da saúde quando era jovem. “Hoje pago o preço dos meus excessos, da minha falta de cuidados. Deveria ter dado mais importância à vida. Mas tudo bem. O mais importante é que continuo vivo e sou muito bem atendido aqui. Este hospital é um dos poucos que entrei que não tem cheiro de morte”, defende o aposentado João Oliveira, de 87 anos, sorrindo e aguardando internamento para tratar de um problema cardíaco.
Na recepção, ninguém é deixado de lado. Percebo que quem se aproxima para pedir alguma informação é prontamente atendido pelas recepcionistas. Com voz cordial, elas tratam todos com exímia educação. Também chama atenção o fato de não usarem uniformes ou muita maquiagem, garantindo mais informalidade ao ambiente, inclusive fazendo os pacientes sentirem-se mais próximos, como corrobora uma senhora acompanhando o pai.
Por volta das 8h30, uma fila espontânea se forma no fundo da primeira e principal sala de espera. Me aproximo e vejo que estão servindo os alimentos entregues pela mulher que caminhava a passos rápidos na chuva. Além de bolos e pãezinhos, são oferecidos café e chá. Sem necessidade de fiscalização, cada pessoa se limita a pegar uma unidade de cada alimento ou bebida. Quem vai além normalmente entrega o adicional para o pai, mãe ou outro familiar que aguarda atendimento.
Ainda assim, muitas pessoas não consomem nada. Alguns justificam que é importante deixar alimento e bebida disponível para quem não tem condições de pagar pelo café da manhã, já que a qualquer hora alguém pode passar pela porta de entrada com fome. Outra ação de solidariedade é colocada em prática por um jovem proprietário de três restaurantes em Arapongas.
Cumprindo uma promessa de que faria algo por seus semelhantes caso conseguisse abrir um restaurante, o rapaz visita o hospital toda terça-feira, às 12h, onde entrega pessoalmente 50 marmitas para pacientes internados. “Só pega marmita quem realmente precisa. As pessoas aqui têm consciência de certo e errado. Ninguém aceita nada sem necessidade”, justifica a pensionista Maria Neuza Silva.
No Hospital Regional João de Freitas, referência nacional em cardiologia, é fácil encontrar pessoas das mais diversas regiões do Brasil. Além de pacientes do Paraná, alguns informam que vieram de Brasília, Porto Velho, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Cuiabá e Campo Grande, entre muitas outras cidades. Quem vem de longe para acompanhar algum parente com menos de 65 anos pode ficar na Casa de Apoio mantida pelo hospital, caso não tenha dinheiro para custear hospedagem e alimentação.
No local, os hóspedes recebem um tratamento até melhor do que em muitos hotéis espalhados pelo país – com direito a várias refeições. Assim como todo hospital, por melhor que seja, o João de Freitas também tem suas falhas, mas que são facilmente ofuscadas pelas boas qualidades. Referência em cirurgia cardíaca, a prioridade é a humanização e a renovação das esperanças dos pacientes.
“A ouvidoria funciona muito bem. Até me perdi aqui de tão grande que é o hospital. Eles investem no ser humano, têm misericórdia e tratam todos da mesma forma. O atendimento demora um pouco, só que vale a pena. Cirurgias de ponte de safena, por exemplo, podem custar até R$ 80 mil numa clínica particular e aqui o SUS cobre tudo”, declara Maria Neuza que acompanhou o pai na realização de um exame de cateterismo pelo Sistema Único de Saúde. Se tivessem que pagar, teriam de desembolsar de R$ 3 a R$ 8 mil.
Quem chega ao João de Freitas com a guia de internamento precisa aguardar em uma segunda sala de espera a liberação de uma vaga na enfermaria. Lá, cada quarto recebe oito pessoas. E os pacientes se sentem bem mais tranquilos com a companhia, ainda mais levando em conta que acompanhantes são permitidos somente para quem tem 65 anos ou mais. “Isso ajuda a passar o tempo”, garante Maria Neuza.
Além de cinco refeições por dia, os pacientes recebem garrafinhas de suplementos proteicos de fabricação alemã, selecionado pela nutricionista do hospital. “Já me deram duas dessa. Rapaz, cada uma custa de R$ 15 a R$ 20. Eles realmente investem no nosso bem-estar”, comenta João Oliveira sorrindo. Interessante também é ver como os pacientes se ajudam dentro do quarto. Para não sobrecarregar as enfermeiras, os mais saudáveis ajudam os mais debilitados a trocar de roupas e a desinfetar os colchões pela manhã.
Não há queixas contra médicos ou enfermeiras. Muito pelo contrário. Além disso, há uma pesquisa diária avaliando a satisfação de pacientes e visitantes. “O cardiologista visita meu pai todos os dias. E toda hora recebemos enfermeiras checando como ele está se sentindo. O bom humor deles é contagiante, mesmo pra quem está numa situação tão delicada”, afirma a pensionista.
A alimentação não lembra em nada a típica comida de hospital. Segundo João Oliveira, parece mais comida caseira ou de restaurante. “Me sinto em casa, comendo arroz, feijão, cenoura e peito de frango cozido. O mesmo que a gente come, os médicos, as enfermeiras e outros funcionários também comem. Não existe diferença”, garante sem velar a satisfação. Antes de ser internado, o idoso recebeu na sala de espera uma sopa reforçada.
A limpeza também chama atenção. É praticamente impossível encontrar sujeira nas dependências do hospital. “Eles passam álcool em tudo”, assegura Maria Neuza, lembrando que cada quarto tem um líder que é o responsável por conservar o ambiente limpo. Conversando com pacientes do Hospital João de Freitas, muitos declaram que só não morreram porque o maior diferencial é a qualidade do atendimento e o carinho dispensado aos mais fragilizados.
“Só que tem que seguir as regras. Eu, por exemplo, como sou acompanhante, só posso sair em horário de visitação. Tenho uma hora à tarde e uma à noite pra me ausentar do hospital”, revela a pensionista. Entre os pacientes de um quarto da enfermaria está o jovem artista de rua Everton Luiz Rodrigues, de 33 anos. Malabarista desde a adolescência, e sem residência fixa, anualmente ele passa por tratamento no Hospital João de Freitas, onde conhece praticamente todos os profissionais do setor de cardiologia.
Everton, que tem um defeito cardíaco congênito, não pode correr ou fazer qualquer atividade que acelere demais os seus batimentos cardíacos. Ainda assim, vive cada dia como se fosse o último e aprendeu dentro do João de Freitas que sempre há motivos para ter esperanças. No corredor silencioso, aproveitando a pouca movimentação, ele coloca um bonezinho sobre a cabeça e faz uma rápida performance, indo de um lado para o outro, exibindo um sorriso genuíno para a plateia composta por uma pessoa. “Adoro dança e teatro. Artes cênicas são a minha vida”, confidencia.
Saiba Mais
Fundado em 16 de dezembro de 1993, o Hospital João de Freitas surgiu com o objetivo de suprir a necessidade de um hospital regional com tecnologia e mão de obra especializada. Acesse também: www.hospitaljoaodefreitas.com.br
As crianças do Cine Ouro Branco
Vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, molhando sua camisa xadrez abotoada até na altura do pescoço
Não faço parte de uma geração que tem as lembranças mais sólidas e claras do Cine Ouro Branco, um dos grandes pontos de entretenimento da população de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, até 1993. Quando o cinema foi fechado, eu ainda era criança. Apesar disso, frequentei o Ouro Branco por alguns anos da minha infância e tenho boas recordações daquele tempo.
A minha primeira vez no cinema foi numa sessão de “Os Heróis Trapalhões – Uma Aventura na Selva”, num final de semana em 1988. Até então, a maior tela que eu tinha visto era da TV de 21 polegadas, coberta por uma caixa de madeira envernizada, que ficava na sala de casa. Mesmo assim eu era feliz assistindo desenhos animados nela.
Logo que eu, meu irmão e minha mãe chegamos em frente ao Cine Ouro Branco, na Rua Manoel Ribas, no centro de Paranavaí, prestei atenção na grande movimentação de pessoas na fila da bilheteria. Miúdo, eu observava tudo na proporcionalidade da minha estatura. Via mais sapatos, pernas e cintos do que rostos. A não ser, claro, quando as pessoas eram tão pequenas quanto eu.
Antes de entrarmos, caminhei vagarosamente e de costas pela calçada, tentando observar a altura do prédio do Cine Ouro Branco, mas era impossível para mim. Então pensei que aquele fosse o maior cinema do mundo. Quem sabe, atravessasse os céus e tivesse contato direto com o paraíso de que falavam na escolinha.
O gentil pipoqueiro sorria pra mim, percebendo através dos meus olhos grandes, cilíndricos e pretos que aquela era a minha estreia no cinema. “É sua primeira vez? Você vai gostar e vai querer voltar mais vezes”, disse enquanto ajeitava uma pequena quantidade de pipoca doce que tentava se misturar com a salgada.
Quentinha, a pipoca pronta para consumo estalava dentro do carrinho. Por um momento, cheguei a crer, na minha ilusão meninil, que talvez a pipoca tivesse vida própria e também quisesse entrar no cinema para assistir Os Trapalhões. Ao meu lado, prevalecia um aroma adocicado que pacificava as crianças mais buliçosas – sim, era um eficaz calmante açucarado e rubro.
Trazia recordações dos airosos ipês-vermelhos que eu via todos os dias perto de casa, quando apontava com o dedo e gritava: “Olha lá um pé de pipoca-doce!” Do outro lado do carrinho de pipoca, a olência mudava, assim como o público. Os adultos, principalmente os homens, se achegavam para comprar: “Me vê da salgada, por favor!”
Habilidoso, o pipoqueiro sabia como ninguém quantas pazinhas de alumínio eram necessárias para encher um saquinho. Eu assistia suas mãos sulcadas lucilando diante da pequena lâmpada já amarelecida que iluminava e dourava seu rosto crispado. Era desse jeito, sempre que ele se inclinava ou se aprumava. Aquele era seu espetáculo e na entrada do Cine Ouro Branco ninguém era mais importante do que o pipoqueiro.
Naquele dia, antes de entrarmos no cinema, cinco engraxates, com idade entre 6 e 14 anos, se aproximaram, encostaram numa parede ao lado do Cine Ouro Branco e, como os jovens farroupilhas do filme Los Olvidados, de Buñuel, começaram a fumar, observando famílias descendo dos automóveis e atravessando a calçada.
“Se tivesse pai ou mãe não tava nessa vida, irmão! Ser pobre e sozinho não é fácil não. Olha quanto luxo dessa molecada”, comentou um deles com os quatro amigos que o acompanhavam. Sem falar nada, apenas balançaram a cabeça em concordância, esmagando bitucas a pés pequenos.
Sujo, com unhas encardidas e cheiro nauseante de cigarro barato, um engraxate de não mais que 12 anos se aproximou de uma turma de crianças. Como alguém indeciso sobre entrar ou sair, cruzou os braços e ergueu o rosto enquanto uma das luzes da entrada realçava sua dúbia expressão de satisfação.
“Pessoal, escuta aí! Rapidinho! Esse filme dos Trapalhões é bom demais. Só tem uma coisa ruim. O Mussum e o Zacarias morrem no final. Valeu! Tchau!”, gritou e correu rindo, com os cabelos ondulados e escuros esvoaçando. Naquele momento, ele se tornou um antagonista digno do vilão Cicatriz interpretado por Carlos Koppa no filme dos Trapalhões.
O garoto arrastou os chinelos surrados e, acompanhado de seus comparsas, desceu satisfeito em direção à Rua Pará. Algumas crianças não se importaram com a revelação, mas outras ficaram tão irritadas que queriam que seus pais chamassem a polícia ou fizessem algo a respeito. Por bem, ninguém os perseguiu.
Dentro do Cine Ouro Branco, fiquei boquiaberto com as poltronas a perder de vista. “Aqui cabe mil e quinhentas pessoas. Olhe lá em cima, é como numa ópera”, informou minha mãe, observando a minha reação e a do meu irmão Douglas. Sem pressa, giramos ao redor da sala mastodôntica, tentando registrar os detalhes.
Por sorte, havia lugares vagos nas primeiras fileiras. Então caminhamos até lá, atravessando corredores e ouvindo sons de espectadores comendo pipoca, conversando, fazendo troça e se abraçando. Perto de nós, o lanterninha acompanhava tudo com sua aura indefectível de vagalume. Se sentia o líder de um coliseu onde nada aconteceria sem sua autorização, ainda mais quando as luzes se apagavam.
Assim que me sentei, observei um garoto com roupas remendadas sentado ao meu lado, acompanhado de sua mãe. Seu nome era Juscelino e ele era um ou dois anos mais velho do que eu. Também era a primeira vez dele no cinema. Percebi sua ansiedade porque seus pés miúdos não paravam de balouçar, assim como os meus.
Suas mãos trêmulas suavam tanto que toda hora ele as enxugava nas laterais da calça xadrez de barras curtas. Juscelino falava comigo mantendo o rosto em direção à desmesurada tela de projeção. Achei que era empolgação por causa do filme, até que notei algo de diferente em seus olhos, uma clareza cristalina como nunca vi antes. Com naturalidade, a mãe revelou que o filho nasceu cego.
Juscelino não enxergava nada. Ainda assim sua empolgação no Cine Ouro Branco superava até a minha. Os sons e olores que chegavam até ele eram como presentes imateriais, memoriais. Com uma rara acuidade auditiva e olfativa, Juscelino percebia até o que as pessoas faziam ou comiam nas poltronas mais distantes – e comentava tudo comigo.
Filho de um casal de lavradores de Alto Paraná, ele chegou a Paranavaí de ônibus pela manhã e ficou horas esperando a bilheteria abrir. Seu pai não prestigiou o grande acontecimento porque o dinheiro economizado a duras penas só cobria as despesas da mulher e do filho. “Vai começar, mãe!”, disse o garotinho segundos antes do projetor iniciar a rodagem do filme, como se tivesse um dom para presságios.
Do início ao fim, Juscelino ficou em completo silêncio, tentando absorver o máximo possível de informações sonoras. Ocasionalmente, se movia sobre a poltrona sem fazer barulho, preocupado em incomodar. Eu, ele e meu irmão estávamos unidos por uma experiência que jamais se repetiria. As nossas maiores descobertas eram visuais e as de Juscelino auditivas. Talvez até mais ricas, já que ele se colocava na condição de criador para dar vazão à criatividade de tudo que ouvia.
Ainda no escuro, vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, molhando sua camisa xadrez abotoada até na altura do pescoço. Ao final, com o retorno das luzes, perguntei a ele como era a assistir a um filme no cinema sem poder ver. Minha mãe me repreendeu, mas a de Juscelino não se importou com a pergunta.
“Não sei explicar direito, mas eu vejo sim, só não vejo com os olhos. Vejo tudo que carrego pra dentro de mim”, justificou antes de segurar a mão de sua mãe e caminhar a passos curtos em direção à saída, onde a iluminação artificial contrastava e se harmonizava com a luz anilada e complacente da venusta Lua recém-chegada.
Na esquina, no cruzamento entre a Rua Pará e a Manoel Ribas, os cinco engraxates, crianças vivendo como adultos, tamborilavam suas caixas, sentados no meio-fio, imersos em sorrisos postiços e olhares acabrunhados, tentando existir para um mundo que pouco reconhecia suas verdadeiras intenções.
Retornando para casa a pé, atravessamos a rua. Quando passamos por eles, o mesmo garoto que causou o alvoroço na entrada do cinema me puxou pelo braço e, com um olhar supliciado, perguntou: “Ei, amigo. Você pode contar pra gente a história do filme que tu viu lá no cinema?”
Curiosidade
Fundado em 27 de janeiro de 1961 pela Família Del Grossi, o Cine Ouro Branco foi uma das mais importantes fontes de entretenimento da população de Paranavaí até 1993.
Joseph Figlock, o homem que salvou um bebê da morte duas vezes
1937 – Em Detroit, nos Estados Unidos, um homem chamado Joseph Figlock estava andando pela calçada quando um bebê caiu da janela de um apartamento no quarto andar. Por sorte, Figlock conseguiu segurá-lo antes que se chocasse contra o chão. Um ano depois, a mesma criança caiu novamente da janela e, mais uma vez, Joseph Figlock que passava pelo local a salvou. A história foi publicada na revista Time em 17 de outubro de 1938.










