David Arioch – Jornalismo Cultural

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Ralph Oliveira: referência em bateria e percussão

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Ralph Oliveira é músico profissional há oito anos

Há nove anos, Ralph André Rangel de Oliveira descobriu o talento para tocar bateria. O tempo de dedicação ao instrumento se encarregou de transformar o músico em referência quando o assunto é bateria e percussão em Paranavaí.

Ralph lembra que profissionalmente já atua como baterista há oito anos, mas admite que na atualidade dedica-se mais a percussão. “Isso acontece porque aqui me procuram mais pra tocar música regionalista, que tem tudo a ver com o instrumento, além disso, existe uma carência local, principalmente nos festivais”, frisa Rangel de Oliveira que participa do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) desde 2001.

Já em outras cidades a realidade é diferente, o músico quase sempre é chamado para tocar bateria. Ralph conta que sua experiência com a percussão inclui a execução de instrumentos como cajóns, bongôs, bumbos legueros, carrilhões de chaves, além de outros.

“Quando montamos uma música, a escolha de cada instrumento de percussão é feita de acordo com o que queremos. Por exemplo, se queremos um som suave dá pra encaixar o carrilhão de chaves”, explica Ralph Rangel que é bastante procurado por bandas de pop, rock e MPB.

Atualmente, o músico integra o projeto Marcela Martins do qual faz parte há três anos. Ralph conta que se apresentam todo final de semana em bares e pubs de Paranavaí e região. “Nossa música tem uma levada bem brasileira, é um tipo de música bem agradável e que dá pra tocar em qualquer lugar”, ressalta, acrescentando que em locais pequenos a apresentação é sempre acústica – somente voz, violão e percussão.

Em parceria com Marcela Martins, o músico já se apresentou em Rosana (interior de São Paulo), Curitiba, Foz do Iguaçu, entre muitas outras cidades. Quem quiser entrar em contato com o projeto Marcela Martins, do qual Ralph Rangel de Oliveira faz parte, basta ligar para (44) 9113-9581.

O amor caboclo do Som da Viola

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Grupo de violeiros já percorreu toda a região divulgando a música sertaneja de raiz

Por onde passa, o Som da Viola emociona o público (Foto: Amauri Martineli)

Por onde passa, o Som da Viola emociona o público (Foto: Amauri Martineli)

Criado em 2002, o Grupo Som da Viola já percorreu toda a região de Paranavaí divulgando a música sertaneja de raiz e despertando em pessoas de todas as idades uma identificação com a essência cabocla.

“Narramos a nostalgia do campo, que está no sangue”. Com essa afirmação, o coordenador do Grupo Som da Viola, Francisco Antônio de Souza, conhecido como Seu Chico, define a temática do grupo composto por 19 membros de 12 a 60 anos.

Conversador e bem-humorado, Seu Chico conta que o grupo surgiu em abril de 2002, quando a música sertaneja de raiz era apreciada por poucos. “Na época, comprei minha primeira viola, mas ainda não tínhamos conhecimento de nada, apenas força de vontade”, lembra e acrescenta que desde o início já contava com a parceria da filha e violeira Érica Coutinho de Souza, do músico Arnaldo dos Santos e do amigo e violeiro Aparecido dos Santos, conhecido como Cido.

O Som da Viola é remanescente de uma oficina idealizada pela Fundação Cultural. De acordo com Seu Chico, as aulas eram voltadas para quem já tocava viola. “Como surgiu uma grande procura decidimos dar oportunidade para quem não sabia nada, até porque o objetivo era despertar mais ainda o interesse pela moda de viola. A ideia foi lapidada debaixo de um pé de sete-copas”, destaca o coordenador.

No começo, o grupo enfrentou inúmeras dificuldades financeiras, pois era preciso arrecadar dinheiro para remunerar o professor de música Arnaldo dos Santos. “A partir de 2004, recebemos uma ajuda da Fundação Cultural para custear as aulas do Arnaldo”, confidencia.

Hoje, já experiente, o Som da Viola empolga muitas plateias ao executar diversos gêneros da música cabocla, como moda de viola, cateretê, guarânia, pagode sertanejo, entre outros. “Já nos apresentamos em toda região de Paranavaí e também fora dela. Certa vez tocamos para mil homens em uma confraternização da Cocari [Cooperativa dos Cafeicultores de Mandaguari]. Depois, no mês seguinte, fomos convidados a nos apresentar para mil mulheres”, destaca Seu Chico em tom de orgulho.

Seu Chico: "“Narramos a nostalgia do campo, que está no sangue” (Foto: Amauri Martineli)

Seu Chico: ““Narramos a nostalgia do campo, que está no sangue” (Foto: Amauri Martineli)

O grupo também tocou em várias edições da Festa do Arroz de Querência do Norte, cidade natal do professor Jair Carvalho que durante muito tempo integrou o Som da Viola. “Ele sempre foi um exemplo. Saía de lá toda semana só pra vir tocar com a gente. Só não continuou quando tivemos de mudar os horários das aulas”, ressalta. Atualmente, por falta de tempo, o grupo tem dispensado alguns convites para tocar em outras cidades.

Onde se apresenta, o Grupo Som da Viola tem um público cativo de pelo menos 50 pessoas. Segundo Seu Chico, o que faz a diferença é saber que cada um dos presentes está ali pelo amor à moda de viola. “São pessoas de todas as idades se emocionando, até chorando ao relembrar do passado no campo ou das histórias que os pais contam”, enfatiza.

Atualmente o grupo discute a possibilidade de lançar um disco com canções autorais. Seu Chico avalia que até o final do ano terão pelo menos 10 músicas prontas. As letras versarão sobre as lembranças da roça e a viola dos antepassados.

Grupo se apresenta pelo menos duas vezes por mês

O Grupo Som da Viola se apresenta em Paranavaí pelo menos duas vezes por mês. “Esse é o número de apresentações que fazemos pela Fundação Cultural, mas sempre vamos além, nos apresentamos com certa frequência”, conta o coordenador do Grupo Som da Viola, Seu Chico.

Quem não conhece o grupo se surpreende com a dedicação. Em setembro de 2002, com poucos meses na ativa, os violeiros se apresentaram no Jardim Morumbi, do alto de um palco improvisado sobre a carroceria de um caminhão. “Estava muito frio, só que valeu a pena. As pessoas ficaram felizes e emocionadas”, afirma Seu Chico.

O grupo contribuiu tanto em despertar o interesse pela música sertaneja de raiz em Paranavaí que o reflexo foi percebido até no comércio. Algumas lojas de instrumentos musicais tiveram de investir mais na compra de violas para atender a demanda. “Nosso grupo realmente ajudou o comércio local. Trouxemos algo diferente a Paranavaí”, pontua Seu Chico sem esconder a satisfação.

Hoje em dia, os encontros do Grupo Som da Viola ocorrem uma vez por semana. Caso alguém tenha interesse em participar do grupo, antes é preciso passar por um processo de acompanhamento. “É uma forma de preparar a pessoa até que ela esteja apta a fazer parte do Som da Viola”, argumenta.

Seu Chico e o sonho de violeiro

Desde os sete anos, o coordenador do Grupo Som da Viola, Francisco Antônio de Souza, conhecido como Seu Chico, sonhava com uma viola. Ele queria musicalizar a própria essência de garoto do campo. “Nasci no mato, então tinha um sentimento caboclo muito forte, algo que carrego até hoje”, afirma o homem que em momento de nostalgia parece reviver o pequeno Francisco, ilhado em um fragmento da infância.

“Minha inspiração pra me tornar violeiro veio do meu tio. Lembro que ele tinha 16 anos quando estávamos sentados na barranca de um rio e ele disse que ainda me daria uma viola. Mais tarde, ele morreu, mas o desejo dele sempre carreguei comigo”, assegura, acrescentando ser de uma família que sempre cultivou estreita relação com a música.

Com o tempo, os compromissos familiares se tornaram cada vez maiores para Francisco. Contudo, o sonho de ser violeiro sempre o acompanhou. “Comprei minha primeira viola aos 50 anos, no dia 8 de abril de 2002. Fiquei feliz porque naquele dia também pude dar uma viola pra minha filha que tinha dez anos e outra para o meu filho que estava com 14”, relembra, acrescentando que sonhos sempre são possíveis, independente da faixa etária e das dificuldades.

Hoje, mesmo morando na cidade, longe da realidade do campo, Seu Chico vive o sonho de violeiro – já compôs diversas canções e escreveu centenas de poemas sobre a viola e a vida no campo. “Em uma edição do Tributo a Tião Carreiro apresentei a minha composição ‘Estilo Tião Carreiro’”, revela em tom de alegria.

Saiba mais

Para entrar em contato com o Grupo Som da Viola, basta ligar para a Fundação Cultural de Paranavaí: (44) 3902-1128

O velho rock fabricado no Brasil

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Made in Brazil é a banda de rock nacional mais antiga ainda em atividade

Formação do Made in Brazil que se apresentou em Paranavaí (Crédito: David Arioch)

Formação do Made in Brazil que se apresentou em Paranavaí em 2006 (Foto: David Arioch)

Riffs com a áurea essência de quem revolucionou o rock nacional, solos psicodélicos e abrasivos, letras que despertam um senso voraz de liberdade. Esses são os ingredientes que consagraram o Made in Brazil, a banda mais antiga do rock ‘n’ roll brasileiro ainda na ativa.

Ao longo de 42 anos, o “Made”, como é carinhosamente chamado pelos fãs, já passou de 130 formações diferentes. Mais de 90 músicos fizeram parte da banda que tem discípulos por todo o Brasil. O grupo paulistano nasceu da fusão politicamente correta do rythm and blues com a voracidade insurgente do rock básico e primitivo da velha escola, praticado por bandas como a britânica The Kinks.

“O Made é de uma época em que a grande mídia não encarava o rock ‘n’ roll como parte do show business. O rock naquele tempo, como hoje, em parte, ainda é mal visto”, afirma o vocalista e multi-instrumentista Oswaldo Vecchione, um dos fundadores da banda. Mesmo relegados ao ostracismo midiático, o Made in Brazil desde o princípio seguiu firme na trajetória de erguer a bandeira da contracultura musical.

“Somos a banda mais antiga de rock brasileiro ainda em atividade, e nunca nos afastamos daquele mesmo ideal de 1967. Houve muitas mudanças na banda, e por isso talvez lançamos pouco material.”, diz Vecchione, referindo-se aos 16 discos do Made in Brazil.

Segundo o vocalista, se a banda se limitasse a tocar blues, não precisariam se desdobrar para divulgar o próprio trabalho. “Uma secretaria estadual de cultura oferece um espaço oficial para quem toca blues. Algo que dificilmente acontece tratando-se de rock ou subgêneros. Isso é triste porque somos os dois lados de uma mesma moeda”, lamenta.

Banda durante apresentação no Parque de Exposições Presidente Arthur da Costa e Silva

Made in Brazil tocando no Parque de Exposições Presidente Arthur da Costa e Silva (Foto: David Arioch)

Em 2006, a banda presenteou os fãs com o álbum mais controverso da carreira. Intitulado “Massacre”, o disco seria lançado em 1977. “A censura imposta pela ditadura militar impediu o lançamento, então decidimos guardá-lo até o momento certo, quase 30 anos depois”, enfatiza Oswaldo Vecchione. No ano passado, o grupo lançou “Rock de Verdade!”, primeiro disco de músicas inéditas ao longo de quase 10 anos.

A maior parte dos fãs do Made in Brazil estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. No Paraná, por exemplo, a banda já tocou em praticamente todas as regiões. “Em Paranavaí, o público pode não ser muito grande, mas é fiel. Significa que a galera realmente aprova o nosso som”, avalia o membro-fundador. O estudante Bruno de Alcântara faz coro às palavras de Vecchione, inclusive se soma a dezenas de fãs que prestigiaram as duas apresentações locais do “Made” em 2006.

“Foi muito legal vê-los ao vivo. A faixa etária do público é bem diversificada. Eu, por exemplo, que tenho 23 anos, assisti os shows acompanhado do meu pai que tem mais de 50 anos e também é fã dos caras”, explica Alcântara. Atualmente o Made in Brazil tem um público médio de 300 pessoas por show, o que contrasta bem com os anos 1970, quando eram recepcionados por mais de 20 mil pessoas. “Hoje em dia, isso é esporádico”, comenta o vocalista.

Oswaldo Vecchione e Caio Durazzo

Oswaldo Vecchione e Caio Durazzo (Crédito: David Arioch)

“Em locais pequenos rola mais intimidade com o público”

O Made in Brazil, assim como qualquer banda, sempre se satisfaz quando os shows são embalados por grande número de fãs, porém o vocalista e multi-instrumentista Oswaldo Vecchione afirma que os melhores shows são os menores.

“Em locais pequenos rola mais intimidade com o público. Principalmente em teatros, que são mais intimistas. É o local ideal para acrescentar uma dose de raiva ou um tesão maior”, revela Vecchione.

Hoje em dia, os shows do “Made” duram aproximadamente duas horas e contam com clássicos de todos os discos. “Mas sem deixar de apresentar coisas novas”, garante o roqueiro old school.

O grupo sempre prezou pela formação familiar, exemplo maior é o fato da banda ser comandada por Oswaldo e o irmão Celso Vecchione, também multi-instrumentista. “Somos uma grande família e os amigos que gostam do nosso som sempre tocam ou gravam com a gente”, ressalta.

Falta apoio ao rock

Os últimos cinco discos do Made in Brazil foram produzidos e prensados de forma independente pelo vocalista e baixista Oswaldo Vecchicone, um dos fundadores da banda, e Deborah Carvalho, percussionista e backing vocals da banda, falecida em janeiro de 2009.

“O disco Fogo na Madeira Volume I teve quatro tiragens. Para uma banda independente, é extremamente raro, ainda mais em um país onde a mídia não apoia esse tipo de música”, lamenta Vecchione. A cada novo lançamento, a banda prensa pelo menos 1,5 mil discos.

Ciente das dificuldades enfrentadas por bandas de rock no Brasil, o Made in Brazil faz questão que em cada um dos shows o produtor coloque uma banda local para abrir o evento. “Temos que dar força para quem está começando. Se artistas que atingem o ápice dessem apoio as bandas novas, hoje teríamos muito mais bandas de qualidade fazendo rock ‘n’ roll. O mercado estaria mais aberto”, pondera o vocalista.

Curiosidades

O Made in Brazil foi incluído no Livro Guinness dos Recordes por ser a banda que teve o maior número de formações.

O Made in Brazil se apresentou na TV Tupi em 1967.

Em 1976, a banda participou de shows com Rita Lee e Raul Seixas no Festival de Rock de Saquarema.

Na comemoração dos 30 anos do Made in Brazil na Vila Pompeia, em São Paulo, onde nasceu a banda,  participaram Nasi, do Ira; Roger, do Ultraje a Rigor, Catalau, ex-Golpe de Estado; Pitt, do Viper; Paulão de Carvalho, do Velhas Virgens; Kid Vinil, do Verminose; Clemente, dos Inocentes; Tony Campello, da Casa das Máquinas; e João Ricardo, do Secos & Molhados.

Música concebida pela vã temporalidade

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A composição é um processo de construção e desconstrução temporal em que os autores se desdobram para conceber uma obra dialética

Para compor uma grande obra musical é preciso mais que inspiração

Chopin conciliava inspiração e fatores socioculturais (Foto: Reprodução)

Não é de hoje que a música é considerada a arte que se desenvolve tendo o tempo como base de sustentáculo, o alicerce que delimita as congruências. Mas para pensar sobre a questão temporal deve-se levar em conta a concepção genuína da música. Uma obra originalmente concebida não é resultado da mera inspiração; pensar dessa forma significa distanciar-se da verdadeira concepção em relação à composição de uma música.

“Ninguém conseguiria produzir uma obra musical nas proporções de uma sinfonia de Beethoven, uma cantata de Bach ou até mesmo um pequeno prelúdio de Chopin somente com inspiração”, explica Rael Gimenes, professor de música da Universidade Estadual de Maringá (UEM). A composição musical vai muito além do indivíduo simplesmente ater-se ao instrumento e explorar os anseios determinados pelas suas influências, pois assim não estará realmente concebendo algo determinante para o meio.

Para o professor de música, a composição musical é resultado de um processo de discussão técnica e histórica. Uma tentativa de resolução de problemas que são gerados a partir da confrontação técnica e teórica com as crenças que cada sociedade possui sobre conceitos chaves como tempo, altura, duração, funcionamento da percepção, desenvolvimento físico-acústico dos instrumentos, entre outros tantos. Esses elementos servem para ilustrar o quanto pode ser complexa a construção musical. É um processo que envolve uma série de fatores, não somente o prazer de tocar um instrumento ou explorar o sincretismo construído num espaço variável de gostos musicais.

Neste momento, você pode estar se perguntando: qual a relação da fiel conceituação musical com o tempo? É justamente isso que determina a originalidade de uma composição, pois quando o indivíduo tem capacidade de compreender a temporalidade, ele deixa de ser um mero “repetidor de modelos” e começa a inserir novos elementos que depois poderão derrubar paradigmas. Além, claro, de prescrever musicalmente as determinações do processo histórico no qual a obra foi concebida.

O tempo cíclico marcou a história do tempo, ainda mais porque surgiu num contexto em que o relógio ainda não havia se desenvolvido, apesar de existir formas arcaicas de marcação temporal. “O tempo cíclico é medido pelos ciclos naturais, como cheias dos rios, a sucessão do dia e da noite, as estações do ano e quaisquer sinais da natureza que fossem importantes para auxiliar na sobrevivência dos indivíduos”, diz Gimenes.

A música ocidental no período que envolve o início da era cristã até o século XII ficou musicalmente conhecida em função do surgimento do canto gregoriano, caracterizado pela monodia (uníssono – única voz), o que significa que não possui nenhuma forma de divisão temporal baseada em pulso ou métrica. Resume-se a um corpo de cantores que cantam uma música no mesmo espaço temporal; período em que surge então a organização métrica-musical. “Baseava-se no ritmo da fala. Cantava-se da mesma forma que se lia”, conta o professor de música. A partir disso, percebia-se a influência que a maneira de pensar o tempo tinha, em relação com a organização do tempo na música.

Professor Rael Gimenes: "Cantava-se da mesma forma que se lia".

Professor Rael Gimenes: “Cantava-se da mesma forma que se lia” (Crédito: Divulgação)

A maior diferença musical determinada pelo tempo pode ser percebida se for levado em conta o canto gregoriano e compará-lo com outros diversos tipos de música. Enquanto a monodia não delimita uma estrutura que faz com que o sujeito perceba o final da música, em outros estilos a captação é mais simples, devido aos pulsos regulares, que faz com que facilmente identifiquemos o refrão e o final da música. “Nesse contexto, a música nasce em ciclos que não possuem inícios como os fenômenos da natureza que serviram de base para essa forma de pensar o mundo”, revela.

Depois surge o período polifônico, em que a música deixa de ser pensada como um elemento determinado por um instrumento para se tornar o principal resultado da junção de diversos instrumentos, além da presente vocalização. Com isso, temos uma sincronia de fluxo temporal. De acordo com Gimenes, o tempo foi subdividido em pequenas fatias de durações iguais.

É importante salientar que após tais fatos houve o desenvolvimento do relógio mecânico. Segundo Gimenes, o relógio mecânico surgiu por volta do ano de 1300 e se popularizou na Europa por volta do ano de 1450. O relógio é a materialização da resolução de um problema filosófico que estava em discussão desde o século XI com o início do desenvolvimento da polifonia. O tempo inserido nesse contexto é a seqüência de eventos que na música é determinada pela linearidade. É a ideia de previsibilidade em que a música surge em decorrência direta dessa maneira de pensar o tempo.

Rael Gimenes frisa que é uma sucessão de “agoras” que pode ser prevista por equações em que a música independe de qualquer fator. É desenvolvida dentro dos mesmos critérios que arraigadamente envolvem compositores do final da Renascença até o fim do século XIX. Dentre eles: Bach, Mozart, Händel, Beethoven, Haydn, Chopin, Liszt, Wagner, Brahms, Schubert e Schummann.

A música pode ser sintetizada como um processo de construção e desconstrução temporal em que os compositores se desdobram (dentro da sua gama de elementos pertinentes) para fazer emergir laconicamente uma obra dialética. Original e arbitrária, uma composição genial ultrapassa a inspiração e envolve muitas prescrições de fatores socioculturais, fazendo da música não somente mero resultado que possui em outra composição um exponencial. A obra inigualável e única traz à tona uma ruptura de paradigmas que harmoniosamente são determinados pela vã temporalidade.

O Garganta de Ouro de Terra Rica

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Antes do estrelato, José Rico cantava em troca de doces em Terra Rica

"“O padre falou que ele seria um José Rico, ficaria realmente rico, e isso aconteceu"

““O padre falou que ele seria um José Rico, ficaria realmente rico, e isso aconteceu”

Na infância, o pequeno José Alves dos Santos começou a se destacar em Terra Rica ao cantar em troca de doces. Quando cresceu, a necessidade o obrigou a exercer serviços braçais para sobreviver. Porém, como profetizara um padre, José ainda seria rico.

O músico José Alves dos Santos, conhecido como José Rico, nasceu em São José do Belmonte, Pernambuco, em 1946, mas em 1948 se mudou com a família para Terra Rica, onde viveu até os 19 anos. De acordo com Wilson Alonso, amigo de infância do cantor, José Rico, o Garganta de Ouro do Brasil, é um grande personagem da cidade. “Ele não é como aqueles artistas que esquecem da própria origem. Não fica mais de seis meses sem aparecer aqui”, defende.

Ao se mudar para o Noroeste do Paraná, no início, o pai de José Rico conseguiu manter a família com o ofício de barbeiro. No entanto, logo surgiram dificuldades e, ainda criança, José Alves dos Santos teve de trocar a chupeta por uma enxada. “Ele trabalhou muito na lavoura. Também atuou como pintor, sorveteiro, engraxate e servente de pedreiro. Lembro como se fosse hoje”, informa Alonso que durante alguns segundos se cala, disperso em pensamentos.

Quando não estava trabalhando, o pequeno José gostava de cantar. A boa voz foi determinante para ser convidado a participar de eventos locais em troca de um cachê baseado em paçoquinha e sorvete. “Era uma figurinha carimbada nas quermesses e festas juninas. Quem tinha muito dinheiro na época, sempre o chamava para se apresentar”, conta Alonso, sem velar o sorriso nostálgico.

O interesse pela música sertaneja foi precoce, mas o desconhecido José dos Santos embalava mesmo o público com canções românticas e boêmias. “Eram composições de Altemar Dutra e Nelson Gonçalves. O pessoal gostava mais desses cantores que estavam no auge”, relembra Alonso. No fim da adolescência, José Alves dos Santos começou a participar de programas de rádio. Alonso rememora um episódio em que o cantor veio a Paranavaí participar de um programa de auditório. “Ele conseguiu chegar a tempo de se apresentar na Rádio Paranavaí graças ao sargento Vieira”, reitera.

Sucesso com a dupla não comprometeu a simplicidade de José Rico (Foto: Reprodução)

Sucesso com a dupla não comprometeu a simplicidade de José Rico (Foto: Reprodução)

Na época em que sequer cogitava a possibilidade de gravar um disco, o jovem José conheceu o pároco Eduardo Bassil que lhe deu incentivo no início da carreira. “O padre falou que ele seria um José Rico, ficaria realmente rico, e isso aconteceu. Foi merecido porque ele lutou muito por isso, não caiu do céu”, finaliza Wilson Alonso.

José Rico gostava de lutar

Na adolescência, as mãos do cantor sertanejo José Rico não se sentiam atraídas apenas pelas cordas do violão. “Briga era com ele. Lembro que antigamente tinha luta em circo, então normalmente no segundo dia ele já estava lá na arena lutando. O Zé gostava muito disso”, garante o amigo Wilson Alonso.

Emocionado, Alonso destaca a simplicidade como a principal característica do cantor. “O Zé chegava aqui em casa e dizia que queria comer arroz, feijão, ovo frito e quiabo. Além disso, adorava sair na rua de bermuda, camiseta e tênis”, relata o amigo.

Apesar de não tocar nenhum instrumento, Wilson Alonso guarda com esmero um violão cuidadosamente envernizado e sempre brilhante. O instrumento está sempre afinado, à espera de José Rico, que ao toque do primeiro acorde leva à tona a mesma nostalgia e graça da época em que usava o talento para ganhar um pedaço de doce.

Saiba Mais

Além da música sertaneja, José Rico apreciava música gaúcha, mexicana, paraguaia e cigana. Tais influências são perceptíveis nas composições do artista.

A música “Estrada da Vida”, de autoria de José Rico, rendeu a venda de mais de dois milhões de discos para a dupla.

A dupla Milionário e José Rico surgiu em 1973. Desde então, lançaram 28 discos e dois filmes: “Na Estrada da Vida” e “Sonhei com Você”.

O filme “Na Estrada da Vida” foi dirigido por Nelson Pereira dos Santos, expoente do cinema novo brasileiro.

Entre a navalha e o acordeão

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Irineu Pantarotto, um barbeiro que atrai fregueses com o som cadenciado de uma gaita  

Seu Irineu emocionado "repassando o teclado" (Foto: David Arioch)

Seu Irineu emocionado “repassando o teclado” (Foto: David Arioch)

Na Rua Marechal Cândido Rondon, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o Salão Nossa Senhora Aparecida chama a atenção de quem passa pelas imediações. A atração é o barbeiro Irineu Pantarotto que além de cortar barba e cabelo anima a freguesia deslizando os dedos com maestria pelo teclado de um clássico acordeão Todeschini, instrumento pelo qual ostenta amor atemporal.

A barbearia do “Seu Irineu” não é frequentada por fregueses, mas por amigos, como faz questão de afirmar. “A gente vem aqui apreciar a música dele. Pra mim, ele é no mínimo um dos melhores músicos do Paraná”, elogia o comerciante Luiz Chemin, cliente da barbearia há 27 anos.

Para o aposentado Orlando Ferezin, também cliente há décadas, as canções de Irineu Pantarotto são de uma nostalgia inigualável. “Tudo que ele toca me lembra uma cultura antiga que infelizmente não volta mais”, justifica.

A qualidade técnica do músico também é ratificada por gaiteiros, como é o caso de Felisbino Alves que pelo menos três vezes por semana vai até a barbearia conversar sobre música. “A gaita contribui na atividade de barbeiro, desperta a atenção de muita gente que passa pelas imediações. Dessa forma, já conquistei muitos clientes e amigos”, garante Pantarotto.

A habilidade com o instrumento é resultado de uma dedicação iniciada aos 12 anos, antes mesmo de Irineu Pantarotto aparar barba ou cabelo. “Já tenho 50 anos de sanfona. Mesmo assim, toda vez que seguro o instrumento é como se fosse a primeira vez. Sinto uma energia muito boa”, revela.

Disco que deu visibilidade ao músico barbeiro (Foto: Reprodução)

Disco que deu visibilidade ao músico barbeiro (Foto: Reprodução)

Em 1982, o acordeonista teve um grande momento profissional, a oportunidade de gravar um disco. “Repassando o Teclado”, título do álbum, teve ótima repercussão no Paraná e em São Paulo. “Fiquei muito feliz de ouvir minha música em tantas emissoras de rádio. Me sinto vitorioso de ter gravado meu trabalho em vinil naquela época”, enfatiza Pantarotto que teve receio do trabalho ser desvalorizado, pois sempre se dedicou à música instrumental.

Sobre os lucros com a venda do disco, o gaiteiro põe a mão sobre a cabeça e lamenta. Contratado pela Gravadora Itaipu de São Paulo, Seu Irineu nunca recebeu pelo vinil. “O proprietário, Marcílio Castioni, vendeu o disco e não cumpriu o que constava no contrato. Não me deu os 10% das vendas. Não recebi nada”, reclama. Depois do incidente, o acordeonista nunca mais apareceu na gravadora.

Irineu Pantarotto não desanimou. Anos depois, regravou o álbum em CD, e a repercussão, mais uma vez, não deixou a desejar. “Receoso, decidi vender tudo sozinho, no meu salão mesmo. Vendi bem, tanto em Paranavaí quanto em outras cidades. Ainda tem gente querendo comprar, mas preciso fazer mais pedidos”, destaca o barbeiro que até hoje só gravou canções autorais.

Primeiro músico a tocar no Clube Idade Dourada

Irineu Pantarotto foi o primeiro músico a subir ao palco do Clube Idade Dourada, onde tocou por dois anos consecutivos. À época, tinha um grupo formado por mais três músicos e quatro bailarinas. “De destaque, tive três bandas: ‘O Patriota do Fandango’, ‘Irineu Pantarotto: malabarista do teclado’ e ‘Irineu Pantarotto e suas Pantaretes’, conta o acordeonista.

Irineu Pantarotto (o primeiro da direita para a esquerda) na época do Grupo Patriotas do Fandango (Foto: Reprodução)

Pantarotto (o primeiro da direita para a esquerda) na época do Grupo Patriotas do Fandango (Foto: Reprodução)

De 1982 a 1996, animou muitos bailes, tocando principalmente vanerão, xote, marchinha, rancheira, chorinho e quadrilha. À época, Seu Irineu se apresentava em programas de TV. “Ele quase sempre estava no programa do Matãozinho, em Apucarana”, relata o comerciante Luiz Chemin.

As apresentações deram visibilidade ao músico, inclusive uma das canções de Pantarotto é a mais executada nas comemorações locais de São João. “Gravei uma quadrilha que se chama Festa Junina e até hoje as escolas e os clubes tocam essa música do meu disco”, revela.

Irineu Pantarotto compôs mais de 300 canções. Do total, apenas 12 foram registradas. “Carrego as outras na cabeça e no coração. Pode ser que uma hora apareça a oportunidade de gravar um novo CD. Se acontecer, vou doar todo o dinheiro arrecadado para instituições de cariedade”, promete o músico barbeiro.

Saiba mais

O primeiro show do acordeonista Irineu Pantarotto foi em 6 de outubro de 1962, em Birigui, no Estado de São Paulo. O músico ainda lembra do evento com brilho nos olhos.

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