Archive for the ‘Paranavaí’ Category
Livro narra causos fantásticos da região de Paranavaí
Em 2013, a professora Elmita Simonetti Pires lançou em Paranavaí, o livro “Memória e Oralidade: Narrativas da Microrregião do Extremo Noroeste do Paraná”. Além de ser um registro da identidade dos povos que vivem em 22 cidades da região de Paranavaí, a obra leva ao público a importância da valorização da cultura oral como fonte literária.
“É uma maneira de destacarmos a importância do nosso folclore. O livro reúne causos contados principalmente por gente simples”, explica a professora que é mestre em letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e docente da Universidade Estadual do Paraná (Unespar).
Dentre algumas das histórias intrigantes contadas no livro estão: “E era mesmo o danado do Saci”, “Ler e escrever: vivência de Dona Arlinda”, “A Vaca da São Francisco”, “Causo de cemitério, chapeuzão e capa preta”; “A Casa Assombrada”, “O Pote de Ouro do Mourão da Mangueira”; “Dia do Pai da Mata”; “A Casa Assombrada”; “O causo do quebra-milho”; e “O Causo de Bainho: aconteceu na mata do Cristo Rei”. “São registros que revelam conhecimento, sabedoria, maneiras de fazer, pensar e ver as nossas relações sociais”, diz a professora.
A princípio, a meta era concluir a pesquisa em dois anos. No entanto, foram necessários quatro. Ainda assim, Elmita admite que havia mais histórias para contar. “Em material cultural, folclórico, a região é muito rica, então fui ingênua em achar que seria possível concluir esse trabalho em apenas dois anos. São muitos costumes, ideais e crenças”, comenta a professora. Acompanhada de uma equipe, Elmita Simonetti fez muitas viagens por cidades da região para ouvir histórias fantásticas narradas pela população.

“É uma maneira de destacarmos a importância do nosso folclore. O livro reúne causos contados principalmente por gente simples” (Foto: David Arioch)
O resultado do projeto “Memória e Oralidade”, então transformado em livro graças ao apoio do deputado federal Hermes Parcianello, Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Fundação Araucária e Serviço Social do Comércio (Sesc), entra para a história do Extremo Noroeste do Paraná como mais uma importante referência de pesquisa e fruição para professores, estudantes e leitores interessados pela cultura regionalista. Distribuído em muitas instituições de ensino, o livro traz na contracapa um encarte com DVD. Para mais informações, ligue para (44) 3424-0100.
O triste fim de quem não quer ser ajudado
Na última terça-feira, dia 26 de janeiro de 2015, fiquei sabendo de um fato que me deixou chocado. No ano passado, eu e mais alguns amigos nos mobilizamos para ajudar um casal que estava passando por uma situação extremamente crítica – aparentemente de miséria, já que viviam em um barraco. Com o tempo, estreitamos o contato com eles e descobrimos que eles não foram tão sinceros conosco. Ainda assim ajudamos do mesmo jeito. Afinal, o que custa fazer o bem a alguém?
Quem ajuda por solidariedade ou empatia não espera nada em troca. Porém, ficamos sabendo mais tarde que essas pessoas, mesmo depois de receber até mais do que tínhamos prometido, começaram a espalhar boatos sobre o nosso trabalho. Supostamente dando a entender que tínhamos arrecadado muito dinheiro e não repassamos a eles, o que por sinal, não fazia o menor sentido, já que investimos até tempo e dinheiro do nosso próprio bolso. Afinal, iríamos roubar nos mesmos? Mas até aí tudo bem.
Os dois eram alcoólatras e se recusavam a mudar de vida, apesar dos nossos conselhos. Inclusive nos recebiam em sua casa embriagados. Na realidade, em algumas situações chegavam a rir e quase cair diante de nossos pés. Um dia, liguei para eles e foram surpreendentemente agressivos. Então amenizei a situação dizendo que ajudaríamos mais um pouco, mas não iríamos mais visitá-los, já que eles poderiam seguir em frente tranquilamente.
Na última conversa, a mulher chegou a fazer algumas acusações, dizendo que eu tinha conseguido o que queria. Eu, como jornalista, não recebo e nunca recebi nada por registrar a realidade da periferia. É um trabalho que faço porque gosto, me interesso, me identifico com tudo isso e acho que vale a pena ser partilhado com outras pessoas e divulgado. Na realidade, se vocês entrevistarem jornalistas, acredito que pelo menos uma boa parte vai dizer que os trabalhos mais gratificantes foram aqueles que menos lhe trouxeram retorno financeiro.
Bom, mas continuando. Fui acusado pela mulher de ter me dado bem ao contar a história deles – só não entendi como isso seria possível. Respondi tranquilamente que ela estava equivocada e tentei me justificar. Mas sua malícia desconsiderou todos os meus argumentos. Fui insultado pela mulher, só que ainda a ajudei mais uma vez. E aquele foi nosso último contato. Nunca mais tive notícias deles.
Então ontem fiquei abismado e até triste ao saber que ela faleceu há 15 dias em decorrência de cirrose hepática. A mulher tinha cerca de 40 anos. E o seu marido teve outro AVC e agora está quase em estado vegetativo. Para cuidar dele, não restou ninguém. Sobrou apenas as visitas esporádicas de filhos e enteados viciados em crack que normalmente os visitavam para buscar dinheiro e alimentos. Os amigos de boteco também desapareceram.
Meu pai e O Encouraçado Potemkin
No final das férias de julho de 1994, aos 10 anos, eu estava em uma locadora na Avenida Distrito Federal, em Paranavaí. Quando saí de lá, meu pai me olhou e disse: “Me consiga esse filme que lhe dou um prêmio.” Era o clássico do Cinema Revolucionário Soviético “Bronenosets Potyomkin”, conhecido no Brasil como “O Encouraçado Potemkin”, de Sergei Eisenstein, lançado em 1925. E assim, a partir de um desafio entre pai e filho, meu interesse por cinema apenas cresceu.
Visitando Billy
Hoje, no final da tarde, fui até a casa do artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima, na Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, visitar o Billy, cachorro do ex-morador de rua Jessé Piedade que está fazendo tratamento contra o alcoolismo na Casa da Misericórdia, de Apucarana, no Norte do Paraná. Quando cheguei lá, Billy fez a maior bagunça – começou a rodopiar e a saltar. Assim que se acalmou, aproveitei para registrar o momento. Billy, que hoje está sob a guarda do Tio Lú, tem uma história de vida muito bonita.
Quando filhote, foi abandonado na sarjeta do Terminal Rodoviário de Paranavaí num dia de chuva. E para piorar, um dos guardas do local o deixou cego de um olho ao usar uma arma de eletrochoque para expulsá-lo de lá. Jessé, revoltado, partiu pra cima do guarda e o impediu de machucá-lo mais ainda. Desde então, se passou dois anos, e hoje Billy é esse animal alegre e saudável que vocês podem ver na foto.
As crianças do Cine Ouro Branco
Vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, molhando sua camisa xadrez abotoada até na altura do pescoço
Não faço parte de uma geração que tem as lembranças mais sólidas e claras do Cine Ouro Branco, um dos grandes pontos de entretenimento da população de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, até 1993. Quando o cinema foi fechado, eu ainda era criança. Apesar disso, frequentei o Ouro Branco por alguns anos da minha infância e tenho boas recordações daquele tempo.
A minha primeira vez no cinema foi numa sessão de “Os Heróis Trapalhões – Uma Aventura na Selva”, num final de semana em 1988. Até então, a maior tela que eu tinha visto era da TV de 21 polegadas, coberta por uma caixa de madeira envernizada, que ficava na sala de casa. Mesmo assim eu era feliz assistindo desenhos animados nela.
Logo que eu, meu irmão e minha mãe chegamos em frente ao Cine Ouro Branco, na Rua Manoel Ribas, no centro de Paranavaí, prestei atenção na grande movimentação de pessoas na fila da bilheteria. Miúdo, eu observava tudo na proporcionalidade da minha estatura. Via mais sapatos, pernas e cintos do que rostos. A não ser, claro, quando as pessoas eram tão pequenas quanto eu.
Antes de entrarmos, caminhei vagarosamente e de costas pela calçada, tentando observar a altura do prédio do Cine Ouro Branco, mas era impossível para mim. Então pensei que aquele fosse o maior cinema do mundo. Quem sabe, atravessasse os céus e tivesse contato direto com o paraíso de que falavam na escolinha.
O gentil pipoqueiro sorria pra mim, percebendo através dos meus olhos grandes, cilíndricos e pretos que aquela era a minha estreia no cinema. “É sua primeira vez? Você vai gostar e vai querer voltar mais vezes”, disse enquanto ajeitava uma pequena quantidade de pipoca doce que tentava se misturar com a salgada.
Quentinha, a pipoca pronta para consumo estalava dentro do carrinho. Por um momento, cheguei a crer, na minha ilusão meninil, que talvez a pipoca tivesse vida própria e também quisesse entrar no cinema para assistir Os Trapalhões. Ao meu lado, prevalecia um aroma adocicado que pacificava as crianças mais buliçosas – sim, era um eficaz calmante açucarado e rubro.
Trazia recordações dos airosos ipês-vermelhos que eu via todos os dias perto de casa, quando apontava com o dedo e gritava: “Olha lá um pé de pipoca-doce!” Do outro lado do carrinho de pipoca, a olência mudava, assim como o público. Os adultos, principalmente os homens, se achegavam para comprar: “Me vê da salgada, por favor!”
Habilidoso, o pipoqueiro sabia como ninguém quantas pazinhas de alumínio eram necessárias para encher um saquinho. Eu assistia suas mãos sulcadas lucilando diante da pequena lâmpada já amarelecida que iluminava e dourava seu rosto crispado. Era desse jeito, sempre que ele se inclinava ou se aprumava. Aquele era seu espetáculo e na entrada do Cine Ouro Branco ninguém era mais importante do que o pipoqueiro.
Naquele dia, antes de entrarmos no cinema, cinco engraxates, com idade entre 6 e 14 anos, se aproximaram, encostaram numa parede ao lado do Cine Ouro Branco e, como os jovens farroupilhas do filme Los Olvidados, de Buñuel, começaram a fumar, observando famílias descendo dos automóveis e atravessando a calçada.
“Se tivesse pai ou mãe não tava nessa vida, irmão! Ser pobre e sozinho não é fácil não. Olha quanto luxo dessa molecada”, comentou um deles com os quatro amigos que o acompanhavam. Sem falar nada, apenas balançaram a cabeça em concordância, esmagando bitucas a pés pequenos.
Sujo, com unhas encardidas e cheiro nauseante de cigarro barato, um engraxate de não mais que 12 anos se aproximou de uma turma de crianças. Como alguém indeciso sobre entrar ou sair, cruzou os braços e ergueu o rosto enquanto uma das luzes da entrada realçava sua dúbia expressão de satisfação.
“Pessoal, escuta aí! Rapidinho! Esse filme dos Trapalhões é bom demais. Só tem uma coisa ruim. O Mussum e o Zacarias morrem no final. Valeu! Tchau!”, gritou e correu rindo, com os cabelos ondulados e escuros esvoaçando. Naquele momento, ele se tornou um antagonista digno do vilão Cicatriz interpretado por Carlos Koppa no filme dos Trapalhões.
O garoto arrastou os chinelos surrados e, acompanhado de seus comparsas, desceu satisfeito em direção à Rua Pará. Algumas crianças não se importaram com a revelação, mas outras ficaram tão irritadas que queriam que seus pais chamassem a polícia ou fizessem algo a respeito. Por bem, ninguém os perseguiu.
Dentro do Cine Ouro Branco, fiquei boquiaberto com as poltronas a perder de vista. “Aqui cabe mil e quinhentas pessoas. Olhe lá em cima, é como numa ópera”, informou minha mãe, observando a minha reação e a do meu irmão Douglas. Sem pressa, giramos ao redor da sala mastodôntica, tentando registrar os detalhes.
Por sorte, havia lugares vagos nas primeiras fileiras. Então caminhamos até lá, atravessando corredores e ouvindo sons de espectadores comendo pipoca, conversando, fazendo troça e se abraçando. Perto de nós, o lanterninha acompanhava tudo com sua aura indefectível de vagalume. Se sentia o líder de um coliseu onde nada aconteceria sem sua autorização, ainda mais quando as luzes se apagavam.
Assim que me sentei, observei um garoto com roupas remendadas sentado ao meu lado, acompanhado de sua mãe. Seu nome era Juscelino e ele era um ou dois anos mais velho do que eu. Também era a primeira vez dele no cinema. Percebi sua ansiedade porque seus pés miúdos não paravam de balouçar, assim como os meus.
Suas mãos trêmulas suavam tanto que toda hora ele as enxugava nas laterais da calça xadrez de barras curtas. Juscelino falava comigo mantendo o rosto em direção à desmesurada tela de projeção. Achei que era empolgação por causa do filme, até que notei algo de diferente em seus olhos, uma clareza cristalina como nunca vi antes. Com naturalidade, a mãe revelou que o filho nasceu cego.
Juscelino não enxergava nada. Ainda assim sua empolgação no Cine Ouro Branco superava até a minha. Os sons e olores que chegavam até ele eram como presentes imateriais, memoriais. Com uma rara acuidade auditiva e olfativa, Juscelino percebia até o que as pessoas faziam ou comiam nas poltronas mais distantes – e comentava tudo comigo.
Filho de um casal de lavradores de Alto Paraná, ele chegou a Paranavaí de ônibus pela manhã e ficou horas esperando a bilheteria abrir. Seu pai não prestigiou o grande acontecimento porque o dinheiro economizado a duras penas só cobria as despesas da mulher e do filho. “Vai começar, mãe!”, disse o garotinho segundos antes do projetor iniciar a rodagem do filme, como se tivesse um dom para presságios.
Do início ao fim, Juscelino ficou em completo silêncio, tentando absorver o máximo possível de informações sonoras. Ocasionalmente, se movia sobre a poltrona sem fazer barulho, preocupado em incomodar. Eu, ele e meu irmão estávamos unidos por uma experiência que jamais se repetiria. As nossas maiores descobertas eram visuais e as de Juscelino auditivas. Talvez até mais ricas, já que ele se colocava na condição de criador para dar vazão à criatividade de tudo que ouvia.
Ainda no escuro, vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, molhando sua camisa xadrez abotoada até na altura do pescoço. Ao final, com o retorno das luzes, perguntei a ele como era a assistir a um filme no cinema sem poder ver. Minha mãe me repreendeu, mas a de Juscelino não se importou com a pergunta.
“Não sei explicar direito, mas eu vejo sim, só não vejo com os olhos. Vejo tudo que carrego pra dentro de mim”, justificou antes de segurar a mão de sua mãe e caminhar a passos curtos em direção à saída, onde a iluminação artificial contrastava e se harmonizava com a luz anilada e complacente da venusta Lua recém-chegada.
Na esquina, no cruzamento entre a Rua Pará e a Manoel Ribas, os cinco engraxates, crianças vivendo como adultos, tamborilavam suas caixas, sentados no meio-fio, imersos em sorrisos postiços e olhares acabrunhados, tentando existir para um mundo que pouco reconhecia suas verdadeiras intenções.
Retornando para casa a pé, atravessamos a rua. Quando passamos por eles, o mesmo garoto que causou o alvoroço na entrada do cinema me puxou pelo braço e, com um olhar supliciado, perguntou: “Ei, amigo. Você pode contar pra gente a história do filme que tu viu lá no cinema?”
Curiosidade
Fundado em 27 de janeiro de 1961 pela Família Del Grossi, o Cine Ouro Branco foi uma das mais importantes fontes de entretenimento da população de Paranavaí até 1993.
Calado, o homem que rejeitou a sociedade
Diante do sol nascente fez uma oração à natureza, se preparando para cobrar pelo sangue derramado

Paranaguá quando Maurício teve de fugir de casa (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)
Calado não é um personagem comum ou conhecido da população de Paranavaí e do Noroeste do Paraná. Na realidade, ouso dizer até que é anônimo. A primeira vez que ouvi falar sobre ele foi no Cemitério Municipal de Alto Paraná, em uma conversa entre meus familiares e outras pessoas já falecidas que chegaram a esta região nas décadas de 1930 e 1940. À época, eu tinha entre 11 e 12 anos e fiquei fascinado, embasbacado com o relato sobre aquela figura quimérica que logo invadiria meus sonhos. Acordado, eu divagava e escrevia, baseando-me no que foi ou poderia ser tal sujeito de características singulares.
A história diz que Calado ou Saru, chamado Maurício, chegou ao Noroeste do Paraná no final do século 19, após ser acusado de se aliar aos maragatos em Paranaguá, durante a Revolução Federalista em 1894. Há quem diga que ele era parente de Gumercindo Saraiva, um dos comandantes das tropas rebeldes que lutavam pela deposição do presidente do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos. Mesmo com a morte de Ildefonso Pereira Correia, o barão do Serro Azul, em 6 de agosto de 1894, injustamente executado como traidor da pátria, os chimangos (republicanos) intensificaram a perseguição aos que teriam contribuído com os maragatos, independente da consistência das provas.
Com 19 anos, na tarde de 13 de setembro, Maurício estava em casa ajudando o seu pai a recolher as tábuas de um velho rancho que tinham desmontado pela manhã. Antes que pudesse terminar o trabalho, quatro homens invadiram a chácara da família procurando pelo rapaz. Assim que Maurício se apresentou, dois soldados o seguraram pelos braços, o acusando de conspiração contra a república. Vasculharam o quarto do jovem e encontraram uma pequena caixa de madeira dentro de um armário. No interior, havia um lenço vermelho, que caracterizava a vestimenta dos maragatos, e o rascunho de uma carta que supostamente foi entregue em julho de 1894 a Gumercindo Saraiva, líder do movimento.
Nela, o autor dava detalhes sobre a localização de uma fazenda que poderia servir de abrigo para os insurgentes sob comando do almirante Custódio de Mello. As informações selaram o destino de Maurício que tentou explicar que a caixa não pertencia a ele. Desesperados, seus pais choraram e imploraram para que o filho não fosse levado. De nada adiantou. O rapaz foi transportado até uma casa velha e abandonada a quilômetros de distância, onde o obrigaram a entrar em um porão extremamente sujo.
O lugar era úmido, escuro e havia um odor nauseante de ferrugem. Sem enxergar nada, Maurício quase escorregou em uma poça. Quando um dos soldados acendeu a lamparina, o rapaz viu que havia bastante sangue sob seus pés; uma parte ressequida e outra ainda fresca, indicando que não fazia muito tempo que alguém entrou ou saiu gravemente ferido daquele lugar. O oficial que comandava a operação, identificado apenas como Justo, disse com voz plácida e pausada para Maurício assumir a autoria da carta, justificando que assim eles não precisariam machucá-lo.
O rapaz rejeitou a oferta. Por cerca de um minuto, o oficial observou seus olhos sem transmitir qualquer tipo de emoção. Caminhou até uma cadeira recostada num canto bem iluminado e sentou-se diante de uma mesinha onde havia um cachimbo com um tubo de bambu e um fornilho de barro. Lá mesmo, o sujeito começou a fumar ópio, alheio ao que aconteceria nos próximos minutos.
Enquanto isso, Maurício, mantido nas pontas dos pés com os braços suspensos por uma corda, levava socos e chutes de dois chimangos, mas não o suficiente para feri-lo gravemente. Ainda assim, sentindo severas dores em várias partes arroxeadas do corpo, ele lacrimejava em silêncio e ocasionalmente gritava que era inocente. Quando Justo parou de fumar, e acenou com uma das mãos cobertas pela fuligem de uma lamparina pendurada a centímetros de distância, os soldados se afastaram e saíram do porão.
“Você já ouviu falar no ‘braço de folie?’ É uma técnica muito interessante que um mercenário, um apátrida francês, descobriu na Ásia para conseguir respostas honestas de pessoas que não gostam muito de falar a verdade. É bem eficaz, tanto que até hoje nunca deixei de alcançar meu objetivo. Ah! E é exatamente pela boa aplicação dela que me chamam de Justo”, declarou com voz grave e sorriso tétrico.
Desinteressado em fazer mistério, o oficial caminhou até outro canto do porão, retirou algumas flores amarelas de um saco e começou a macerá-las vagarosamente com um pilão, combinando com outros dois ou três ingredientes desconhecidos. “Meu rapaz, veja que dádiva de flor! Se chama ranunculus e pode ser tão bela aos olhos quanto deletéria ao corpo. Há de concordar comigo em breve”, comentou.

Ainda jovem viajou com tropeiros até chegar ao interior de São Paulo (Acervo: Jonathas Kistner – Grupo de Estudos Manoa)
Justo avaliou a viscosidade da pasta, caminhou até Maurício, deu alguns tapinhas em suas costas e esfregou nas axilas do rapaz a mistura que tinha a consistência de um unguento. Em segundos, sentiu a pele esquentando. Um minuto depois, todos os pelos da área afetada caíram e suas axilas queimaram como se alguém as tocasse com um ferrete. “Enquanto sentia a pele em carne viva e se balançava, na tentativa de resfriar as queimaduras, ele continuava afirmando que era inocente. Disse à minha avó que a princípio o cheiro da mistura ajudava a amenizar a dor insuportável”, conta Arminda Gervasi, sobrinha-neta de Maurício.
Justo também esfregou um pouco do “braço de folie” nas costas do rapaz que não suportou as dores e acabou desmaiando. A sensação era terrível, dando a impressão de que seus músculos dorsais foram dilacerados. Horas mais tarde, Maurício estava deitado em uma cama dentro de um barracão de estocagem de erva-mate. Acordou e não entendeu o que aconteceu. No seu corpo não havia sinais de queimadura, apenas da violência física cometida pelos dois soldados. Quando ouviu o som da buzina de um navio, percebeu que estavam nas imediações do porto.
O seu algoz continuava ao seu lado, observando sua reação. Supostamente o rapaz seria levado em um navio da Marinha para ser julgado no Rio de Janeiro. Porém, o oficial da escolta mudou de ideia ao ter certeza que Maurício não mentiu. “A verdade é que não vamos levá-lo a lugar nenhum. A ordem que recebi é para matá-lo e abandonar o seu cadáver num buraco qualquer. Só que minha experiência me convenceu de que você é inocente. Como não posso admitir falhas, deixarei você viver sob duas condições: suma deste lugar e nunca mais procure seus pais. Se eu souber que não acatou minha ordem, voltarei e matarei toda a sua família. Agora vá! Desapareça da minha frente!”, ordenou o homem.
Confuso, assustado e tremendo, o rapaz saiu porta afora e correu mancando por mais de dois quilômetros até encontrar uma floresta onde se escondeu entre os arbustos. Sujo, faminto e ofegante, Maurício observou ao longe seus pais cabisbaixos na entrada de casa. Contrariando o oficial da escolta, caminhou furtivamente até eles e relatou tudo que aconteceu desde que foi levado de casa.
“Não posso ficar. Fiz um acordo com aquele homem e ele prometeu que viria atrás de mim e de toda nossa família se eu não cumprisse sua ordem. Vim só pra me despedir e avisar que entrarei em contato em no máximo um ano”, prometeu. Abraçados com o filho, os pais choraram novamente e pediram que ele passasse pelo menos mais uma noite em casa antes de partir. Temendo o pior, Maurício recusou. Aceitou só os curativos, a mala preparada pela mãe e um saco com alimentos, principalmente pães e frutas. Também se despediu da irmã Sophia que à época tinha dez anos.

No dia 27 de março de 1896, entrou na floresta para não mais retornar (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)
Enquanto caminhava a passos rápidos, o jovem manteve o olhar em direção aos pais. A mãe, Maria, uma costureira baixinha e de mãos aveludadas, estava com o rosto rubro e os olhos túrgidos de tanto lacrimejar. O pai, Nestor, um magro sapateiro de estatura mediana que se dedicava tanto ao trabalho que trazia no rosto duas pequenas manchas indeléveis de graxa, acenava com uma das mãos enquanto usava a outra para acariciar o ombro da esposa, na tentativa de confortá-la. Prestes a desaparecer através do nevoeiro, Maurício ouviu o eco da voz de sua mãe gritando que o amava, lembrança que o acompanharia por toda a vida.
Assim que deixou Paranaguá, o rapaz encontrou um grupo de tropeiros e os acompanhou até chegar a Sorocaba, em São Paulo. De lá, partiu a pé e sozinho para Tatuí e Avaré, também no interior paulista. “Trabalhava só pra sobreviver. Seu objetivo era ficar longe e ao mesmo tempo sentir-se perto dos pais. Não parava em lugar algum porque seu sonho era voltar ao Paraná, de uma forma que não comprometesse sua família”, enfatiza Arminda, neta de Sophia.
Maurício chegou no início de 1896 à Fazenda da Prata, da Família Alcântara, onde mais tarde surgiria a cidade de Jacarezinho, no Norte Pioneiro do Paraná. Lá, se ofereceu para trabalhar na derrubada de mata. Na incursão pela floresta, ficou impressionado com as belezas da flora e da fauna. Era a primeira vez que sentia-se bem desde que saiu de casa.
Sempre que perguntavam seu nome e origem, ele mentia, preocupado com a possibilidade de ser perseguido pelos republicanos. Evitava falar do passado e não gostava de conversar mais do que o necessário. Às vezes, dormindo na colônia da fazenda ou em algum acampamento perto da mata, onde passava meses trabalhando, acordava sobressaltado, suando frio e soluçando. “Nunca mais foi o mesmo. Tinha fortes dores de cabeça e de estômago, delírios ocasionais e um medo constante de morrer, agravado por uma ansiedade sem fim. Sonhava com a família todos os dias, só que decidiu nunca mais procurar ninguém por receio de represália”, revela a sobrinha-neta.
Avesso à violência, quando presenciava brigas entre peões, Maurício virava as costas e se afastava com o corpo trêmulo. O som de cada soco ou chute trazia nefastas recordações das sessões de tortura em Paranaguá. A agonia e o estado de desespero só eram amenizados com a leitura de um livro que o acompanhava desde os 15 anos – “Papéis Avulsos”, de Machado de Assis, que ganhou dos pais no Natal de 1890.
“Antes de falecer em decorrência de um câncer de tireoide, minha avó ainda falava com os olhos cheios de lágrimas das muitas vezes que seu irmão sentou perto da cabeceira para ler uma das histórias desse livro antes dela dormir”, confidencia Arminda emocionada. Maurício tinha predileção pelos contos “A Teoria do Medalhão”, A Sereníssima República”, “O Alienista” e “O Espelho”, decorando-os integralmente antes de completar 16 anos.

Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)
Respeitado pelo patrão, e tratado com desprezo e indiferença por gatos (fiscais) e colegas de trabalho – homens brutos do sertão, o rapaz teve a paz abalada numa noite amena de outono. Cochilando com as costas escoradas numa árvore, deu um grito alarmado quando um sujeito embriagado o segurou pelo colarinho da camisa, o questionando sobre o paradeiro de uma quantia em dinheiro guardada embaixo de um toco. “Por favor, me deixe em paz. Eu não sei de nada. Me solta! Me solta!”, pediu Maurício, de acordo com Arminda Gervasi.
Ignorando a negativa, o homem desferiu um soco no rosto e outro no estômago do rapaz que de tão espaventado teve uma repentina crise de diarreia. Entre goles de cachaça e muita gritaria, os peões já bêbados apontavam os dedos para Maurício e gargalhavam, numa zombaria sem limites. Sem dizer palavra, ele se levantou, caminhou até a barraca onde guardava seus pertences, juntou as próprias roupas em um saco e desapareceu mata adentro, sob o olhar displicente do fiscal que entornava uma garrafa de aguardente. Aquelas pessoas nunca mais o veriam.
Sem se importar com o que poderia lhe acontecer, o jovem se distanciou cada vez mais da sociedade e da civilização, entregando a própria vida aos acasos do desconhecido. “Ele já não queria mais viver junto de outras pessoas. O que aconteceu naquela noite foi o estopim”, garante a sobrinha-neta.
No dia 27 de março de 1896, Maurício entrou na floresta para não mais retornar. Sem medo do próprio fim, começou uma jornada despretensiosa de descobertas e autoconhecimento. Durante o dia, atravessava quilômetros de mata fechada e quando anoitecia se abrigava sobre as árvores. Com o tempo, aprendeu a escalar as mais altas e robustas, que lhe permitiam uma visão privilegiada das cercanias.
Apesar das dificuldades, seu organismo então fragilizado aprendeu a se adaptar a uma alimentação baseada em frutos e vegetais. Algumas vezes, após ingerir algo completamente desconhecido, passou tão mal que pensou que fosse morrer. “Ele era muito mais forte do que imaginava. Em poucos dias, já se sentia saudável. Talvez fosse um sinal, um chamado da natureza, de que nasceu para aquela vida. Acho que outras pessoas não sobreviveriam”, avalia Arminda.
Com o tempo, o rapaz abandonou roupas e pertences, menos um relógio de bolso que prendeu no braço – presente dos pais. Sem rumo, atravessou centenas de quilômetros de mata nativa. Só interrompeu o percurso por volta de 1898, quando encontrou uma onça-pintada caída, quase morta, com o sangue escorrendo sobre pedras musgadas às margens de um riacho.
Ainda acordada, observou Maurício a arrastando alguns metros mata adentro. Ele a deitou sobre a relva e estancou com folhas e raízes um grande ferimento na barriga do animal. Cuidou da onça por dez dias e, apesar de parecer assustada e confusa, ela não o encarou como ameaça, sequer mostrou os dentes ou apontou as garras.

Saru começou a minar os planos dos caçadores que invadiam a mata nativa noroestina (Acervo: Ordem do Carmo)
Para Maurício, já não era algo surpreendente. A floresta tornou-se um lar e, de algum modo, seus velhos habitantes o aceitavam. Nem mesmo os índios de etnias caingangue e caiuá que encontrou pelo caminho o tratavam como invasor. Muito pelo contrário. Até o convidavam a participar de algumas celebrações, e foi numa dessas ocasiões que o batizaram como Saru, palavra tupi-guarani que significa Calado em português.
Meses depois, o rapaz reencontrou a onça de quem salvou a vida. Empoleirada numa árvore, ela saltou quando o viu. Se aproximou, observando os olhos de Saru, e deixou que ele deslizasse rapidamente as mãos pelo seu dorso. Cabeludo, barbudo, de estatura mediana e magro, o jovem ostracista de pele oliva aprendeu a ser mais silencioso do que os mais leves e menores animais que atravessavam a mata nativa. Vivendo sozinho, só interagia com quem se aproximava dele, o que talvez justifique porque sobreviveu tanto tempo na floresta. “Ele chegou a ser picado por cobras. A sua salvação foi o tratamento dos índios caiuá”, informa Arminda.
Em 1898, Calado já vivia em uma área onde surgiria a cidade de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Numa manhã, cansado de viajar sem rumo e de dormir ao relento, começou a construir uma casa no topo de uma gameleira. Dias depois, levou um susto numa madrugada quando notou que havia um animal pressionando as patas contra a lateral da casinha. Cuidadoso, se aproximou e viu que era a onça que o visitou em outra ocasião.
Segundo relato de Arminda, Saru saltou da árvore e seguiu o animal até uma área dominada por cedros, ipês e aroeiras, onde árvores menores ofereciam muitos frutos desconhecidos. A onça a quem Calado deu o nome de Sophia, em homenagem à irmã, conviveu com ele por mais de 15 anos. Por volta de 1914, um pequeno grupo de invasores que chegou à região, provavelmente vindo do estado de São Paulo, para avaliar a qualidade do solo, matou Sophia e Toriba, um de seus filhos, a tiros. Os dois brincavam às margens de um riacho.
Assim que ouviu um estampido, Calado atravessou até o local do ataque e observou os quatro homens armados se aproximando de seus amigos mortos. Um deles sorriu, cutucou a onça com a bota e comemorou: “Nunca imaginei que seria tão fácil matar um bicho selvagem no seu próprio habitat.” Saru guardou para si a fúria que o dominou naquele momento e esperou anoitecer.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida (Acervo: Ordem do Carmo)
Quando os quatro montaram acampamento e se reuniram em torno de uma fogueira, ele assistiu um dos homens ir até uma mina buscar água. Assim que o sujeito retornou, Calado atirou castanhas em várias direções. Também imitou rugidos de onça e escalou a árvore mais próxima. Preocupados, recolheram suas armas e tentaram localizar a origem do barulho, se afastando do acampamento. Silencioso, Calado saltou perto da fogueira, abriu cada cantil e dentro despejou “sono de abaité”, um veneno de origem indígena baseado em batracotoxina, uma secreção extraída das costas de rãs e besouros.
Pela manhã, ao retornar ao acampamento, os quatro invasores tinham tomado a água do cantil e estavam mortos. Semanas depois, outros homens chegaram ao local procurando os desaparecidos. No entanto, concluíram que as mortes foram uma consequência natural da falta de atenção dos desbravadores que talvez tivessem comido frutos venenosos.
Ainda abalado com a morte de Sophia e Toriba, Saru enterrou os dois no ponto mais elevado da floresta, onde frequentemente os animais menores passavam o dia brincando. A cerimônia atraiu a atenção dos outros descendentes da onça-pintada. Ele também notou a presença de antas, pacas, quatis, veados, tatus, jaguatiricas, lobos-guará, gatos-do-mato, bugios e aves. Coincidentemente ou não, parecia uma reunião.
Embora tenha vivido mais alguns anos sem contato com seres humanos, Calado sabia que isso não duraria para sempre. Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões. “Pra ele, o mais importante era que ninguém interferisse na vida selvagem, não matasse os animais. A floresta ainda era grande e ele reconhecia que era possível viver longe da civilização, mesmo com a chegada dos desbravadores”, assinala Arminda.
Desde a morte de Sophia e Toriba, Saru se colocou na posição de guardião da mata nativa de uma grande área onde surgiriam as cidades de Paranavaí e Alto Paraná. Os remanescentes dos índios caiuá nada poderiam fazer a respeito, já que a maioria vivia a mais de 100 quilômetros de distância, próximos do Rio Paraná e do Rio Paranapanema. Beirando os 50 anos, Calado pouco sofreu com a ação do tempo. Facilmente poderia ser confundido com um homem de pouco mais de 30 anos.
Corria pela floresta com extrema agilidade e se exercitava todos os dias sobre as árvores – tanto que ao longe era facilmente confundido com um animal. Vivia como alguém que nasceu e cresceu em território selvagem. Em contraponto, acreditava que quando uma vida era ceifada por motivo banal cabia a ele fazer justiça. E foi assim que Calado puniu entre as décadas de 1920 e 1950 muitos caçadores que invadiram a mata noroestina com a intenção de matar onças por diversão ou para extrair o couro que seria vendido a algum curtume. “Ele tinha o hábito de se abrigar dentro de tocos de árvores, de onde ele observava a movimentação dos invasores”, assegura a sobrinha-neta.
Quando uma jovem onça-pintada foi morta às margens de um córrego no início da década de 1930, onde surgiria o Jardim Ouro Branco, em Paranavaí, Calado extraiu-lhe as garras e as fixou em um tipo grosso de luva confeccionada à mão. Antes de usá-la, as deixou por uma noite embebidas no “sono de abaité”. De manhã, Saru se ajoelhou no chão, e diante do sol nascente fez uma oração à natureza, se preparando para cobrar pelo sangue derramado. De longe, reconhecia a intenção dos homens, se eram inimigos ou não.
Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida e a vitalidade soberana da floresta. “Meu tio-avô matou mais de 20 caçadores. Os corpos eram abandonados nos carreadores para que a família tivesse direito de enterrar o falecido. Ninguém nunca desconfiou que aquelas mortes pudessem ser causadas por um homem. Achavam que era coisa de onça mesmo”, narra Arminda Gervasi.
Guardião da floresta, Calado encarava como um ritual de justiça os matadores de onças sentirem a própria carne sendo penetrada pelas garras dos felinos que mataram. Entretanto, ao contrário do que imaginavam na época, as mortes eram causadas pelo “sono de abaité” e não pelos golpes, mais simbólicos do que fatais. Caçadores temidos em diversas regiões do Brasil sucumbiram diante das artimanhas de Saru.
Em 1937, Sophia, irmã de Maurício, viajou à Fazenda Brasileira com o marido para comprar uma propriedade rural. Enquanto se distraía caminhando por um carreador, ela observou ao longe um homem nadando em uma lagoa de águas cristalinas. Curiosa, se afastou do marido que conversava com um corretor de imóveis e andou em direção ao desconhecido. “Quer que pegue suas roupas? Onde elas estão?”, questionou Sophia. Quando o homem que serpenteava entre os peixes virou o rosto em sua direção, ela caiu de joelhos no chão, com as mãos tapando o nariz e a boca. Sophia chorou como uma criança ao notar nos olhos expressivos daquele homem de 62 anos o olhar vívido do irmão que partiu com 19 anos.
Sem dúvida, Maurício tinha envelhecido, mas ainda parecia mais jovem que Sophia. Calado ou Saru, que abandonou a identidade de Maurício, não conseguiu articular palavra. Ficou imóvel, com as mãos trêmulas enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto já molhado. Ao ver que não havia roupas por perto, Sophia correu até o carro do marido, abriu uma mala e pegou uma calça, uma camisa e um par de sapatos. Então sugeriu que Maurício os vestisse.
Apesar da falta de hábito, ele concordou com o pedido da irmã. Saru, que então mais do que nunca justificava o nome dado pelos índios, passou uma semana com Sophia. Somente no terceiro dia começou a conversar normalmente e contou-lhe tudo que viveu desde que deixou Paranaguá em 1894. Sophia, mais chorosa do que falante, ouviu tudo atentamente. Não cobrou notícias do irmão, pois sabia que ele tinha seus próprios motivos. Maurício foi tomado por uma confusão de sentimentos ao saber que seus pais adoeceram e faleceram em 1931 em decorrência de pneumonia.
Também foi Sophia quem informou que as falsas provas de que ele contribuiu com os maragatos foram plantadas por um antigo amigo chamado Arthur. Apaixonado pela jovem Teodora que sonhava em se casar com Maurício, o rapaz decidiu afastá-lo para sempre de sua amada, mesmo sabendo que Maurício não tinha intenção alguma de ser mais do que amigo da moça, muito menos desposá-la. “Essa informação não teve grande efeito sobre ele, que já não se importava tanto com o mundo civilizado. Somente as memórias familiares o arrebataram de forma surpreendente”, esclarece Arminda.
Sophia e o marido tentaram convencer Maurício a se mudar para Curitiba, onde ela vivia há mais de 20 anos. Ele declinou a oferta, a abraçou e argumentou que nada mais o interessava no mundo dos humanos. Antes de partir, Sophia levou as duas mãos ao rosto do irmão e recitou um trecho de “O Espelho”, de Machado de Assis, um dos contos preferidos de Maurício:
“Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja.”
Os dois sorriram, se despediram e Maurício correu em direção à floresta, onde, antes de desaparecer completamente, cumpriu um dos seus rituais mais sagrados – se livrou das roupas, o que significava se despir da civilização. Sophia e o marido não compraram nenhuma fazenda em Paranavaí, mas retornaram mais vezes procurando em vão o paradeiro de Maurício tornado Calado.
Entre as décadas de 1960 e 1980, alguns pioneiros e moradores de Paranavaí e Alto Paraná juraram tê-lo visto caminhando pelas estradas da Fazenda Ipiranga e Água do Cedro, além de áreas de mata do Jardim Ouro Branco e Jardim São Jorge. “Uma vez, voltando de viagem, parei no Cemitério de Alto Paraná pra dormir. Tenho certeza de que o vi atravessando tranquilamente por trás das árvores. Isso foi em 1976”, confidencia o pioneiro Júlio Galhardo.
O aposentado Amâncio Bonavero também afirma que viu Calado na área rural de Paranavaí em 1993, com base na descrição que lhe passaram nas décadas anteriores. Se o sujeito correndo pelo campo realmente era Saru, isso significa que ele estava vivo e saudável aos 118 anos. “Tem gente que acredita que o Calado ainda não morreu. Eu sou um desses. Acho que não o vemos mais porque hoje, mesmo de longe, ele ainda evita contato com pessoas. Quem sabe esse seja o motivo da sua longevidade”, deduz Bonavero sorrindo.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
A mudança de Jessé Piedade
Saí hoje à tarde pelas ruas de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, com o famoso Jessé Piedade para procurar um lugar para o seu cachorro Billy morar temporariamente. No caminho, como se estivesse pressentindo a separação, Billy enfiou o focinho entre os braços de Jessé e ficou lá, com olhos velados, por mais de dois minutos. Logo que o cachorro virou o focinho em minha direção, seus olho estavam úmidos, brilhando. E Jessé então disse emocionado: “Olha, o Billy tava chorando. Molhou a minha camiseta. Como pode isso, rapaz? Vai ser difícil me separar dele agora. Poxa vida!”
Quando chegamos ao local onde Billy ficaria por algumas semanas, surgiu um contratempo e decidimos procurar outro lugar. Passando pela Avenida Heitor de Alencar Furtado, me lembrei da Vila Alta e da Oficina do Tio Lú. Assim que chegamos lá e expliquei a situação, Seu Luiz ficou feliz de conhecer o tão falado Jessé Piedade e também de receber o Billy. Entrou dentro de casa, voltou com uma coleira e a entregou para que Jessé a colocasse no pescoço do Billy. Depois de poucos minutos na casa do Tio Lú, o cachorro já se sentiu à vontade, inclusive o rodeando enquanto ele ajeitava um lugar para o cão repousar ao lado da oficina – ladeado por uma bacia de água e um pratinho com ração.
Antes de ir embora, Jessé chorou ao se separar do Billy. Também recebeu alguns conselhos do Seu Luiz quando expliquei o motivo da guarda temporária do Billy. “Olhe, rapaz, tenho certeza que você é uma boa pessoa. Não perca essa oportunidade, hein? Acredite que isso vai mudar sua vida”, declarou Seu Luiz segurando a mão de Jessé. Deixamos o Billy com o Tio Lú porque amanhã às 6h Jessé Piedade vai se despedir da cidade onde viveu nos últimos anos.
Aproveitando que amanhã é feriado em Paranavaí, eu, minha mãe e meu irmão Guimarães Jvnior vamos levá-lo até uma clínica de reabilitação para alcoólatras em Apucarana, conhecida pelo alto índice de tratamentos bem sucedidos. Jessé concordou com o internamento e, assim como nós, tem fé que vai se livrar definitivamente do vício até o final do ano, nunca mais se entregando à vida de andarilho ou morador de rua.
O homem que estuprou as 14 filhas
“Falou que não existia nada melhor do que ter mulheres da família sempre à sua disposição”

Sandra tentava, sem sucesso, chorar, observando um pneu que balançava preso à corda (Foto: Reprodução)
Um dia, na Vila Operária, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, eu estava conversando na calçada com alguns moradores quando um senhor de 70 anos se aproximou. Aparentemente tranquilo, o sujeito que caminhava quase arrastando os pés fez alguns comentários sobre o tempo e o clima e se afastou, caminhando em direção à Rua Luiz Spigolon.
Há alguns anos, esse mesmo homem a quem chamo de Turvo, para velar sua identidade – a pedido dos envolvidos na história, descobriu um câncer e o médico disse que ele tinha apenas poucos meses de vida. À época, amigos, vizinhos e conhecidos o visitaram para se despedir, crentes de que o sujeito não sobreviveria.
Mesmo quem não simpatizava com o homem, sensível à situação, o procurou para se desculpar por velhos desentendimentos. Ninguém queria que o sujeito morresse amargando veleidades envolvendo fofocas e discussões acaloradas por causa de empréstimo de míseras quantias em dinheiro.
Ainda assim as visitas tinham atmosfera fúnebre, mas o sujeito, genioso e autoritário, parecia não se importar muito, já que seu comportamento e hábitos não mudaram em nada. Com o passar do tempo, Turvo não morreu, inclusive atualmente circula pelo bairro, e até mais saudável do que antes, surpreendendo muita gente.
Porém, há poucos dias, uma de suas ex-mulheres decidiu fazer uma confidência chocante, com a única exigência de que nenhum nome real fosse divulgado. Nervosa, constrangida e assustada, a mulher relatou que Turvo estuprou as 14 filhas, de um total de 19 filhos. E o homem jamais encarou isso como violência sexual ou incesto, mas sim como direito de pai.
“Só tivemos uma filha e ele também se aproveitou dela. Quando fiquei sabendo disso me deu um nojo muito grande. Ele mesmo contou tudo numa noite, depois de chegar bêbado em casa. Falou que não existia nada melhor do que ter mulheres da família sempre à sua disposição, nem que fosse pelo uso da força”, revela Marga que depois se separou do marido. No entanto, não teve coragem de prestar queixa na delegacia.
Com olhos marejados, a mulher relata que o homem só não estuprou todos os filhos porque cinco são homens. Apesar disso, prevendo a represália do pai que os criou sob a disciplina do medo, nenhum deles ousou enfrentá-lo ou denunciá-lo, mesmo sabendo que o pai estuprou todas as filhas.
Os primeiros casos de violência sexual e incesto praticados por Turvo começaram há mais de 30 anos, quando as filhas mais velhas entraram na puberdade. O homem chegava tarde em casa com odor de cachaça, ignorava a esposa que dormia e ia direto para o quarto das filhas, onde as obrigava a ter relações sexuais com ele. Às vezes, enquanto ele molestava uma, as outras filhas fingiam que dormiam, aterrorizadas com a possibilidade de serem as próximas vítimas.
“Vem cá que o papaizinho vai cuidar de você. Papaizinho vai provar que te ama tanto quanto ama a mamãe. Vem, Sandrinha, vem! Papai vai te ensinar que não existe nada melhor que amor de pai”, murmurou o homem cheirando à pinga e enrolando a língua num tom de voz meloso aos pés da cama. A sombra e as mãos pegajosas de Turvo a cobriam de forma tão sufocante que pareciam tentáculos.
Sandra se recorda do desespero que sentiu quando o pai a observou com olhos graúdos, assustadores e repulsivos. O sujeito acariciou suas pernas com as mãos esfoladas e sujas de terra. Talvez tivesse caído na rua quando caminhava do boteco para casa. Em seguida, percorreu seu corpo com a língua áspera e fedorenta que a fez sentir-se como se fosse lambida por uma dessas lagartas que invadem pedaços de pau podre em terrenos baldios.
Com o rosto virado, Sandra chorava em silêncio, mordendo os lábios e mirando o telhado de fibrocimento (Eternit). Se esforçava para sair do próprio corpo. Não queria enxergar nem sentir nada. A poucos centímetros, observou Isabel à direita – a bonequinha de tecido tinha um vestido encardido, levemente avermelhado.
“Lembrei da virgindade que aquele velho pedófilo tirou de mim. Ele ainda comemorou quando viu o meu sangue escorrendo pelo lençol. Falou desse jeito: ‘É assim, filhinha, a primeira vez de vocês tem que ser com o papai.’” Turvo se levantou e desapareceu na escuridão, carregando uma garrafa de pinga e arrastando os pés no chão.
Nada a fazia esquecer o cheiro nauseante do pai. As palavras do homem continuaram ecoando pela mente de Sandra. Era como se por um artifício fantástico tivessem anexado ao seu ouvido um gravador que reproduzia copiosamente as frases do criminoso. Ela não conseguia expor ao mundo o sentimento inimaginável que a dominou desde a noite do estupro.
Em seu interior, o desespero incessante consumia a voz e a capacidade de se comunicar. “Os gritos e o choro não eram ouvidos e vistos por ninguém. Existiam apenas dentro de mim. E minha mãe [primeira esposa de Turvo] sabia de tudo e aceitava”, narra chorando. As lágrimas pareciam banhar o interior de cada um dos órgãos – do coração ao útero. A voz perdida, apenas ela ouvia. A vontade de viver se esvaía com o sangue maculado, arbitrariamente dilacerado do seu corpo em desenvolvimento.
Lá fora, no quintal sujo, Sandra tentava, sem sucesso, chorar, observando um pneu que balançava preso à corda amarrada em uma árvore. Para ela, tudo continuava desfocado e diluído. “Eu queria morrer e, em vários momentos da vida, sei que minhas irmãs também. Ele abusou da gente não só uma ou poucas vezes, mas muitas. Ele estuprou todas as filhas e mesmo depois de tantos anos algumas ainda recebem suas visitas noturnas”, garante Sandra que se arrepia, apontando com o dedo indicador os pelos eriçados do braço.
Embora todas sejam bonitas, os traumas provocados por Turvo atingiu as 14 filhas de forma tão truculenta que até hoje, mesmo as que são casadas, não têm estrutura familiar ou conseguiram se realizar como mulheres ou profissionais. Com baixa autoestima, não se sentem bem ou bonitas, mesmo que alguém diga o contrário.
“Temos um bloqueio muito grande, dificuldade em confiar em alguém, enxergar sinceridade no que dizem. Pra você ter uma ideia, eu e todas as minhas irmãs viramos prostitutas em algum momento da vida. Algumas se prostituem até hoje. Acham que a intimidade já não vale mais do que um punhado de reais”, desabafa Sandra, sem velar o olhar pesaroso.
Saiba Mais
Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.
A triste realidade de quem vive no fundo da Vila Alta
Seu Zé não está passando fome graças à sensibilidade de alguns moradores de Paranavaí
Ontem, conheci o ex-boia-fria José Rodrigues, de 67 anos, acompanhado do meu irmão Guimarães Jvnior. Ele mora na última rua da Vila Alta, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, e vive em situação precária.
O idoso foi um dos beneficiados com os alimentos e produtos de higiene que algumas pessoas fizeram questão de doar após uma postagem minha no Facebook. Ele e a esposa não tinham nem o que comer em casa. Achei importante visitá-lo para mostrar a realidade dessas pessoas, provar que ainda há gente vivendo em situação de miséria.
Seu Zé, como é mais conhecido, não trabalha mais e tem sérias dificuldades para andar. Há alguns meses, ele ouviu sons de socos e chutes perto de sua casa e teve a impressão de ter escutado a voz de seu filho – achou que alguém estivesse o espancando.
Quando saiu para ver o que estava acontecendo, um rapaz o empurrou com força e ele caiu violentamente no chão. Desde então, Seu Zé, que vive com a esposa também idosa, se esforça para se manter em pé e luta para voltar a andar sem apoio.
Faço questão de agradecer Renata Cerezuela, Roseli Debarba, Amira Teotonio, Elza Pavao, Dirce Kühl e Márcia Nakamura pelas valiosas contribuições. Agradeço também a Rose Pedro pelas várias doações desde dezembro. Esse trabalho não seria possível sem a boa vontade dessas pessoas sensíveis. E tenho certeza que outros também contribuíram, embora eu não saiba quem são. Muito obrigado!
Super Muffato vendendo berinjela com mofo
Super Muffato, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, vendendo berinjela com mofo. Todas as bandejas que encontrei ontem estavam na mesma situação. E o mais curioso é que segundo o rótulo o produto foi embalado no dia 12, sendo que o prazo de validade é de 10 dias. Vai entender.









