Archive for the ‘Reflexões’ Category
Quando alguém parecer agressivo com você na internet
Quando alguém parecer agressivo com você na internet, talvez um exercício interessante seja fazer uma ou duas perguntas neutras e analisar as respostas. Se o discurso ainda parecer agressivo, provavelmente a pessoa está exaltada. “Por que eu faria isso?” Bom, porque muitas vezes as pessoas podem transmitir uma mensagem de forma equivocada, ou seja, transparecendo algo que não é o objetivo do emissor.
O simbolismo não chega à velhice
O simbolismo nasce, morre e renasce sem chegar à velhice. Sempre me pareceu um movimento jovem, de jovens anciãos. Dos poetas, Mallarmé foi o que demorou mais para se cansar da vida, falecido aos 56 anos. Verlaine, que teve uma história conturbada com Rimbaud, morreu aos 51 anos quando acreditava que a vida não tinha mais nada a lhe oferecer.
Baudelaire e suas Flores do Mal sucumbiram aos 46 anos em decorrência de sífilis. Rimbaud, o jovem poeta maldito, depois de Uma Temporada no Inferno partiu aos 37 anos quando há muito deixou de produzir poesia para vivê-la em sua forma mais figadal. No Brasil, penso nos Broquéis de Cruz e Souza, vencido pela tuberculose aos 36 anos. E no não menos maldito Augusto dos Anjos, que passou uma vida entre a doença e a convalescença, até não resistir a uma pneumonia aos 30 anos. O simbolismo foi feito para a posteridade enquanto seus representantes para o paroxismo da efemeridade.
Sobre pessoas que cometem assassinatos em massa
Não raramente, quando casos envolvendo mass murderers ou rampage killers ganham visibilidade, as pessoas dizem: “Ele sempre foi uma boa pessoa” ou “sequer levou uma multa de trânsito ao longo da vida”. Sou bem avesso a tal perspectiva que nos divide entre bons ou maus com base em análise subjetivamente superficial de conduta e caráter; sempre fui, e devo dizer que o ser humano “de bem”, dependendo de como vive, pode se transformar em uma bomba-relógio em qualquer momento de sua vida.
Quando isso acontece, certo e errado já não significam nada, assim como bondade ou maldade, porque foram diluídos durante um processo de alomorfia, quando o ser humano se torna incapaz de ver sentido em uma coisa ou em outra. Não há equivalência, nem descoincidência.
Por isso, considero importante boa educação, boa comunicação, estrutura familiar e capacidade de desenvolver desde cedo uma relação de pertencimento à vida e ao mundo, mesmo que tudo que vivemos seja provisório. Claro, não estou me referindo a pessoas que desenvolvem psicopatia desde cedo sem motivação contextual.
Falo de pessoas aparentemente comuns que, imersas em um viperino e volátil elã emocional e psicológico, tornam-se assassinas em algum momento de suas vidas. São seres que não veem nada de bom na humanidade ou na vida e, pesando a própria degradação como reflexo da falência existencial, anseiam em feri-la, mesmo que literalmente e alegoricamente matando alguns dos seus.
Em síntese, assassinos dessa categoria às vezes são seres derribados que se sentam diante da falésia, mas saltam somente no instante em que suas correntes estejam bem dispostas para arrastar outros, porque creem que somente por meio da morte daqueles que não eram “insignificantes”, sua história ou memória será perpetuada. Talvez o descomplicado suicídio seja solitário demais, liliputiano demais. Afinal, não ganha manchetes nos jornais, nem conversas entre mais do que meia dúzia de conhecidos. É um dos pináculos ou fossos da degradação sequer humana.
E quando alguém chega a matar alguém para provar alguma coisa, isso reverbera também uma nova porção de tentáculos da falência social. Por isso, eu jamais colocaria outro ser humano neste mundo se não fosse para assumir o compromisso de torná-lo um ser humano digno. Muitos dos males que testemunhamos hoje em dia vêm também do envilecimento e da indefensibilidade estrutural, terreno fértil não simplesmente para a calejada imoralidade, mas também para a, muitas vezes ignorada, amoralidade.
Passei a minha vida toda em cidades do interior
Passei a minha vida toda em cidades do interior. Por uma questão de preferência, nunca morei em metrópoles, justamente porque tempo é algo importante para mim, além da perpetuação de certos hábitos que considero inerentes ao ser humano. Não cresci comprando coisas demais, frequentando redes de fast food. A verdade é que não cresci dentro de uma cultura muito consumista. Na minha infância, porcarias eram consumidas apenas ocasionalmente. E tal hábito foi mantido e aperfeiçoado.
Não tenho o costume de comer fora, sempre tive uma relação quase litúrgica com a comida, tanto que gosto de cozinhar. Prefiro comprar coisas diretamente de quem produz. Claro, não me considero melhor do que ninguém por causa disso. Produtos industrializados nunca foram uma grande preocupação pra mim, porque essa não é a cultura em que estou inserido, e provavelmente essa minha história de vida me permite não cair em tantas armadilhas que ajudam a perpetuar ou reforçar as mais diferentes formas de exploração.
Me recordo que quando Gilles Lipovetsky criou o termo caos organizador ele disse que o ser humano se dividiria entre o progresso e o regresso na hipermodernidade. E é isso que testemunhamos todos os dias. Quando penso nisso, às vezes rememoro os escritos ficcionais de Knut Hamsun sobre anticivilização, uma anticivilidade telúrica que o levou ao Nobel.
Tenho em mente o quão gritante é a minha imperfeição
Tenho em mente o quão gritante é a minha imperfeição, mas ela não grita, sussurra. Somos cúmplices. Ah! Sim! Acompanha-me desde a tenra idade, me motinando e me acalmando. É sobriedade, é loucura. Que seja sempre um pouco dos dois, assim não me distancio da verticalização da minha existência. Eu? Sou um admirador de defeitos, não do tipo corrosivo ou destrutivo, mas, sei lá, singelo talvez. Prefiro não definir para não obstruir. A gama é grande, tamanho, tipo, olência, validade. Não nego, a perfeição me aborrece, me enfastia, porque é tão irreal quanto a celeridade que inebria.
Como falar em respeito às plantas quando não há respeito aos animais?
Quando as pessoas falam em respeito às plantas, mas se alimentam de animais, às vezes pergunto: “Como você fala em respeito às plantas quando ainda não há respeito aos animais?” O respeito é um questão de gradação, as coisas vão evoluindo conforme vamos nos mobilizando e nos predispondo às mudanças que representem uma real preocupação com outras formas de vida.
E a preocupação só existe, de fato, quando nossas ações condizem com nossos discursos. Não é muito coesivo falar em respeito às plantas se antes não há respeito aos animais, já que as duas coisas estão associadas. Ademais, como falar em respeito às plantas quando o fim delas está associado principalmente à morte de animais? Pode parecer duro, mas considero uma resposta justa a essa pergunta.
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Às vezes, tenho a impressão de que a ética jamais será tão importante quanto o dinheiro
Vivemos em um mundo onde, infelizmente, às vezes tenho a impressão de que a ética jamais será tão importante quanto o dinheiro. Diariamente me surpreendo com as táticas usadas por pessoas que inclusive se despersonalizam em busca do lucro. Fecha-se os olhos para os mais diversos tipos de mazelas. Podem ganhar muita grana, não duvido, mas paga-se por isso com a própria integridade. E quando a integridade é sucateada, a moralidade é substancialmente violada e arrastada para longe.
Sociopatia e psicopatia no mundo
Há estudos afirmando que 1% da população mundial possui transtorno de personalidade antissocial. Ou seja, 70 milhões de pessoas. Será mesmo que esses dados são precisos? Se levarmos em conta os fatos do cotidiano, não é difícil inferir que nos deparamos todos os dias com os mais distintos casos de manifestações de sociopatia e psicopatia.
Sendo assim, é difícil crer que há somente 70 milhões de pessoas com tal transtorno em meio a uma população de sete bilhões. Livros como “The Sociopath Nextdoor”, lançado por Martha Stout em 2006, e “Snakes in Suits: When Psychopaths Go To Work”, de Paul Babiak, de 2007, reforçam o meu raciocínio e fazem refletir sobre a possibilidade do número de psicopatas chegar a pelo menos 10%.
Trabalhe, trabalhe…
Trabalhe, trabalhe tanto que não tenha tempo de pensar em outras coisas, a não ser em comprar coisas sobre as quais você não tem certeza da necessidade. Mas naturalmente há de comprar porque os outros também fazem isso ou querem isso.
Trabalhe, trabalhe tanto que não tenha tempo de se questionar mais do que superficialmente sobre o que existe de errado no mundo. Não tome parte nisso, afinal você não pode e não deve ter tempo para se preocupar com nada mais do que a sua própria vida e os seus. Isso seria ir contra o “curso natural das coisas”.
Trabalhe, trabalhe tanto que não tenha tempo de refletir profundamente sobre suas dúvidas, porque ter dúvidas é problemático demais, e isso seria um luxo ou um lixo, dependendo da perspectiva. Quando penso na vida comum, que poucos desejam para muitos, me recordo da minha infância brincando com os bonequinhos da Playmobil, tão facilmente manipuláveis quanto a vida de tanta gente.
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A vida e a identidade
Quando considero a breve duração de minha vida absorvida na eternidade que vem antes e depois…o pequeno espaço que ocupo e que vejo ser engolido pela infinita imensidão dos espaços de que nada sei e que nada sabem sobre mim, fico amedrontado e surpreso por me ver aqui e não ali, agora e não depois.
Blaise Pascal em Pensées, Section III, Of the Necessity of the Wager, 205.
O vazio de identidade é de tal gravidade para a e estrutura humana que, estar desorientado no seu espaço moral acerca de questões do que é bom ou ruim, pode fazer o ser humano desembocar numa perda de controle da própria posição no espaço físico.
Excerto de “Sources of the Self”, de Charles Taylor.



