David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Será que aos olhos dos animais não somos vistos como assassinos?

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Ilustração: Criminal Minds Encyclopedia/Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Vamos esquecer por um instante o conceito legal, tradicional e legitimado socialmente de certo e errado e suas implicações ulteriores. Será que o famigerado Assassino do Zodíaco poderia ser considerado um executor com uma proposta de morticínio que segue os princípios do “abate humanitário”? É inegável que ele era um psicopata que usurpava vidas, e por isso merecia ser responsabilizado por seus atos. Mas, por pior que fossem suas ações, me parece, valendo-me me de sua trajetória, que ele não deixava de ter um código de ética.

Afinal, ele matava suas vítimas com tiros cirúrgicos, com precisão letal. Suas ações, independente de motivação, não deixavam rastros de passionalidade. Como um criminoso organizado, era como se estivesse simplesmente cumprindo um trabalho; tanto que sequer tocava suas vítimas. Ele não as torturava; não tinha qualquer interesse ordinário ou especial pelo sofrimento, mas apenas pelas consequências daquilo que não existiria sem o sofrimento pessoal ou transferível em algum nível. Ou seja, a morte.

O contato direto, a fisicalidade, não o interessava. O seu ritual se resumia ao gatilho. O prazer, se existiu, estava no disparo, e o seu clímax no desvanecimento da existência. E foi isso que impediu que ele jamais fosse capturado. Não era previsível nem imprevisível. Ostensivo e privativo, eu diria. Usava sempre o mesmo uniforme e quase sempre a mesma arma. Seu modus operandi e sua assinatura eram unos e indefectíveis na sua expressão e categoria nos anos 1968 e 1969. Seu método empedernido, mesmo que não motivado economicamente, já que não lucrava para matar, me levou a uma associação, concordem ou não, entre a sua pistola e a captive bolt pistol (no Brasil, conhecida como pistola de atordoamento ou de abate), usada nos matadouros dos países de “Primeiro Mundo” desde as primeiras décadas do século 20.

Me refiro à pistola empunhada pelos magarefes para disparar com brutal naturalidade um dardo que penetra o crânio de um animal não humano e atinge seu cérebro na tentativa de insensibilizá-lo no processo de abate. Se fizéssemos isso com seres humanos, independente de motivação, mesmo que em um caso de reparação ou de “lei de talião”, não seríamos considerados vis, túrbidos, refeces, monstros? Jeffrey Dahmer lobotomizava suas vítimas humanas. Será que o que fazemos com os animais antes de matá-los nas linhas de execução é tão diferente da lobotomização? Já que o disparo da captive bolt pistol rouba-lhes a própria identidade, tornando-os inúteis na sua própria essência, assim como os lobotomizados.

Acredito que há funcionários de matadouros que realmente não sentem prazer em tirar a vida de um animal não humano, já que muitos cumprem esse trabalho por alegada necessidade. Porém, será que isso não impacta em suas vidas? Em seu estado emocional e psicológico? Imagine ter um cotidiano pautado em violentar e matar animais. É preciso crer que está diante de objetos, não de vidas. É imprescindível desligar a compaixão – permitir-se uma dissociação. Do contrário, não serve para o trabalho.

Não que trabalhar em um matadouro transforme essas pessoas em sujeitos terríveis, já que são seres humanos imersos em um universo de legitimação de mortes de outras espécies. Afinal, eles seguem o protocolo da indústria e não ousam questioná-la por diversos fatores – pessoais ou não. A atividade se resume a ser pago, em muitos casos mal pago, para matar sob o respaldo legal. Há uma “roupagem” de atividade comum, impedindo que aquele que dispara uma arma contra a cabeça de um animal reconheça isso como errado, cruel, e menos ainda como assassinato. Claro, porque a humanidade diz que está tudo bem em matar, desde que não seja um ser humano; e desde que aquela morte gere algum produto ou bem de consumo.

O mundo ao seu redor diz que o que ele faz é certo numa proporção muito maior do que a condenatória, já que o valor da vida animal não humana é proporcional ao peso da carcaça no contexto comercial. Porém, há um aspecto tétrico a se considerar. Essa realidade pode brutalizar o ser humano e transformá-lo, se assim o permitir. E se o executor desenvolve prazer pelo que faz, mesmo que isso signifique a morte de ser de outra espécie, ele corre o risco de definitivamente abrir mão de uma das qualidades mais importantes do ser humano, que é a empatia. Isso realmente não é impossível. Vídeos amadores pululam no YouTube mostrando que como os animais não partilham do mesmo código comunicativo que nós, há sempre aqueles que agem, de fato, como violentadores, psicopatas, serial killers, rampage killers ou mass murderers em relação aos animais de outras espécies.

O contato naturalizado com a violência pode asselvajar o ser humano, principalmente aqueles que já têm predisposição à ferocidade; ou a transferir frustrações aos vulneráveis com quem convive – com destaque para aqueles que não podem reclamar do próprio sofrimento por não terem uma voz que inspira respeito e consideração. Quem não se recorda do clássico do cinema de terror intitulado “Texas Chainsaw Massacre?” Nas partes mais pesadas do filme, estamos diante de um matadouro, e tudo que acontece lá dentro choca facilmente os seres humanos porque as vítimas são humanas. Por outro lado, ignoramos que aquela é a realidade ordinária não humana. Desconsidere a figura do serial killer e substitua os personagens humanos do filme por animais e você terá uma representação trivial do cotidiano.

Pessoas penduradas em grilhões, e sendo golpeadas violentamente, assim como fazemos com porcos; e, claro, tendo partes de seu corpo removidas. O código de comunicação do assassino também parece ser outro, e a sua ausência de empatia faz refletir sobre a empatia que negamos aos seres de outras espécies. É como se não ouvíssemos os animais, assim como os assassinos em série não ouvissem os seres humanos – como se enxergassem a si mesmos como uma espécie além – dotada do direito de nos exterminar. Analise alguns discursos de serial killers e você verá que não é difícil perceber que vários deles se referem às suas vítimas como se fossem bovinos e suínos.

Claro que a minha intenção não é chamar de assassino quem sobrevive matando animais, mas o ato em si é análogo a um assassinato quando subtraímos vidas que não nos pertencem, independente de finalidade. Mas o mundo e a nossa realidade social, cultural e econômica nos dizem diariamente que esse assassinato é justo, necessário e legal, porque tem o aval da maior parte da população e do Estado. E a morte de animais, além de cruel e evidentemente desnecessária, já que é possível viver muito bem sem matar outras espécies para consumo, pode preparar alguém para ações que, enfim, despertem a atenção da população, deixando-a em choque, como é o caso dos crimes cometidos pelo Zodiac Killer, citado no início do texto.

Além desse, recordo-me do caso de Jeremiah Burroughs, funcionário de um matadouro, que enfastiado de executar animais dóceis, acabou por matar mais de 70 pessoas. Há quem diga que o meio e a naturalização da violência contra não humanos o levou a matar pessoas. Não posso afirmar, mas não duvido, e creio que ele não seja o único. Ademais, há inúmeros assassinos e serial killers que adotaram em suas execuções métodos comuns em matadouros e na indústria da carne. Outros exemplos são Jeffrey Dahmer, Robert Pickton, os Bloody Benders, Ottis Toole, Albert Fish, Ed Gein, Béla Kiss, Richard Trenton Chase, Joachim Kroll, Armin Meiwes, Andrei Chikatilo, Arthur Shawcross, Issei Sagawa e Robert Maudsley, entre outros.

Será que aos olhos dos animais não humanos que seguem matadouro adentro não existe a possibilidade de que sejamos vistos como serial killers, mass murderers? A verdade que muitos se negam a ver é que assim como vítimas humanas de assassinatos não têm qualquer anseio em morrer, os animais não humanos nos matadouros partilham do mesmo interesse. Uma prova disso? Antes de executar um animal, dê a ele, ou peça que deem a ele, a oportunidade de fugir. Então você terá sua resposta.





 

A morte de Charles Manson e cartas de amor enviadas a assassinos

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Manson, Ramirez, Breivik e Rocha

Ao ler sobre a morte de Charles Manson, que tinha 83 anos, e faleceu de causas naturais nos Estados Unidos, me recordei de notícias sobre as cartas que ele recebeu na prisão enquanto cumpria pena. Correspondências de mulheres que se diziam apaixonadas, e que gostariam de iniciar um relacionamento com aquele que ficou conhecido como um dos criminosos mais famosos do século 20, responsável pela fundação da seita que assassinou a atriz Sharon Tate, que estava grávida, em 1969.

Ele não foi o único a atrair esse tipo de atenção. Algo semelhante aconteceu com o Nightstalker, o serial killer Richard Ramirez, que até hoje é um dos recordistas de “correspondências de amor” recebidas por um condenado nos Estados Unidos. Desde 1989, Ramirez cumpria pena por 13 homicídios, 5 tentativas de assassinato, 11 estupros e 14 roubos, até que morreu em decorrência de um câncer em 7 de junho de 2013, aos 53 anos.

Na Noruega há o exemplo de Anders Behring Breivik, autor de um atentado que matou 77 pessoas em 22 de julho de 2011. Quando começou a cumprir pena, Breivik recebeu muitas cartas de mulheres. No Brasil, temos o exemplo do Tiago Henrique Gomes da Rocha que confessou ter assassinado 39 pessoas, principalmente mulheres, entre os anos de 2011 e 2014 em Goiânia. Rocha até hoje recebe pedidos de casamento por correspondência.





Sobre pessoas que cometem assassinatos em massa

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(Arte: Nicole Jeffords)

Não raramente, quando casos envolvendo mass murderers ou rampage killers ganham visibilidade, as pessoas dizem: “Ele sempre foi uma boa pessoa” ou “sequer levou uma multa de trânsito ao longo da vida”. Sou bem avesso a tal perspectiva que nos divide entre bons ou maus com base em análise subjetivamente superficial de conduta e caráter; sempre fui, e devo dizer que o ser humano “de bem”, dependendo de como vive, pode se transformar em uma bomba-relógio em qualquer momento de sua vida.

Quando isso acontece, certo e errado já não significam nada, assim como bondade ou maldade, porque foram diluídos durante um processo de alomorfia, quando o ser humano se torna incapaz de ver sentido em uma coisa ou em outra. Não há equivalência, nem descoincidência.

Por isso, considero importante boa educação, boa comunicação, estrutura familiar e capacidade de desenvolver desde cedo uma relação de pertencimento à vida e ao mundo, mesmo que tudo que vivemos seja provisório. Claro, não estou me referindo a pessoas que desenvolvem psicopatia desde cedo sem motivação contextual.

Falo de pessoas aparentemente comuns que, imersas em um viperino e volátil elã emocional e psicológico, tornam-se assassinas em algum momento de suas vidas. São seres que não veem nada de bom na humanidade ou na vida e, pesando a própria degradação como reflexo da falência existencial, anseiam em feri-la, mesmo que literalmente e alegoricamente matando alguns dos seus.

Em síntese, assassinos dessa categoria às vezes são seres derribados que se sentam diante da falésia, mas saltam somente no instante em que suas correntes estejam bem dispostas para arrastar outros, porque creem que somente por meio da morte daqueles que não eram “insignificantes”, sua história ou memória será perpetuada. Talvez o descomplicado suicídio seja solitário demais, liliputiano demais. Afinal, não ganha manchetes nos jornais, nem conversas entre mais do que meia dúzia de conhecidos. É um dos pináculos ou fossos da degradação sequer humana.

E quando alguém chega a matar alguém para provar alguma coisa, isso reverbera também uma nova porção de tentáculos da falência social. Por isso, eu jamais colocaria outro ser humano neste mundo se não fosse para assumir o compromisso de torná-lo um ser humano digno. Muitos dos males que testemunhamos hoje em dia vêm também do envilecimento e da indefensibilidade estrutural, terreno fértil não simplesmente para a calejada imoralidade, mas também para a, muitas vezes ignorada, amoralidade.

Comissão do Senado, exploração animal e figuras sinistras

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Vaquejada nada mais é do que uma forma de tortura praticada contra animais (Foto: Foto: Prefeitura do Cantá)

Como puxar um animal pelo rabo pode ser considerado esporte? (Foto: Foto: Prefeitura do Cantá)

Comissão do Senado aprova projeto que torna vaquejada manifestação cultural no Dia do Veganismo. Mais uma vez, o Brasil na contramão do que é certo. É triste reconhecer até que ponto chega a ganância e a maldade humana. Veremos agora o que vai acontecer daqui em diante. Ainda é possível reverter isso.

Levando em conta essa decisão, quando saí de casa, comecei a refletir sobre a forma como o ser humano se aproveita dos animais. Me recordei da maneira como muitos são explorados e executados, como vemos em vídeos amadores de denúncias de sofrimento e morte animal. Curiosamente, me veio à mente lembranças de figuras sinistras como Ed Gein, Ivan Milat, Ed Kemper, Jeffrey Dahmer, Charles Manson, Ted Bundy, Anders Breivik, Woo Bum-Kon, William Unek, Andrei Chikatilo, Os Maníacos de Dnepropetrovsk e outros tipos de serial killers, mass murderers e rampage killers.

Ed Gein fazia roupas com o couro de suas vítimas. Ted Bundy arrastava garotas de forma bastante similar com o que já foi testemunhado em matadouros e vaquejadas. Milat e Dahmer não raramente gostavam de pendurar seus alvos em grilhões. Vocês já perceberam como o icônico Leatherface, do filme The Texas Chain Saw Massacre, inspirado em Ed Gein, aplica contra suas vítimas todas as técnicas que ele aprendeu em um matadouro? Inclusive usava ferramentas muito semelhantes. Talvez com exceção da serra elétrica. No filme, ele não faz nada do que seres humanos não tenham feito até então com os animais.

Tais tipos criminosos naturalizavam a tortura, o sofrimento e a morte. E todos eles começaram provocando dor em animais antes de escolherem suas primeiras vítimas humanas. São sujeitos que sempre se viram como senhores da vida e da morte. Não raramente, vemos pessoas em grande posição de tomada de decisões, defendendo, sob um falso princípio democrático, que os animais merecem o mesmo tratamento.

O texto acima é uma breve reflexão desconcertada. Pretendo produzir um artigo com melhor desenvolvimento de ideias sobre o assunto.