David Arioch – Jornalismo Cultural

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Quando alguém parecer agressivo com você na internet

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Trainspotting, de Joanne Casey

Quando alguém parecer agressivo com você na internet, talvez um exercício interessante seja fazer uma ou duas perguntas neutras e analisar as respostas. Se o discurso ainda parecer agressivo, provavelmente a pessoa está exaltada. “Por que eu faria isso?” Bom, porque muitas vezes as pessoas podem transmitir uma mensagem de forma equivocada, ou seja, transparecendo algo que não é o objetivo do emissor.





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October 14th, 2017 at 3:36 am

Sobre o sofrimento animal diante da morte

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O animal não humano diante da finitude sofre sobejamente (Foto: Vemsteroo)

Quando um ser humano está na iminência de ser morto por algum ser de outra espécie, ele é tomado por desespero inenarrável. Esse desespero é uma consequência natural da impossibilidade em comunicar ao outro o que está sentindo. Quero dizer, posso falar, gritar, verbalizar o que sinto. Mas se o outro não for dotado da mesma capacidade, isso será insignificante, em vão. Afinal, não haverá resquício de compreensão. Então é natural que em situações como essa o sentimento de terror seja anômalo.

O outro, por não ser da mesma espécie, é visto como um arcano, um enigma apavorante que amplifica as nossas impossibilidades de sobrevivência. A morte então é axiomática, e todas as nossas emoções concorrem ao mesmo fim. Acredito que este seja o sentimento de um animal quando é morto por mãos humanas, animais reduzidos a alimentos e produtos. Sem dúvida, a incapacidade de se comunicar como nós torna tudo muito pior, abissal, atemorizante.

A certeza de que não poderá reclamar pela própria vida mimetizando a comunicação humana avulta a dor e a sensação de impotência. É uma experiência visceral, figadal. Por isso, o animal não humano diante da finitude sofre sobejamente, porque não apenas sabe que vai morrer enquanto quer viver, mas também por talvez reconhecer que sua dor será banalizada, desconsiderada pela incapacidade de se comunicar humanamente. “Sem grito, sem choro, sem bravia resistência, está tudo bem. Eles não sofrem muito”, diriam muitos humanos, julgando os outros animais sob a obtusa perspectiva humana.





Written by David Arioch

October 8th, 2017 at 1:12 am

Sobre o comportamento na internet

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bullying_logo

Foto: PMCV

Tem muita gente com quem mantenho contato pela internet e que conheço pessoalmente. Não é raro eu ver pessoas classificando algumas delas como agressivas ou como diferentes do que realmente são.

Isso acontece porque às vezes, ou mais do que isso, as pessoas podem ser muito passionais e veem na internet uma forma de expor suas insatisfações. Portanto, podem transmitir alguma impressão negativa, o que não significa que sejam basicamente isso.

Tem muita gente na internet que se expressa de uma maneira vista como visceral, dando margem para interpretações não tão boas ou acalentadoras, mas isso não significa que não sejam pessoas boas ou que não tenham qualidades. A forma como escrevemos algo diz muito, mas não tudo, só que é algo que pode clarear ou escurecer posicionamentos.

Em síntese, conheço pessoas de longa data que são gentis pessoalmente, mas que parecem outra coisa para quem as conhece somente pela internet.

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Written by David Arioch

March 5th, 2017 at 7:54 pm

Quando recebi materiais sobre guerrilha

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Não sou a favor de revoluções baseadas na violência (Arte: Reprodução)

De uns dias para cá e sem que eu peça, alguns camaradas têm me enviado materiais sobre guerrilha e cheguei inclusive a ver pessoas falando em cursos sobre o assunto. Sinceramente, fique à vontade para fazer o que bem entender, mas esteja ciente dos desdobramentos de suas ações. Reflita também o quanto elas pesam sobre suas inclinações ideológicas, principalmente para não cair em contradição.

Não sou a favor de revoluções baseadas na violência e hoje mais do que nunca acho que isso é algo que não deveria ser nem mesmo aventado. Estamos em 2016 e não é difícil perceber que a maior guerra da atualidade é a da informação. Quem pensa o contrário talvez não tenha se dado conta das transformações que o mundo viveu nas últimas décadas.

Outro ponto a se considerar é que enquanto alguns pegam em armas, outros simplesmente as manipulam, e sem precisar empunhá-las. Sim, sou contra a exaltação da violência tanto quanto sou avesso à subtração e desvirtuação das liberdades. E jamais tive como herói pessoas que a exerceram para impor uma ideologia que pode parecer utopia para uns e distopia para outros.

Um mundo justo hoje seria um mundo de pessoas ponderadas, capazes de falar, mas também de ouvir e refletir sobre o que ouviram. Muitas tragédias e ações equivocadas surgem com a intemperança, desconhecimento, desinformação e desinteresse pela comunicação. E nessas circunstâncias abre-se espaço para o discurso impositivo, o mais nocivo de todos porque através dele o ouvinte absorve apenas a forma, não o conteúdo.

Como somos seres pensantes é difícil entender como o embrutecimento pode se sobrepor a tudo isso. Em menor ou maior proporção, penso que muitas das mazelas do mundo atual têm a ver com o infindável e megalomaníaco anseio de querer ser mais dono dos outros do que de si próprio. A ilusão da posse é danosa e inconsequente, mas, embora sejamos paradoxais por natureza, acredito que o ser humano sempre tem condições de aprender a viver dentro de si mesmo para então aprender a viver fora.

O legado de Umberto Eco

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Umberto-Eco

Umberto Eco, um dos mais notáveis pensadores da atualidade (Foto: Divulgação)

Conheci o trabalho do polivalente Umberto Eco em 2002 e desde então acompanhei seus lançamentos. Há algum tempo, li o seu controverso romance “Número Zero”, conhecido como um “manual do mau jornalismo” – que sem dúvida faz jus à epígrafe não oficial. Comecei a ler suas obras no primeiro ano da faculdade, levando em conta que ele é referência quando se trata de comunicação de massa e disseminação da informação.

Sua importância para a semiótica, filosofia da linguagem e seus conceitos em torno dos termos apocalípticos e integrados são famosos em escolas de comunicação do mundo todo. Mas na minha época de graduando o que mais me chamou a atenção em Umberto Eco foi sua veia romancista. Livros como “O Nome da Rosa”, adaptado para o cinema, “O Pêndulo de Foucault”, “Baudolino” e o Cemitério de Praga” merecem ser lidos a qualquer tempo. Eco, que nasceu em Alexandria, na região italiana do Piemonte, e faleceu em Milão no dia 19 de fevereiro deste ano, sem dúvida foi uma grande perda para todos nós.

Written by David Arioch

February 20th, 2016 at 9:48 am

Uma triste constatação sobre a política brasileira

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Retrato de um político atual, segundo o artista Art Brown

Retrato de um político atual, segundo o artista Art Brown

No Brasil, suponho que normalmente os políticos não leem, de fato, os e-mails dos eleitores – ou fingem não ler, o que é um erro grave. Acredito nisso porque há algum tempo fiz um trabalho de pesquisa visando avaliar, para ser mais específico, a relação dos deputados estaduais e federais do Paraná com os eleitores em âmbito virtual.

Consegui uma lista oficial de e-mails dos deputados. Entrei em contato com todos e digo que pelo menos nesse trabalho que fiz nem 20% retornaram. E aqueles que retornaram, não o fizeram em tempo hábil o suficiente para assegurar a confiança do eleitor. Alguns retornaram após dois meses.

Isso mostra o enorme vácuo de comunicação que existe entre políticos e eleitores. O mais curioso é que muitos desses políticos costumam atulhar as caixas de e-mails dos eleitores com propagandas sobre suas atuações. Ou seja, oferecem um canal de comunicação que na realidade não funciona com eficácia.

O e-mail de referência foi o mesmo para todos. Acredito que se eu tivesse enviado algum tipo de denúncia, e não apresentado perguntas padronizadas, de caráter legislativo, de certo, o retorno seria rápido.

Written by David Arioch

January 30th, 2016 at 10:02 pm

Eu e três corujinhas

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A corujinha ficou me observando enquanto eu passava (José Reynaldo da Fonseca)

A corujinha ficou me observando enquanto eu passava (Foto: José Reynaldo da Fonseca)

Há cerca de dois meses, caminhando pela Rua Chozo Kamitami, no Jardim Progresso, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, perto da casa onde passei anos da minha infância, não pude deixar de notar uma cena que se repetiu muitas vezes quando eu tinha menos de dez anos de idade. Uma corujinha-buraqueira ou caburé-do-campo, como preferir, ficou me observando enquanto eu passava. Então interrompi minha caminhada e prestei atenção nela, sem fazer movimentos bruscos.

Em seguida, outra corujinha se aproximou. E após 20 ou 30 segundos, uma terceira. As três, a menos de 20 centímetros de distância entre elas, repetiam os mesmos movimentos com a cabecinha amolgada. Me aproximei mais e nenhuma delas se afastou. Não houve fuga ou hostilidade. Ainda hoje quando passo pelo mesmo lugar no mesmo horário, elas estão lá, cada vez mais acostumadas com a minha presença.

Written by David Arioch

December 31st, 2015 at 11:58 am