David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Tenho contato frequente com pessoas que lucram com a exploração animal

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Arte: Sue Coe

Tenho contato frequente com pessoas que lucram com a exploração animal, e nos comunicamos sempre com educação, mesmo quando os pontos são evidentemente conflitantes, até porque não hesito em deixar claro o meu posicionamento. Não me recordo de eu já ter passado por qualquer situação de constrangimento em relação a isso. Muito pelo contrário. Acho que esse é o meu caminho. Não preciso ofender ou agredir as pessoas para passar qualquer mensagem. Até porque se eu fizesse isso, eu iria contra o que acredito, e dificilmente o outro continuaria me ouvindo. Prefiro sempre subverter expectativas, até mesmo em situações de provocação, porque é isso que choca o outro, não a previsibilidade de um discurso desconsiderado pelo teor da linguagem ou pelo excesso de passionalidade. Além disso, quando se tem base argumentativa a exasperação não tem motivação para triunfar.





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October 12th, 2017 at 11:49 pm

Por que é importante que veganos sejam saudáveis

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Quando uma pessoa é vegana e não se importa em ser saudável, assim que ela for diagnosticada com algum problema de saúde as pessoas dirão que isso aconteceu porque ela é vegana. Não sou a favor de radicalismos na alimentação, nunca fui, mas sou totalmente a favor das pessoas se cuidarem. Afinal, se um vegano estiver doente, como ele terá condições de lutar por algo?

Um dos meus objetivos é exatamente esse. Mostrar que não existe nada de errado em ser vegano, muito pelo contrário, e que isso só traz coisas boas para a nossa vida e para a vida de outros seres vivos. Com saúde, tenho muito mais condições de fazer algo pelos outros. Gosto da ideia de que a minha aparência seja um reflexo saudável daquilo em que acredito. Sou da opinião de que não posso contribuir com o meu definhamento precoce, porque isso significaria me distanciar de lutar por tudo aquilo em que acredito.





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October 12th, 2017 at 11:46 pm

O simbolismo não chega à velhice

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Mallarmé, Verlaine, Baudelaire, Rimbaud, Cruz e Souza e Augusto dos Anjos

O simbolismo nasce, morre e renasce sem chegar à velhice. Sempre me pareceu um movimento jovem, de jovens anciãos. Dos poetas, Mallarmé foi o que demorou mais para se cansar da vida, falecido aos 56 anos. Verlaine, que teve uma história conturbada com Rimbaud, morreu aos 51 anos quando acreditava que a vida não tinha mais nada a lhe oferecer.

Baudelaire e suas Flores do Mal sucumbiram aos 46 anos em decorrência de sífilis. Rimbaud, o jovem poeta maldito, depois de Uma Temporada no Inferno partiu aos 37 anos quando há muito deixou de produzir poesia para vivê-la em sua forma mais figadal. No Brasil, penso nos Broquéis de Cruz e Souza, vencido pela tuberculose aos 36 anos. E no não menos maldito Augusto dos Anjos, que passou uma vida entre a doença e a convalescença, até não resistir a uma pneumonia aos 30 anos. O simbolismo foi feito para a posteridade enquanto seus representantes para o paroxismo da efemeridade.





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October 11th, 2017 at 11:56 am

Um corpo no asfalto

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Ilustração: Stipan Tadić

Havia um corpo no asfalto. Ontem era uma vida. Partiu pela manhã. Uma carcaça sem ser carcaça, derribada, exígua. Um caminhão, um ônibus, um carro, uma caminhonete… Os despojos continuam no mesmo lugar. Quem se importa? Foi atropelado 78 vezes, 75 depois de morto. Conta da tarde. “É só o corpo de um animal, um mero animal.” Por que desviar? Não vale o mínimo esforço. “É apenas um cadáver, cadáver de bicho. Já morreu!” Incorpóreo. Posposto. As partes foram esmagadas, amolgadas. Tantas vezes, restou apenas uma tatuagem no asfalto. Outros continuarão, os pneus não cessarão, até que a chuva arraste a marca que um dia foi uma vida, invisível dantes, invisível agora.





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October 10th, 2017 at 12:09 pm

Mortos na estrada

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Foto: Avinash Lodhi

No caminho, encontramos animais silvestres mortos na estrada, o que me parecia sempre trágico, principalmente quando os filhotes cercavam o pai ou a mãe que nunca mais veriam, emitindo gemidos vigorosos ou fragilizados. O som não transformava nada ao seu redor. Sequer parecia mover a tiririca que brotava no canto do asfalto tórrido. Ainda assim a iteração da cena não a tornava menos adventícia. Talvez fosse reles para tantos outros, não para mim que via cada morte animal como um exemplo da nossa displicência e efemeridade existencial.





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October 10th, 2017 at 12:06 pm

A fuligem

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Pintura: Nata New

Por um descuido, a fuligem entrou no meu nariz e eu a inalei. Mais tarde senti uma queimação no peito. Tive a impressão de que algo insólito estava vivo dentro de mim e se movendo.

Fui ao médico no dia seguinte e na mesma semana fiz alguns exames. Ele me mostrou que havia uma mancha estranha que se distendia sobre um dos meus pulmões. Não nego que senti um misto de preocupação, raiva e tristeza. “Tenho quase certeza de que são vestígios de monóxido de nitrogênio, dióxido de nitrogênio, dióxido de carbono e amônia. Precisamos cuidar disso, porque senão rapidamente pode virar asma, câncer de pulmão ou até peniano”, alertou o pneumologista.

“Senti a morte despedaçar-se de encontro à minha cabeça, como se um bólide houvesse caído do espaço e fosse escolher justamente o meu crânio para campo de pouso”, escreveu Campos de Carvalho em “A Lua vem da Ásia”. Na segunda e na terceira bateria de exames, realizadas no mês seguinte, não havia mais nada em meus pulmões. Então me recordei que 15 dias antes um prolongado espirro me proporcionou uma ímpar sensação de alívio. E o que saiu do meu nariz não era claro como a água, mas turvo como o vácuo da inexistência.

Chegando em casa, deitei na cama e percebi através da janela que do outro lado repousava uma nova mancha de fuligem na parede – parecia uma sarça ardente. Caí no sono, pensando apenas em outra passagem de Campos de Carvalho. “À noite a lua vem da Ásia, mas pode não vir, o que demonstra que nem tudo neste mundo é perfeito.”

 





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October 10th, 2017 at 12:03 pm

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A primeira vez de Rubinho no açougue

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“Hog Heaven”, de Susan Jenkins

Rubinho foi ao açougue pela primeira vez. Nunca tinha visto nada parecido. No seu ideário meninil, o açougueiro era como um mágico que concebia a carne a partir de dotes sobrenaturais. Bastaria reunir alguns ingredientes, e voilà, assim surgia a carne, corada e sem violência.

“Falaram que a carne de boi aqui é a mais fresca da cidade”, “Sim, meu tio fornece carne pra eles, tão matando bem.” Um quadro na parede branca mostrava três bois descansando sobre o pasto verdejante.

“Nem imagina o que os espera, a faca é o destino final”, comentou um rapaz com voz lamuriosa ajeitando o boné sobre a cabeça. Sim, o choque foi tremendo. Rubinho preferiu não falar nada. Observou tudo. Facas e serras fatiando carnes e ossos, pessoas de um lado para o outro carregando sacolas de carne.

Ao fundo, o líquido glutinoso dava um aspecto desagradável que incomodava Rubinho. “Parece catchup, só que ralinho”, monologou. Mas o que mais chamou a atenção do menino foi um leitãozinho prostrado sob a vitrine. Rubinho insistiu tanto que sua mãe concordou em comprá-lo.

— Tem certeza que você quer isso, Rubinho?
— Tenho, mãe! Tenho sim.
— Não sabia que você gostava tanto assim de carne de porco.

O menino não disse nada.

Mais tarde, já em casa, a mãe de Rubinho correu até o quarto para chamar o marido.

— Você não vai acreditar no que eu vi — disse espaventada e com as mãos trêmulas.

Depois de enrolar o leitãozinho em uma mantinha, Rubinho lançou a última colher de terra sobre o corpo do animalzinho no quintal. Afofou a terra com as mãos, na tentativa de deixá-la bem homogênea, e ainda ajoelhado olhou para as nuvens:

— Não pude te salvar, mas pelo menos agora você vai chegar inteiro no céu.





Você sabe por que os animais ficam em jejum antes do abate?

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Fotos: Daryl Hewison e Pixabay

Você sabe por que os animais ficam em jejum antes do abate? Por um período de 8 a 24 horas dependendo do sistema de produção e da espécie.

Para evitar vômitos e congestão durante o transporte, ou até mesmo asfixia. Também facilita o abate e diminui as chances de contaminação da carne. Uma prática bastante humanizada, não? Ou seja, os interesses que são considerados prioritariamente são os dos criadores, dos frigoríficos e dos consumidores. E os interesses dos animais? Simplesmente não são abalizados, já que eles são categorizados como produtos ou bens móveis, não sujeitos de uma vida.





Written by David Arioch

October 8th, 2017 at 1:19 am

Sobre o sofrimento animal diante da morte

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O animal não humano diante da finitude sofre sobejamente (Foto: Vemsteroo)

Quando um ser humano está na iminência de ser morto por algum ser de outra espécie, ele é tomado por desespero inenarrável. Esse desespero é uma consequência natural da impossibilidade em comunicar ao outro o que está sentindo. Quero dizer, posso falar, gritar, verbalizar o que sinto. Mas se o outro não for dotado da mesma capacidade, isso será insignificante, em vão. Afinal, não haverá resquício de compreensão. Então é natural que em situações como essa o sentimento de terror seja anômalo.

O outro, por não ser da mesma espécie, é visto como um arcano, um enigma apavorante que amplifica as nossas impossibilidades de sobrevivência. A morte então é axiomática, e todas as nossas emoções concorrem ao mesmo fim. Acredito que este seja o sentimento de um animal quando é morto por mãos humanas, animais reduzidos a alimentos e produtos. Sem dúvida, a incapacidade de se comunicar como nós torna tudo muito pior, abissal, atemorizante.

A certeza de que não poderá reclamar pela própria vida mimetizando a comunicação humana avulta a dor e a sensação de impotência. É uma experiência visceral, figadal. Por isso, o animal não humano diante da finitude sofre sobejamente, porque não apenas sabe que vai morrer enquanto quer viver, mas também por talvez reconhecer que sua dor será banalizada, desconsiderada pela incapacidade de se comunicar humanamente. “Sem grito, sem choro, sem bravia resistência, está tudo bem. Eles não sofrem muito”, diriam muitos humanos, julgando os outros animais sob a obtusa perspectiva humana.





Written by David Arioch

October 8th, 2017 at 1:12 am

Assisto, leio e escrevo sobre a realidade da exploração animal todos os dias

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Foto: Shutterstock

Assisto, leio e escrevo sobre a realidade da exploração animal todos os dias. Mexe com o meu estado psicológico e emocional? Tem impacto sobre mim? Claro que sim, mas pior seria se eu estivesse no lugar deles. Acho que não faço nada de mais testemunhando, pesquisando e escrevendo sobre a realidade da exploração animal. Acredito que tudo isso ajuda a fortalecer a minha posição e a sedimentar o meu caminho. O que sinto diante disso tudo não é tão visceral ou relevante quanto o sentimento de um animal diante da morte.





Written by David Arioch

October 7th, 2017 at 11:26 pm