David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘animal’ tag

Ácido lático pode ser tanto de origem animal quanto vegetal

without comments

O ácido lático usado na indústria alimentícia, e em outras indústrias, pode ser tanto de origem animal quanto vegetal. Há muito tempo o ácido lático passou a ser extraído também do bagaço da cana-de-açúcar, ou seja, é um produto que em muitos casos é 100% vegetal. Esse nome, que logo faz as pessoas associarem à lactose, surgiu porque o ácido lático foi descoberto originalmente no leite coalhado. A única forma de saber se realmente é de origem vegetal ou animal é pesquisando e entrando em contato com o fabricante.

 





Written by David Arioch

October 17th, 2017 at 12:18 pm

O jovem animal e a planta

without comments

Foto: Shutterstock

Me aproximei de um jovem animal morto sob uma sete-copas. Ele ficou lá caído, deixado para apodrecer. Seria reduzido a alimento, e partes de seu corpo se transformariam em insumos de produtos nas seções de higiene e limpeza dos mercados. Que contradição. A morte higienizando, limpando e purificando. É assim.

Me ajoelhei e analisei cada parte de seu corpo. Ninguém o moveria. Havia algumas manchas com formas humanas. Eu estava diante de um animal dantes doente. Seus olhos eram amarelecidos como de um ébrio com cirrose hepática.

Mas aquele animal não tinha vícios. Por que amargar tal desgraça e punição? Seus olhos refletiam o seu último olhar. Não me vi em seus olhos. Notei uma imagem congelada de alguém erguendo um facão para golpear fatalmente sua garganta. Sem emoção, sem consideração, só o vácuo da degradação.

O sangue que já não descia se entranhou no solo e fez brotar uma plantinha felpuda. Eram como pelos de um animalzinho recém-nascido. Encostei o dedo na plantinha, ela gemeu, gemeu com a voz que não mais pertencia ao animal desfalecido. Só ela, somente ela sobrevivia naquele cenário.

O solo onde o falecido não seria sepultado encaiporou. Esgotado. Tudo morria diante de mim, menos a plantinha. Sentei, levantei a cabeça do finado e massageei seus pelos. Macio e mortiço.

Ele não reagia, mas a plantinha vibrava, como se sentisse minhas mãos lhe afagando. Suas folhas cresciam e fremiam cada vez mais. Continuei massageando o topo de sua cabeça. Cresceu muito. Já não era plantinha, virou árvore. Um de seus galhos me arrastou e me lançou sobre o ponto mais alto.

Me equilibrei recuando o corpo, a cabeça e procurando o animal no chão estéril. Ele tinha desaparecido. Ao nosso redor, em um raio de centenas de quilômetros as pastagens foram engolidas pela terra. Mais plantinhas felpudas nasciam e gemiam; vozes de animais que sucumbiam.

 





Written by David Arioch

October 14th, 2017 at 3:19 am

Um corpo no asfalto

without comments

Ilustração: Stipan Tadić

Havia um corpo no asfalto. Ontem era uma vida. Partiu pela manhã. Uma carcaça sem ser carcaça, derribada, exígua. Um caminhão, um ônibus, um carro, uma caminhonete… Os despojos continuam no mesmo lugar. Quem se importa? Foi atropelado 78 vezes, 75 depois de morto. Conta da tarde. “É só o corpo de um animal, um mero animal.” Por que desviar? Não vale o mínimo esforço. “É apenas um cadáver, cadáver de bicho. Já morreu!” Incorpóreo. Posposto. As partes foram esmagadas, amolgadas. Tantas vezes, restou apenas uma tatuagem no asfalto. Outros continuarão, os pneus não cessarão, até que a chuva arraste a marca que um dia foi uma vida, invisível dantes, invisível agora.





Written by David Arioch

October 10th, 2017 at 12:09 pm

Marcar um boi, um dos símbolos da objetificação animal

without comments

Você encararia um ferrete?

Marcar um bovino, assim como qualquer outro ser senciente criado sob um sistema exploratório, é um dos símbolos da objetificação animal, da reafirmação de que um ser vivo nada mais é do que um produto, e que sua dor não vale nada diante do lucro a ser gerado. Imagine o sofrimento e o trauma de ser marcado com um ferrete. Você encararia?





Muitos sabonetes são baseados em sebo e banha de animais

without comments

Se higienizar com um produto que tem em sua composição ingredientes extraídos do cadáver de um animal é algo que deveria nos levar pelo menos a uma reflexão sobre nossas relações de consumo

Muitas pessoas compram e usam sabonetes e outros produtos de higiene pessoal que são baseados em ingredientes de origem animal. Exemplo comum é o uso de gordura bovina, caprina e suína como matéria-prima. Se higienizar com um produto que tem em sua composição ingredientes extraídos do cadáver de um animal é algo que deveria nos levar pelo menos a uma reflexão sobre nossas relações de consumo.

A indústria investe massivamente em campanhas que apresentam os benefícios “inimagináveis” desses sabonetes. Por outro lado, nunca fala que o sebo extraído de bois e carneiros, assim como a banha de porco, os dois recolhidos em frigoríficos, estão entre os ingredientes principais.

O sebo e a banha dão origem, por exemplo, a um espessante chamado de ácido esteárico, que também pode ser desenvolvido de forma vegetal, ou seja, sem o uso de sebo ou banha de animais, assim como fazem muitas empresas que investem em produtos mais ecológicos e livres de exploração.

Há também fabricantes que vão muito além, e produzem sabonetes baseados inclusive em banha de tartaruga, incentivando a perseguição e o assassinato desses animais como matéria-prima ao prometer ao consumidor o rejuvenescimento e a diminuição das rugas, algo impossível de se alcançar com o uso de um sabonete.

Porém, isso não aconteceria se a indústria de produtos de higiene pessoal não usasse banha de outros animais como bovinos, caprinos e suínos. Quero dizer, um mercado abre precedente para outro que ilude o consumidor com uma suposta proposta “diferenciada”, já que trata-se de um animal menos comum do que os outros mais comumente explorados nesse mercado.

Sendo assim, o que você prefere, se higienizar com um sabonete de origem vegetal baseado em algo agradável aos olhos ou com um produto que depende da banha ou do sebo retirado do cadáver de um animal? Caso prefira a primeira opção, então comece a comprar sabonetes vegetais. Ou, melhor ainda, que também não realizam testes em animais no processo de fabricação desses produtos. Outra alternativa, caso tenha um tempinho disponível, é fabricar os próprios sabonetes, o que também tem excelente custo/benefício.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

August 14th, 2017 at 1:01 am

Se a sua pele é importante para você, por que a de um animal não seria para ele?

without comments

Se a sua pele é importante para você, por que a de um animal não seria para ele?

Written by David Arioch

August 12th, 2017 at 8:46 pm

“Você pode levar uma marretada na cabeça ou uma injeção letal, qual você vai querer?”

without comments

Nenhum animal dá o seu aval para morrer

Não raramente, vejo pessoas falando que documentários que defendem o veganismo usam imagens antigas ou capciosas para induzir o espectador a tornar-se vegano. Certo, agora é só me dizer em qual parte o animal ressuscita. Ou em qual parte ele deu o seu aval para morrer. Um animal não morrer não invalida o fato de que ele está sendo explorado para benefício humano. Assim como um animal não ser morto de forma visivelmente cruel não invalida o fato de que ele foi morto. Imagine se alguém te desse duas opções: “Você pode levar uma marretada na cabeça ou uma injeção letal, qual você vai querer?” Obviamente que a minha resposta seria: “Nenhuma!”

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

July 19th, 2017 at 1:39 am

Camurça

without comments

Registro do fotógrafo italiano Max Venturi

Camurça é um dos animais mais belos dos bálcãs. O material camurça recebeu esse nome porque originalmente surgiu a partir da exploração e morte desses animais para a extração de couro.





Written by David Arioch

June 2nd, 2017 at 2:42 pm

The cat of Paraná Village

without comments

siamesecat

Photo: Copy

Cherubim heard gunshots followed by meowing. Outside, on the sandy dirt road, Ranulph did not move, and was sprawled over a portion of sibipiruna’s fine sheets. His mouth was still hanging open, exposing the pain of death not even spared the most innocent beings.

The boy tried to stop crying because he was afraid to look too sentimental. Cherubim made so much effort that the hot tears, that threatened to drain the corners of the eyes, disappeared without gaining the principle of freedom.

Angry, Cherubim noted Matias on the mango tree, smiling and aiming the shotgun in his direction. “Do you want too? I give you, muggle!”, warned the boy. Cherubim said nothing. Only scratched his head, regardless of the dusty cloud that was forming around his head like orange mist.

Keeping his back in front of the killer, the boy crouched and made caresses on the cat’s belly. The kitten no longer felt Cherubim’s hands on his clear fur. Where there was a pair of blue eyes, it remained a small shapeless mass. Two bashful tears fell, moistening the cat’s dry mouth. It was too late.

The hours passed away, and the nature buried Ranulph, covering his body with sandy soil, gradually transported from the forest by south wind. “Cherubim! Take this animal here. It will start to stink”, they said. He just nodded his head in agreement, without even moving his legs that rested on the curb.

When the earth, dragged by gale, invaded the cat’s mouth, the boy approached and cleaned it using a washcloth moistened with water. In the late afternoon, he tried to bury Ranulph in his mother’s garden. He was reprimanded as he was digging the earth with his grandfather’s trowel. “Are you mad, boy?! This is no place to bury an animal!”, complained his grandfather.

The old man picked up the dead cat by the back skin and put him into a thick dark bag. It looked like a cadaver pouch in PVC. He hung the bag on the handlebars of the bike, and rode to a vacant lot used as a garbage dump in the nearest neighborhood. He returned without a word, walked into the kitchen, took a bitter sip of coffee and laid down on the hammock.

Cherubim was watching the old man, wondering what he did to Ranulph. Without the courage to ask, he recalled a law imposed in Paraná village in the 1970s, when three large dogs killed two babies. “No one can come here with animals. If someone kills an animal, nobody can cry or bury him, or they will have to deal with me”, said Mandino Counselor, whom the population resorted to whenever there was a problem in the neighborhood.

Under a papaya tree, Cherubim watched his grandfather sleep on the hammock. He cried and shouted with his hands in his mouth. The boy also lashed his own legs and back with the papaya branches. No one listened. The welts multiplied. He did not care. He lay on the ground and felt a bitter taste in his mouth, a mixture of dirt and blood.

He woke up at down, lying on his old mattress, wrapped in a dirty white sheet and full of holes. Through the orifice in the roof, the sun illuminated a dog food packet flanked by a water bowl. Cherubim got up and ran to the shack entrance, where he lived with his mother and his grandfather. The hovel threatened to fall for years, but resisted.

He sat on the floor and used a piece of stick to draw Ranulph. After he was finished, he dozed a little, with his back propped up on a wooden fence with barbed wire. In his dream, he heard a purr that prickled him. He opened his eyes and under his left hand, Ranulph was marking his territory again, rubbing his dirt and soft furr on him.

The smell of garbage went unnoticed, not the hunger meowing. Crying, Cherubim held the blind and overwrought cat in his arms. He took him into the house, and there they stayed the rest of the day. The Ranulph and Cherubim story changed Paraná Village in the late 1990s: “Who does not see love in an animal, does not see love itself,” said Mandino’s son.

Written by David Arioch

October 9th, 2016 at 11:24 am

Tulipa, a cadelinha evangélica

without comments

Do início ao fim do culto, Tulipa fica em silêncio, atenta a tudo que acontece no interior da pequena igreja

Tulipa assiste aos cultos três vezes por semana há oito meses (Foto: David Arioch)

Tulipa assiste aos cultos três vezes por semana há oito meses (Foto: David Arioch)

Na Rua C, em um pequeno espaço contíguo à residência da artesã Lindinalva Silva Santos vive a mais jovem frequentadora da Igreja Pentecostal Jesus é a Cura, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Três vezes por semana, pouco antes das 19h30, a cadelinha mestiça Tulipa deixa a sua confortável casinha de madeira, salta sobre uma base de tábuas que lhe serve como passarela e pula a cerca, encurtando caminho por um terreno baldio onde uma pequena porção de capim-colonião a cobre completamente.

Aguerrida, segue pulando e amortecendo a relva com as patas miúdas até chegar à estrada de terra ao lado do Bosque Municipal. Tranquila, mas atenta, percorre mais cem metros até chegar à esquina da Rua A. Olhando ao seu redor, Tulipa atravessa o interior da igreja para mostrar que está pronta para o início do culto. Observa rapidamente o pastor até ser notada e então se aconchega debaixo de um comprido e envernizado banco de madeira. “É o jeito dela de cumprimentar todo mundo. É como se fosse uma pessoa e desse algum tipo de satisfação aos presentes”, informa Lindinalva.

Do início ao fim do culto, Tulipa fica em silêncio, atenta a tudo que acontece no interior da pequena igreja. Por volta das 21h, e da mesma forma que entrou, ela se despede à sua maneira. Lá fora, recebe muitas carícias. Tem tanta confiança no ser humano que fecha os olhos e inclina a cabecinha para ser afagada. Depois retorna para casa fazendo o mesmo trajeto. Muito querida por todos os frequentadores da Igreja Pentecostal Deus é a Cura, a cadelinha começou a participar dos cultos há oito meses e desde então jamais se ausentou. Com o tempo, sua presença se tornou uma atração, principalmente para as crianças.

Cadelinha mostra por onde ela salta quando vai à igreja (Foto: David Arioch)

Cadelinha mostra por onde ela salta quando vai à igreja (Foto: David Arioch)

“Vou dar uma bíblia em miniatura, menor que um dedo, pra ela carregar amarradinha no dorso quando for à igreja”, declara a artesã às gargalhadas. Dócil e silenciosa, Tulipa aceita até carinho de estranhos. “Ela é muito dada e ninguém judia dela. Fica com um dentinho fora da boca o dia todo, só que não faz mal a ninguém. Se dá bem com todos os bichos. Só late à noite porque ela se sente como se fosse a guardiã da casa”, declara Lindinalva. Assim que massageio o pescoço de Tulipa, ela deita e se vira para cima, ansiando por mais afagos.

A cadelinha vive com a artesã há três anos, desde que foi encontrada abandonada ainda filhote ao lado do Bosque Municipal de Paranavaí. “Fazia poucos dias que ela tinha nascido. Peguei ela porque fiquei com medo que algum carro a atropelasse e a matasse. Era bem miudinha e dormia dentro do meu chinelo felpudo. Nunca incomodou ou fez sujeira dentro de casa. Ela é muito obediente e limpinha. Não preciso falar mais de uma vez”, garante Lindinalva apontando para a casinha construída especialmente para Tulipa.

Até hoje a cadelinha só engravidou uma vez, mas os filhotes nasceram mortos e ela nunca mais ficou prenha. Hoje em dia, durante o cio, Tulipa não sai de casa. “Fica arredia com os outros cachorros. Não deixa nenhum deles se aproximar. Entra em um quartinho e fica lá”, revela a artesã que nessa fase redobra os cuidados com a cadelinha.

Tulipa também é exigente quando o assunto é comida. Desde pequena, nunca gostou de nenhum tipo de ração. Prefere biscoitos de leite ou maisena esmigalhados em uma porção de leite. “Arroz, por exemplo, ela só come se tiver molho. Senão só olha e passa longe. A bichinha sabe o que quer e apesar de pequena come que nem cachorro grande”, garante Lindinalva rindo.