Archive for the ‘Paranavaí’ tag
Um exemplo a ser seguido

Mesmo com alguns problemas de saúde, ele segue labutando e investindo no seu sonho de ver a horta crescer (Fotos: David Arioch)
Esta semana, eu e minha mãe visitamos a horta orgânica do senhor Gabriel Esperidião Yousseff. Mesmo com alguns problemas de saúde, ele segue labutando e investindo no seu sonho de ver a horta crescer. Muito legal ver que ainda há pessoas que priorizam a qualidade em vez da quantidade. Gabriel é um exemplo de pessoa que não se deixa abater pelas próprias limitações.
“Ué, mas nem parece!”
Saindo da academia, notei que o pneu dianteiro esquerdo do carro começou a fazer um barulho estranho. Desci, olhei e não percebi nada. Então decidi passar em um posto para calibrar os quatro. Enquanto calibrava, vi que havia um parafuso gigante cravado no pneu, embora não houvesse nenhum vazamento.
Então dirigi até uma borracharia na Avenida Tancredo Neves. Chegando lá, enquanto o borracheiro separava a roda do pneu, ele perguntou: “Você é fisiculturista?” “Você é lutador?” Você é professor de educação física?” Respondi não para as três inferências.
Cheio de tentar adivinhar, o borracheiro continuou: “O que tu faz afinal? Parcimonioso, contei que sou jornalista. Ele prontamente emendou: “Ué, mas nem parece!” Pois é…
Barbas e olheiras

Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, conversando com o artista Henrique Moura
Barbas e olheiras – Os homens que não dormem. Eu e meu brother Henrique Moura. Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, onde o artista e criador do icônico Predo Bandeira (seu alter ego) dedica seu dia e sua noite a produzir vídeos independentes de animação.
Muitas referências, muitas colagens e muita coisa autoral da mais alta qualidade. O encontro rendeu horas de papo sério, bobagens e muito café. Disso aí vai sair uma narrativa veloz, intensa e reveladora.
Para quem quiser conhecer o cinema independente de animação da Oficina Raspa Língua, acesse: http://raspalingua.com/site/
Bandido bom é bandido morto?
Vocês nunca me verão reproduzindo o discurso “Bandido bom é bandido morto”, até porque penso que toda generalização é equivocada. Acompanho a realidade da periferia de Paranavaí de perto desde 2009. Nesse período, conheci muitas crianças e adolescentes que se afastaram do crime e das drogas graças à intervenção de voluntários, pessoas que decidiram ajudar em vez de criticar. Se ninguém tivesse feito nada, esses jovens teriam morrido, rendidos às drogas ou assassinados por desafetos, já que é mais comum a morte entre eles do que em confrontos com a polícia.
Na periferia de Paranavaí, a polícia costuma atuar de forma bastante consciente e são mais comuns e recorrentes os casos de prisões, não de mortes, o que acredito ser muito positivo. Ademais, falando no geral e baseando-me na minha própria experiência, quero dizer, de alguém que acompanha a realidade da periferia há quase sete anos, inclusive estudando e escrevendo sobre isso, posso dizer que a maioria das crianças e adolescentes que conheci e que se envolveram com o mundo do crime praticavam pequenos delitos. Creio que esse seja o momento mais crucial para fazer um trabalho de recuperação social.
Acredito sim que a mudança ainda é possível. Apostar todas as fichas no exercício máximo da violência, sustentada na premissa de que todo bandido deve ser morto, me parece radical demais, e não contempla todas as variáveis envolvendo a criminalidade no Brasil. Creio que a punição deve ter sempre o respaldo da lei, mesmo que ela ainda seja falha e precise de revisões. Há quem diga que crianças e adolescentes que se tornam bandidos merecem morrer, que entraram nesse caminho porque quiseram, mesmo consciente das implicações.
Bom, eu discordo. Minha contrariedade subsiste no fato de que quase todos os jovens delinquentes que conheci até hoje eram filhos de prostitutas, ladrões, usuários de drogas, traficantes ou foram criados nas ruas, sem família ou qualquer referência moral. Quando converso com jovens em bairros periféricos, percebo que muitas vezes o crime está tão naturalizado no universo deles, que eles têm dificuldade em ver isso como errado, mesmo que o preço a ser pago seja a prisão ou a vida. Eles encaram como uma aventura, um jogo de videogame, e veem suas próprias vidas como tão insignificantes que não se importam em se colocar em situação de alto risco.
“Se eu morrer ou ser preso, provavelmente ninguém vai sentir minha falta, então que assim seja”, já ouvi várias vezes de jovens com idade a partir de dez anos. Há um predomínio amoral, até pela falta de sólidas referências. O que posso dizer sobre isso? Por que não ir até a periferia da sua cidade e tentar contribuir de alguma forma em vez de reproduzir o discurso “bandido bom é bandido morto”? Não tenho dúvida alguma de que a sensação em contribuir para tirar alguém do mundo do crime ou das drogas é muito melhor do que aquela de comemorar a morte de um jovem desconhecido.
A quitanda e o Barba Azul
Passei na quitanda para comprar brócolis, repolho, alface e couve-flor. Selecionei quatro unidades e fui diretamente ao caixa. Quando os coloquei sobre o balcão, um homem disse: “Você é o Barba Azul?” Respondi: “Sou Sim! Isso mesmo! Como você sabe?” E ele continuou: “Percebi quando sua barba começou a magnetizar a alface.”
Entrei na brincadeira e comentei que ela faz isso só quando está com fome. O cara riu e perguntou: “Faz quanto tempo que você não corta essa barba?” Contei que estou deixando a barba crescer desde janeiro de 2016. “Sua barba cresce bem rápido. Também tenho a barba fechada. Só por causa dessa barba, vou te dar um desconto.” Graças à minha barba, que já merece um nome, o brócolis saiu pela metade do preço.
11 de novembro de 2016.
Eu e o Papai Noel
Me ligaram avisando que o Robson, um garoto de 14 anos da Vila Alta, foi expulso da casa da avó e estava na rua. Então fui até lá procurá-lo. Depois de percorrer algumas ruas do bairro, encontrei alguns garotos jogando bola descalços na rua, com dois golzinhos feitos com tijolos. Perguntei se eles viram o Robson. Um deles me respondeu que ele saiu para buscar gasolina para o seu tio. “Ele está ficando na casa do tio dele”, disse Vitor. Aproveitei e pedi para eles falaram ao Robson para me ligar que quero saber como ficou a situação dele.
Não demorou, e um garotinho sem camiseta se aproximou da janela do meu carro e comentou sorrindo: “Eu te conheço….Sim…eu te conheço. Papai Noel, gente! Papai Noel! O que você vai me trazer de presente? Quero brinquedo, Papai Noel” Então eu expliquei que eu já tinha conversado com ele, mas na época eu não usava barba. Ele só ficava rindo e chamando outras crianças, provavelmente dez, para verem minha barba de perto. Saí de lá já assumindo um compromisso de Natal enquanto eu partia e a molecada gritava: “Tchau, Papai Noel! Volta logo!”
10 de novembro de 2016.
A mudança de Nelson

Nelson abandonou o vício e agora trabalha como catador de materiais recicláveis (Foto: David Arioch)
Em fevereiro, contei a história de Nelson Ferreira Filho, um ex-construtor da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, que se entregou ao álcool e ao crack. À época, consegui uma vaga pra ele em uma das melhores clínicas de reabilitação do Norte do Paraná. No dia em que planejei buscá-lo, ele desistiu, não quis mais saber do internamento. Fiquei desapontado e preocupado com o seu futuro. Mas algo incrível aconteceu.
Hoje, fui até a Vila Alta e o reencontrei. Conversamos um pouco, inclusive com outras testemunhas, e ele me relatou que abandonou o álcool e o crack. Nelson estava sóbrio e bem animado, tanto que voltou a trabalhar depois de anos. Me surpreendi tanto que quero fazer um pedido.
Se você ver o Nelson na rua, se aproxime, fale que conhece sua história, dê um aperto de mão e diga algumas palavras de incentivo, nem que seja um simples “parabéns”. Quem puder, faça uma doação em ferro e materiais recicláveis. A motivação agora é o melhor caminho para evitar que ele tenha algum tipo de recaída. Acredito que há uma grande chance dele se livrar do vício de uma vez por todas.
Você é o contador de histórias?
Quando eu estava na seção de hortifruti do mercado, um camarada muito gente boa caminhou em minha direção e perguntou: “Você é o contador de histórias?” Hesitei por um instante e ele continuou: “Tu que é o David Arioch!” Acenei com a cabeça e respondi com um sorriso benevolente, mas ainda longe de amadurecer: “Sou sim…”
“Cara, suas histórias são muito boas. Curto muito as histórias da sua barba.” Fiquei muito feliz em saber disso e agradeci, mas creio que nunca à altura do carinho que me ofertam quando me param na rua ou em outro lugar para fazer comentários elogiosos.
Algum tempo depois, o rapaz voltou e emendou: “Me acabei rindo com aquela do sinaleiro. É verdade mesmo?” Sorri, sem mostrar muito os dentes, e respondi automaticamente que sim.
Agradeci mais uma vez e me mantive no mesmo lugar onde em instantes senti a pele aveludada dos pêssegos. Depois pensei que eu deveria ter dito outra coisa, algo como: “Não totalmente, mas tudo passa a ser verdade na proporção daquilo em que acreditamos.”
Uma manhã de sábado na Vila Alta
Hoje de manhã, realizamos algumas atividades para crianças e idosos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Foi uma experiência inesquecível. Tudo foi feito de forma voluntária, graças à parceria da professora Rose Freire e das alunas do 4º ano de Serviço Social da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), do Serviço Social do Comércio (Sesc), através da minha amigaTânia Mara Volpato, da atriz e professora de dança circular Gaty Rocha, da Farmácia Bipharma, do senhor Luiz Gonzaga e sua esposa (moradores do bairro que ajudaram na montagem de tudo e disponibilizaram o equipamento de som).
E claro, do artista plástico Tio Lu ( Luiz Carlos), que é sempre a primeira pessoa que procuramos quando queremos realizar algo na Vila Alta. Também contamos com a participação do meu irmão Guimarães Jvnior, meu amigo Vinicius Vieira, do fotógrafo Elizeu de Moraes e do professor Carlos Alberto João, que também assumiu uma bela responsabilidade com o bairro. Além disso, fizemos doações de muitos livros cedidos pela Paranavaí Cidade Poesia – Fundação Cultural, por meio da Biblioteca Municipal Júlia Wanderley.
A Rose Freire e as alunas da Unespar prepararam um monte de kits para distribuir aos idosos, além de panfletos sobre seus direitos. Também percorremos casas distribuindo kits para aqueles que não tinham condições de se deslocarem até a Rua B, onde o evento ocorreu. Foi uma manhã muito agradável e de muito aprendizado. Tivemos muita música, pula-pula, pernas de pau, apresentações de dança circular, oficinas de artesanato, cuidados estéticos e diversas brincadeiras que hoje são pouco conhecidas pelas novas gerações. O maior presente foi ver tanta gente empolgada em ajudar, assim como tanta gente animada em se divertir.
Na fila do caixa
Na fila do caixa do mercado havia um senhor na faixa dos 80 anos, desinibido e conversador. De repente, percebi ele conversando com minha mãe e sorrindo. Curioso, me aproximei e ele comentou: “Que filho mais bonito que a senhora tem! Olhem pra esse rapaz!” Sem falar nada, até porque sou tímido, fiquei sorrindo que nem cachorro de porcelana na estante.
Àquela altura, enquanto muita gente me observava, o senhor emendou: “Quantos filhos a senhora tem?” Minha mãe respondeu três e ele interpelou: “Tudo bonito que nem esse?” Sem dar trégua, o homem chamou a atenção da moça do caixa e disse: “Olhe pra esse rapaz! E essa barba preta, como pode? Nunca vi uma barba preta como essa na minha vida. E como é bonito! Parece um galã!”, repetia. Calado, eu continuava sorrindo e balançando a cabeça, sem saber pra onde, também lembrando aqueles animaizinhos que os taxistas colocam no painel do carro.
“Não case, meu filho, não faça essa besteira. Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia. Quando acabar o sal, daí sim você pode pensar em se casar”, recomendou. Depois o homem apontou para um senhor ao seu lado e declarou: “Esse aqui é meu filho, já tá feio, coitado! Engordou e nem tem mais cabelo.”
A vítima, conhecendo o pai que tem, só riu, sem esculpir expressão de desconforto. Antes de pagar a moça do caixa e partir, o senhor mais velho sentiu o cheiro de pão quente saindo de um pacote nas mãos de minha mãe. “É pão quente? Posso pegar?” Minha mãe consentiu, abriu o saco, o homem tirou um pão, agradeceu e começou a comer tranquilamente.
Sem demora, caminhou até a saída dando um tapinha amistoso nas costas do filho, que retribuiu o gesto encostando a mão no ombro do pai. Em menos de minuto, desapareceram na escuridão solene, e por assim dizer transparente, da primavera.

