Archive for the ‘Vegetariano’ tag
“Cara, não consigo gostar de comida vegana”
— Cara, não consigo gostar de comida vegana.
— Sério mesmo?
— É sim…é muito estranha. Acho que não é pra mim…
— Por quê?
— Muita privação. Não consigo viver sem ter uma alimentação bem diversificada.
— Então vamos tirar esse arroz, feijão, tomate seco, palmito, couve, brócolis, ervilhas e cabotiá do seu prato. E também esse suco de laranja puro. E deixemos você só com a carne. Que tal?
— Por quê?
— Porque isso é alimentação vegana, e você acabou de falar que não gosta disso.
— Não, cara. Isso é comida normal, de quem come carne.
— E o que você acha que veganos comem?
— Não sei. Coisas estranhas, incomuns.
— Não, meu camarada. Veganos comem tudo aquilo que não envolve ingredientes de origem animal. Na nossa alimentação as possibilidades de variedade são imensas. Basta pensar da seguinte maneira – se uma pessoa não se alimenta de animais, o que resta? Uma infinidade de sabores. Agora me diga o que você consome no café da manhã.
— Aveia, banana, whey protein, cacau em pó…
— Substitua o whey protein por proteína vegetal e temos uma refeição para veganos.
— É?
— Sim, sem dúvida alguma.
— O que você come depois?
— Lá pelas nove e meia, normalmente como pão integral com queijo ou com ovo, e tomo um copo de leite.
— Entendi. Você pode manter o pão integral, caso ele não tenha nada de origem animal. Mas substitua o queijo por pasta de amendoim, ou, se preferir, por tofu ou outro tipo de queijo vegetal, que podem ser inclusive preparados em casa. Posso ensinar como fazer isso gastando o mínimo possível. Também troque o leite de vaca por leite vegetal. Isso é alimentação vegana.
— Me parece mais simples do que imaginei.
— Pois é…
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Bola Sete, um vegetariano que deixou seu nome na história do jazz

Carlos Santana considera Bola Sete um dos maiores guitarristas de todos os tempos (Foto: Reprodução)
O compositor, violonista e guitarrista carioca Bola Sete, que foi aluno do maestro Moacyr Santos, fez muito sucesso tocando jazz nos Estados Unidos e no México nas décadas de 1960 e 1970. De origem pobre, mas com uma herança musical muito forte, descobriu a aptidão para a música ainda na infância, quando começou a tocar cavaquinho e violão.
No Estados Unidos, Bola Sete foi um grande parceiro de Dizzy Gillespie e Vince Guaraldi, com quem lançou em 1963 o disco “Vince Guaraldi, Bola Sete and Friends”. Guaraldi foi o autor da trilha sonora do desenho animado “Peanuts”, que traz personagens como Charlie Brown e Snoopy. Em 1967, Bola Sete deixou o Vince Guaraldi Trio para criar o seu próprio trio, que trazia na formação os brasileiros Sebastião Neto e Paulinho, contrabaixista e baterista.
Quando o grupo decidiu se separar, Bola Sete já era um homem de meia-idade com sobrepeso e alguns problemas de saúde. Então ele viu que seria necessário dar uma guinada em sua vida. Parou de tocar e começou a meditar, praticando regularmente o hatha yoga. Primeiro, ele abandonou o consumo de carne e mais tarde se tornou vegetariano.
“Isso não apenas permitiu que ele perdesse mais de 22 quilos, mas também que ele conseguisse controlar a sua asma agravada por anos inalando fumaça nos clubes onde tocava. O novo estilo de vida garantiu que ele produzisse a música mais incrível de sua carreira”, afirmou o pesquisador Gerald E. Brennan.
Embora Bola Sete tenha seu nome quase sempre relacionado ao jazz, estudiosos de sua música como Brennan o consideram o pai da música new age. Isto porque as composições do brasileiro se tornaram muito espiritualizadas, destoando do jazz tradicional; algo que ficou mais claro depois que ele se tornou vegetariano.
Em 1970, quando excursionou pelo México com Stan Getz e outros artistas do jazz, Bola Sete se tornou extremamente popular, o que o motivou a lançar em 1971 o álbum “Shebaba”. “Bola Sete é tão significativo quanto Jimi Hendrix e Segovia, no sentido de ter sabedoria, conhecimento, alma e paixão”, escreveu o célebre guitarrista mexicano Carlos Santana. Nos Estados Unidos, há mais artistas que consideram Bola Sete um dos maiores guitarristas de todos os tempos, e não somente do jazz.
Saiba Mais
Djalma de Andrade, mais conhecido como Bola Sete, nasceu em 16 de julho de 1923 no Rio de Janeiro, e faleceu nos Estados Unidos em Greenbrae, na Califórnia, em 14 de fevereiro de 1987.
Entre os anos de 1958 e 1985, Bola Sete gravou 14 discos.
Referências
Http://www.bolasete.com/index.php
http://www.musicianguide.com/biographies/1608002433/Bola-Sete.html
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Eraldo, um bom exemplo
Por volta das 14h, na saída de Maringá, passei no Catuaí e decidi comer alguma coisa no restaurante Jin Jin Wok. Peguei um prato e percebi que havia poucas opções para quem é vegetariano ou vegano. Muitos dos alimentos deles que não têm carne, normalmente têm ovo ou algum derivado lácteo.
Então peguei os únicos alimentos vegetarianos disponíveis e fui até o outro lado ver o que eles tinham preparado de sushi. Olhando atentamente, notei que não havia nada para mim. Então perguntei ao sushiman se eles não tinham nenhum sushi sem ingredientes de origem animal.
Ele me mostrou um sushi com pepino, mas avisou que não estava tão fresco, e sugeriu que eu esperasse porque ele iria preparar algo. No mesmo instante, pediu a uma mulher que estava no caixa para não cobrar pelo sushi, justificando que não havia nada para mim entre as opções prontas.
Assim que pesei meu prato e paguei a conta, caminhei até o sushiman e ele pediu que eu posicionasse meu prato em sua direção. Me entregou oito unidades de sushi de três variedades e perguntou se eu queria mais. Agradeci, mas expliquei que era o suficiente.
Depois de comer, o agradeci mais uma vez pela gentileza. Então eu soube que seu nome é Eraldo. Está aí um exemplo de bom profissional e ser humano.
O vegetarianismo de Sadegh Hedayat, expoente da literatura moderna persa
“Até quando vamos fechar os olhos diante de tanta barbárie?”

Hedayat: “Mesmo que matar pareça ‘útil’ para os seres humanos, que alegria poderia haver em torturá-los?” Foto: The Sadegh Hedayat Foundation
Em 1924, o escritor iraniano Sadegh Hedayat, expoente da literatura moderna persa, publicou o livro Ensān o ḥaywān (Homens e Animais), em que faz críticas ao comportamento especista humano. Três anos depois, lançou o livro Fawāyed-e giāh-ḵᵛāri (Os Benefícios do Vegetarianismo).
A obra que discute os direitos animais teve grande repercussão, inclusive na Europa, logo depois de sair em versão alemã e inglesa. O que levou o escritor iraniano a tornar-se vegetariano e a abordar o tema em sua literatura foi o fato dele ter testemunhado o brutal abate de um camelo.
Em 1936, Hedayat publicou Boof-e koor (A Coruja Cega), considerada sua grande obra-prima. No livro, lançado originalmente em Bombaim, na Índia, ele faz referências ao budismo e ao hinduísmo, o que gerou muitas controvérsias no Irã. No entanto, o aspecto mais intrigante do livro é a morte enquanto tema. Na história, o protagonista faz confissões às sombras que imitam as formas de uma coruja em uma parede.
“A presença da morte aniquila tudo que é imaginário. Somos a prole da morte e a morte nos livra das atrações tentadoras e fraudulentas da vida. É a morte que nos acena das profundezas da vida. Se às vezes chegamos a uma parada, o fazemos para ouvir o chamado da morte. Ao longo de nossas vidas, o dedo da morte aponta para nós”, escreveu em A Coruja Cega.
No conto persa Sag-e Velgard (O Cão de Rua), publicado em 1942, Hedayat, considerado o pai do vegetarianismo moderno no Irã, apresenta uma versão ficcional do livro ensaístico Homens e Animais. Na obra, faz críticas contundentes à crueldade humana e a naturalização da violência:
“No Irã, o burro nasce para trabalhar e ser torturado. O cachorro é assassinado em nome de Deus. O gato é lançado dentro de um poço e o rato é enterrado vivo nas vias públicas. Mesmo que matar pareça ‘útil’ para os seres humanos, que alegria poderia haver em torturá-los? Até quando vamos fechar os olhos diante de tanta barbárie?
Em frente à padaria, o assistente de padeiro batia no cachorro. Em frente aos açougueiros, o jovem ajudante arremessava tijolos. Tentando se esconder debaixo de um automóvel, o animal foi saudado pelas pesadas botas do motorista.
E quando todos os outros se cansaram de machucá-lo, foi a vez do garoto que vendia pudim de arroz feri-lo com especial satisfação. Ele continuava lançando tijolos em suas costas e, conforme o cãozinho gemia, ele ria em voz alta e gritava: ‘Seu pequeno bastardo!’ Todos eles espancaram o cachorro em nome de Deus.”
Referências
Encyclopaedia Iranica. Hedayat, Sadeq i. Life and Work (2003).
Hedayat, Sadeq. The Blind Owl. l-Aleph (2011).
Hedayat, Sadeq. Sag-e Vilgard. Negah; 2nd edition (2004).
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Mahler acreditava que o vegetarianismo é o caminho para a regeneração da humanidade
“Os efeitos morais desse estilo de vida são imensos. Você pode julgar por si mesmo…”

Mahler adotou o vegetarianismo por influência do compositor alemão Richard Wagner (Foto: Reprodução)
Símbolo do pós-romantismo e considerado um dos mais importantes compositores de todos os tempos, o austríaco Gustav Mahler se tornou vegetariano por influência das teorias de regeneração do compositor alemão Richard Wagner. Em carta escrita a Emil Freund em 1º de novembro de 1880, ele se queixou que precisava de algum tipo de conforto porque via miséria em todos os lugares e das mais diferentes formas.
“Se você conhece uma pessoa nesta terra que seja realmente feliz, diga-me seu nome rapidamente, antes que eu perca os últimos vestígios de coragem que resistem em mim. Qualquer um que tenha observado uma natureza verdadeiramente nobre e profunda lutando contra a mesquinhíssima mesquinhez, e que por isso perece, dificilmente ignora o próprio estremecimento, quando este considera em primeiro lugar a chance de salvar a sua própria e pobre pele”, escreveu Mahler.
Na carta, o compositor diz que no Dia de Todos-os-Santos ele colocaria flores no túmulo de uma amiga que cometera suicídio, uma jovem que ele conheceu aos 18 anos em Seelau, na casa dos pais de Freund, a algumas horas de distância de Jihlava, sua cidade natal. Os dois tinham grande afeto um pelo outro, e ela era fascinada pelo talento de Mahler ao piano. E foi pela fragilidade do seu estado de espírito ao saber da morte da amiga que ele teve contato com as teorias de Wagner e decidiu mudar de vida. Um mês depois de tornar-se vegetariano, ele anotou suas impressões e as enviou para Emil:
“Os efeitos morais desse estilo de vida são imensos. Você pode julgar por si mesmo o quão convencido estou, quando lhe digo que não espero menos do que a regeneração da humanidade”, declarou em referência ao vegetarianismo. Também sugeriu ao amigo que adotasse um estilo de vida mais natural, com nutrição adequada, alegando que logo ele sentiria os benefícios, de acordo com informações das páginas 165 e 166 do livro “Gustav Mahler: New Insights into His Life, Times and Work”, de Alfred Mathis-Rosenzweig.
À época, em transição para o vegetarianismo, mas ainda amargando tristeza recente, ele concluiu a famosa cantata Das Klagende Lied (A Canção da Lamentação) que, embora inspirada em um conto dos Irmãos Grimm, revela o seu próprio estado de espírito. “Minha peça está terminada. Um verdadeiro lamento de criança que me tomou alguns anos de trabalho, mas que acabou por valer a pena. O meu próximo passo é usar todos os recursos disponíveis para executá-la”, revelou em correspondência a Freund.
“Na estalagem, onde os cantores se encontravam à noite, ele era visto como ridículo por consumir água em vez de cerveja ou vinho. Recusando carne, pedia por maçãs e espinafre, e declarou sua lealdade aos princípios vegetarianos de Richard wagner. Os cidadãos desta pequena cidade concordaram que ele era um espécime muito estranho”, registrou o especialista em sociologia da música Kurt Blaukopf em referência à estadia de Gustav Mahler em Olomouc, na República Tcheca, entre os dias 11 e 17 de março de 1883.
Em 1894, Mahler decidiu se aprofundar no trabalho de Schopenhauer quando descobriu que ele foi a principal influência de Wagner no que diz respeito ao vegetarianismo. Para Rosenzweig, o interesse de Mahler se justificou pelo fato de que ele, assim como outros vegetarianos e entusiastas da época, buscava motivações menos místicas sobre o vegetarianismo.
Saiba Mais
Gustav Mahler nasceu em Kalischt, na Boêmia, atual República Tcheca, em 7 de julho de 1860 e faleceu em 18 de maio de 1911 em decorrência de endocardite bacteriana.
Referências
Blaukopf, Kurt. Mahler: His Life, Work and World. Thames & Hudson (2000).
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
O vegetarianismo na vida de John Coltrane
“Dick Bock me contou que John tinha abandonado a carne para se tornar vegetariano”
No final dos anos 1950, John Coltrane, um dos maiores compositores e saxofonistas de jazz da história, passou por uma conversão espiritual e também se tornou vegetariano. Sobre o assunto, o famoso compositor indiano Ravi Shankar escreveu em seu livro “Raga Mala”, publicado em 1997, que John Coltrane era muito diferente de seus contemporâneos:
“Tão limpo, com boas maneiras e humilde. Seis meses antes, ele havia se livrado das drogas e da bebida.” Coltrane foi influenciado pelo compositor de jazz Sun Ra, que o motivou a mudar de vida, aderir ao vegetarianismo e ouvir as composições de Ravi Shankar.
Em seu site oficial, Shankar escreveu que conheceu muitos compositores de jazz, e que a maioria deles tinha algum tipo de vício, mas John Coltrane era uma pessoa diferente. “Dick Bock [Richard Bock, da Pacific Jazz Records] havia me contado que John tinha abandonado a carne para se tornar vegetariano, e estava lendo os livros de Shri Ramakrishna e praticando ioga.”
Nicholas L. Baham III, professor da Universidade Estadual da Califórnia e autor do livro “The Coltrane Church: apostles of Sound, Agents of Social Justice”, escreveu que quando Coltrane se tornou vegetariano, o vegetarianismo se tornou parte dele e de suas crenças, o que refletiu muito bem em sua música. Àquela altura, o compositor também já se posicionava como pacifista.
“A Love Supreme”, lançado em 1965, e considerado um dos maiores discos da história do jazz, manifesta a sua grande transformação de viés espiritual. “Coltrane sentiu que nós temos que fazer um esforço consciente para efetuar mudanças positivas no mundo, e sua música é um instrumento para a criação de padrões de pensamentos positivos na mente das pessoas”, de acordo com o site johncoltrane.com.
Embora tenha sentido os efeitos positivos da filosofia de vida adotada no final dos anos 1950, John Coltrane faleceu precocemente aos 40 anos, vítima de um câncer de fígado. A doença surgiu em decorrência do abuso de álcool e heroína até o início da década de 1950.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Al-Ma’arri, o poeta “vegano” do século XI
Importante pensador árabe condenava a exploração animal em todos os aspectos

“Ele alcançou a originalidade quando ainda respirava o reminiscente ar de liberdade dos poetas pré-islâmicos da Era da Ignorância” (Arte: Reprodução)
Um dos mais importantes poetas árabes de todos os tempos, o sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri ficou conhecido no século XI por sua postura antirreligiosa e por condenar a exploração animal em todos os aspectos. Uma de suas obras mais famosas, e que aborda a sua adoção de uma filosofia de vida que hoje se enquadraria como veganismo, é o poema “Já Não Roubo da Natureza”.
Aos quatro anos, Al-Ma’arri ficou cego depois de contrair varíola. Mais tarde, deixou Ma’arrat al-Numan, sua cidade natal, para estudar. O sírio foi para Aleppo e depois para a Antióquia, onde a cultura predominante era helenista. Também viveu em outras cidades. Até os sete anos, um de seus grandes professores foi Ibn Kalawayth, um famoso erudito persa do século X, referência em gramática árabe e exegese corânica, falecido em 980. Em “Risālat al-Ghufrān”, seu trabalho mais conhecido, Al-Ma’arri lamenta profundamente a morte de seu mestre.
A obra poética que poderia ser traduzida como “A Epístola do Perdão”, assim como o sagrado Livro de Arda Viraf, é considerada uma das obras que possivelmente influenciou Dante Alighieri a escrever “A Divina Comédia”, publicada entre 1304 e 1321. Em “Risālat al-Ghufrān”, Al-Ma’arri narra a viagem de um poeta para o céu e para o inferno, onde ele encontra os maiores nomes da literatura árabe sendo punidos e recompensados por seus trabalhos. Para confrontar as crenças islâmicas, Al-Ma’arri apresenta um céu também ocupado por pessoas não-muçulmanas.
“Ele alcançou a originalidade quando ainda respirava o reminiscente ar de liberdade dos poetas pré-islâmicos da Era da Ignorância. Assim como o autor de Eclesiastes, al-Ma’arri descreveu o mundo a partir de um ponto de vista distanciado, aristocrático e ligeiramente desdenhoso”, analisam Cyril Glassé e Huston Smith na página 278 do livro “The New Encyclopedia of Islam”, de 2008.
Se por um lado, o sírio era visto como um racionalista controverso e pessimista que se dedicava a criticar o cristianismo, judaísmo, islamismo e zoroastrismo, por outro, ele advogada em nome da justiça social e dos direitos animais. As suas principais ferramentas de conscientização eram a sua produção literária e os seus discursos. Se sentia tão incomodado com os rumos da humanidade que chegou a dizer que talvez o melhor caminho fosse a anti-natalidade. No seu entendimento, era a forma mais eficaz de poupar as crianças das dores da vida.
Al-Qifti, renomado escritor egípcio da literatura islâmica medieval registrou que durante viagem para Trípoli, Al Ma’arri visitou um mosteiro perto da Lataquia, onde ouviu um debate sobre filosofia helênica. A discussão despertou nele um sentimento de ceticismo e irreligiosidade. O biógrafo e historiador sírio Ibn al-Adim rejeita essa versão, alegando que Al Ma’arri jamais teve contato com culturas não-islâmicas. Embora não haja consenso sobre esse aspecto de sua vida, ele jamais deixou de criticar a religião em seus versos. Em “As Duas Verdades Universais”, o poeta sírio escreveu:
Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
A sua maior rejeição em relação à religião subsistia no fato de que os discursos dos profetas sempre foram baseados em afirmações inquestionáveis. Por essa sua posição, Ma’Arri um dia foi arrastado pelos pés para fora da casa do erudito islâmico e poeta Sharif al-Radi, em Bagdá. O erudito islâmico Ibn al-Kawzi, descendente de Abu Bakr, companheiro do profeta Maomé, o acusou de ser um zindiq, ou seja, alguém contrário aos dogmas islâmicos.
“Em meio a suas meditações sobre a tragédia humana, explodiu o ódio feroz da injustiça, da hipocrisia e da superstição”, avalia o escritor Reynold Nicholson no livro “Studies in Islamic Poetry”, escrito durante a Primeira Guerra Mundial e publicado em 1921. Al-Ma’arri enfatizava que o ser humano buscava refúgio nas histórias religiosas como forma de amenizar a sua solidão espiritual despertada por sua má conduta.
Em síntese, o sírio declarava que a religião era uma instituição humana inventada para atuar como fonte de poder e renda para seus fundadores e sacerdotes. Para isso, em sua concepção, valem-se de documentos falsos atribuídos à inspiração divina.
Abandona a mesquita e evita louvor,
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
Foi justamente por condenar o sacrifício de animais que Al-Ma’arri se tornou vegetariano aos 30 anos. No entanto, somente décadas depois decidiu registrar o que o levou a se abster de carne e derivados de origem animal. Ele citou como referência um antigo médico grego e, mesmo avesso à religião, mencionou também o Alcorão. Para o filósofo sírio, é inconcebível gerar dor em outros seres para roubar leite e ovos. Al-Ma’arri dizia que ao fazer isso os homens agiam como ladrões.
Como Mahavira e os jainistas, ele acreditava na santidade da vida e definia como um ato de imoralidade causar qualquer prejuízo aos animais. Então se tornou um ferrenho opositor de todas as formas de exploração animal, inclusive de peles como vestuário. Vivendo com 20 dinares por ano, a sua alimentação era baseada em feijões e lentilhas.
Por causa de suas limitações em decorrência da deficiência visual, Al-Ma’arri contava com o serviço de um ajudante, e permitia que ele levasse a maior parte do seu ordenado, deixando apenas o suficiente para a sua comida. “Os homens de mente acurada me chamam de asceta, mas eles estão errados em sua classificação. Embora eu tenha disciplinado meus desejos, só abandonei os prazeres mundanos porque eles me privavam do melhor de mim”, garantiu.
Publicado há mais de mil anos, o poema “Já Não Roubo da Natureza” é a maior prova de sua “consciência vegana”. Em síntese, um manifesto à vida, já que ele via os animais como seres que não merecem padecer diante da injustiça humana:
Você foi subvertido pela compreensão e pela religião.
Venha a mim, para que você possa ouvir alguma verdade.
Não coma injustamente o peixe que a água sublevou,
E não deseje como alimento a carne de animais abatidos,
Ou o leite branco das mães que pretendiam alimentar seus bebês, não senhoras nobres.
Não aflija as inocentes aves tomando-lhes os ovos;
Pois a injustiça é o pior dos crimes.
E poupe o mel que as abelhas obtêm industriosamente das flores de plantas perfumadas;
Porque elas não o resguardaram para que pudesse pertencer a outros,
Nem o recolheram em troca de presentes ou recompensa.
Lavei minhas mãos de tudo isso; e gostaria de ter descoberto o meu caminho antes do meu cabelo ter ficado grisalho.
Ao longo de três anos vivendo em Bagdá, onde foi muito bem recebido nos mais importantes salões literários, Al-Ma’arri escreveu o livro “Luzumiyyat” ou “Obrigação do que não é obrigatório”, que reúne uma coleção de versos que diferem da tradicional poesia árabe, principalmente pela estrutura irregular.
Enquanto viveu no Iraque, ele ficou decepcionado ao testemunhar como os poetas se rebaixavam por causa de dinheiro. Muitos se dedicavam a escrever panegíricos, ou seja, ode aos seus ricos patronos. Quando reconheceu que aquele era o destino de um poeta em uma metrópole, o sírio decidiu retornar para casa. Sua decisão foi reforçada pela notícia de que sua mãe estava falecendo.
Em 1010, de volta a Ma’arrat al-Numan, ele decidiu não se ausentar mais. Em sua cidade natal, as pessoas gostavam de ouvi-lo ensinar sobre poesia e retórica. Sua popularidade era grande entre estudantes locais. Também se correspondia com estudantes estrangeiros. Niilista e com um humor assumidamente satírico, Al-Ma’arri afirmava não acreditar em alegria ou tristeza, classificando os dois estados emocionais como sendo um só. Mesmo assim, suas obras nunca deixaram de transmitir uma fé piedosa, espiritualidade, singular senso de humanidade e um contumaz anseio por liberdade de expressão.
Uma vez, ele escreveu um pedido de desculpas por qualquer ofensa que seu trabalho pudesse provocar:
“Não tentei enfeitar meus versos por meio da ficção, nem preencher minhas páginas com idílios de amor, cenas de batalhas, relatos de festas de vinho ou coisas do gênero. Meu objetivo é tão somente falar a verdade. Ora, o fim próprio da poesia não é verdade, mas sim falsidade, e na medida em que é desviada do seu próprio fim, sua perfeição é prejudicada. Portanto, devo desejar a indulgência de meus leitores por este livro de poesia moral.”
Mesmo tendo uma vida repleta de controvérsias, Abul ʿAla Al-Maʿarri jamais foi preso ou perseguido, mesmo com uma postura pré-anarquista. De 1010 até 1057, ano em que faleceu, o poeta viveu longos períodos de reclusão, simplesmente escrevendo. Tudo leva a crer que a sua cegueira, aliada à sua bela construção poética, contribuíram para que os líderes muçulmanos fossem indulgentes.
Historiador e arquiteto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Nasser Rabbat relata que Al-Ma’arri é um dos três principais ateus da história do islamismo. No século 20, o filósofo sírio passou a ser visto como um personagem da mesma estirpe dos grandes pensadores do iluminismo. Inclusive o Ocidente só conheceu o seu legado no Século das Luzes, ou seja, no século XVIII.
Escultura de Al-Ma’arri foi decapitada em 2013
Na década de 1940, o artista plástico Fathi Muhammad criou uma escultura em homenagem ao poeta e filósofo sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri. A estátua foi colocada em exibição no Museu de Maarat al-Numan, para que ela pudesse inspirar estudantes, pensadores e poetas sírios. Em uma noite de fevereiro de 2013, a escultura, que tinha duas vezes o seu tamanho natural, foi decapitada por fundamentalistas islâmicos da Frente Al-Nusra, um dos braços da Al-Qaeda. Antes, ela já havia sido alvejada a tiros.
Embora também seja qualificado como um herege e seus trabalhos sejam proibidos em cidades dominadas por fundamentalistas, o legado de al-Ma’arri continua influenciando muitas pessoas, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Maior exemplo disso é que ele ainda é considerado um dos maiores nomes da poesia e do pensamento árabe.
Saiba Mais
Abul ʿAla Al-Maʿarri era celibatário e deixou registrado um pedido de que seu corpo fosse cremado quando ele morresse.
O poeta sírio começou a escrever seus primeiros poemas com 11, 12 anos.
Ele era membro da Banu Sulayman, uma importante família de Ma’arrat al-Numan que pertencia à tribo tanūkh. Seu tataravô paterno foi o primeiro qadi da cidade. Alguns outros membros da família Sulayman também foram considerados bons poetas.
Referências
Nicholson, A. Reynold. Studies in Slamic Poetry. Cambridge University Press (1921).
Glassé, Cyril; Smith, Huston. The New Encyclopedia of Islam. Rowman & Littlefield Publishers (2008).
Nicholson, A. Reynold. A Literary History of the Arabs. Routdlege (1962).
Hastings, James. Encyclopedia of Religion and Ethics. Kessinger Publishing (2003).
Gelder, Geert Jan Van; Schoeler, Gregor. Al-Maari, Abu I-Ala. The Epistle of Forgiveness. Volume 2: Hypocrites, Heretics, and Other Sinners (2014).
Tharoor, Kanishk; Maruf, Maryam. Museum of Lost Objects: The unacceptable poet. BBC News (8 de março de 2016).
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Élisée Reclus :“Não é um equívoco relacionar os horrores da guerra com o massacre do gado”
“A porca chorava sem cessar, e de vez em quando soltava gemidos tão desesperadores que parecia simular a fala humana”

Reclus: “Ainda me recordo desse lúgubre quintal onde homens assustadores andavam de um lado para o outro com grandes facas” (Foto: Reprodução)
Considerado um dos maiores geógrafos do século 19, o francês Élisée Reclus é o autor da obra-prima “Nova Geografia Universal: a Terra e os Homens”. Composto em 19 volumes, o trabalho exigiu quase 20 anos de dedicação. Embora sua principal contribuição tenha sido na área da geopolítica, Reclus foi um ativista vegetariano que em 1901 publicou “À propos du végétarisme”, um ensaio impactante sobre o vegetarianismo e os direitos animais.
Modesto, Élisée Reclus diz que escreveu o ensaio para transmitir suas impressões pessoais que, de algum modo, coincidem com a de muitos vegetarianos. “Me moverei dentro do círculo de minhas próprias experiências, parando aqui e ali para fazer alguma observação sugerida pelos pequenos incidentes da vida”, informa.
Quando o francês ainda era um garotinho, ele foi enviado para buscar um pedaço de carne no açougue da aldeia. Com toda sua inocência, procurou alegremente fazer o que lhe pediram. “Entrei no pátio onde estavam os matadouros. Ainda me recordo desse lúgubre quintal onde homens assustadores andavam de um lado para o outro com grandes facas. Eles enxugavam o sangue em suas próprias blusas. Pendurada sob um alpendre, uma enorme carcaça me parecia ocupar um espaço extraordinário. De sua carne branca, um líquido avermelhado escorria pelas sarjetas”, conta.
Tremendo, Reclus notou que o pátio estava repleto de sangue. Se viu incapaz de seguir adiante ou de fugir. Mais tarde, soube apenas que desmaiou e um açougueiro o levou até sua casa. O francês narra que ele não pesava mais do que um dos cordeiros que o homem abatia todas as manhãs. As cenas vividas no matadouro jamais foram esquecidas, assim como as lembranças dos porcos criados pelos camponeses que atuavam como açougueiros amadores. Segundo Reclus, eles conseguiam ser mais cruéis que os açougueiros profissionais. “Lembro-me de um deles sangrando o animal lentamente, de modo que o sangue escorria gota a gota, pois para fazer pudins negros, eles dizem que é preciso que o animal tenha sofrido bastante. A porca chorava sem cessar, e de vez em quando soltava gemidos tão desesperadores que parecia simular a fala humana. Era como ouvir uma criança”, relata.
Élisée Reclus não conseguia evitar de enxergar o ser humano como um animal traiçoeiro na sua relação com os animais. Cita como exemplo os porcos criados como membros de família por um ano ou um pouco mais antes de serem enviados para o abate. “Mimado, ele cresce gordo e retribui com afeição sincera todo o cuidado dispensado a ele. Mal sabe que sua criação tem apenas um objetivo – muitos centímetros de tiras de bacon.[…] Quando o afeto é retribuído pela boa mulher que cuida do porco, acariciando-o, e conversando carinhosamente com ele, ela é considerada ridícula, como se fosse absurdo e até degradante amarmos um animal que nos ama”, reclama.
O francês dizia que não era necessário ir longe para contemplar os horrores dos massacres que constituem a diária alimentação humana. Segundo o geógrafo vegetariano, especialmente quem viveu em cidades provincianas, teve a oportunidade de ver esses atos bárbaros cometidos em nome do consumo de carne. Se a princípio são imagens que chocam na tenra idade, com o tempo tal sentimento desaparece. As pessoas cedem diante da infeliz influência da educação diária, que tende a conduzir o indivíduo a reconhecer como normal algo que não deveria ser.
“Isso tira tudo o que se destina à formação de uma personalidade original. Os pais, professores, oficiais, médicos, amigos, para não falar do poderoso indivíduo que chamamos de ‘todos’, trabalham juntos para endurecer o caráter da criança com respeito a este alimento de quatro patas que, no entanto, ama como nós, sente como nós e, sob nossa influência, progride ou regride como nós”, defende.
Os animais reduzidos à carne estão tão distantes de sua vocação natural que muitos deles talvez nem se reconheçam como parte genuína de uma espécie. Para corroborar essa reflexão, Reclus faz referência ao bovinos que, com muitas dificuldades de locomoção, habitam os pastos do mundo: “Eles foram transformados pelos criadores de gado em massas ambulantes de formas geométricas, como se projetados de antemão para a faca do açougueiro. É para a produção de tais ‘monstruosidades’ que aplicamos o termo ‘reprodução’. É assim que o homem cumpre a sua missão como educador, em relação aos seus irmãos, os animais.”
Observando e estudando o comportamento animal, o geógrafo francês chegou à conclusão de que para a manutenção do nosso hábito de comer carne, até mesmo a inteligência animal é visceralmente degradada. É inevitável por causa do estilo de vida antinatural imposto a eles. Ademais, Reclus via uma grande contradição estética nos açougues. Em tempos de festas, era comum se deparar com carcaças desarticuladas e pedaços de carne decorados com guirlandas rosas.
“Não é um equívoco relacionar os horrores da guerra com o massacre do gado e os banquetes de carne. A dieta dos indivíduos corresponde precisamente às suas maneiras. O sangue exige sangue”, declara Élisée Reclus, referindo-se à ferocidade humana e a irreflexão na hora de suplantar o inimigo. Traçando um paralelo, ele faz menção ao fato de que na guerra é muito comum os feridos serem mortos e os prisioneiros serem obrigados a cavarem suas próprias sepulturas antes de serem alvejados a tiros.
“Quem são esses espantosos assassinos? São homens como nós, que estudam e leem como nós, que têm irmãos, amigos, esposa ou namorada. Mais cedo ou mais tarde, corremos o risco de encontrá-los, de tomá-los pela mão sem ver nenhum vestígio de sangue nela. Mas não há alguma relação direta de causa e efeito entre os alimentos desses carrascos que se chamam de agentes da civilização?”, questiona.
Valendo-se de suas pesquisas, o geógrafo vegetariano argumenta que aqueles que incentivavam as guerras tinham o hábito de elogiar a carne que sangra, a considerando geradora de saúde, força e inteligência. Essas mesmas pessoas entravam nos matadouros, onde o pavimento era sempre vermelho e escorregadio, sem sentir qualquer repugnância. Lá, respiravam o doentio e doce odor do sangue.
“Existe então tanta diferença entre o cadáver de um novilho e o cadáver de um homem? Os membros amputados, as entranhas que se misturam umas às outras, são muito parecidos. A matança do primeiro facilita o assassinato do segundo, especialmente quando a ordem de um líder soa, de longe, como as palavras de um mestre coroado: ‘Seja impiedoso!’”, enfatiza Reclus.
No ensaio “À propos du végétarisme”, quando discorre sobre a violência nas guerras, o geógrafo compara o racismo com o especismo. Usa como referência as invasões ocidentais no oriente, principalmente na Ásia, onde a vida de um oriental não tinha o mesmo valor que a vida de um homem branco, na perspectiva predominantemente europeia. “Não é nossa moralidade, como aplicada aos animais, igualmente elástica? Ouvir cães rasgando uma raposa ensina ao cavalheiro como fazer seus homens perseguirem um fugitivo chinês. Os dois tipos de caça pertencem a um mesmo ‘esporte’”, lamenta.
Saiba Mais
Élisée Reclus nasceu em 15 de março de 1830 em Sante-Foy-la-Grande, no Departamento de Gironde, e faleceu em Torhout, na Bélgica, em 4 de julho de 1905 em decorrência de uma doença cardiovascular.
Referências
Reclus, Elisée. À propos du végétarisme (1901). Mazeto Square (2016).
Cornuault, Joël. Élisée Reclus, géographe et poète. Eglise-Neuve d’Issac (1995).
Chisholm, Hugh. Reclus, Jean Jacques Elisée. Encyclopædia Britannica. Cambridge University Press (1911).
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Bashevis Singer: “Não sou vegetariano pela minha saúde, mas pela saúde dos animais”
“Vou continuar sendo vegetariano, mesmo que o mundo inteiro comece a comer carne”
Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1978, o escritor polonês Isaac Bashevis Singer foi uma importante voz em defesa dos direitos dos animais no século 20. Vegetariano, o autor de clássicos como “A Família Moscat”, “O Mágico de Lublin”, “Spinoza da Rua do Mercado” e “Gimpel O Tolo”, abordou o animalismo em muitas de suas histórias. Entre as mais impactantes estão “O Açougueiro”, “O Escritor de Cartas”, “Sangue” e “Debaixo da Faca”.
Em “O Açougueiro”, que assim como muitos contos de Singer possui elementos surrealistas, ele narra os conflitos de um açougueiro kosher que reconhece a própria negação moral na morte de cada animal reduzido à carne, além da legitimação da injustiça e da naturalização da crueldade. A história se passa no século 19, em um shtetl, ou seja, em uma cidadezinha de população predominantemente judia.
No matadouro, o protagonista começa a ter devaneios com vacas e galinhas se preparando para uma retaliação. Elas querem se vingar por toda a violência perpetrada contra os de suas espécies. Em um determinado momento, os animais berram: “Todo mundo pode matar e todo assassinato é permitido.” Embora tenha sido publicado na revista The New Yorker em 25 de novembro de 1967, “O Açougueiro” continua sendo um conto bastante atual, em que o escritor judeu aborda a realidade da produção de carne e atua como uma consciência moral, uma luz para a sociedade.
Singer dedicou pelo menos 35 anos de sua vida ao vegetarianismo, qualificado por ele como a sua própria religião. Sua principal motivação era a compaixão pelos animais. Antes de falecer em 24 de julho de 1991, aos 88 anos, o polonês concedeu uma entrevista ao escritor estadunidense Rynn Berry que o questionou se ele havia se tornado vegetariano por questões de saúde. “Não sou vegetariano pela minha saúde, mas pela saúde dos animais”, respondeu.
Isaac Bashevis, que escrevia principalmente em iídiche, não raramente questionava em seus contos a hipocrisia humana de consumir carne, e a incapacidade de ponderar sobre o real custo dela. Exemplo disso é um excerto do conto “Sangue”, do livro “Breve Sexta-Feira”, lançado em 1963.
Segurando o ganso, Reuben olhou Risha com intensidade, o olhar subindo e descendo e, afinal, detendo-se no peito. Ainda a fitá-la, golpeou o ganso. As penas brancas tingiram-se de sangue. O ganso torceu o pescoço, ameaçador, e súbito pulou, conseguindo voar alguns metros. Risha mordeu o lábio.
— Dizem que vocês nascem com instinto de assassinos, mas tornam-se açougueiros — disse ela.
— Se é tão delicada assim, por que me trouxe as aves?
— Por quê? Ora, é preciso comê-las!
— Pois para comer carne é preciso matar.

“O Açougueiro”, conto em que o escritor questiona a má relação do ser humano com os animais (Arquivo: The New Yorker)
Em “O Escritor de Cartas”, publicado na revista The New Yorker em 13 de janeiro de 1968, Singer narra a história de Herman Gombiner, um sobrevivente do Holocausto que vive em companhia de um rato. O vínculo entre os dois é tão intenso que Gombiner desenvolve uma consciência animalista: “O que eles sabem? Todos esses filósofos, todos os líderes do mundo? Convenceram-se de que o homem, o pior transgressor de todas as espécies é a coroa da criação. Todas as outras criaturas foram criadas apenas para fornecer-lhe comida e pele, para serem atormentadas e exterminadas. Em relação a elas, todas as pessoas são nazistas. Para os animais, há uma Treblinka eterna.”
O escritor polonês viu semelhanças entre a realidade das vítimas do Holocausto e dos animais transformados em comida, isto porque os dois viveram a experiência do confinamento em espaços apertados, sendo transportados sem água e alimento. “A diferença é que os nazistas tentaram varrer os judeus da face da Terra enquanto os pecuaristas visam sempre aumentar a produção e a quantidade de vítimas”, avalia o escritor Jeffrey Cohan, autor de “Isaac Bashevis Singer, Yiddish Food Writer”.
“Três açougueiros matavam aves sobre uma pia de mármore que refletia a luz de um lampião de querosene, estendendo-as depois a depenadores, que as depenavam e amontoavam-nas, ainda vivas, num cesto.” Excerto de “Debaixo da Faca”, página 66 de “Breve Sexta-Feira”.
De acordo com Isaac Bashevis Singer, quando um ser humano mata um animal para comer, ele negligencia sua própria fome de justiça. “O homem reza por clemência, mas não se dispõe a estendê-la aos outros. Por que então ele deve esperar misericórdia de Deus? É injusto esperar algo que você não está disposto a oferecer”, registrou no texto publicado como prefácio do livro “Diet for Transcendence: Vegetarianism and the World Religions”, de Steven Rosen, de 1987.
Questionado sobre o que diz a Bíblia em relação à sua filosofia de vida, Singer argumentou que a defesa do vegetarianismo pode ser encontrada no Velho Testamento. “Às vezes, eles dizem que Deus quer que animais sejam sacrificados e mortos. […] Mas eu acredito que Deus é sábio e mais piedoso do que isso. E há interpretações das escrituras religiosas dizendo que o vegetarianismo é um grande ideal. Se as pessoas aceitam ou não a interpretação do que é ser vegetariano no contexto da religião, isso não me importa. […] Vou continuar sendo vegetariano, mesmo que o mundo inteiro comece a comer carne”, declarou o premiado escritor na obra “Diet for Transcendence”.
Para Bashevis Singer, ser vegetariano é um protesto, um ato de discordância em relação ao status quo. “Poder nuclear, fome, crueldade, nós temos que nos posicionar contra essas coisas”, recomendou. Mas nada o entristecia mais do que o sofrimento animal. Citava como exemplo o fato dos animais serem capazes de demonstrar benevolência mesmo diante de uma faca ou outra arma a ser usada para matá-los.

“O homem não tem o direito de matar um animal e torturá-lo simplesmente para ‘encher sua barriga de carne'” (Foto: Reprodução)
“Isso me dá um sentimento de miséria e às vezes de raiva em relação a Deus. Você precisa de sua glória para estar conectado com o sofrimento de tantas criaturas ingloriosas, que apenas gostariam de passar alguns anos em paz. Sinto que os animais estão tão confusos quanto nós, exceto que eles não são capazes de comunicar isso”, desabafou em entrevista à revista Newsweek em 16 de outubro de 1978, após receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Segundo o escritor polonês, o homem não tem o direito de matar um animal e torturá-lo simplesmente para “encher sua barriga de carne”, ainda mais levando em conta que os animais podem sofrer tanto quanto os seres humanos. Na realidade, a sensibilidade e as emoções animais são ainda mais intensas porque eles não têm a capacidade de verbalizá-las. “Vários religiosos e filósofos tentaram convencer seus discípulos e seguidores de que animais não são nada mais do que máquinas sem alma, sem sentimentos. No entanto, qualquer pessoa que viveu com um animal, seja um cão, um pássaro ou um rato, sabe que esta teoria é uma mentira descarada, inventada para justificar a crueldade”, critica.
“O vento não era dos mais fortes, e no entanto Cunegunde sabia de onde vinha. Tinha o poder de sentir o odor de carvões fumegantes, carne e outra coisa oleosa e rançosa, cuja fonte somente ela podia perceber. Sua boca desdentada franziu-se num arreganho: “É uma pestilência, uma pestilência. A aproximação da morte…” Excerto de “Cunengunde”, página 138 de “Breve Sexta-Feira”.
Isaac Singer jamais deixou de se surpreender quando lia sobre humanistas, poetas altamente sensíveis, pregadores da moralidade e benfeitores de todos os tipos que sentiam prazer em caçar – perseguindo pobres lebres e raposas, e ensinando seus cães a fazerem o mesmo. “Pessoas dizem que quando se aposentar vão se dedicar à pesca. Falam isso com um entendimento de que a partir de então não farão mais mal a ninguém. Como se uma época de caridade e tranquilidade fosse começar em suas vidas. Nunca lhes ocorre por um momento que esses seres inocentes vão sofrer e morrer por causa de um esporte ‘inocente’. Às vezes, tenho medo de que a caça aos seres humanos também se torne um esporte”, lamentou.
No livro “Food for the Spirit: Vegetarianism and the World Religions”, de Steven Rosen, lançado em 1987, Singer afirmou que os seres humanos não terão paz enquanto continuarem derramando o sangue dos animais. “Foi necessário um pequeno passo baseado na matança de animais para que fossem construídas as câmaras de gás de Hitler e os campos de concentração de Stalin. Todas essas ações foram praticadas em nome da justiça social. Não haverá justiça enquanto o homem empunhar uma faca ou outra arma para destruir seres mais fracos que ele”, queixou-se. Por outro lado, o escritor reconheceu que sempre vão existir pessoas dispostas a protestarem contra a tortura e a matança de animais.
“Antes de morrer, chamou o rabi e os sete anciãos e informou-lhes que seu nome era Reuben, o açougueiro, com quem Risha cometera pecados. Durante anos vagueara ele de cidade em cidade, sem comer carne, jejuando às segundas e quintas-feiras, usando um saco à guisa de camisa e arrependendo-se de suas abominações.” Excerto de “Sangue”, página 31 do livro “Breve Sexta-Feira”.
Saiba Mais
Isaac Bashevis Singer nasceu em 21 de novembro de 1902 em Leoncin, na Polônia, e faleceu em 24 de julho de 1991 em Surfside, Flórida, nos Estados Unidos, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC).
Em Tel Aviv, em Israel, foi construído o Isaac Bashevis Singer Humane Education. O centro, que possui uma extensa biblioteca e uma grande videoteca, faz um trabalho de prevenção à crueldade contra animais. A entidade possui um programa específico para educar crianças judias e árabes sobre como elas podem ajudar os animais.
Referências
Singer, Bashevis Isaac. Breve Sexta-Feira (1963). Tradução de Hélio Pólvora. Livraria Francisco Alves Editora (1978).
Singer, Bashevis Isaac. The Collected Stories of Isaac Bashevis Singer. Farrar, Straus and Giroux (1983).
Noiville, Florence. Isaac B. Singer: A Life. Northwestern University Press (2008).
Berry, Rynn. Famous Vegetarians and Their Favorite Recipes: Lives and Lore from Buddha to the Beatles. Pythagorean Publishers (1993). Eight Printing (2003).
Rosen, Steven. From Food for the Spirit: Vegetarianism and the World Religions. Bala Books (1987).
Rosen, Steven. Diet for Transcendence: Vegetarianism and the World Religions (1987). Torchlight Publishing; Revised Edition (1997).
Cohan, Jeffrey. Isaac Bashevis Singer, Yiddish Food Writer (20 de novembro de 2012). Disponível em http://forward.com/food/166228/isaac-bashevis-singer-yiddish-food-writer/
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Amílcar de Sousa: “A carne não é o alimento do homem”
“A maior parte da gente […] se visse morrer os animais, não se banquetearia com tão grande gáudio…”
Foi em 1908 que o médico Amílcar Augusto Queirós de Sousa, defensor do vegetarianismo, fundou na Avenida Rodrigues de Freitas, na cidade do Porto, a Sociedade Vegetariana de Portugal. No ano seguinte, Sousa inaugurou a revista “O Vegetariano”, periódico mensal que circulou até 1918 e teve boa repercussão na Europa e no Brasil.
Especialista em dietética e nutrição, Amílcar escreveu que da velha confusão de teorias médicas, da grande época obscura do empirismo, como um dogma da ciência de então, uma forma errónea e cheia de preconceito, como se fora um mandado religioso e por isso mesmo eivado de má fé, surgiu com esta frase perturbante: o homem é omnívoro. Como à boca se pode levar tudo que queira, daí resultou essa monstruosidade deturpante da humanidade. Tal reflexão consta na página 45 da 4ª edição da revista “O Vegetariano”, publicada em 1912. À época, Sousa já realizava conferências e palestras em defesa do vegetarianismo.
No livro “As Hortaliças na Medicina Natural”, lançado em 1992, Alfons Balbach e Daniel S.F. Boarim narram que Amílcar de Sousa foi um grande apologista do regime frugívoro: não só ele, como toda a família, só se alimentavam de frutas. “Na sua revista intitulada ‘O Vegetarianismo’ tem feito propaganda das mais inteligentes e proveitosas em favor deste regime, e o número de adeptos que conseguiu converter ao regime frugívoro orça por muitas centenas em tempo relativamente curto”, registraram.
Na obra “O Livro Negro do Açúcar – Algumas Verdades Sobre a Indústria da Doença”, de 2006, Fernando Carvalho observa que Amílcar de Sousa, um médico do século XIX, estava melhor informado do que seus colegas da atualidade. “Desde a forma dos dentes à capacidade do estômago e às dimensões do intestino, como dados anatómicos em referência à comparação da série animal de que o homem é primaz – tudo demonstra que o gênero humano não é omnívoro. A dentadura é semelhante à dos símios antropoides que se alimentam de frutos; e se os obrigarmos a serem carnívoros, imediatamente estigmas de degenerescência se notam, doenças de pele, a queda dos pelos, o reumático e outras manifestações de artritismo”, argumenta Sousa no artigo “O Homem é Frugívoro”, de 1912.
Em setembro do mesmo ano, o médico publicou “O Caldo de Carne”. No artigo da revista “O Vegetariano”, ele afirma que a carne não é o alimento do homem. Se fosse, o ser humano deveria ter condições de matar os animais com mãos e garras, triturando os ossos ou lacerando os músculos ainda quentes com os dentes, assim como faz a hiena. “Desprovido de armas cortantes e do artifício da culinária, o homem não pode utilizar-se da carne nem do peixe”, justifica.

Periódico em que Sousa divulgava suas ideias e descobertas em relação ao vegetarianismo (Foto: Reprodução)
Segundo o médico português, para uma consciência límpida e um espírito moral, ver morrer um boi é um espetáculo canibalesco e incompatível com a humanidade. “Assistir ao assassinato dum cordeiro é, sem dúvida, barbaridade infame. Queremos acreditar que a maior parte da gente que bebe às colheres a sopa, ou corta com a faca um pedaço de vaca, se visse morrer os animais, não se banquetearia com tão grande gáudio…”, defendeu no artigo “Caldo de Carne”.
Um homem revolucionário, Amílcar de Sousa é considerado pela Associação Vegetariana Portuguesa (AVP) o maior impulsionador do vegetarianismo e do naturismo em Portugal. “Ele conseguiu mobilizar outros médicos e personalidades da burguesia para o estilo de vida natural e saudável”, reconhecem Gabriela Oliveira e Nuno Metello no artigo “Vegetarianos há mais de um século”, publicado no semanário português SOL em 2011.
Em 1923, Sousa publicou a novela naturista “Redenção”, que aborda a importância da proximidade do ser humano com a natureza. Na obra, ele defende uma consciência ética universal, em que os animais têm assegurado o direito de não serem mortos simplesmente para atender maus hábitos culturais e alimentares da humanidade.
“Mas por que é que estas ideias [do vegetarianismo] não as tem defendido a classe médica? É simples a resposta. É que não há pílulas de sol, nem injecções de exercício, nem tão pouco vacinas de ar… e é preciso viver dos doentes. O médico do futuro é só aquele que nada receitar. Ensinem os doentes a viverem conforme a natureza e os sãos a não se desviarem dela. O medicamento fez já as suas provas. São negativas”, declarou na revista “O Vegetariano” em abril de 1912.
Segundo Amílcar de Souza, o melhor que os pais podem deixar aos filhos é a saúde. Portanto, para que os filhos não tenham doenças, o ideal é ensiná-los a seguir um regime natural, valorizar a vida ao ar livre e praticar exercícios regulares. “A alimentação humana tem sido desvirtuada pelo preconceito. [O leite] não é alimento do homem, mas sim dos filhos das vacas, dos cabritos, dos jumentos etc., antes de terem dentes para comer as ervas dos montes e prados! […] A velha fábula de Prometeu que roubou o fogo do céu para comer os cadáveres dos animais cozinhados, eis a base em que assenta toda a errónea conduta da humanidade”, enfatizou em publicação da revista “O Vegetariano” de 5 de julho de 1912.
O pioneiro do vegetarianismo português

Maria Feio: “[Amílcar de Sousa] Dispõe de uma resistência hercúlea. Caminha dezenas de quilómetros a pé sem a menor fadiga” (Foto: Reprodução)
Obras publicadas por Amílcar de Sousa
“O Naturismo”, “A Saúde pelo Naturismo”, “A Cura da Prisão do Ventre”, “A Redenção”, “Arte de Viver”, “Banhos de Sol” e “O Naturismo em Vinte Lições”.
Saiba Mais
Amílcar de Sousa era amigo do poeta brasileiro e também defensor do vegetarianismo Carlos Dias Fernandes, com quem se correspondia frequentemente.
Adepto do pedestrianismo, o médico chegou a viajar de Lisboa a Sines a pé, percorrendo mais de 160 quilômetros. Além disso, gostava de caminhar descalço. Faleceu na cidade do Porto em 1940.
Sousa considerava Pitágoras o maior filósofo da história da humanidade. Para ele, Jean-Jacques Rousseau, que defendia a importância do contato das crianças com a natureza, era o melhor educador.
Referências
O Vegetariano: Mensário Naturista Ilustrado – Volumes I a IV. Sociedade Vegetariana de Portugal (1912).
Boarim, Daniel S.F.; Balbach, Alfons. As Hortaliças na Medicina Natural (1992).
Oliveira, Gabriela; Metello, Nuno. Vegetarianos há mais de um século. Semanário SOL. Páginas 40 e 41 (30 de setembro de 2011). Disponível em http://www.avp.org.pt/notiacutecias/vegetarianos-h-mais-de-um-sculo
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédia. Volume 29. Página 761.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:









