David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Vegetariano’ tag

Batata pré-frita pode não ser vegetariana

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Muita gente crê que batata pré-frita, por se tratar de um tubérculo, não tem como não ser um alimento vegetariano, mas a realidade é que tem como sim, principalmente porque a batata pode ter sido pré-frita em banha, ou seja, gordura de porco. O mesmo pode acontecer quando você pede uma porção de fritas em algum lugar. Por isso é importante ficar atento ou entrar em contato com o fabricante caso as informações não estejam tão claras.





Written by David Arioch

September 25th, 2017 at 12:54 am

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Multivitamínico vegano da Deva Nutrition

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Foto: David Arioch

Uma opção para veganos e vegetarianos que precisam de um multivitamínico livre de ingredientes de origem animal, e também livre de testes em animais, é o multivitamínico da Deva Nutrition, uma empresa pioneira na fabricação e distribuição de suplementos veganos nos Estados Unidos. A Deva ajuda organizações comprometidas com os direitos animais e é registrada junto à Vegan Society. Também faz parte da Green America e é parceira da American Forests. Todos os seus produtos têm certificação GMP, de boas práticas de produção, começando pela escolha ética da matéria-prima. Os produtos deles estão à venda na Iherb.

Para mais informações, acesse o site da Deva Nutrition.

 





Written by David Arioch

September 14th, 2017 at 8:21 pm

Não brigo para parecer mais ou menos vegano aos olhos de ninguém

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Arte: Sue Coe

Não brigo para parecer mais ou menos vegano aos olhos de ninguém. O foco do meu trabalho não é esse, mas sim informar, conscientizar e sensibilizar as pessoas sobre a exploração animal. Sou um cara comum, que anda e vive como uma pessoa comum. Como já disse outras vezes, as pessoas podem me chamar do que elas quiserem: vegano, vegetariano ou nada. Eu me importaria ou brigaria por algo assim se a minha luta fosse por identidade, mas não é. Minha luta é por justiça, e essa luta independe disso.

 





“Cara, não consigo gostar de comida vegana”

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“Porque isso é alimentação vegana, e você acabou de falar que não gosta disso”

— Cara, não consigo gostar de comida vegana.
— Sério mesmo?
— É sim…é muito estranha. Acho que não é pra mim…
— Por quê?
— Muita privação. Não consigo viver sem ter uma alimentação bem diversificada.
— Então vamos tirar esse arroz, feijão, tomate seco, palmito, couve, brócolis, ervilhas e cabotiá do seu prato. E também esse suco de laranja puro. E deixemos você só com a carne. Que tal?
— Por quê?
— Porque isso é alimentação vegana, e você acabou de falar que não gosta disso.
— Não, cara. Isso é comida normal, de quem come carne.
— E o que você acha que veganos comem?
— Não sei. Coisas estranhas, incomuns.
— Não, meu camarada. Veganos comem tudo aquilo que não envolve ingredientes de origem animal. Na nossa alimentação as possibilidades de variedade são imensas. Basta pensar da seguinte maneira – se uma pessoa não se alimenta de animais, o que resta? Uma infinidade de sabores. Agora me diga o que você consome no café da manhã.
— Aveia, banana, whey protein, cacau em pó…
— Substitua o whey protein por proteína vegetal e temos uma refeição para veganos.
— É?
— Sim, sem dúvida alguma.
— O que você come depois?
— Lá pelas nove e meia, normalmente como pão integral com queijo ou com ovo, e tomo um copo de leite.
— Entendi. Mantenha o pão integral, mas substitua o queijo por pasta de amendoim, ou, se tiver condições, por tofu ou outro tipo de queijo vegetal, que podem ser inclusive preparados em casa. Ou o ovo por hambúrguer de feijão, também de preparo muito fácil em um final de semana com algum tempo livre. E claro, além de barato. Também troque o leite por leite vegetal. Isso é alimentação vegana.
— Me parece mais simples do que imaginei.
— Pois é…

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Written by David Arioch

July 13th, 2017 at 9:27 pm

Bola Sete, um vegetariano que deixou seu nome na história do jazz

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Carlos Santana considera Bola Sete um dos maiores guitarristas de todos os tempos (Foto: Reprodução)

O compositor, violonista e guitarrista carioca Bola Sete, que foi aluno do maestro Milton Santos, fez muito sucesso tocando jazz nos Estados Unidos e no México nas décadas de 1960 e 1970. De origem pobre, mas com uma herança musical muito forte, descobriu a aptidão para a música ainda na infância, quando começou a tocar cavaquinho e violão.

No Estados Unidos, Bola Sete foi um grande parceiro de Dizzy Gillespie e Vince Guaraldi, com quem lançou em 1963 o disco “Vince Guaraldi, Bola Sete and Friends”. Guaraldi foi o autor da trilha sonora do desenho animado “Peanuts”, que traz personagens como Charlie Brown e Snoopy. Em 1967, Bola Sete deixou o Vince Guaraldi Trio para criar o seu próprio trio, que trazia na formação os brasileiros Sebastião Neto e Paulinho, contrabaixista e baterista.

Quando o grupo decidiu se separar, Bola Sete já era um homem de meia-idade com sobrepeso e alguns problemas de saúde. Então ele viu que seria necessário dar uma guinada em sua vida. Parou de tocar e começou a meditar, praticando regularmente o hatha yoga. Primeiro, ele abandonou o consumo de carne e mais tarde se tornou vegetariano.

“Isso não apenas permitiu que ele perdesse mais de 22 quilos, mas também que ele conseguisse controlar a sua asma agravada por anos inalando fumaça nos clubes onde tocava. O novo estilo de vida garantiu que ele produzisse a música mais incrível de sua carreira”, afirmou o pesquisador Gerald E. Brennan.

Embora Bola Sete tenha seu nome quase sempre relacionado ao jazz, estudiosos de sua música como Brennan o consideram o pai da música new age. Isto porque as composições do brasileiro se tornaram muito espiritualizadas, destoando do jazz tradicional; algo que ficou mais claro depois que ele se tornou vegetariano.

Em 1970, quando excursionou pelo México com Stan Getz e outros artistas do jazz, Bola Sete se tornou extremamente popular, o que o motivou a lançar em 1971 o álbum “Shebaba”. “Bola Sete é tão significativo quanto Jimi Hendrix e Segovia, no sentido de ter sabedoria, conhecimento, alma e paixão”, escreveu o célebre guitarrista mexicano Carlos Santana. Nos Estados Unidos, há mais artistas que consideram Bola Sete um dos maiores guitarristas de todos os tempos, e não somente do jazz.

Saiba Mais

Djalma de Andrade, mais conhecido como Bola Sete, nasceu em 16 de julho de 1923 no Rio de Janeiro, e faleceu nos Estados Unidos em Greenbrae, na Califórnia, em 14 de fevereiro de 1987.

Entre os anos de 1958 e 1985, Bola Sete gravou 14 discos.

Referências

Http://www.bolasete.com/index.php

http://www.musicianguide.com/biographies/1608002433/Bola-Sete.html

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Eraldo, um bom exemplo

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Por volta das 14h, na saída de Maringá, passei no Catuaí e decidi comer alguma coisa no restaurante Jin Jin Wok. Peguei um prato e percebi que havia poucas opções para quem é vegetariano ou vegano. Muitos dos alimentos deles que não têm carne, normalmente têm ovo ou algum derivado lácteo.

Então peguei os únicos alimentos vegetarianos disponíveis e fui até o outro lado ver o que eles tinham preparado de sushi. Olhando atentamente, notei que não havia nada para mim. Então perguntei ao sushiman se eles não tinham nenhum sushi sem ingredientes de origem animal.

Ele me mostrou um sushi com pepino, mas avisou que não estava tão fresco, e sugeriu que eu esperasse porque ele iria preparar algo. No mesmo instante, pediu a uma mulher que estava no caixa para não cobrar pelo sushi, justificando que não havia nada para mim entre as opções prontas.

Assim que pesei meu prato e paguei a conta, caminhei até o sushiman e ele pediu que eu posicionasse meu prato em sua direção. Me entregou oito unidades de sushi de três variedades e perguntou se eu queria mais. Agradeci, mas expliquei que era o suficiente.

Depois de comer, o agradeci mais uma vez pela gentileza. Então eu soube que seu nome é Eraldo. Está aí um exemplo de bom profissional e ser humano.





Written by David Arioch

February 18th, 2017 at 9:02 pm

O vegetarianismo de Sadegh Hedayat, expoente da literatura moderna persa

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“Até quando vamos fechar os olhos diante de tanta barbárie?”

Foto: The Sadegh Hedayat Foundation

Hedayat: “Mesmo que matar pareça ‘útil’ para os seres humanos, que alegria poderia haver em torturá-los?” Foto: The Sadegh Hedayat Foundation

Em 1924, o escritor iraniano Sadegh Hedayat, expoente da literatura moderna persa, publicou o livro Ensān o ḥaywān (Homens e Animais), em que faz críticas ao comportamento especista humano. Três anos depois, lançou o livro Fawāyed-e giāh-ḵᵛāri (Os Benefícios do Vegetarianismo).

A obra que discute os direitos animais teve grande repercussão, inclusive na Europa, logo depois de sair em versão alemã e inglesa. O que levou o escritor iraniano a tornar-se vegetariano e a abordar o tema em sua literatura foi o fato dele ter testemunhado o brutal abate de um camelo.

Em 1936, Hedayat publicou Boof-e koor (A Coruja Cega), considerada sua grande obra-prima. No livro, lançado originalmente em Bombaim, na Índia, ele faz referências ao budismo e ao hinduísmo, o que gerou muitas controvérsias no Irã. No entanto, o aspecto mais intrigante do livro é a morte enquanto tema. Na história, o protagonista faz confissões às sombras que imitam as formas de uma coruja em uma parede.

“A presença da morte aniquila tudo que é imaginário. Somos a prole da morte e a morte nos livra das atrações tentadoras e fraudulentas da vida. É a morte que nos acena das profundezas da vida. Se às vezes chegamos a uma parada, o fazemos para ouvir o chamado da morte. Ao longo de nossas vidas, o dedo da morte aponta para nós”, escreveu em A Coruja Cega.

No conto persa Sag-e Velgard (O Cão de Rua), publicado em 1942, Hedayat, considerado o pai do vegetarianismo moderno no Irã, apresenta uma versão ficcional do livro ensaístico Homens e Animais. Na obra, faz críticas contundentes à crueldade humana e a naturalização da violência:

“No Irã, o burro nasce para trabalhar e ser torturado. O cachorro é assassinado em nome de Deus. O gato é lançado dentro de um poço e o rato é enterrado vivo nas vias públicas. Mesmo que matar pareça ‘útil’ para os seres humanos, que alegria poderia haver em torturá-los? Até quando vamos fechar os olhos diante de tanta barbárie?

Em frente à padaria, o assistente de padeiro batia no cachorro. Em frente aos açougueiros, o jovem ajudante arremessava tijolos. Tentando se esconder debaixo de um automóvel, o animal foi saudado pelas pesadas botas do motorista.

E quando todos os outros se cansaram de machucá-lo, foi a vez do garoto que vendia pudim de arroz feri-lo com especial satisfação. Ele continuava lançando tijolos em suas costas e, conforme o cãozinho gemia, ele ria em voz alta e gritava: ‘Seu pequeno bastardo!’ Todos eles espancaram o cachorro em nome de Deus.”

Referências

Encyclopaedia Iranica. Hedayat, Sadeq i. Life and Work (2003).

Hedayat, Sadeq. The Blind Owl. l-Aleph (2011).

Hedayat, Sadeq. Sag-e Vilgard. Negah; 2nd edition (2004).

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Mahler acreditava que o vegetarianismo é o caminho para a regeneração da humanidade

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“Os efeitos morais desse estilo de vida são imensos. Você pode julgar por si mesmo…”

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Mahler adotou o vegetarianismo por influência do compositor alemão Richard Wagner (Foto: Reprodução)

Símbolo do pós-romantismo e considerado um dos mais importantes compositores de todos os tempos, o austríaco Gustav Mahler se tornou vegetariano por influência das teorias de regeneração do compositor alemão Richard Wagner. Em carta escrita a Emil Freund em 1º de novembro de 1880, ele se queixou que precisava de algum tipo de conforto porque via miséria em todos os lugares e das mais diferentes formas.

“Se você conhece uma pessoa nesta terra que seja realmente feliz, diga-me seu nome rapidamente, antes que eu perca os últimos vestígios de coragem que resistem em mim. Qualquer um que tenha observado uma natureza verdadeiramente nobre e profunda lutando contra a mesquinhíssima mesquinhez, e que por isso perece, dificilmente ignora o próprio estremecimento, quando este considera em primeiro lugar a chance de salvar a sua própria e pobre pele”, escreveu Mahler.

Na carta, o compositor diz que no Dia de Todos-os-Santos ele colocaria flores no túmulo de uma amiga que cometera suicídio, uma jovem que ele conheceu aos 18 anos em Seelau, na casa dos pais de Freund, a algumas horas de distância de Jihlava, sua cidade natal. Os dois tinham grande afeto um pelo outro, e ela era fascinada pelo talento de Mahler ao piano. E foi pela fragilidade do seu estado de espírito ao saber da morte da amiga que ele teve contato com as teorias de Wagner e decidiu mudar de vida. Um mês depois de tornar-se vegetariano, ele anotou suas impressões e as enviou para Emil:

“Os efeitos morais desse estilo de vida são imensos. Você pode julgar por si mesmo o quão convencido estou, quando lhe digo que não espero menos do que a regeneração da humanidade”, declarou em referência ao vegetarianismo. Também sugeriu ao amigo que adotasse um estilo de vida mais natural, com nutrição adequada, alegando que logo ele sentiria os benefícios, de acordo com informações das páginas 165 e 166 do livro “Gustav Mahler: New Insights into His Life, Times and Work”, de Alfred Mathis-Rosenzweig.

À época, em transição para o vegetarianismo, mas ainda amargando tristeza recente, ele concluiu a famosa cantata Das Klagende Lied (A Canção da Lamentação) que, embora inspirada em um conto dos Irmãos Grimm, revela o seu próprio estado de espírito. “Minha peça está terminada. Um verdadeiro lamento de criança que me tomou alguns anos de trabalho, mas que acabou por valer a pena. O meu próximo passo é usar todos os recursos disponíveis para executá-la”, revelou em correspondência a Freund.

“Na estalagem, onde os cantores se encontravam à noite, ele era visto como ridículo por consumir água em vez de cerveja ou vinho. Recusando carne, pedia por maçãs e espinafre, e declarou sua lealdade aos princípios vegetarianos de Richard wagner. Os cidadãos desta pequena cidade concordaram que ele era um espécime muito estranho”, registrou o especialista em sociologia da música Kurt Blaukopf em referência à estadia de Gustav Mahler em Olomouc, na República Tcheca, entre os dias 11 e 17 de março de 1883.

Em 1894, Mahler decidiu se aprofundar no trabalho de Schopenhauer quando descobriu que ele foi a principal influência de Wagner no que diz respeito ao vegetarianismo. Para Rosenzweig, o interesse de Mahler se justificou pelo fato de que ele, assim como outros vegetarianos e entusiastas da época, buscava motivações menos místicas sobre o vegetarianismo.

Saiba Mais

Gustav Mahler nasceu em Kalischt, na Boêmia, atual República Tcheca, em 7 de julho de 1860 e faleceu em 18 de maio de 1911 em decorrência de endocardite bacteriana.

Referências

Blaukopf, Kurt. Mahler: His Life, Work and World. Thames & Hudson (2000).

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O vegetarianismo na vida de John Coltrane

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“Dick Bock me contou que John tinha abandonado a carne para se tornar vegetariano”

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John Coltrane se tornou vegetariano no final dos anos 1950 (Foto: johncoltrane.com)

No final dos anos 1950, John Coltrane, um dos maiores compositores e saxofonistas de jazz da história, passou por uma conversão espiritual e também se tornou vegetariano. Sobre o assunto, o famoso compositor indiano Ravi Shankar escreveu em seu livro “Raga Mala”, publicado em 1997, que John Coltrane era muito diferente de seus contemporâneos:

“Tão limpo, com boas maneiras e humilde. Seis meses antes, ele havia se livrado das drogas e da bebida.” Coltrane foi influenciado pelo compositor de jazz Sun Ra, que o motivou a mudar de vida, aderir ao vegetarianismo e ouvir as composições de Ravi Shankar.

Em seu site oficial, Shankar escreveu que conheceu muitos compositores de jazz, e que a maioria deles tinha algum tipo de vício, mas John Coltrane era uma pessoa diferente. “Dick Bock [Richard Bock, da Pacific Jazz Records] havia me contado que John tinha abandonado a carne para se tornar vegetariano, e estava lendo os livros de Shri Ramakrishna e praticando ioga.”

Nicholas L. Baham III, professor da Universidade Estadual da Califórnia e autor do livro “The Coltrane Church: apostles of Sound, Agents of Social Justice”, escreveu que quando Coltrane se tornou vegetariano, o vegetarianismo se tornou parte dele e de suas crenças, o que refletiu muito bem em sua música. Àquela altura, o compositor também já se posicionava como pacifista.

A Love Supreme”, lançado em 1965, e considerado um dos maiores discos da história do jazz, manifesta a sua grande transformação de viés espiritual.  “Coltrane sentiu que nós temos que fazer um esforço consciente para efetuar mudanças positivas no mundo, e sua música é um instrumento para a criação de padrões de pensamentos positivos na mente das pessoas”, de acordo com o site johncoltrane.com.

Embora tenha sentido os efeitos positivos da filosofia de vida adotada no final dos anos 1950, John Coltrane faleceu precocemente aos 40 anos, vítima de um câncer de fígado. A doença surgiu em decorrência do abuso de álcool e heroína até o início da década de 1950.

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Written by David Arioch

December 30th, 2016 at 12:46 pm

Al-Ma’arri, o poeta “vegano” do século XI

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Importante pensador árabe condenava a exploração animal em todos os aspectos

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“Ele alcançou a originalidade quando ainda respirava o reminiscente ar de liberdade dos poetas pré-islâmicos da Era da Ignorância” (Arte: Reprodução)

Um dos mais importantes poetas árabes de todos os tempos, o sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri ficou conhecido no século XI por sua postura antirreligiosa e por condenar a exploração animal em todos os aspectos. Uma de suas obras mais famosas, e que aborda a sua adoção de uma filosofia de vida que hoje se enquadraria como veganismo, é o poema “Já Não Roubo da Natureza”.

Aos quatro anos, Al-Ma’arri ficou cego depois de contrair varíola. Mais tarde, deixou Ma’arrat al-Numan, sua cidade natal, para estudar. O sírio foi para Aleppo e depois para a Antióquia, onde a cultura predominante era helenista. Também viveu em outras cidades. Até os sete anos, um de seus grandes professores foi Ibn Kalawayth, um famoso erudito persa do século X, referência em gramática árabe e exegese corânica, falecido em 980. Em “Risālat al-Ghufrān”, seu trabalho mais conhecido, Al-Ma’arri lamenta profundamente a morte de seu mestre.

A obra poética que poderia ser traduzida como “A Epístola do Perdão”, assim como o sagrado Livro de Arda Viraf, é considerada uma das obras que possivelmente influenciou Dante Alighieri a escrever “A Divina Comédia”, publicada entre 1304 e 1321. Em “Risālat al-Ghufrān”, Al-Ma’arri narra a viagem de um poeta para o céu e para o inferno, onde ele encontra os maiores nomes da literatura árabe sendo punidos e recompensados por seus trabalhos. Para confrontar as crenças islâmicas, Al-Ma’arri apresenta um céu também ocupado por pessoas não-muçulmanas.

“Ele alcançou a originalidade quando ainda respirava o reminiscente ar de liberdade dos poetas pré-islâmicos da Era da Ignorância. Assim como o autor de Eclesiastes, al-Ma’arri descreveu o mundo a partir de um ponto de vista distanciado, aristocrático e ligeiramente desdenhoso”, analisam Cyril Glassé e Huston Smith na página 278 do livro “The New Encyclopedia of Islam”, de 2008.

Se por um lado, o sírio era visto como um racionalista controverso e pessimista que se dedicava a criticar o cristianismo, judaísmo, islamismo e zoroastrismo, por outro, ele advogada em nome da justiça social e dos direitos animais. As suas principais ferramentas de conscientização eram a sua produção literária e os seus discursos. Se sentia tão incomodado com os rumos da humanidade que chegou a dizer que talvez o melhor caminho fosse a anti-natalidade. No seu entendimento, era a forma mais eficaz de poupar as crianças das dores da vida.

Al-Qifti, renomado escritor egípcio da literatura islâmica medieval registrou que durante viagem para Trípoli, Al Ma’arri visitou um mosteiro perto da Lataquia, onde ouviu um debate sobre filosofia helênica. A discussão despertou nele um sentimento de ceticismo e irreligiosidade. O biógrafo e historiador sírio Ibn al-Adim rejeita essa versão, alegando que Al Ma’arri jamais teve contato com culturas não-islâmicas. Embora não haja consenso sobre esse aspecto de sua vida, ele jamais deixou de criticar a religião em seus versos. Em “As Duas Verdades Universais”, o poeta sírio escreveu:

Al Ma'arri advogada em nome da justiça social e dos direitos animais (Arte: Reprodução)

Al Ma’arri advogada em nome da justiça social e dos direitos animais (Arte: Reprodução)

Erram todos – judeus, cristãos,

muçulmanos e masdeístas:

A humanidade segue duas seitas:

Uma: pensadores sem religião,

Outra: religiosos sem cabeça.

A sua maior rejeição em relação à religião subsistia no fato de que os discursos dos profetas sempre foram baseados em afirmações inquestionáveis. Por essa sua posição, Ma’Arri um dia foi arrastado pelos pés para fora da casa do erudito islâmico e poeta Sharif al-Radi, em Bagdá. O erudito islâmico Ibn al-Kawzi, descendente de Abu Bakr, companheiro do profeta Maomé, o acusou de ser um zindiq, ou seja, alguém contrário aos dogmas islâmicos.

“Em meio a suas meditações sobre a tragédia humana, explodiu o ódio feroz da injustiça, da hipocrisia e da superstição”, avalia o escritor Reynold Nicholson no livro “Studies in Islamic Poetry”, escrito durante a Primeira Guerra Mundial e publicado em 1921. Al-Ma’arri enfatizava que o ser humano buscava refúgio nas histórias religiosas como forma de amenizar a sua solidão espiritual despertada por sua má conduta.

Em síntese, o sírio declarava que a religião era uma instituição humana inventada para atuar como fonte de poder e renda para seus fundadores e sacerdotes. Para isso, em sua concepção, valem-se de documentos falsos atribuídos à inspiração divina.

 Abandona a mesquita e evita louvor,

Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,

Pois o Destino trará cálice de sono

Ou cálice de insônia. O que vier, beba.

Selo comemorativo com a imagem do poeta sírio (Foto: Reprodução)

Selo comemorativo com a imagem do poeta sírio (Foto: Reprodução)

Foi justamente por condenar o sacrifício de animais que Al-Ma’arri se tornou vegetariano aos 30 anos. No entanto, somente décadas depois decidiu registrar o que o levou a se abster de carne e derivados de origem animal. Ele citou como referência um antigo médico grego e, mesmo avesso à religião, mencionou também o Alcorão. Para o filósofo sírio, é inconcebível gerar dor em outros seres para roubar leite e ovos. Al-Ma’arri dizia que ao fazer isso os homens agiam como ladrões.

Como Mahavira e os jainistas, ele acreditava na santidade da vida e definia como um ato de imoralidade causar qualquer prejuízo aos animais. Então se tornou um ferrenho opositor de todas as formas de exploração animal, inclusive de peles como vestuário. Vivendo com 20 dinares por ano, a sua alimentação era baseada em feijões e lentilhas.

Por causa de suas limitações em decorrência da deficiência visual, Al-Ma’arri contava com o serviço de um ajudante, e permitia que ele levasse a maior parte do seu ordenado, deixando apenas o suficiente para a sua comida. “Os homens de mente acurada me chamam de asceta, mas eles estão errados em sua classificação. Embora eu tenha disciplinado meus desejos, só abandonei os prazeres mundanos porque eles me privavam do melhor de mim”, garantiu.

Publicado há mais de mil anos, o poema “Já Não Roubo da Natureza” é a maior prova de sua “consciência vegana”. Em síntese, um manifesto à vida, já que ele via os animais como seres que não merecem padecer diante da injustiça humana:

Você foi subvertido pela compreensão e pela religião.

Venha a mim, para que você possa ouvir alguma verdade.

Não coma injustamente o peixe que a água sublevou,

E não deseje como alimento a carne de animais abatidos,

Ou o leite branco das mães que pretendiam alimentar seus bebês, não senhoras nobres.

Não aflija as inocentes aves tomando-lhes os ovos;

Pois a injustiça é o pior dos crimes.

E poupe o mel que as abelhas obtêm industriosamente das flores de plantas perfumadas;

Porque elas não o resguardaram para que pudesse pertencer a outros,

Nem o recolheram em troca de presentes ou recompensa.

Lavei minhas mãos de tudo isso; e gostaria de ter descoberto o meu caminho antes do meu cabelo ter ficado grisalho.

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1944 – Fathi Muhammad, autor da escultura de Abul ʿAla Al-Maʿarri (Foto: Reprodução)

Ao longo de três anos vivendo em Bagdá, onde foi muito bem recebido nos mais importantes salões literários, Al-Ma’arri escreveu o livro “Luzumiyyat” ou “Obrigação do que não é obrigatório”, que reúne uma coleção de versos que diferem da tradicional poesia árabe, principalmente pela estrutura irregular.

Enquanto viveu no Iraque, ele decepcionado ao testemunhar como os poetas se rebaixavam por causa de dinheiro. Muitos se dedicavam a escrever panegíricos, ou seja, ode aos seus ricos patronos. Quando reconheceu que aquele era o destino de um poeta em uma metrópole, o sírio decidiu retornar para casa. Sua decisão foi reforçada pela notícia de que sua mãe estava falecendo.

Em 1010, de volta a Ma’arrat al-Numan, ele decidiu não se ausentar mais. Em sua cidade natal, as pessoas gostavam de ouvi-lo ensinar sobre poesia e retórica. Sua popularidade era grande entre estudantes locais. Também se correspondia com estudantes estrangeiros. Niilista e com um humor assumidamente satírico, Al-Ma’arri afirmava não acreditar em alegria ou tristeza, classificando os dois estados emocionais como sendo um só. Mesmo assim, suas obras nunca deixaram de transmitir uma fé piedosa, espiritualidade, singular senso de humanidade e um contumaz anseio por liberdade de expressão.

Uma vez, ele escreveu um pedido de desculpas por qualquer ofensa que seu trabalho pudesse provocar:

“Não tentei enfeitar meus versos por meio da ficção, nem preencher minhas páginas com idílios de amor, cenas de batalhas, relatos de festas de vinho ou coisas do gênero. Meu objetivo é tão somente falar a verdade. Ora, o fim próprio da poesia não é verdade, mas sim falsidade, e na medida em que é desviada do seu próprio fim, sua perfeição é prejudicada. Portanto, devo desejar a indulgência de meus leitores por este livro de poesia moral.”

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Escultura foi decapitada por membros da Al-Nusra, um dos braços da Al-Qaeda (Foto: BBC News)

Mesmo tendo uma vida repleta de controvérsias, Abul ʿAla Al-Maʿarri jamais foi preso ou perseguido, mesmo com uma postura pré-anarquista. De 1010 até 1057, ano em que faleceu, o poeta viveu longos períodos de reclusão, simplesmente escrevendo. Tudo leva a crer que a sua cegueira, aliada à sua bela construção poética, contribuíram para que os líderes muçulmanos fossem indulgentes.

Historiador e arquiteto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Nasser Rabbat relata que Al-Ma’arri é um dos três principais ateus da história do islamismo. No século 20, o filósofo sírio passou a ser visto como um personagem da mesma estirpe dos grandes pensadores do iluminismo. Inclusive o Ocidente só conheceu o seu legado no Século das Luzes, ou seja, no século XVIII.

Escultura de Al-Ma’arri foi decapitada em 2013

Na década de 1940, o artista plástico Fathi Muhammad criou uma escultura em homenagem ao poeta e filósofo sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri. A estátua foi colocada em exibição no Museu de Maarat al-Numan, para que ela pudesse inspirar estudantes, pensadores e poetas sírios. Em uma noite de fevereiro de 2013, a escultura, que tinha duas vezes o seu tamanho natural, foi decapitada por fundamentalistas islâmicos da Frente Al-Nusra, um dos braços da Al-Qaeda. Antes, ela já havia sido alvejada a tiros.

Embora também seja qualificado como um herege e seus trabalhos sejam proibidos em cidades dominadas por fundamentalistas, o legado de al-Ma’arri continua influenciando muitas pessoas, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Maior exemplo disso é que ele ainda é considerado um dos maiores nomes da poesia e do pensamento árabe.

Saiba Mais

Abul ʿAla Al-Maʿarri era celibatário e deixou registrado um pedido de que seu corpo fosse cremado quando ele morresse.

O poeta sírio começou a escrever seus primeiros poemas com 11, 12 anos.

Ele era membro da Banu Sulayman, uma importante família de Ma’arrat al-Numan que pertencia à tribo tanūkh. Seu tataravô paterno foi o primeiro qadi da cidade. Alguns outros membros da família Sulayman também foram considerados bons poetas.

Referências

Nicholson, A. Reynold. Studies in Slamic Poetry. Cambridge University Press (1921).

Glassé, Cyril; Smith, Huston. The New Encyclopedia of Islam. Rowman & Littlefield Publishers (2008).

Nicholson, A. Reynold. A Literary History of the Arabs. Routdlege (1962).

Hastings, James. Encyclopedia of Religion and Ethics. Kessinger Publishing (2003).

Gelder, Geert Jan Van; Schoeler, Gregor. Al-Maari, Abu I-Ala. The Epistle of Forgiveness. Volume 2: Hypocrites, Heretics, and Other Sinners (2014).

Tharoor, Kanishk; Maruf, Maryam. Museum of Lost Objects: The unacceptable poet. BBC News (8 de março de 2016).

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