Archive for October, 2017
A unidade da vida
Me aproximei de um jovem animal morto sob uma sete-copas. Ele ficou lá caído, deixado para apodrecer. Seria reduzido a alimento, e partes de seu corpo se transformariam em insumos de produtos nas seções de higiene e limpeza dos mercados. Que contradição. A morte higienizando, limpando e purificando. É assim.
Me ajoelhei e analisei cada parte de seu corpo. Ninguém o moveria. Havia algumas manchas com formas humanas. Eu estava diante de um animal dantes doente. Seus olhos eram amarelecidos. Lembrei de um ébrio com cirrose hepática.
Mas aquele animal não tinha vícios. Por que amargar tal desgraça e punição? Estranhamente, seus olhos refletiam um último olhar. Não me vi ali. Notei uma imagem congelada de alguém erguendo um facão para golpear fatalmente sua garganta. Sem emoção, sem consideração, só o vácuo da degradação.
O sangue que já não descia se entranhou no solo e fez brotar uma plantinha felpuda. Eram como pelos de um animalzinho recém-nascido. Encostei o dedo na plantinha, ela gemeu, gemeu com a voz que não mais pertencia ao animal desfalecido. Só ela, somente ela sobrevivia naquele cenário.
O solo onde o falecido não seria sepultado encaiporou. Esgotado. Tudo morria diante de mim, menos a plantinha. Sentei, levantei a cabeça do finado e massageei seus pelos. Macio e mortiço.
Ele não reagia, mas a plantinha vibrava, como se sentisse minhas mãos lhe afagando. Suas folhas cresciam e fremiam cada vez mais. Continuei massageando o topo de sua cabeça. Cresceu muito. Já não era plantinha, virou árvore. Um de seus galhos me arrastou e me lançou sobre o ponto mais alto.
Me equilibrei recuando o corpo, a cabeça e procurando o animal no solo estéril. Ele tinha desaparecido. Ao nosso redor, em um raio de centenas de quilômetros as pastagens foram engolidas pela terra. Mais plantinhas felpudas nasciam e gemiam; vozes de animais que sucumbiam.
Jason Voorhees jamais feriu ou matou um animal não humano
Um fato interessante sobre Jason Voorhees, protagonista da franquia Friday the 13th, é que embora ele tenha matado até 300 pessoas ao longo de 12 filmes, Jason jamais feriu ou matou um animal não humano. Por mais estranho que possa parecer, isso provavelmente fez com que muita gente acabasse tendo simpatia pelo personagem que se tornou um dos maiores ícones do cinema de terror, e principalmente do subgênero slasher.
Romance de Han Kang discute a repercussão social que surge quando uma dona de casa se torna vegetariana
Em 2007, a escritora sul-coreana Han Kang publicou um livro intitulado “Chaesikjuuija”, “A Vegetariana”, que conta a história de uma dona de casa que um dia, depois de um sonho, decide não consumir nem cozinhar mais nada de origem animal.
A partir dessa sua decisão, ela passa a enfrentar uma série de desafios, ou seja, toda a repercussão social que envolve a recusa em se alimentar de animais em um contexto onde todas as refeições do dia são baseadas na exploração de animais.
O romance é dividido em três partes, na realidade, três novelas. A primeira é narrada pelo marido, a segunda pelo cunhado e a terceira pela irmã. Os três têm perspectivas bem distintas da recusa da mulher em tornar-se vegetariana estrita.
“O que tinha agora na mesa à minha frente era uma desculpa para saltar uma refeição. Com a cadeira afastada da mesa e ligeiramente de lado, a minha mulher foi comendo a sopa de algas, que obviamente devia saber a água e nada mais. Espalhou arroz e massa de soja sobre uma folha de alface, depois a enrolou, trincou o wrap e o mastigou vagarosamente.
Não conseguia compreendê-la. Só depois é que me apercebi de que não conhecia aquela mulher. — Não comes? — perguntou distraidamente, lançando a pergunta para o ar como se fosse uma senhora de meia-idade a falar para o filho já crescido. Mantive-me sentado, em silêncio, assumidamente desinteressado daquela miséria de refeição, mordiscando kimchi durante o que pareceu uma eternidade.
Chegou a primavera, e a minha mulher ainda não tinha vacilado. Cumpria escrupulosamente a sua palavra – nunca vi um único pedaço de carne lhe passar pelos lábios – mas havia muito tempo que eu desistira de me queixar. Quando numa pessoa se opera uma transformação tão drástica, não há nada a fazer senão deixar andar.”
Excertos das páginas 17 e 18 de “Chaesikjuuija”. Em 2009, o romance ganhou uma versão cinematográfica dirigida por Woo-Seong Lim. O livro foi publicado no Ocidente em 2016 e venceu o Man Booker International Prize em 2016. A versão em inglês também foi eleita pela Publishers Week como um dos melhores romances de 2016.
Tive um pesadelo em que eu era um boi a caminho do matadouro.
Há muito tempo, tive um pesadelo em que eu era um boi a caminho do matadouro. A diferença é que eu era um bovino com consciência humana – prestes a morrer e incapaz de verbalizar o meu desespero. Tudo isso intensificou ainda mais o meu medo. Se todas as pessoas tivessem esse pesadelo, acho que teríamos grandes mudanças. É, só vou deixar de ter esperanças quando eu morrer, porque sem esperança acredito que não há pelo que viver.
Tenho contato frequente com pessoas que lucram com a exploração animal
Tenho contato frequente com pessoas que lucram com a exploração animal, e nos comunicamos sempre com educação, mesmo quando os pontos são evidentemente conflitantes, até porque não hesito em deixar claro o meu posicionamento. Não me recordo de eu já ter passado por qualquer situação de constrangimento em relação a isso. Muito pelo contrário. Acho que esse é o meu caminho. Não preciso ofender ou agredir as pessoas para passar qualquer mensagem. Até porque se eu fizesse isso, eu iria contra o que acredito, e dificilmente o outro continuaria me ouvindo. Prefiro sempre subverter expectativas, até mesmo em situações de provocação, porque é isso que choca o outro, não a previsibilidade de um discurso desconsiderado pelo teor da linguagem ou pelo excesso de passionalidade. Além disso, quando se tem base argumentativa a exasperação não tem motivação para triunfar.
Por que é importante que veganos sejam saudáveis
Quando uma pessoa é vegana e não se importa em ser saudável, assim que ela for diagnosticada com algum problema de saúde as pessoas dirão que isso aconteceu porque ela é vegana. Não sou a favor de radicalismos na alimentação, nunca fui, mas sou totalmente a favor das pessoas se cuidarem. Afinal, se um vegano estiver doente, como ele terá condições de lutar por algo?
Um dos meus objetivos é exatamente esse. Mostrar que não existe nada de errado em ser vegano, muito pelo contrário, e que isso só traz coisas boas para a nossa vida e para a vida de outros seres vivos. Com saúde, tenho muito mais condições de fazer algo pelos outros. Gosto da ideia de que a minha aparência seja um reflexo saudável daquilo em que acredito. Sou da opinião de que não posso contribuir com o meu definhamento precoce, porque isso significaria me distanciar de lutar por tudo aquilo em que acredito.
O simbolismo não chega à velhice
O simbolismo nasce, morre e renasce sem chegar à velhice. Sempre me pareceu um movimento jovem, de jovens anciãos. Dos poetas, Mallarmé foi o que demorou mais para se cansar da vida, falecido aos 56 anos. Verlaine, que teve uma história conturbada com Rimbaud, morreu aos 51 anos quando acreditava que a vida não tinha mais nada a lhe oferecer.
Baudelaire e suas Flores do Mal sucumbiram aos 46 anos em decorrência de sífilis. Rimbaud, o jovem poeta maldito, depois de Uma Temporada no Inferno partiu aos 37 anos quando há muito deixou de produzir poesia para vivê-la em sua forma mais figadal. No Brasil, penso nos Broquéis de Cruz e Souza, vencido pela tuberculose aos 36 anos. E no não menos maldito Augusto dos Anjos, que passou uma vida entre a doença e a convalescença, até não resistir a uma pneumonia aos 30 anos. O simbolismo foi feito para a posteridade enquanto seus representantes para o paroxismo da efemeridade.
Um corpo no asfalto
Havia um corpo no asfalto. Ontem era uma vida. Partiu pela manhã. Uma carcaça sem ser carcaça, derribada, exígua. Um caminhão, um ônibus, um carro, uma caminhonete… Os despojos continuam no mesmo lugar. Quem se importa? Foi atropelado 78 vezes, 75 depois de morto. Conta da tarde. “É só o corpo de um animal, um mero animal.” Por que desviar? Não vale o mínimo esforço. “É apenas um cadáver, cadáver de bicho. Já morreu!” Incorpóreo. Posposto. As partes foram esmagadas, amolgadas. Tantas vezes, restou apenas uma tatuagem no asfalto. Outros continuarão, os pneus não cessarão, até que a chuva arraste a marca que um dia foi uma vida, invisível dantes, invisível agora.
Mortos na estrada
No caminho, encontramos animais silvestres mortos na estrada, o que me parecia sempre trágico, principalmente quando os filhotes cercavam o pai ou a mãe que nunca mais veriam, emitindo gemidos vigorosos ou fragilizados. O som não transformava nada ao seu redor. Sequer parecia mover a tiririca que brotava no canto do asfalto tórrido. Ainda assim a iteração da cena não a tornava menos adventícia. Talvez fosse reles para tantos outros, não para mim que via cada morte animal como um exemplo da nossa displicência e efemeridade existencial.
A fuligem
Por um descuido, a fuligem entrou no meu nariz e eu a inalei. Mais tarde senti uma queimação no peito. Tive a impressão de que algo insólito estava vivo dentro de mim e se movendo.
Fui ao médico no dia seguinte e na mesma semana fiz alguns exames. Ele me mostrou que havia uma mancha estranha que se distendia sobre um dos meus pulmões. Não nego que senti um misto de preocupação, raiva e tristeza. “Tenho quase certeza de que são vestígios de monóxido de nitrogênio, dióxido de nitrogênio, dióxido de carbono e amônia. Precisamos cuidar disso, porque senão rapidamente pode virar asma, câncer de pulmão ou até peniano”, alertou o pneumologista.
“Senti a morte despedaçar-se de encontro à minha cabeça, como se um bólide houvesse caído do espaço e fosse escolher justamente o meu crânio para campo de pouso”, escreveu Campos de Carvalho em “A Lua vem da Ásia”. Na segunda e na terceira bateria de exames, realizadas no mês seguinte, não havia mais nada em meus pulmões. Então me recordei que 15 dias antes um prolongado espirro me proporcionou uma ímpar sensação de alívio. E o que saiu do meu nariz não era claro como a água, mas turvo como o vácuo da inexistência.
Chegando em casa, deitei na cama e percebi através da janela que do outro lado repousava uma nova mancha de fuligem na parede – parecia uma sarça ardente. Caí no sono, pensando apenas em outra passagem de Campos de Carvalho. “À noite a lua vem da Ásia, mas pode não vir, o que demonstra que nem tudo neste mundo é perfeito.”






