David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for October, 2017

A primeira vez de Rubinho no açougue

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“Hog Heaven”, de Susan Jenkins

Rubinho foi ao açougue pela primeira vez. Nunca tinha visto nada parecido. No seu ideário meninil, o açougueiro era como um mágico que concebia a carne a partir de dotes sobrenaturais. Bastaria reunir alguns ingredientes, e voilà, assim surgia a carne, corada e sem violência.

“Falaram que a carne de boi aqui é a mais fresca da cidade”, “Sim, meu tio fornece carne pra eles, tão matando bem.” Um quadro na parede branca mostrava três bois descansando sobre o pasto verdejante.

“Nem imagina o que os espera, a faca é o destino final”, comentou um rapaz com voz lamuriosa ajeitando o boné sobre a cabeça. Sim, o choque foi tremendo. Rubinho preferiu não falar nada. Observou tudo. Facas e serras fatiando carnes e ossos, pessoas de um lado para o outro carregando sacolas de carne.

Ao fundo, o líquido glutinoso dava um aspecto desagradável que incomodava Rubinho. “Parece catchup, só que ralinho”, monologou. Mas o que mais chamou a atenção do menino foi um leitãozinho prostrado sob a vitrine. Rubinho insistiu tanto que sua mãe concordou em comprá-lo.

— Tem certeza que você quer isso, Rubinho?
— Tenho, mãe! Tenho sim.
— Não sabia que você gostava tanto assim de carne de porco.

O menino não disse nada.

Mais tarde, já em casa, a mãe de Rubinho correu até o quarto para chamar o marido.

— Você não vai acreditar no que eu vi — disse espaventada e com as mãos trêmulas.

Depois de enrolar o leitãozinho em uma mantinha, Rubinho lançou a última colher de terra sobre o corpo do animalzinho no quintal. Afofou a terra com as mãos, na tentativa de deixá-la bem homogênea, e ainda ajoelhado olhou para as nuvens:

— Não pude te salvar, mas pelo menos agora você vai chegar inteiro no céu.





Você sabe por que os animais ficam em jejum antes do abate?

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Fotos: Daryl Hewison e Pixabay

Você sabe por que os animais ficam em jejum antes do abate? Por um período de 8 a 24 horas dependendo do sistema de produção e da espécie.

Para evitar vômitos e congestão durante o transporte, ou até mesmo asfixia. Também facilita o abate e diminui as chances de contaminação da carne. Uma prática bastante humanizada, não? Ou seja, os interesses que são considerados prioritariamente são os dos criadores, dos frigoríficos e dos consumidores. E os interesses dos animais? Simplesmente não são abalizados, já que eles são categorizados como produtos ou bens móveis, não sujeitos de uma vida.





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October 8th, 2017 at 1:19 am

Sobre o sofrimento animal diante da morte

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O animal não humano diante da finitude sofre sobejamente (Foto: Vemsteroo)

Quando um ser humano está na iminência de ser morto por algum ser de outra espécie, ele é tomado por desespero inenarrável. Esse desespero é uma consequência natural da impossibilidade em comunicar ao outro o que está sentindo. Quero dizer, posso falar, gritar, verbalizar o que sinto. Mas se o outro não for dotado da mesma capacidade, isso será insignificante, em vão. Afinal, não haverá resquício de compreensão. Então é natural que em situações como essa o sentimento de terror seja anômalo.

O outro, por não ser da mesma espécie, é visto como um arcano, um enigma apavorante que amplifica as nossas impossibilidades de sobrevivência. A morte então é axiomática, e todas as nossas emoções concorrem ao mesmo fim. Acredito que este seja o sentimento de um animal quando é morto por mãos humanas, animais reduzidos a alimentos e produtos. Sem dúvida, a incapacidade de se comunicar como nós torna tudo muito pior, abissal, atemorizante.

A certeza de que não poderá reclamar pela própria vida mimetizando a comunicação humana avulta a dor e a sensação de impotência. É uma experiência visceral, figadal. Por isso, o animal não humano diante da finitude sofre sobejamente, porque não apenas sabe que vai morrer enquanto quer viver, mas também por talvez reconhecer que sua dor será banalizada, desconsiderada pela incapacidade de se comunicar humanamente. “Sem grito, sem choro, sem bravia resistência, está tudo bem. Eles não sofrem muito”, diriam muitos humanos, julgando os outros animais sob a obtusa perspectiva humana.





Written by David Arioch

October 8th, 2017 at 1:12 am

Assisto, leio e escrevo sobre a realidade da exploração animal todos os dias

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Foto: Shutterstock

Assisto, leio e escrevo sobre a realidade da exploração animal todos os dias. Mexe com o meu estado psicológico e emocional? Tem impacto sobre mim? Claro que sim, mas pior seria se eu estivesse no lugar deles. Acho que não faço nada de mais testemunhando, pesquisando e escrevendo sobre a realidade da exploração animal. Acredito que tudo isso ajuda a fortalecer a minha posição e a sedimentar o meu caminho. O que sinto diante disso tudo não é tão visceral ou relevante quanto o sentimento de um animal diante da morte.





Written by David Arioch

October 7th, 2017 at 11:26 pm

Super porcos criados no Camboja

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Arquivo: Duroc Cambodia

Super porcos estão sendo criados em uma fazenda no Camboja para atender ao mercado consumidor de carne. Assim como no caso dos super bois, comem pouco, mas ganham peso rapidamente. Como podemos perceber, é mais um exemplo do animal cada vez mais distante de sua natureza. Muitos dizem e dirão que isso é normal. Para ver mais, acessem a página da fazenda.

 





Written by David Arioch

October 7th, 2017 at 6:14 pm

Produção de bacon é uma das principais causas da matança anual de mais de um bilhão de suínos

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O bacon é a gordura subcutânea extraída originalmente das nádegas do porco após o abate. Com o tempo, passou a ser extraído também das laterais. Depois tornou-se mais usual a extração de bacon da barriga desse animal que preserva inúmeras características de seus ancestrais, principalmente a inteligência e a consciência daqueles que viviam livremente em florestas.

Como a demanda mundial de bacon é muito alta, principalmente nos Estados Unidos, onde 70% do seu consumo ocorre no café da manhã, pode-se dizer que a produção de bacon é uma das principais causas da matança anual de mais de 1,1 bilhão de suínos. No mundo todo, cerca de 23 milhões de porcos são mortos por semana, segundo a organização Animal Ethics, do Reino Unido. China, União Europeia e Estados Unidos respondem por mais da metade da morte de suínos. Em seguida, vem o Brasil.

Dos mamíferos reduzidos a alimentos e produtos, os porcos estão no topo. Mata-se no mundo todo pelo menos três vezes mais suínos do que bois e vacas, de acordo com a AE. Sem dúvida, o consumo de bacon contribui substancialmente para a morte desses seres sociáveis que nascem com aptidão para interagir e viver em grupo, e podem ser mais inteligentes do que os cães.





“Não há nada de origem animal disponível ao consumidor que não tenha envolvido algum tipo de exploração”

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Acervo: Sage Mountain

— Por que você se refere à indústria que produz gêneros alimentícios e outros produtos de origem animal como indústria da exploração animal?

— Bom, acho importante ressaltar sempre que se trata, de fato, de exploração animal, já que estamos falando de criaturas que são condicionadas a viver de acordo com os interesses da indústria, logo a exploração é evidente, é a base. Basta considerarmos que a exploração de animais para fabricação de gêneros de consumo não contempla as necessidades dos animais para além do que é necessário para a fabricação de produtos. Usarei um exemplo clássico. Quando bois e vacas são criados para “fornecer’ carne ou leite, se surge alguma doença, seja febre aftosa, brucelose, carbúnculo, mastite, entre outras, a preocupação maior do criador e da indústria não é prioritariamente o bem-estar desse ser vivo de um ponto vista munificente. Ninguém pensa: “Ah, coitado dele, não quero que ele sofra. Ele não merece passar por isso, tem tanto pra viver”, até porque o seu destino, mais cedo ou mais tarde, é o matadouro. A preocupação é com a baixa na produtividade e a possibilidade de prejuízo no caso da não convalescença animal. Logo os interesses dos animais são claramente secundários, o que revela a óbvia faceta exploratória.

Não se cria massivamente animais com outra finalidade no mundo em que vivemos. Não temos essa cultura, tanto que a cada dia são realizadas novas experiências com animais geneticamente modificados que geram mais lucro em um curto período de tempo. E o que isso significa? Que o ser humano brinca com vidas como se elas não significassem mais do que cifrões. Temos uma quantidade infindável de animais sobre a terra que nunca existiram na natureza. Então, te pergunto, como não se referir a isso como indústria da exploração animal? Por que usar eufemismos, mitigações, suavizações, quando a realidade é tão clara? Animais reduzidos a produtos passam por privação, sofrimento e serão executados quando tornarem-se mais valiosos mortos do que vivos, porque esse é o retrato da mercantilização da vida, sem escusas, tergiversações. Fora que “indústria da exploração animal” é um termo consciencioso que induz à reflexão.

Afinal, não há nada de origem animal disponível ao consumidor que não tenha envolvido algum tipo de exploração, até porque os animais não existem, ou não deveriam existir, para atender as nossas pretensas necessidades. Também te convido a fazer um exercício. Converse com pessoas que lucram com a exploração animal e pergunte se alguma delas seria capaz de criar esses animais se eles não pudessem gerar um bom retorno financeiro. Assim você terá outra resposta que explica por que eu me refiro à indústria de produtos de origem animal como indústria da exploração animal. Quem explora animais pode alegar que “ama seus animais”, mas objetivamente sabemos que não matamos nem impomos conscientemente privação e sofrimento a quem amamos, logo isso é insinceridade. O que quem explora animais ama é o retorno financeiro que esses animais são capazes de proporcionar a partir de seu sofrimento e morte. Partindo de um construto moral e ético sob a perspectiva dos direitos animais, toda relação de exploração, por mais “bem tratado” que um animal seja, culmina em aleivosia, ou seja, traição, já que o animal, mais cedo ou mais tarde encaminhado a um matadouro, só reconhece a iminência do fim quando quem o criou o obriga a caminhar pela pista da morte.





Luiz Felipe Pondé: “O que eu acho do veganismo?”

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“Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”

Pondé comete um equívoco ao dizer que veganismo é sobre pureza

Assisti um vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo. Obviamente, o meu objetivo não é desconsiderar o seu trabalho enquanto filósofo nem a sua figura humana, mas sim apontar falhas substanciais no seu discurso “O que eu acho do veganismo?”

Enquanto fuma um charuto, Pondé começa dizendo que uma pessoa sem vícios não deve ser merecedora de confiança. Bom, discordo, até porque tento sempre evitar generalizações. Na minha opinião, vícios, quase sempre surgem com escolhas pessoais e em muitos casos como consequência de uma fragilidade que pode inclusive reafirmar uma volatilidade moral, já que o vício reflete uma ausência de autocontrole, e isso pode implicar em prejuízo não apenas para si mesmo como também para os outros. Sendo assim, essa fragilidade pode criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós. Mas, claro, ainda vivemos em uma realidade em que cada um é livre para optar ou não por ter vícios.

Pondé afirma que é contra qualquer tipo de pureza, a busca pela pureza. Bom, veganismo não é sobre pureza. Claro, buscamos o abolicionismo animal, mas não vivemos imersos em uma realidade ultrarromântica. Veganos têm consciência de suas limitações, e ainda assim aceitam o desafio de fazer o possível para reduzir impactos na vida dos animais. Segundo o filósofo, “as pessoas têm o direito de comer o que quiser, contanto que não seja outros seres humanos.” Esse é um ponto crítico sob a perspectiva vegana. O chamado “direito” do ser humano de se alimentar de outras criaturas não foi” concedido” por ninguém a não ser por ele mesmo, logo uma arbitrariedade, já que consiste em subjugar outros animais sencientes e conscientes, ignorando seus interesses, ou seja, o direito à vida.

“Os animais são sujeitos de uma vida? Esta é a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque é a pergunta que precisamos fazer sobre nós”, escreveu o filósofo Tom Regan no livro “Empty Cages”. Segundo Regan, não podemos declarar que o motivo pelo qual nós enquanto seres humanos temos direitos é porque somos igualmente sujeitos de uma vida, mas outros animais, que são exatamente como nós enquanto sujeitos de uma vida, bem, eles não têm nenhum direito. “Isso seria como se colocar diante do mundo e gritar: ‘Um Volvo não é um carro porque um Volvo não é um Ford!’

A opinião de Luiz Felipe Pondé, ao defender o ato de matar animais e consumi-los como um direito é evidentemente especista e antropocêntrica. Em síntese, é uma defesa de status quo, da perpetuação do que já existe e é praticado. O seu posicionamento não reconhece a defesa dos direitos animais e menos ainda a legitimidade da teoria abolicionista animal, que defende que os animais não existem para os nossos próprios fins, em qualquer circunstância.

Pondé diz que não cabe condenação a quem consome proteína animal. Acredito que depende. Não vejo necessidade em atacar pessoas, realmente, até porque isso é contraproducente. Porém, de forma conscienciosa, considero imprescindível criticar com probidade o nosso papel enquanto espécie e a nossa iníqua relação com os outros animais, até porque as pessoas não costumam refletir sobre o seu papel em relação as outras espécies, por considerá-las inferiores. Então a conscientização é importante. Afinal, matamos por ano, e não por uma questão de necessidade, bilhões de criaturas que, assim como nós, gostariam de viver, não de morrer. Não há romantismo nisso, mas apenas a constatação da realidade. Ninguém nasce ansiando pela própria finitude.

Para Pondé, muitas pessoas aderem ao veganismo “por uma certa tensão puritana”. Discordo. Veganos não são isentos de vícios, não são seres perfeitos, nem se julgam como tal. Pelo menos desconheço quem faça isso, e se há casos desse tipo é uma questão de equivocada construção individual, sem respaldo na filosofia de vida vegana. Basta analisarmos a história do veganismo e o trabalho dos seus principais pensadores e teóricos. A observação de Pondé me parece mais próxima do vegetarianismo místico do que do veganismo quando cita “puritanismo”, “puritano”, “purismo”, “pureza”, embora sejam palavras que compõem um grande escopo de significados, até mesmo antagônicos em alguns aspectos. Na realidade, o veganismo é bem prático. Basta partirmos da seguinte premissa: “ Se posso viver bem sem matar ou tomar parte na morte de outros seres vivos, por que fazer isso?”

Pondé enfatiza que outro grande equívoco é “a ideia de que você pode se retirar da cadeia de violência da natureza”. Bom, não conheço veganos que afirmam categoricamente que estão completamente livres da cadeia de violência, até porque a maioria vive a realidade urbana, e nesse contexto é mais difícil ainda se livrar das armadilhas que envolvem a exploração animal, já que o ser humano subjuga outras espécies de forma tão visceral que até mesmo pneus contêm insumos de origem animal. Como é o caso do ácido esteárico baseado em gordura bovina. Porém, nada disso impede a luta para diminuir cada vez mais essa exploração, demandando alternativas que não envolvam agrilhoamento e morte de outras espécies. Veganismo é sobre o aperfeiçoamento na nossa relação com outros animais, até alcançarmos um objetivo maior que é o abolicionismo animal. Se temos condições de mudar hábitos desnecessários, que impactam negativamente em outras vidas, por que não fazer isso? Por que não mostrar para as outras pessoas que é possível viver bem gerando menos violência? Como consequência, isso reduz a objetificação animal.

Outra observação feita pelo filósofo Pondé é a de que o veganismo “deixa a experiência humana do gosto um pouco cerceada”. Bom, veganos não vivem em privação alimentar. Temos uma grande riqueza de alimentos vegetais acessíveis à nossa disposição, e são eles que dão inclusive sabor aos alimentos de origem animal. Afinal, que gosto teria, por exemplo, a carne, sem os temperos de origem vegetal? O que deixa claro que, do ponto de vista alimentar, vegetais são essenciais, ao contrário dos alimentos de origem animal. Até porque a existência de veganos é a prova maior de que ninguém morre sem consumir animais.

Luiz Felipe Pondé também diz que veganos consideram quem come carne como assassino. Bom, não vejo dessa forma, e acredito que quem entende o veganismo em essência sabe que o consumo de carne é um infeliz fator histórico e cultural baseado no costume. A própria literatura vegana e dos direitos animais discorre sobre isso exaustivamente. Para Pondé, veganos buscam uma espécie de pureza que não existe. “Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”.

Sim, há pessoas que ficam exacerbadas diante do sofrimento animal, da exploração contumaz, e acabam cometendo alguns excessos em seus discursos, porém não cabe generalizações. Esse comportamento é reflexo de uma ânsia por justiça para animais não humanos. Quero dizer, há boa vontade nisso, o problema é que ela pode ter ancorado em uma falha de comunicação imersa nos arroubos da passionalidade.

Se você dialogar com um vegano, por mais ofensivo que considere o seu discurso, você vai perceber que se trata de uma pessoa bem-intencionada que busca e sonha com o melhor para os animais. Comparar veganos com terroristas é bastante surreal, levando em conta que não há registros de arbitrariedades desse tipo praticadas por veganos. Você não encontra veganos violentando quem não é, matando pessoas. Nem mesmo os grupos de ação direta costumam praticar ou defender qualquer tipo de violência quando decidem articular alguma ação em benefício de animais não humanos.

“Tem aí um filósofo chamado Peter Singer, é uma espécie de guru, apesar de que muitos veganos nem sabem disso”, afirmou Pondé. Não duvido que haja veganos que realmente nunca ouviram falar em Peter Singer e em seu livro “Animal Liberation”, porém isso não faz de alguém mais ou menos vegano, até porque obras de direitos animais quando chegam ao Brasil costumam custar caro, logo não são realmente acessíveis. Além disso, depois de Singer, e principalmente a partir dos anos 1980, outros filósofos e pensadores também escreveram sobre o assunto, inclusive seguindo por um caminho diferente e independente de Singer. Também é importante considerar que hoje em dia há muito material sendo produzido sobre o tema e disponibilizado na internet em forma de artigos, o que também tem contribuído bastante para uma melhor conscientização em torno do veganismo e dos direitos animais. Ou seja, não há mais uma dependência de meios tradicionais.

“O que eu critico no veganismo é uma percepção sensorial estética infantil da realidade associada a uma expectativa purista e moralista. E eu não gosto de purismo e moralismo.” Sobre essa citação de Luiz Felipe Pondé eu devo dizer que a considero bem baralhada. Nem purismo nem moralismo têm a ver com veganismo. Veganismo é uma perspectiva não excludente da moralidade, enquanto que o moralismo é baseado em preceitos proverbiais que ignoram a particularidade e a complexidade de uma situação. Na realidade, o veganismo faz exatamente o oposto do moralismo, que é fundamentado na tradição, uma tradição cediça. Acredito que “percepção sensorial estética infantil” é aquela despertada pela propaganda da indústria da exploração animal.

Ou seja, em que a subjugação ou morte de um ser vivo é romantizada e celebrada. Exemplos disso são as embalagens de produtos, os comerciais da Sadia, etc. Ou até mesmo a histórica e recorrente dissociação entre produto e morte. Essa negação, no meu entendimento, também é uma “percepção sensorial estética infantil da realidade”, assim como situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo o caso recente em que uma moça ficou horrorizada porque encontrou um mamilo em um pedaço de bacon. Isso não seria “percepção sensorial estética infantil da realidade”? Eu digo que sim.

Em síntese, achei o vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo vacilante e equivocadamente pontual. Quero dizer, me parece que ele se baseou em alguns exemplos de comentários que viu por parte de alguns veganos na internet e usou isso para fundamentar a sua crítica, ignorando o que realmente é a filosofia de vida vegana, e provavelmente não tendo a preocupação de buscar sólidas referências. Ademais, não posso deixar de reconhecer que há um ponto positivo nessa crítica. E qual seria? Ele não teria feito um vídeo falando de veganismo se o tema não estivesse em evidência. Então é claro que as críticas vão crescendo de acordo com a visibilidade e adesão ao veganismo. Para finalizar, parafraseio Adam Smith, uma das referências filosóficas de Pondé, no capítulo 2 do quinto livro de “Wealth of Nations”: “Pode-se duvidar de que a carne do açougue seja necessária à vida em qualquer lugar.”

 

 





Sobre pessoas que cometem assassinatos em massa

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(Arte: Nicole Jeffords)

Não raramente, quando casos envolvendo mass murderers ou rampage killers ganham visibilidade, as pessoas dizem: “Ele sempre foi uma boa pessoa” ou “sequer levou uma multa de trânsito ao longo da vida”. Sou bem avesso a tal perspectiva que nos divide entre bons ou maus com base em análise subjetivamente superficial de conduta e caráter; sempre fui, e devo dizer que o ser humano “de bem”, dependendo de como vive, pode se transformar em uma bomba-relógio em qualquer momento de sua vida.

Quando isso acontece, certo e errado já não significam nada, assim como bondade ou maldade, porque foram diluídos durante um processo de alomorfia, quando o ser humano se torna incapaz de ver sentido em uma coisa ou em outra. Não há equivalência, nem descoincidência.

Por isso, considero importante boa educação, boa comunicação, estrutura familiar e capacidade de desenvolver desde cedo uma relação de pertencimento à vida e ao mundo, mesmo que tudo que vivemos seja provisório. Claro, não estou me referindo a pessoas que desenvolvem psicopatia desde cedo sem motivação contextual.

Falo de pessoas aparentemente comuns que, imersas em um viperino e volátil elã emocional e psicológico, tornam-se assassinas em algum momento de suas vidas. São seres que não veem nada de bom na humanidade ou na vida e, pesando a própria degradação como reflexo da falência existencial, anseiam em feri-la, mesmo que literalmente e alegoricamente matando alguns dos seus.

Em síntese, assassinos dessa categoria às vezes são seres derribados que se sentam diante da falésia, mas saltam somente no instante em que suas correntes estejam bem dispostas para arrastar outros, porque creem que somente por meio da morte daqueles que não eram “insignificantes”, sua história ou memória será perpetuada. Talvez o descomplicado suicídio seja solitário demais, liliputiano demais. Afinal, não ganha manchetes nos jornais, nem conversas entre mais do que meia dúzia de conhecidos. É um dos pináculos ou fossos da degradação sequer humana.

E quando alguém chega a matar alguém para provar alguma coisa, isso reverbera também uma nova porção de tentáculos da falência social. Por isso, eu jamais colocaria outro ser humano neste mundo se não fosse para assumir o compromisso de torná-lo um ser humano digno. Muitos dos males que testemunhamos hoje em dia vêm também do envilecimento e da indefensibilidade estrutural, terreno fértil não simplesmente para a calejada imoralidade, mas também para a, muitas vezes ignorada, amoralidade.

Written by David Arioch

October 5th, 2017 at 8:56 pm

Tom Regan: “Aprendi como algumas pessoas na Índia consideram comer uma vaca algo terrivelmente repulsivo”

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Aprendi como algumas pessoas na Índia consideram comer uma vaca algo terrivelmente repulsivo. Eu descobri que sentia o mesmo em relação a gatos e cães: eu jamais poderia comê-los. Será que vacas são tão diferentes de gatos e cães que existem dois padrões morais, um que se aplica a vacas, e outro que se aplica a gatos e cães? E porcos, serão tão diferentes? Será que algum dos animais que eu comia era tão diferente? Estas eram as perguntas que nunca me deixavam. Antes que estivesse pronto para aceitá-las, eu já sabia minhas respostas.

Quanto mais eu pensava no assunto, mais convencido ficava de que precisava tornar urna decisão: ou eu tinha de mudar minhas crenças e sentimentos em relação a corno os animais de companhia deveriam ser tratados, ou eu tinha de mudar minhas crenças e sentimentos em relação ao tratamento dispensado aos animais criados nas fazendas para consumo.

Por fim, incapaz de achar um desvio honesto do dilema – e, dado o poder dos velhos hábitos e das tentações gustativas associadas a costeletas de carneiro, galinha frita e hambúrgueres grelhados na churrasqueira, tenho de confessar que tentei desesperadamente encontrar esse desvio – acabei escolhendo a segunda alternativa.

No meu caso, então, foi urna combinação da vida e do pensamento de Gandhi, de um lado, com a vida e a morte do meu amigo canino de outro – urna combinação clássica de razão e emoção que me motivou a iniciar minha jornada para urna consciência animal mais ampla.

Tom Regan em “Empty Cages”, lançado em 2004.