David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for November, 2017

Ellen G. White: “Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com as suas carcaças”

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Ellen G. White: ““Animais são frequentemente transportados por longas distâncias e sujeitos a grande sofrimento até chegarem ao mercado” (Acervo: Ellen G. White State)

Escritora e uma das fundadoras da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Ellen Gould White se tornou uma das personalidades mais controversas de seu tempo pela sua obstinada defesa do vegetarianismo, o promovendo inclusive em escolas, hospitais e centros médicos. Entre as suas obras mais famosas que também versam contra o consumo de animais está o livro “The Ministry of Healing”, publicado em 1905.

No entanto, “Healthful Living”, de 1896, foi uma das primeiras obras em que Ellen G. White abordou o vegetarianismo. Na página 97, ela declara que a dieta de muitos animais é baseada simplesmente em vegetais e grãos, e que o ser humano deveria seguir esse exemplo, já que não temos o direito de nos alimentarmos de criaturas mortas. Segundo Ellen, um animal que não seja essencialmente carnívoro não tem necessidade de destruir outro animal para se alimentar. No livro “Counsels on Diet and Foods”, de 1903, a autora diz que vegetais, frutas e grãos são o suficiente para uma alimentação saudável e bem completa. “Nem uma onça [28 gramas] de carne deve ser enfiada em nossos estômagos. Devemos voltar ao propósito original de Deus na criação do homem”, defende na página 380.
Com livros publicados em mais de 140 línguas, Ellen Gould White se tornou bastante influente à sua época, tanto que há quem diga que ela inspirou o famoso médico John Harvey Kellogg, também adventista, a criar um dos mais famosos cereais matinais de todos os tempos – Corn Flakes. Sua influência também se deve ao fato dela ter sido uma escritora e oradora incansável, chegando a escrever mais de cinco mil artigos e a publicar 40 livros. Suas obras somam mais de 50 mil páginas manuscritas, segundo o artigo “Ellen G. White: A Brief Biography, de Arthur L. White, publicado no The Official Ellen G. White Website em agosto de 2000.

Em “The Ministry of Healing”, lançado em 1905, a escritora afirma que a dieta indicada ao ser humano no princípio não incluía alimento de origem animal. “Não foi senão depois do dilúvio, quando tudo quanto era verde na Terra havia sido destruído, que o homem recebeu permissão para comer carne”, escreveu. Porém, segundo a escritora, foi uma permissão temporária. Ellen faz a ressalva de que Deus escolheu a comida dos seres humanos quando os levou para viverem no Éden, o que não compreendia nada de origem animal.

Porém, na perspectiva de Ellen, o ser humano insistiu no consumo de carne, e em decorrência disso, teve de amargar inúmeras doenças e muitas mortes relacionadas a esse hábito: “Os que se alimentam de carne, não estão senão comendo cereais e verduras, pois o animal recebe a partir desses alimentos a nutrição que garante o seu crescimento. A vida que havia no cereal e na verdura passa aos que os ingerem. Nós a recebemos comendo a carne do animal. Melhor é obtê-la diretamente, comendo aquilo que Deus proveu para o nosso uso.”

Ellen defende que a inteligência de muitos animais é tão semelhante à inteligência humana que chega a ser um mistério (Acervo: Ellen G. White State)

Outro ponto que, segundo a escritora deveria ser o suficiente para desconsiderar a carne como alimento, é o surgimento de doenças que só existem em decorrência da criação de animais para consumo. “A população come ininterruptamente carne cheia de germes de tuberculose e câncer. Assim são transmitidas essas e outras doenças. Muitas vezes são vendidas a carne de animais que estavam tão doentes que os donos receavam mantê-los vivos por mais tempo. E o processo de engorda para a venda produz enfermidades”, critica.

No final do século 19, Ellen G. White percebeu que já era comum os animais serem privados da luz do dia e do ar puro, respirando somente a atmosfera de estábulos imundos, e talvez sendo alimentados com comida deteriorada, o que facilitava a contaminação e proliferação de doenças:

“Animais são frequentemente transportados por longas distâncias e sujeitos a grande sofrimento até chegarem ao mercado. Privados dos campos verdes para viajarem por longas milhas em estradas quentes e empoeiradas, dentro de veículos imundos e lotados, eles ficam febris e exaustos, e passam muitas horas em privação de água e comida. Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com as suas carcaças.”

Para Ellen G. White, a situação dos peixes não é diferente, levando em conta a contaminação das águas e a ausência de boa matéria orgânica como fonte de alimento. Além de sofrerem pela má intervenção humana, quando morrem tornam-se alimentos; um alimento que também ocasiona enfermidades. “Muitos [seres humanos] morrem de doenças devido ao uso da carne, e essa causa não é suspeitada por eles nem pelos outros”, enfatiza.

Além das questões envolvendo saúde e religião, a escritora também apontava como igualmente importante as implicações morais do consumo de carne. Quando discursava sobre o tema, ela pedia que os espectadores pensassem na crueldade por trás do consumo de carne, e os efeitos que isso desencadeia na vida em sociedade, onde a ternura para com as outras criaturas é majoritariamente desconsiderada.

No livro “The Ministry of Healing”, Ellen defende que a inteligência de muitos animais é tão semelhante à inteligência humana que chega a ser um mistério. Observa que os animais veem, ouvem, amam, temem e sofrem. Se servem de suas capacidades melhor do que os seres humanos. Manifestam simpatia e ternura em relação aos seus companheiros de sofrimento:

“Educai a consciência, aliciai a vontade, mostre o caminho do bom e saudável alimento e a mudança acontecerá rapidamente, fazendo desaparecer a necessidade de carne” (Acervo: Ellen G. White State)

“Muitos animais demonstram aos seus uma afeição muito superior àquela manifestada por alguns seres humanos. Que homem, dotado de um coração humano, havendo já cuidado de animais domesticados, poderia fitá-los nos olhos tão cheios de confiança e afeição, e entregá-los voluntariamente à faca do açougueiro? Como lhes poderia devorar a carne como algo delicioso?”

No início do século 20, a autora já considerava um equívoco crer que a força muscular depende do uso de alimento de origem animal, já que podemos recorrer a cereais, frutas e oleaginosas, alimentos que contêm tudo que é necessário à nossa nutrição. “Quando se deixa o uso de carne, há muitas vezes uma sensação de fraqueza ou falta de vigor. Muitos alegam isso como prova de que a carne é essencial. Mas é devido a este alimento ser estimulante, deixar o sangue febril e os nervos estimulados, que assim lhes parece ser algo que faz falta. Alguns acham tão difícil deixar de comer carne o quanto é para um bêbado deixar o álcool. Mas logo se sentirão muito melhor com a mudança”, garante.

Na defesa da abstenção de alimentos de origem animal, Ellen Gould White jamais viu o vegetarianismo como uma impossibilidade. Ela acreditava que mesmo em países com maiores índices de pobreza é possível implementar hábitos vegetarianos na população mais carente. Ela sugeria a realização de pesquisas e a discussão sobre meios de incentivar a produção de alimentos de origem vegetal mais baratos. “Com cuidado e habilidade, é possível preparar pratos nutritivos e saborosos, substituindo a carne. Em todos os casos, educai a consciência, aliciai a vontade, mostre o caminho do bom e saudável alimento e a mudança acontecerá rapidamente, fazendo desaparecer a necessidade de carne. Já não é tempo de todos dispensarem a carne da alimentação?”, questionou no capítulo “A Carne Como Alimento”, do livro “The Ministry of Healing”, publicado em 1905.

Saiba Mais

Ellen Gould White nasceu em Gorham, no Maine, em 26 de novembro de 1827 e faleceu em Elmshaven (Santa Helena), na Califórnia, em 16 de julho de 1915.

Referências

White, Ellen G. The Ministry of Healing (1905). Ellen G. White State (2013). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Ellen G. Healthful Living (1896). Ellen G. White State (2013). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Ellen G. Counsels on Diet and Foods (1903). (Disponível em https://egwwritings.org)

White, Arthur L. Ellen G. White: A Brief Biography. (Disponível em http://www.whiteestate.org/about/egwbio.asp)

 





Ian McKellen: “Carne morta só parecia realmente apetitosa quando disfarçada ou escondida por uma massa ou batatas”

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Acervo: Ian McKellen Site

Em 1980, o ator britânico Ian McKellen, bastante conhecido pelos seus trabalhos como Magneto na franquia “X-Men” e Gandalf na franquia “O Senhor dos Anéis”, passou por uma experiência que o fez refletir sobre o consumo de produtos de origem animal, o levando a abdicar do consumo de carne.

“Olhei para baixo e vi algo se movendo sobre o Tamisa em uma manhã. A maré estava baixa, e vi um cadáver de quatro patas preso entre as pedras. Sem pelos, branco e inchado. Era um bezerro, uma ovelha, uma cabra ou um cachorro? Olhei para ele até a maré subir e lavá-lo. Por 24 horas, não senti fome. Quando comecei a comer novamente, eu não poderia mais encarar a carne, fresca ou enlatada”, escreveu na carta “Que diferença um dia pode fazer – Por que eu sou vegetariano”, escrita no outono de 1997.

McKellen afirmou que na mesma noite decidiu tornar-se vegetariano. O que endossou sua posição foram as fotos da realidade da exploração animal nas fazendas e na indústria. Ainda assim, o motivo mais forte continuou sendo o testemunho do animal morto: “Não é razão ou consciência que me mantém distante da carne, mas apenas uma lembrança desse corpo não identificável e decomposto na praia”, argumentou.

Ian McKellen, nascido no condado inglês de Lancashire em 25 de maio de 1939, ano em que foi iniciada a Segunda Guerra Mundial, declarou que nunca desenvolveu um verdadeiro gosto por carnes. Na realidade, implicitamente já sentia um desgosto pelo abate de cordeiros, vacas, coelhos, patos, galinhas. “Carne morta só parecia realmente apetitosa quando disfarçada ou escondida por uma massa ou batatas. Eu preferia carne enlatada, como sardinha e salmão, que poderia ser amassada e colocada no sanduíche sem qualquer sinal de que aquilo um dia foi uma vida”, revelou.

O ator percebeu que a não associação entre a morte e o animal enquanto alimento é o que facilita o seu consumo e evita que as pessoas pensem a respeito, já que nisso subsiste uma dissimulação estética.

Referência

http://www.mckellen.com/writings/veggie.htm

 

 





Written by David Arioch

November 7th, 2017 at 11:12 am

Ellen G. White: “Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com suas carcaças”

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“Animais são frequentemente transportados por longas distâncias e sujeitos a grande sofrimento até chegarem ao mercado. Privados dos campos verdes para viajarem por longas milhas em estradas quentes e empoeiradas, dentro de veículos imundos e lotados, eles ficam febris e exaustos, e passam muitas horas em privação de água e comida. Essas criaturas são guiadas para a morte, para que os seres humanos se banqueteiem com suas carcaças.”

Ellen Gould White, escritora e uma das fundadoras da Igreja Adventista do Sétimo Dia no capítulo 24 de “The Ministry of Healing”, publicado em 1905.





Complexo habitacional russo aceita somente moradores vegetarianos e veganos

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Complexo vai ser concluído até o final de 2018

Está em andamento em São Petersburgo, na Rússia, a construção do Veda Village, um complexo habitacional para vegetarianos estritos e veganos. A grande vantagem apresentada pela gerente do Veda Village, Maya Podlipskaya, à agência de notícias TASS, é que a comunidade será autossuficiente tratando-se de energia elétrica, água, rede de esgoto e produção de alimentos.

No local, serão construídos centro de educação, de yoga, lojas, restaurantes e academia, além de hortas e pomares. Segundo Maya, é um empreendimento destinado a quem quer levar uma vida mais ética na relação com outros seres vivos, além de preconizar também um estilo de vida mais saudável.

“Uma coisa importante sobre o Veda Village é que aqui as pessoas terão a oportunidade de viver e se envolver com pessoas que tenham esse mesmo ideal de vida”, enfatiza a gerente. Por enquanto, dois dos sete prédios a serem construídos já foram concluídos. A previsão é de que até o final de 2018 o Veda Village esteja pronto para receber até 210 famílias.

Para mais informações, acesse o site do Veda Village.





Written by David Arioch

November 6th, 2017 at 2:11 pm

O que aconteceria com os animais se o mundo se tornasse vegano

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Arte: Irmãos de Mães Diferentes, da série Utopia, do artista alemão Hartmut Kiewert

Não é incomum as pessoas perguntarem o que aconteceria com os animais se o mundo se tornasse vegano. Quando alguém faz tal questionamento, é importante que essa pessoa pondere sobre uma realidade alcançável, não utópica, digressiva. Essa pergunta é feita de duas formas – buscando uma resposta realmente válida ou simplesmente como uma forma de tentar minar qualquer argumento vegano.

Essa pergunta, se feita de forma capciosa, é tola. O mundo não vai se tornar vegano hoje ou amanhã. Esse trabalho em prol do abolicionismo animal é feito como qualquer projeto de longo prazo colocado em prática pela humanidade. Analise com brevidade o nosso passado e reflita sobre a abolição da escravidão, grandes conquistas sociais, entre outras coisas. Algumas delas vieram à tona subitamente? Foram alcançadas rapidamente? Não. São sempre trabalhos iniciados há muito, muito tempo, e que exigem maturação. Toda luta que coloque em xeque o status quo jamais teve visibilidade até o momento em que passou a ser vista como realmente é, ou seja, algo credível e justo.

O vegetarianismo e o veganismo, embora não nos moldes atuais, existem desde o princípio da humanidade. Mas só a partir dos séculos 19 e 20 que passou a haver maior articulação em torno desses ideais. Tivemos um amadurecimento estrutural e nos aproximamos do que entendemos hoje como direitos animais e abolicionismo animal. A literatura da libertação animal, criada formalmente na década de 1970, por exemplo, foi inspirada nas ideias do escritor inglês Henry Salt, que já versava sobre o assunto em 1885.

Vivemos um período de aperfeiçoamento das ideias do abolicionismo animal, de luta pela implementação de políticas públicas. Há mais produção, mais acesso à informação, e isso é muito bom para a mentalização, porque impacta nas nossas relações de consumo, no fortalecimento da ideia de que animais não são objetos, mas sim seres sencientes que merecem viver à sua maneira. Claro, o abolicionismo animal não vai acontecer facilmente ou tão logo. Ninguém vai pegar um megafone e anunciar em um canal no YouTube ou na TV que repentinamente todos os animais foram libertados dos matadouros, das áreas de confinamento.

Não creio que veremos bilhões de animais atravessando ruas e pastos. Nem mesmo sendo remanejados para outras áreas. Sabe por que? Porque o veganismo pelo menos por enquanto tem acontecido majoritariamente sob o aspecto da desaceleração de consumo. O que isso significa? Significa que o veganismo vai ganhando espaço conforme a demanda de produtos de origem animal for diminuindo. Com isso, quem lucra com a exploração animal não terá motivos para investir tanto, até por entender que se trata de mau investimento.

Com a desaceleração do consumo, será mais fácil desenvolver um trabalho de educação vegana. Na minha opinião, a educação vegana depende dessa desaceleração. Atualmente, estamos caminhando para banir a realização de testes de produtos em animais nos próximos anos. Pode parecer pouco, mas só de instigar nas pessoas a reflexão contra a objetificação animal em laboratórios já existe uma possibilidade de ponderação mais ampla sobre a exploração animal.

Atualmente, as pessoas não veem com bons olhos os circos que exploram animais, tanto que é uma prática banida em muitos estados e países. Os zoológicos que lucram com a exploração animal também já não são romantizados. Há cada vez mais pessoas reprovando a realização de vaquejadas, touradas e rodeios, entre outras práticas violentas. Há mais comoção em relação ao abandono de animais, e as pessoas estão mais preocupadas com a origem do que consomem. Prova disso é que se você apresentar uma boa alternativa de produto sem ingrediente de origem animal, sempre haverá aqueles que optarão por não continuarem endossando esse tipo de exploração. O mundo vegano tem sido construído a cada dia, e não da forma utópica apontada de forma jocosa por quem o considera irrealizável.

Se pensarmos que há 20 anos, ou até menos, tudo que citei acima era parte de uma realidade considerada normal, não é difícil reconhecer que essas mudanças são pontos positivos e determinantes para a construção de um mundo vegano, e todos esses fatores dependem da conscientização sobre a exploração animal em todas as esferas. Penso que se o veganismo se tornar uma realidade para a maioria da população, e espero que seja, mesmo que eu não esteja aqui, o número de animais criados e reduzidos a produtos e entretenimento será surpreendentemente menor. Tão menor se comparado à atualidade que não será difícil remanejar para santuários os últimos animais explorados, onde poderão viver até os seus últimos dias.





Sempre que você mostrar alguma denúncia de crueldade contra animais, alguém dirá que não é necessário se preocupar

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Sempre que você mostrar alguma denúncia de crueldade contra animais, alguém dirá que não é necessário se preocupar, porque isso é exceção. Porém, acho importante não desconsiderar que muitas das desgraças que a humanidade viveu no passado e ainda vive no presente foram endossadas pela aceitação. A partir do momento que normalizamos qualquer ação que prejudique outras vidas, logo não deveria ser naturalizada, estamos dando o nosso aval para que essas práticas não sejam abolidas.

Não é raro alguém usar o argumento de que o problema da crueldade pode ser resolvido com boa fiscalização. Bom, vivemos em um país com mais de 207 milhões de pessoas, imerso em corrupção, desigualdades e outros tipos de injustiças, e que mata 191 animais por segundo. Estou citando apenas criaturas criadas para consumo. Tem certeza que quer falar sobre fiscalização? Não é preciso recorrer a nenhuma organização para concluirmos que é impossível evitar que animais sofram ou passem por algum tipo de privação. Até porque são criaturas que, assim como nós, não desejam sofrer e morrer, independente de tratamento e circunstância.

Muitas vezes, a construção conceitual da exceção no nosso ideário é apenas uma forma de nos eximirmos de culpa, e seguirmos nossas vidas como se estivéssemos dando o nosso melhor. Mas a realidade é que não fazemos isso, apenas nutrimos tal ilusão; perpetuamos uma relação de conveniência que se arrasta por séculos. Se as possibilidades para uma vida mais justa em relação aos outros surgem a cada ano, com um número cada vez mais crescente de alternativas, por que não devemos abraçá-las, nos esforçarmos para não impactarmos tanto na vida de outras criaturas?

Não é difícil fazer isso quando há genuína boa vontade. Se a você isso parece difícil, acredite, talvez o seu esforço não seja lídimo. Claro que viver como sempre vivemos nos parece sempre mais sedutor e confortável. Afinal, as pessoas não gostam tanto de mudanças quanto dizem gostar, e principalmente se isso faz com que questionem o seu estilo de vida, a sua concepção de mundo e de valores. A simples verdade que muitos rejeitam é que não somos tão bons quanto nos julgamos na nossa relação com vidas não humanas, e isso é uma consequência natural da nossa displicência.





Treinando no escuro

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Subi a escadaria da academia, montei a barra para fazer rosca direta e comecei a treinar no escuro. Sim, não havia energia elétrica por causa do forte temporal. De repente, notei um cara me observando. Um olhar fixo e incivil. Sempre que eu me distraía, ele desaparecia.

Logo retornava. Continuava me assistindo. Movia os braços e fazia esgares ocasionais. Desconfortável, não nego. Estava bem escuro, e o sujeito continuava na mesma posição, movimentando os braços e contraindo os músculos. Um olhar grave, indômito. Movia a cabeça e sorria, não um sorriso comum. Um sorriso do tipo macarrônico.

“O que esse cara quer?” pensei. Deixa pra lá. Juntei 12 halteres ao redor do banco onde eu estava e continuei treinando. O sujeito também sentou e começou a me imitar. “Que isso?”, “O que está acontecendo aqui?” ‘O que tem de errado com esse cara?”, me questionei.

Ele só não me seguia quando eu ia até o bebedouro encher a minha garrafa de água. Mas continuava no mesmo lugar, me observando sem parar. Ele não se importava que eu soubesse. Sim, não fazia a menor diferença. Folgado.

No escuro, ocasionalmente a janela permitia que a pequena incidência de luz lançasse um brilho insólito sobre o espelho; um lume fortuito, intermitente. Era como se sua presença se desvanecesse com a luz. Dizem que o escuro é o refúgio dos casmurros. Deve ser.

Vez ou outra, eu caminhava até a janela, sentia o frescor, observava os galhos das árvores balouçando, desviava os olhos e retornava. Ok. Deitei no banco e comecei a fazer tríceps testa. Muito bom, assim não vejo ninguém, a não ser a barra e o movimento dos meus braços. Terminei, me levantei e ele continuava lá. “Po, ainda por aqui?”, pensei. Que seja!

Fiz rosca francesa com barra e caminhei até o outro lado da academia. “Aqui não tem ninguém. Claro que hoje não tem quase ninguém na academia, mas especialmente aqui estou só”, ponderei satisfeito. É isso aí! Olhei para o lado e o sujeito já tinha se antecipado. Ele sorriu; outro sorriso satírico, dicaz. Deve ter pensado: “Idiota, achou que fugiria de mim?”

“Que isso? Será que não posso treinar em paz?”, monologuei no escuro, desinteressado em abrir a boca. Fiz minhas séries de tríceps corda, fechando com drop-set. Antes de deixar a polia, a energia elétrica retornou por um instante. Observei o sujeito. Era o meu próprio reflexo no espelho.





Written by David Arioch

November 4th, 2017 at 12:06 am

Matamos até quando homenageamos os nossos mortos

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Ontem, passei no mercado e observei a enorme fila do açougue. Hoje, muitas daquelas pessoas que estavam na fila provavelmente foram ou irão ao cemitério para relembrar ou homenagear seus entes queridos. Mesmo para quem não é religioso, a data acaba por trazer alguma lembrança daqueles que partiram. Afinal, é natural lembrarmos dos nossos.

Por outro lado, no almoço e no jantar deste Dia de Finados, muitas dessas pessoas se alimentarão de morte. Sim, nos recordaremos dos nossos falecidos enquanto comemos a carne daqueles que jamais receberam ou receberão qualquer homenagem. Tiveram uma breve vida mecânica. Morreram como se jamais tivessem existido.

Entre mastigadas e mordidas na carne que pertenceu a um ser senciente e consciente, falaremos sobre os bons e maus momentos vividos juntos daqueles que se foram. Os outros não nos interessam, porque não são como nós. Ao nosso redor, os mais diferentes tipos de carne. Quantas espécies, quantos animais mortos? Difícil dizer. Podem ser partes de diferentes animais, que tinham distintas personalidades.

A verdade é que matamos até quando homenageamos os nossos mortos. Destruímos vidas sem qualquer consideração. Afinal, esses mortos que comemos não são enterrados. O seu funeral é a fumaça da churrasqueira que queima suas partes fracionadas, irreconhecíveis. Se passam do ponto, são lançadas no lixo, como qualquer coisa insignificante, mais do que nunca destituídas de valor.





Written by David Arioch

November 2nd, 2017 at 2:23 pm

Como será a sua última noite?

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Será que está com fome ou sede? Amanhã seu coração vai deixar de bater

Fico imaginando como será a sua última noite. Se sua respiração está normal. Será que está com fome ou sede? Amanhã seu coração vai deixar de bater. Não sei a hora, só sei que será amanhã. Qual é o seu estado emocional? Não tenho a mínima ideia, mas não tenho dúvida de que é o de uma criatura senciente, consciente e inteligente.

Seus olhos fixos, uma pequena réplica do sol no final da tarde, não vão muito longe, provavelmente nunca foram, porque nunca permitiram. Seja observando entre fendas ou não, sua vida sempre valeu pouco. Sim. Não sabe que se alimentarão de seu corpo, um corpo desenvolvido apenas para atingir um objetivo bem específico – servir como produto.

Sei que seu coração bate muito mais do que o meu, mas só até amanhã. Triste. Mero aperitivo. Não há de restar nada nos próximos dias. Suas penas, seus pés, seus olhos. Um coração servido com sal e limão sobre a mesa. Nada, nada, nada. Sua morte é a reafirmação de uma existência curta, facciosa. A maioria não se importa. Talvez alguém esteja rindo do que escrevi. É assim. O condicionamento embruteceu o ser humano há muito tempo, mas é importante ter esperança. Não vale a pena desacreditar, porque é pior. Um caminho sem volta.

Está escuro aí? Frio? Calor? Existe aragem? Sente fome? sede? Já perguntei, me desculpe. Ciscou hoje? Que pergunta! Não deve haver espaço para isso, pelo menos não para a maioria. É, não creio que esteja confortável aí. Será que você tem algum tipo de intuição? Dizem que suas penas mudam sutilmente quando você pressente a morte. Será verdade?

Quem mata, provavelmente não observa seus olhos. É como se você não os tivesse. Não veem a luz que emana deles, um pedaço de sol se esforçando para não ser suplantado pela chegada da noite. A sua noite é diferente, porque você não renasce no dia seguinte. Turvação e libitina. Você simplesmente desvanece, como se nunca tivesse existido. Um frango dos 16 milhões que serão mortos amanhã.





Written by David Arioch

November 2nd, 2017 at 12:43 am

Céu

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Tem gente que olha pro céu à noite e vê um vazio, um breu, um pedaço sempiterno de caligem

Tem gente que olha pro céu à noite e vê um vazio, um breu, um pedaço sempiterno de caligem, um semivácuo da inexistência. Outros veem a completude de uma luz que existe fora do espaço físico, que pode ser mais rutilante do que o dia; aquilo que não pode ser guiado ou projetado por olhos destreinados, simplesmente porque a luz que brilha lá fora pode ser um contínuo da luz que brilha no íntimo.

Written by David Arioch

November 2nd, 2017 at 12:38 am

Posted in Reflexões

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