David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Céu

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Tem gente que olha pro céu à noite e vê um vazio, um breu, um pedaço sempiterno de caligem

Tem gente que olha pro céu à noite e vê um vazio, um breu, um pedaço sempiterno de caligem, um semivácuo da inexistência. Outros veem a completude de uma luz que existe fora do espaço físico, que pode ser mais rutilante do que o dia; aquilo que não pode ser guiado ou projetado por olhos destreinados, simplesmente porque a luz que brilha lá fora pode ser um contínuo da luz que brilha no íntimo.

Written by David Arioch

November 2nd, 2017 at 12:38 am

Posted in Reflexões

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“Moço, o que você tanto olha?”

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A Noite Estrelada, de Van Gogh

Saí da academia e passei na Praça dos Pioneiros apenas para caminhar. Enquanto eu andava, comecei a observar o céu límpido, onde despontavam inúmeras estrelas. Minutos depois, uma mulher se aproximou:

— Moço, o que você tanto olha? Me mostre também que quero ver.

— Estou olhando as estrelas.

— Só isso? Achei que fosse algo mais interessante.

— Pois é…

 





Written by David Arioch

August 1st, 2017 at 9:32 pm

Uma noite no quintal

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Dormi no quintal na noite passada, sentindo a aragem amena e observando as estrelas enquanto gatos saltavam sobre o telhado, tentando alcançá-las. Cães assistiam tudo como estátua de porcelana, daquelas que movem somente os olhos. Quando os felinos cansaram, desistiram das estrelas e miraram a lua anilada, até que dormiram sob o céu desanuviado.

Written by David Arioch

January 16th, 2017 at 1:39 pm

A recompensa e o medo da danação

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“E se as pessoas soubessem que não ganhariam nada por serem boas?”

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Representação do inferno criada pelo pintor italiano Sandro Botticelli

Ao longo da minha vida, tive contato com diversas religiões e algumas antagônicas em certos aspectos. Fiz catequese e participei de escolas dominicais na minha infância e nos primeiros anos da adolescência. Até para minha surpresa, eu costumava estar entre os melhores alunos, embora minhas dúvidas soassem acéticas ou dignas de um infiel para alguns ou muitos. Ainda assim, eu não hesitava em refletir profundamente sobre o que lia e ouvia. Mesmo pequeno, não tinha facilidade em absorver qualquer coisa como verdade inquestionável.

O comportamento humano já me intrigava naquele tempo porque para além das cortinas de fé eu percebia algo nas pessoas que me parecia estranho e paradoxal. “Seja um bom menino que mais cedo ou mais tarde a recompensa aparece”, me diziam muitos quando eu ainda era criança. E esse discurso se repetiu muitas outras vezes e das mais variadas formas. As palavras mudavam, mas não deixavam de transmitir a mesma mensagem. Até que um dia eu comecei a me questionar.

“E se as pessoas soubessem que não ganhariam nada por serem boas? Se descobrissem que se trata de um dever como ser humano e simplesmente isso? E se após a morte lhe fosse reservado um lugar ao lado daqueles que você considera descrentes, ruins e degenerados? Você ainda faria tudo que fez? Seria realmente a mesma pessoa? E se não houver recompensa, não há motivo para ser bom ou justo?”

Me deparo todos os dias com pessoas que sustentam a própria fé e a ideia de fazer o bem como uma moeda de troca para ser beneficiado no futuro ou no pós-morte, como se Deus tivesse assinado algum termo de responsabilidade ou de indenização pela vida terrena que muitos depreciam na ânsia pelo paraíso. Como não encarar isso como uma forma de mercantilização da bondade? Por que não ser bom porque é sensato e condiz com a natureza humana quando ela não é subtraída da própria essência?

Acredito de fato que o ser humano é naturalmente benevolente, quando não o é significa que em algum momento suas características naturais foram corrompidas. Também penso que o justo nem sempre é verdadeiramente justo por um senso moral, por um senso altruísta. Muitas vezes a bondade nasce do medo da punição, da danação, de ser relegado à escuridão eterna. “Foi tarde. Tá ardendo no inferno, no colo do capeta”, já ouvi copiosamente. E que autoridade tem alguém em afirmar isso? Ou até mesmo desejar o mal a alguém? Quem somos nós para definir o que as pessoas merecem?

Diversas religiões falam que o fiel, o bom, ganhará os céus. Mas ser devoto de uma religião não significa ser bom e vice-versa. A bondade, como a caridade, independe de religião. Ela precisa fluir sempre de dentro do ser humano para fora, e mesmo distante de uma igreja há quem faça ela prevalecer até mais do que a de um suposto fiel. Crer que é melhor por ter uma religião reafirma apenas uma posição de devoto de ocasião.

Muitas vezes também li e ouvi pessoas afirmando que Deus há de punir seus desafetos porque ninguém “mexe com um servo ou serva de Deus”. Aí então surge uma curiosa distorção de crenças em que o religioso se coloca numa posição de deidade enquanto a Deus é delegada a função de subserviência, como um servo que deve atender aos caprichos de alguém com uma visão distorcida e particularista de justiça. Assim há seres humanos que não apenas se veem como merecedores de recompensa, mas vão muito além – eles a exigem em retribuição à fé que afirmam possuir incondicionalmente.

O inigualável Farinelli

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Filme de Corbiau conta a história do maior cantor castrato de todos os tempos

Farinelli

Farinelli é interpretado pelo italiano Stefano Dionisi (Foto: Reprodução)

Farinelli, Il Castrato, do cineasta belga Gérard Corbiau, é um filme de 1994 sobre a trajetória do cantor castrato italiano Carlo Broschi, mais conhecido como Farinelli, que na fase adulta conquistou uma tessitura de voz inigualável, jamais alcançada por outro cantor de ópera. Especula-se que Farinelli cantava até 250 notas mantendo o mesmo fôlego.

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Especula-se que o italiano cantava até 250 notas mantendo o mesmo fôlego (Foto: Reprodução)

A obra de Corbiau evita clichês, não trata apenas da glória, fama e riqueza gerada por um dom genial. Vai muito além, transferindo o espectador para um universo barroco de sofrimento, desprezo e expiação. Farinelli (Stefano Dionisi) poderia ser comparado a um semideus pela voz angelical de soprano. Ainda assim, era tão humano quanto qualquer um, com falhas e fraquezas. É justamente aí que subsiste todo o preciosismo da obra do cineasta belga que não se limita apenas a relatar a história de Farinelli, mas também cria inúmeras controvérsias sobre o passado pouco conhecido do cantor.

Carlo Broschi, assim como milhares de garotos europeus pobres, foi castrado na infância para então receber educação musical de qualidade; uma realidade bárbara e incentivada pela Igreja Católica no período barroco. A instituição religiosa era quem mais absorvia os cantores castrati em seus coros, pois precisava de vozes agudas e não permitia o ingresso de mulheres.

O filme mostra também como Farinelli, embora plebeu, foi revolucionário, fazendo a nobreza inclinar-se diante de si; um fato mais tarde contraposto a outro – o desprezo aos cantores castrati que ao perderem força junto à arte europeia passaram a ser vistos como “meio homens” na ótica social da época. No mais, Farinelli é uma metáfora do trinômio céu, limbo e inferno que tem ao fundo temas musicais inesquecíveis de Porpora, Pergolesi, Hasse e o emblemático Händel.

A Pós-História e a morte de Deus

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Quando o homem deixou de ver o outro como semelhante

Quando a astronomia surgiu despedaçando o céu (Arte: Jeremy Perez)

Deus foi referência inquestionável para o homem até o momento que a astronomia surgiu, despedaçando o céu – simbólico paraíso etéreo. Com isso a relação litúrgica e religiosa semeada pelas denotações “irmão” e “próximo” tornou-se, no âmago social, anacrônica. A ciência incitou no homem a necessidade de refletir sobre o sentido da vida, despertando o embate entre Deus e Ciência; um conflito virulento na cultura ocidental, composta estritamente por uma maioria que jamais observou o mundo sob aspectos que envolvem dicotomia ou dualidade.

É mais simples encarar a realidade como única e inquestionável, respaldada pela convicção no Paraíso do Éden. Bom, trata-de algo posteriormente questionado, de modo mordaz, em estudos metafísicos que se tornaram grande alegoria da descrença. São muitas as obras que fazem romper a tênue e frágil linha entre sobriedade e insânia. Um exemplo proeminente é o trabalho do renomado e controverso filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche que viveu os seus últimos onze anos de vida em manicômios.

Nietzsche: exemplo da fragilidade entre sobriedade e insânia (Foto: Reprodução)

Mas, se ainda vivesse, Nietzsche provavelmente concordaria que na contemporaneidade o homem raras vezes observa o mundo como um arcabouço de semelhantes. Sim! O outro se tornou apenas mais um ser habitando o plano terreno. Mesmo assim a desestruturação social ainda é evitada, quem sabe em virtude dos direitos do homem. Deus é morto todos os dias em nome da Ciência, como dizia o filósofo tcheco Vilém Flusser, responsável pela criação da denominação Pós-História – período em que o homem se afasta da imagem de Deus para se reestruturar novamente, como se recriasse uma outra história, paralela a até então vivenciada.

Em meio a tudo isso, surge ainda o Caos Organizador do filósofo francês Gilles Lipovetsky que usa o termo para definir a intrínseca relação entre o progresso e o regresso na hipermodernidade. Nesse contexto, o homem tende a resgatar valores e comportamentos de seus antepassados, principalmente conceitos de vida empíricos e míticos. Tenta se afastar paulatinamente da tecnologia que o escravizou, tornando-o sedentário e atribuindo-lhe características sub-humanas. Realmente, tantos bens de consumo são, de fato, mecanismos responsáveis por facilitar a vida humana?

O homem como refém de criações supérfluas (Arte: Collin Dunn)

Nunca o foram, pois o papel da Indústria Cultural é simplesmente falsear a ideia da necessidade. Infelizmente a maioria não se vê como refém das criações supérfluas, algo que acontece em razão do homem do ser se tornar o homem do ter. Hoje, a máquina, até “caricaturável”, signo-mor da tecnologia, é tão determinante na vida do homem que o amedronta. Em vez do progresso nos dar respostas e confiabilidade a respeito do futuro, nos torna mais confusos; sofremos com incessantes males psicológicos. O ser humano se deprime com facilidade e passa a ter, mais do que nunca, receio das grandes doenças da atualidade. O progresso, por vezes, leva ao suicídio.

O temor o estimula a resgatar antigas crenças; tudo aquilo que servia de base à existência. O homem se afasta da tecnologia para alcançar o conforto que jamais foi propiciado pela industrialização. Convicções arcaicas e obsoletas são resgatadas todos os dias. Por quê? Porque a natureza admite a necessidade do equilíbrio. O crescente aumento tecnológico engrandece o medo. Na atualidade, em âmbito academicista, principalmente europeu e norte-americano, fala-se muito da hiperponografia; a extrema exposição à sexualidade que cresce a cada dia na internet. Porém este é um assunto à parte.

O futuro é incerto, pois a individualização do homem aumenta a cada dia, tornando-o ainda mais frágil e inapto ao convívio social. Antes de sua morte, o velho Flusser propôs a continuidade do progresso, sem esquecer de driblar os desequilíbrios aos quais o sistema que envolve todos os seres humanos está exposto. Afinal, a realidade manufatureira é infindável, elemento intrínseco desse período – a Pós-História.

Por que enterra os seus?

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Uma breve discussão entre dois amigos na França de 1930

Ludovitch: cemitérios edificados para resguardarem seus falecidos? (Foto: копия)

“Olho para o chão e me pergunto, por que o homem que anseia por um paraíso etéreo e enxerga a vida como mera passagem terrena enterra os seus? Parece-me demasiado contraditório se levarmos em conta a fabulosa crença de Tártaro abaixo de nossos pés. Qual é a lógica de enterrar os seus quando a profundidade do espaço terreno é o símbolo burlesco do mundo inferior? O que busca o homem? Um eterno banho no Flegetonte?”, questionou o francês François Schieu ao deslizar a mão direita pelo queixo.

O ucraniano Nikolai Ludovitch, estático e atento às palavras do amigo, revelou jamais ter pensado a respeito. “É uma pergunta interessante, mas qual seria a solução mais plausível? Cemitérios edificados com cinquenta ou cem andares para resguardarem seus falecidos? É possível distender sentidos peculiares e simbólicos, já que estariam mais próximos da região superior, onde se movem os astros.”

 
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Quinta da Regaleira e a Divina Comédia

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Andares que fazem referência aos círculos do inferno, paraíso e purgatório de Dante Alighieri (Foto: Sagrario Gallego)

A Quinta da Regaleira, em Sintra, Portugal, tem como grande atrativo um túnel subterrâneo concluído em 1910. O local conta com uma escada em espiral sustentada por colunas esculpidas até o fundo de um poço ligado a algumas cavernas labirínticas que levam a um jardim aterrador ladeado por um lago.

Os nove andares da quinta foram construídos em referência aos nove círculos do inferno, paraíso e purgatório da obra Divina Comédia, do escritor italiano Dante Alighieri. A arquitetura remete aos estilos gótico, romano, renascentista e manuelino.