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Uma manhã em algum lugar da Vila Alta
Um breve relato de histórias e experiências inusitadas na periferia de Paranavaí

Muitos personagens do bairro circulam diariamente pela estrada de terra ao lado do Bosque Municipal (Foto: David Arioch)
Ligo à noite para o artista plástico Luiz Carlos Prates e combinamos de conversar pela manhã na sua casa, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. O papo seria sobre a Oficina do Tio Lú, um projeto de recuperação de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Chego antes das 9h e percebo que o portão está cadeado. Um vizinho acena e grita que o “Seu Luiz” pegou a “magrela” e foi ao centro. Faço outra ligação para o Tio Lú e ele pede que eu o aguarde. Enquanto isso fico em frente à Casa 10 da Rua B observando o movimento de pessoas, veículos e animais. À esquerda, uma estrada de terra que dá acesso à Farinheira Cassava possui o maior fluxo de veículos do bairro. Carros, caminhões, picapes e motos circulam dia e noite pelo local. Do outro lado, é possível ver o Bosque Municipal de Paranavaí, inclusive alguns macacos e pássaros que se aproximam da cerca de arame que separa a mata nativa da rua.
Nos primeiros minutos após a minha chegada, três garotinhas com idade entre 12 e 13 anos me chamam a atenção enquanto percorrem uma estrada de terra. Se esforçam para se defender das cortinas de poeira deixadas por uma sequência de caminhões. Tenho a impressão de ver cada uma carregando uma boneca enquanto conversam. Só percebo o engano quando ouço um choro intervalado. Não eram bonecas, mas sim bebês. Quando as três descem um pouco mais, um rapaz me diz que duas das meninas já têm dois filhos. “Essas novinhas engravidaram dos vizinhos lá da rua de baixo. Isso não é anormal aqui, acontece com frequência”, explica. Quando o rapaz vai embora, a simpática Dona Lindinalva, namorada do Seu Luiz, estaciona a bicicleta, me cumprimenta e faz questão que eu pegue uma cadeira para não precisar esperar em pé.
Assim que ela se despede para cuidar dos afazeres domésticos, chega R.D.S., um garoto de 13 anos que conheci em 2012. “Vi você descendo de carro lá na rua de cima, então vim pra cá”, diz sorridente enquanto segura uma gaiola com um coleirinho chamado Maverick. O passarinho foi capturado por R.D.S. que gosta de domesticá-los. Ocasionalmente os vende pela melhor oferta. Depois de mudar a gaiola de posição três ou quatro vezes, evitando expor a ave ao sol, ele grita para um vizinho. “Ô véi, quer comprar coleirinho?” O rapaz então pergunta o preço e R.D.S. responde que aceita R$ 30. A negociação se estende por um bom tempo, até que o vizinho diz que paga pelo coleirinho o que tiver no bolso. “E aí, topa ou não? É pegar ou largar”, desafia.
R.D.S. fica tentado em aceitar, mas tem receio de que o rapaz não tenha dinheiro algum. Na Vila Alta, quem concorda com esse tipo de transação não pode desfazer o negócio se a surpresa for desagradável. “Sei não, viu? Acho que você tá me ‘zuando’”, desconfia o garoto. O sujeito gargalha e se cala. O silêncio sincronizado parece atrair a atenção de Maverick que começa a cantar e voar de um lado para o outro da gaiola. Ao ver a agitação do coleirinho, pergunto a R.D.S. por que ele prende o passarinho dentro da gaiola. “Pra cuidar dele. Ensino a cantar melhor ainda. Sou bom nisso, tanto que eles andam em cima do meu ombro, braço e cabeça”, argumenta e acrescenta que com o tempo abre a gaiola e deixa o pássaro livre.
R.D.S. tem boas lembranças da época em que passava horas observando as aves numa área conhecida como “barragem”, bastante frequentada pelos jovens do bairro. Para chegar ao local é preciso ir até o final da Vila Alta e atravessar um brejo a pé. “A ‘barragem’ foi abandonada quando começaram a matar gente lá. O pessoal ficava com medo. Depois de muito tempo melhorou de novo”, garante R.D.S. que brincava no lugar quase todos os dias. Em seguida, o garoto assobia para o coleirinho que retribui cantando em um tom ainda mais elevado. R.D.S. confidencia que muita gente também gostava de fumar maconha na “barragem”. Jovens com idade entre 8 e 15 anos recebiam o produto de um mesmo fornecedor. “A gente pagava R$ 5 em três cigarros grandes de maconha. Tinha época que queria fumar toda hora. Não dava vontade de fazer mais nada. Ficava ‘relaxadão’”, revela.
Para sustentar o vício, R.D.S. percorria o lixão da Vila Operária e o da Vila Alta procurando fios de cobre. Com a venda, ia até uma “boca de fumo” e comprava maconha. Por vontade própria e incentivo de bons amigos, o garoto parou de fumar há seis meses e já está se preparando para voltar a estudar. O que motivou o adolescente a passar a maior parte do tempo nas ruas e também a se tornar usuário de drogas ainda na infância foi o mau relacionamento familiar. R.D.S. mora com os avós e desde que aprendeu a andar teve de aceitar a ausência da mãe e a convivência com um avô alcoólatra que o xinga diariamente. “Sempre diz que sou lixo, que atrapalho a vida dele e nunca vou ser ninguém. Pra ele, eu não sirvo pra nada”, reclama em tom de mágoa.
Um dia o garoto teve uma intoxicação alimentar e precisou ser socorrido pelo artista plástico Luiz Carlos Prates. No Pronto Atendimento Municipal explicaram que o caso era grave e se tivessem demorado um pouco mais o adolescente poderia ter morrido. “Meu pai é legal. Gosta de me dar presentes. A gente mora na mesma cidade, mas ele só vem me buscar uma vez a cada dois meses”, explica. O relacionamento com a mãe sempre foi tenso. Por isso, apesar dos conflitos, R.D.S. ainda prefere morar com os avós.

Seu Luiz: “Homens ricos, principalmente de meia-idade, vêm aqui pra iludir e se aproveitar dessas meninas” (Foto: David Arioch)
Enquanto conversamos, uma senhora com pelo menos 60 anos desce a rua da Farinheira Cassava equilibrando um botijão de gás sobre a cabeça. Ao lado, um cãozinho mestiço de pelagem escura a acompanha como se fosse um guarda-costas. Minutos mais tarde, Seu Luiz chega de bicicleta e quatro jovens se aproximam. Depois de sentar em uma cadeira sobre a calçada, o artista plástico mostra uma mulher caminhando ao lado do Bosque Municipal. Aparentando ter no máximo 30 anos, a jovem já teve mais de 15 filhos. “É uma moça que poderia ter se esforçado e seguido por um caminho diferente. Ela comandava uma casa de prostituição em São João do Caiuá [a menos de 30 quilômetros de Paranavaí]. Veio pra cá porque a expulsaram de lá. Teve uma época em que o trabalho dela era aliciar as meninas do bairro para se tornarem prostitutas”, confidencia Seu Luiz.
Pela mesma rua percorrida pela moça chega à esquina um senhor com cerca de 70 anos conhecido como Didi. Espancado na noite anterior, o idoso perdeu quase todos os dentes. Restaram apenas dois ou três e algumas lascas ainda presas à gengiva. Visivelmente bêbado e com as pernas trêmulas, Didi tenta articular algumas frases confusas enquanto sorri e levanta os braços em direção ao céu. Parece viver o seu momento em um mundo tão pequeno que fica alegre ao perceber que é observado por algumas pessoas. “Meu nome é Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumbbo. Isso mesmo! Mufumbbo com b duplo e Mocó com acento no segundo o!”, comenta aparentemente “anestesiado” pela embriaguez. Quando falam com ele, o homem fica eufórico, sente-se importante por receber um pouquinho de atenção.
Com a partida de Didi, Seu Luiz relata a história do dia em que pediu a um dos seus alunos para lhe arrumar um cachorro preto. “Expliquei que queria um animalzinho com essa descrição para me fazer companhia”, enfatiza. Uma semana depois do pedido atendido, o artista plástico estranhou que o cachorro estava com a pelagem opaca e ficando esbranquiçado. Foi quando se deu conta que como o garoto não conseguiu encontrar nenhum cachorro preto, ele pegou um cão branco e o pintou. “A tinta foi desaparecendo. Nem acreditei no que tinham feito”, lembra rindo.
Antes de eu ir embora, dois adolescentes começam a falar baixo durante a passagem de um homem de não mais que 20 anos. O rapaz de sorriso enviesado, estatura mediana, magro e cabeça raspada só anda pelo bairro em horários estratégicos. Marcado para morrer por uma facção criminosa, o jovem segue a vida enquanto pode. “Não chama o doido aqui não. Se os caras ‘emparelharem’ ele aqui, todo mundo vai levar bala junto”, reclama um rapaz alto e corpulento que abandonou o crime há alguns anos. Sem demora, o jovem dobra a esquina e não o vemos mais. No chão por onde passou, ficam apenas as marcas irregulares da sola do par de chinelos. Ninguém sabe se ele vai sobreviver a mais um dia ou se vai ser encontrado assassinado em algum lugar da periferia de Paranavaí.
Por volta das 11h30, uma picape Ford F-350 preta cruza a Rua B. Mais adiante, uma moça desce do veículo e rapidamente entra dentro de casa. “Aqui é assim. Muitos homens ricos, principalmente de meia-idade, vêm aqui pra iludir e se aproveitar dessas meninas. São sujeitos casados, com filhos e que ‘vendem mentiras’. Sonhadoras, elas acreditam que eles gostam delas, que vão mudar de vida, mas quase sempre são descartadas como se fossem lixo”, critica Tio Lú, acrescentando que não são poucos os homens de alto poder aquisitivo que procuram garotas menores de idade no bairro.
Pouco antes das 12h, dou uma carona para o Seu Luiz até o centro de Paranavaí. Deixamos a Rua B e subimos em direção à Vila Operária. Faltando 200 metros para sair da Vila Alta, vemos um senhor aparentando ter entre 55 e 65 anos abrindo a porta de uma picape Hilux branca para uma adolescente entrar. “Essa menina tem 15 ou 16 anos”, revela o artista plástico. Alguns segundos depois o homem acelera e a picape desaparece em uma curva a 100 metros do Centro da Juventude de Paranavaí.
Uma noite no fliperama
Frequentar a Play Time me garantia uma aula semanal de “experiência mundana”
Em 1993, meu pai levava eu e meu irmão mais velho, Douglas, uma vez por semana na Play Time, uma famosa casa de fliperamas situada na Rua Manoel Ribas, no centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Chegando ao local, um paraíso juvenil de mais de 20 máquinas do tipo arcade que mais lembrava o cenário de um filme teenager estadunidense dos anos 1980, ele falava para formarmos uma concha com as mãos e distribuía dez fichas para cada um. Enquanto jogávamos, nosso pai ficava ao lado, no Bar Toyokawa, mais conhecido como Bar do Kengo.
Eu era pequenino, tinha menos de dez anos e estudava na Escola Vicentina São Vicente de Paulo numa época em que as professoras, principalmente freiras, colocavam os alunos de castigo por mau comportamento. O meu mundo era tão minúsculo quanto eu fui na infância. Cheio de limites, me fazia ter uma visão bem canhestra da realidade, embora eu fosse muito curioso. Por isso o fliperama significava mais do que diversão baseada em jogos eletrônicos.
Foi nas idas noturnas à Play Time que conheci crianças da minha idade que já bebiam, fumavam e se drogavam. Tinham uma linguagem própria que fazia eu me sentir um pouco estrangeiro. Era um universo que me intrigava e ao mesmo tempo me amedrontava. Eu os via de longe e às vezes deixava de jogar apenas para observá-los. Encostavam suas caixas ao lado das máquinas e acompanhavam os jogadores com os olhos. Davam palpites na tentativa de ganhar a confiança, uma oportunidade e quem sabe até uma ficha.
Lembro quando um desses garotos se aproximou de mim. Era um engraxate de não mais que 12 anos. Eu estava entretido com um jogo de tiros com cowboys chamado Sunset Riders, um dos mais disputados do lugar. De repente, ele cutucou meu ombro e disse: “Ei, você pode me deixar jogar? Sou bom nisso. Passo fácil essa fase aí. Deixa, vai!” Acabei cedendo. Era um garoto negro, franzino, de cabeça raspada e com as unhas cheias de vestígios de graxa. Conforme ele jogava, eu prestava atenção em suas mãos e expressões faciais. Era melhor que eu. Jogava com muita vontade.
A impressão que tenho até hoje daquele momento é de que enquanto aquele garoto não vencia na vida ele merecia pelo menos vencer no jogo. E era o que acontecia. A verdade é que não o deixei jogar pensando se ele passaria de fase ou não. Tanto que depois comecei a dividir metade das minhas fichas com ele, independente do desempenho. Em troca, conheci um pouquinho do seu mundo numa permuta não declarada. Me contou que trabalhava das sete até as oito da noite – nem sempre recebia pelo serviço que prestava. Às vezes tinha que fugir para não apanhar dos clientes mais abusivos.
O chamavam de Graxinha e me recordo, numa reminiscência enuviada e parcial, quando revelou que nasceu e foi criado na Vila do Sossego, atual Vila Alta, na periferia de Paranavaí. “É um lugar pra lá do buracão. Moro do lado, numa barraca. Mas nem dá nada. Não vou pra casa sempre. Acostumei a dormir por aí, em banco de praça ou na rodoviária. Assim não preciso ir e voltar todo dia”, relatou. Ficou atônito, ou pelo menos fingiu, quando um dia me pediu um isqueiro e expliquei que não tenho. “Ué, você não fuma? Vai me dizer que também não bebe?”, questionou. Quando respondi sem jeito que não, Graxinha fez uma expressão mimética de surpresa, se calou por segundos e soltou uma gargalhada. Fiquei envergonhado. Só balancei a cabeça e dei um sorriso acanhado.
Desinibido, mas cuidadoso, circulava por Paranavaí só em turma. Dizia que era perigoso andar sozinho porque “de noite a vida do marginal vale menos do que durante o dia”, algo assim. O grupo era formado por sete ou oito engraxates, todos menores de idade. Meu pai conhecia cada um e sempre pagava algo para eles comerem e beberem. Acho que fazia muito mais do que isso. Com o tempo, me dei conta que meu pai, que um dia também foi engraxate, não me levava apenas para jogar, mas também para aprender mais sobre a vida e o mundo. O contato com esses garotos garantia isso. Era como uma aula semanal de “experiência mundana”.
No mesmo período eu soube que muitos dos engraxates de Paranavaí que tinham essa faixa etária inalavam cola de sapateiro, tíner e benzina. Uns diziam espontaneamente que era o jeito de suportar a vida na rua ou o frio rigoroso que chegava no final de junho, ainda que pudesse afetar a mucosa do nariz. Ingenuamente outros se “fantasiavam” de adultos com um cigarro em uma mão e um copo de cerveja na outra. Na ausência de referências, eram precoces que viviam à sua maneira numa época em que crianças podiam tranquilamente comprar bebida alcoólica ou tabaco.
Apesar disso, sempre vi esses garotos como bastante amigáveis. Apenas tentavam sobreviver com o que conseguiam engraxando sapato até tarde da noite. Me pareciam destemidos, mesmo quando estavam agachados e cabisbaixos nas esquinas, armazenando suas ferramentas de trabalho dentro de caixas personalizadas com palavras aleatórias, frases e desenhos feitos à caneta. Na Play Time e em muitos outros estabelecimentos comerciais, alguns clientes os desprezavam tanto que os xingavam e iam embora quando eles chegavam. Os engraxates não gostavam de briga, então só ignoravam. Felizmente, o Eduardo, proprietário da casa de fliperamas, sempre os recebia com cordialidade e respeito.
Um dia, sem avisar ninguém, Graxinha desapareceu. A última vez que o vi ele estava sorrindo e acenando enquanto pegava carona no estribo de uma Caloi Cross branca como a cor do seu boné. Uns afirmam que foi embora de Paranavaí, outros comentam que o assassinaram. Quase 20 anos depois, conheci o lugar onde o jovem engraxate viveu. Não havia mais nada. No local, só um vazio, alguns restos mortais de cães e gatos, uma placa com um trecho do salmo 22, um pouco de lixo e um céu que parecia mais baixo e nebuloso do que em qualquer outra parte da cidade.
Funk faz jovens da Vila Alta sonharem com o sucesso
Adolescentes cantam sobre desejos de riqueza e a difícil realidade da periferia de Paranavaí
Foi numa terça-feira às 9h que estacionei o carro em frente a uma casa da Rua B, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Danilo Medeiros França, de 15 anos, estava ansioso, sentado em uma cadeira sobre a calçada aguardando a minha chegada para uma entrevista. Como o conheço há anos, o jovem logo ficou à vontade para conversar sobre uma transformação cultural que tem chegado a todos os bairros marginalizados de Paranavaí. Estou falando da expansão do funk e o que o gênero representa para uma juventude cada vez mais suscetível ao mundo do crime e das drogas.
Na internet e nas rodinhas de discussões de quem não vive a realidade da periferia, o gênero é bastante criticado. Não faltam pessoas se empenhando em desqualificá-lo culturalmente. O acusam de ser imoral, contraventor, de objetificar as mulheres, de usar linguagem obscena, de fazer apologia ao crime e também de abordar temas superficiais. Em meio a tanto preconceito por se identificarem com um estilo musical ainda impopular em Paranavaí, jovens que moram na Vila Alta estão se unindo para mostrar que o funk vai muito além do senso comum. É um gênero com muitas ramificações e algumas surgiram da necessidade de sonhar e lutar contra a invisibilidade social.
Em Paranavaí, desde os anos 1990 o rap era o gênero preferido dos jovens da periferia, realidade que começou a mudar no final da década passada. Dois fatores podem ser apontados como determinantes para o crescente interesse local pelo funk. Um é a facilidade de acesso à internet, o que permitiu que os jovens da Vila Alta acompanhassem e se identificassem com o mundo dos funkeiros das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro que viviam na pobreza e conquistaram o sucesso. O outro é a influência de migrantes paulistanos e cariocas que constantemente chegam aos bairros periféricos de Paranavaí. Junto com suas aspirações econômicas, ou seja, de um futuro melhor, trazem também uma bagagem cultural que desperta sonhos e admiração.
Hoje o funk é adotado por esses jovens como símbolo de contestação social. E até mais do que o rap porque tem um poder de popularização ainda maior, além de garantir um retorno financeiro mais rápido e maiores chances de ascensão social. Ainda assim, é unânime o desejo dos funkeiros da Vila Alta de Paranavaí, onde a cultura paranaense se mistura e se confunde com a paulista, de não abandonarem a periferia. “Se pudesse, ‘fechava’ lá pra São Paulo e ‘caía’ pra show. Já era! Depois é só voltar pra cá, construir uma casa e continuar morando aqui”, diz o funkeiro Danilo França, mais conhecido como MC Neguin da VL.
Garoto prodígio das rimas e considerado uma das promessas do funk local, Neguin começou a cantar com dez anos quando seu irmão mais velho lhe mostrou “os piás das quebradas mandando a letra”. “Pensei comigo: ‘Po, tenho o dom. Por que não vou cantar? Comecei aqui mesmo, também com o incentivo do MC Luan”, explica. Para “destravar”, termo que os funkeiros usam em referência ao momento em que conseguem rimar sem gaguejar, Neguin, que na época era chamado apenas de Danilo, ia todos os dias até o Bosque Municipal de Paranavaí, onde aproveitava a solitude e o anonimato garantido pela mata densa para cantar sem constrangimento.

MC Rodrigo: “O pessoal do bairro curte e incentiva pra fazer as músicas mais ‘massa’” (Foto: David Arioch)
Quando perdeu a timidez e ganhou a habilidade de fazer “rima na hora”, começou a escrever as primeiras músicas. “Quem trouxe as ideias pra gente foi o MC Caíque, de São Paulo. Ele ensinava a gente sobre o funk. Falava como era, como funcionava e incentivava a cantar. Se hoje temos isso na Vila Alta, foi graças a ele”, garante e acrescenta que o amigo retornou para São Paulo. Da primeira parceria entre MC Luan, MC Neguin e MC Caíque, nasceu a composição “Vem com nós, bandida”, uma música que convida uma moça para um passeio. “O refrão é assim: ‘Vem com nós, bandida! Vem com nós, bandida! Esbanjar de Santa Fe e se preferir na Captiva’. Fizemos essa, mas depois não quis mais saber desse funk não”, comenta Neguin que escreveu a letra quando ainda trabalhava fazendo fretes com uma carroça.
Sobre a vertente ostentação, o funkeiro gosta de falar de automóveis, motos e casas que sonha em ter um dia. Cita como exemplos Lamborghini Gallardo, carros de luxo da Mercedes-Benz e motos Honda CB 600 (Hornet), Suzuki Hayabusa, Yamaha R1 e Honda CBR 1000 Repsol. São veículos que Neguin costuma ver enquanto navega pela internet. “No mundo que a gente vive, você só existe e é respeitado pelo que tem”, destaca o adolescente, justificando porque os jovens da periferia gostam de falar de ostentação.
Enquanto converso com o funkeiro, outros garotos com idade entre 12 e 15 anos se aproximam e dão depoimentos que confirmam o fato de que conversar sobre riquezas e ouvir músicas sobre o tema faz com que se sintam melhor, esperançosos de uma vida completamente diferente da atual. “Acho que falar de riqueza atrai riqueza, né? São coisas boas”, frisa o menor da turma que usa um chinelo de cada cor e de tamanhos diferentes. De acordo com MC Neguin da VL, que atualmente está no primeiro ano do ensino médio e ocupa o tempo com cursos e oficinas gratuitos, o funk é mais uma chance de conquistar melhores oportunidades. “Com dinheiro, dá pra estudar até em faculdade particular. Respeito a gente já tem, pelo menos aqui na ‘quebrada’. Só falta o dinheiro”, pontua com uma risada expansiva.
Com apenas 15 anos, o MC tem conquistado popularidade na periferia por cantar sobre a realidade da Vila Alta. Neguin une a sonoridade do funk com a consciência social do rap. Quando o pai estava preso, costumava visitá-lo no Setor de Carceragem Temporária (Secat) da 8ª Subdivisão Policial (SDP) de Paranavaí. Lá, o adolescente ouvia histórias sobre a vida dos presos. “Comecei perguntando pro meu pai como era a vida lá dentro. Então trazia na ‘mente’, chegava aqui e ‘destravava’. Eu era muito curioso sobre a rotina desses caras”, argumenta. Uma das preferidas do MC Neguin da VL e de muitos moradores da Vila Alta é a música “Essa é a vida do Magrão” que fala de um homem que deixou Foz do Iguaçu, veio a Paranavaí praticar um assalto e acabou preso. “O Primeiro Comando da Capital [PCC] pegou o ‘bonde’ pra ir pro presídio e os outros ficaram. Daí planejaram uma fuga, houve rebelião e ele acabou morto”, confidencia Neguin.
Se um dia surgir uma oportunidade de gravar uma música em estúdio, o adolescente diz que “Essa é a Vida do Magrão” deve ser a primeira a ser lançada. “Vou te passar um trecho: ‘A minha coroa chora toda noite. É só decepção. E nessa vida louca é só momento de tensão. Não é fácil não. Não é fácil não’ e vai indo. Falo também da mulher dele que agora ficou sozinha”, exemplifica e ressalta que as suas maiores distrações são um caderno e uma caneta.
Além do homem conhecido como Magrão, MC Neguin da VL escreveu mais seis músicas sobre presos que estão no Secat da 8ª SDP. “O dia que cantei pra eles, alguns choraram e falaram: ‘Ô louco, que som da hora!’ Meu caminho é mostrar que o mundo do crime não vale a pena. É pura ilusão e não traz nada de bom. Por isso falo das coisas da cadeia e da vivência, principalmente quando tudo acaba mal”, defende o adolescente que escreveu 46 composições de funk em cinco anos. Cada letra levou de duas a três horas para ficar pronta.
Entre as músicas do MC que agradam principalmente os adolescentes da Vila Alta também estão “Os magnatas”, “Será que nasci pra folgar”, “Minha história em cima do funk”, “As minas do poder” e “Os mais mais da quebrada”. “Aqui em Paranavaí a gente fica mais na Vila Alta. Não temos onde ir pra mostrar o nosso funk. A chance só aparece quando tem comício, essas coisas. Daí ficamos o tempo todo perto do palco pedindo um tempinho pra cantar”, relata Neguin da VL.
O MC gosta de percorrer as ruas do bairro incentivando a garotada ociosa a “soltar a rima”. O objetivo é fazer com que percam a vergonha e se ocupem com alguma atividade que os afaste do mundo das drogas e do crime. “Vejo a molecada à toa e falo: ‘Rapaz, vamos mandar uma rima aqui pra ver’. Tem muito piá aqui com 10, 11 anos que já ‘manda bem”, avalia. Alguns ficam empolgados com a iniciativa, outros demonstram descrença. Se queixam que em Paranavaí ninguém vai querer ajudar na divulgação. “Pensam que isso só dá certo em São Paulo. Tento animar eles e digo: ‘Mas por que o Paraná não pode? Não! Isso tá errado. Tem que ter aqui também”, enfatiza Neguin.
A primeira experiência do MC se apresentando fora da Vila Alta foi no Jardim Oásis, em uma lanchonete. “Me perguntaram se não tinha putaria na música. Expliquei que não e subi pra cantar. Foi bem legal. No final, o dono da lanchonete me deu os parabéns e disse que ajudei com a freguesia”, comemora. Na Vila Alta, até quem não é afeiçoado ao funk admira o empenho de Neguin que detém o recorde de 16 minutos rimando sem parar. O funkeiro treina todos os dias e de vez em quando participa de disputas de rimas com MCs de outros bairros. “Lá no Jardim Santos Dumont, a gente geralmente marcava encontro em uma lan house. É divertido participar desses duelos”, afirma. Além da Vila Alta, o cenário do funk em Paranavaí tem representantes no Jardim Santos Dumont, Ipê, Renascer, Morumbi, Coloninha e Matarazzo.
Sem dinheiro para investir em produção profissional, Neguin da VL se reúne com Leonardo Matheus Alves, o MC Leozinho, e Rodrigo Weslley Silva Bento, o MC Rodrigo, para improvisarem nas gravações. Juntos, percorrem uma estrada de terra até chegaram ao fim do bairro, onde tiram os telefones celulares dos bolsos, entram no aplicativo MPC, selecionam uma das nove bases musicais oferecidas pelo programa e iniciam a gravação. “É fácil, mas a qualidade não é boa. A gente também coloca uns vídeos no YouTube, filmados com a câmera do celular. Conecta um cabo em uma caixa pra dar mais batida, liga o microfone e manda ver. Depois edita no Video Trim e já era. Só no improviso”, esclarece Neguin.
O que também pode ajudar o adolescente a ganhar projeção é a parceria com funkeiros de outras cidades e estados. Há pouco tempo o rapaz recebeu um convite para gravar com um conhecido grupo de São Paulo. “Ainda não posso divulgar o nome, mas a vantagem é que isso pode chamar atenção pra minha música”, acredita. Outro diferencial é que Neguin da VL mantém contato com MC G3, MC Boy do Charmes, DJ Perera e DJ Wilton, nomes famosos entre funkeiros de todo o Brasil. “Tô na luta, não posso parar não”, reforça.
“Nossa, louco aí, ó. Só escutando o MC Guimê e pá, vixi”
Quando eu estava terminando de conversar com o MC Neguin da VL, chega Rodrigo Wesley Silva Bento, o MC Rodrigo, de 15 anos, que encosta a bicicleta personalizada rente ao meio-fio. Com um cabelo trançado e um estilo inconfundível, o adolescente conta: “Comecei junto com o Neguin. Eu tinha uns 12 anos. Nossa, louco aí, ó. Só escutando o MC Guimê e pá, vixi. Curtia, né?”, lembra enquanto ajeita o corpo sobre o banco de uma bicicleta vermelha que traz no quadro uma arte feita com barbante. No bairro, a garotada usa a criatividade para se destacar das mais diversas formas. Sem dúvida, um jeito de mostrar que é possível ser original mesmo sem grana.
Rodrigo é quem produz as músicas de Neguin. Se considera um curioso e está sempre pesquisando na internet sobre edição de som. “A primeira dele que produzi foi no ano passado. Antes ele só cantava por aí, daí dei a ideia da gente gravar com o celular até surgir um recurso melhor. O pessoal do bairro curte e incentiva pra fazer as músicas mais ‘massa’”, assegura e faz questão de definir o funk do amigo como suave, ‘de boa’, ‘não pesadão’. O adolescente está aprendendo a usar o Fruity Loops Studio, um aplicativo de edição profissional. “É difícil, mas estou me esforçando. Não podemos gravar as músicas em celular pra sempre. Eu e o Danilo ajudamos um ao outro. Só que quem tem o dom para o funk é ele, né?”, avisa.

MC Luan: “Mesmo que um dia eu conquiste o meu espaço, não vou abandonar a Vila Alta” (Foto: David Arioch)
Estudante do primeiro ano do ensino médio e aluno de um curso técnico de informática, Rodrigo sonha com dias melhores. “Nos reunimos todo sábado e domingo pra cantar, gravar alguma coisa ou compartilhar o que aprendemos. Tomara que venham boas oportunidades pra gente”, frisa o jovem que tem preferência pelo funk que fala da “realidade das quebradas”. Outro adolescente, também de 15 anos, que chega animado à Rua B para falar do assunto é Leonardo Matheus Alves, o MC Leozinho. Incentivador, é o responsável por gravar alguns vídeos do MC Neguin da VL.
“Já faz um tempo que estou aí com os moleques. A gente filma, dança e se vira como pode. Tem que ajudar pra ver no que vai dar na vida aí, né, não, Neguin?”, diz sorrindo. Leozinho se esforça para divulgar o trabalho do amigo no YouTube e no Facebook. Admite que apesar das limitações técnicas fica feliz quando as pessoas curtem, compartilham e comentam os vídeos. “O funk é ‘massa’, né, ‘véi’? Curtição, né? É legal quando fala de ostentação, mas é melhor ainda quando é sobre a realidade do povo da periferia”, enfatiza.
Ao final da entrevista, quando eu estava indo embora, ouvi um homem gritando: “Danilo, chega aí! Rapidinho!” O convite era para ajudar a empurrar um carro em uma estrada de chão, no cruzamento com a Rua B. Enquanto sonha com a ostentação, Danilo Medeiros França, o MC Neguin da VL, faz questão de mostrar que quem busca o sucesso não pode virar as costas para os amigos e os problemas da comunidade. “Tem que ajudar, valorizar as origens, né?”, assinala.
“A inspiração vem da ‘quebrada’ mesmo. O que eu vejo vira letra”
Uma semana depois da primeira bateria de entrevistas com os funkeiros da Vila Alta, eu e o MC Neguin da VL deixamos a Rua B e subimos pouco mais de 500 metros até chegar a um conjunto habitacional onde mora Luan Ferreira Silva Lomes, o MC Luan da VL. Com apenas 18 anos, o funkeiro é o pioneiro do gênero na Vila Alta. Tímido, demora um pouco para se sentir à vontade, mas faz questão de esclarecer logo no início da conversa que canta porque quer ajudar a população do bairro. “Mesmo que um dia eu conquiste o meu espaço, não vou abandonar a Vila Alta. Tem muita gente necessitada aqui. A comunidade está cheia de crianças sem nada pra vestir ou comer. Meu sonho é fazer a diferença”, garante o rapaz que teve como primeira referência o MC paulistano Zóio de Gato, falecido em um acidente de trânsito aos 16 anos em 2009.
Há seis anos cantando funk, MC Luan é uma importante influência para Neguin da VL. Quando começou a se interessar pelo gênero, Luan foi incentivado por MC Caíque, de São Paulo, que morou um bom tempo na Vila Alta. “Falou que minhas rimas têm bastante qualidade. Aquele era um piá firmeza, hein?”, declara o rapaz que tem seis músicas bem conhecidas no bairro.
O primeiro funk do MC Luan, que cita como inspiração MC Lon, um dos ícones do funk ostentação, foi “O sabadão chegou”. Escrita há quatro anos, a música fala dos prazeres do final de semana. “Hoje a inspiração vem mais da ‘quebrada’ mesmo, da nossa realidade. O que eu vejo vira letra”, justifica. Se pudesse gravar uma de suas composições, o MC gostaria de lançar “Ela é a mais mais”, composição sobre uma moça do bairro que gosta de baladas. Quando saem pelas ruas da Vila Alta cantando, MC Luan e MC Neguin alternam rimas e beatbox. “Por enquanto improviso no celular, gravo brincando. Se um dia aparecer uma boa oportunidade, vou levantar as mãos pro céu e agradecer muito”, promete MC Luan da VL.
Letra parcial de uma música do MC Neguin da VL. A composição foi inspirada na história de um morador da periferia de Paranavaí.
“Deus, me perdoa. Entrei nessa vida simplesmente à toa. Mulheres lindas e o bolso sempre cheio. Whisky na balada e as mulheres no meio. Dinheiro fácil nem sempre é bom. Mundo das drogas, não passa de ilusão. Cheio de malote, eu nunca ligava se pegava cinco, pegava tudo e gastava. As patricinhas tudo vindo atrás. Meu poder ia crescendo a cada momento. Cheguei a ser gerente do grande movimento. Minha responsa era foda e eu não podia vacilar. Num triste dia minha casa caiu. Fecharam minha cachanga com mais de 20 fuzil. Desespero era foda, não aguentava correr. Mas ao mesmo tempo eu sabia que podia morrer. Me entreguei e hoje estou aqui dentro. São várias amizades no mundo lá dentro. Naquele mundo de mulheres, eu só tinha mulher boa. Hoje quem me faz visita é só minha coroa. Só quero sair daqui, nem vou me vingar. Deus sabe o que faz, só quero me libertar.”
Curiosidade
O VL no nome artístico dos funkeiros é uma homenagem ao bairro de origem, a Vila Alta.
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O mundo de Marinho
A história do jovem que há nove anos passa o dia vagando pelo centro de Paranavaí
Era uma quinta-feira, por volta das 8h30, quando eu e o fotógrafo Amauri Martineli saímos para procurar o famoso Marinho, um jovem sorridente que vive vagando pelo centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Em poucos minutos, o vimos próximo da Banca Tanaka, na movimentada Rua Getúlio Vargas. Acenei, o rapaz se aproximou e perguntamos se ele aceitaria nos contar a sua história e o motivo de ter se tornado andarilho.
Empolgado com a ideia de uma reportagem sobre a sua vida, sorriu e disse que nos aguardaria. Assim que Martineli deu a volta para estacionar o carro, Marinho desapareceu. Depois de 15 minutos de procura, o vi a 50 metros do local onde conversamos antes. Já estava com um semblante diferente. O sorriso tinha sumido. Me aproximei, expliquei a ideia da entrevista, mas se mostrou desinteressado. “Ah, vamos deixar pra semana que vem. Hoje eu não tô bem”, justificou. Então perguntei o que ele tinha e expliquei que poderíamos ajudá-lo. O rapaz insistiu: “É a minha cabeça, não tá boa. Depois passa. Isso é normal comigo”, garantiu, de forma evasiva.
Me afastei um pouco, chamei o Amauri e juntos conseguimos convencer o Marinho a bater um papo com a gente. Curiosamente a cefaleia se desvaneceu em pouco tempo. Logo o rapaz ficou à vontade e demonstrou muita satisfação pelo nosso interesse em conhecer a sua história narrada em cerca de uma hora. Com um estilo próprio de ser, Marinho passa a maior parte do dia no centro de Paranavaí, onde gosta de ficar perto das entradas das lojas vendo a movimentação de pessoas e ouvindo música. Admite que tem preferência pelo pagode, gênero da época das festinhas da adolescência.
Muito conhecido pelos comerciantes e comerciários das ruas Getúlio Vargas e Manoel Ribas, o rapaz é elogiado pela quietude. Discreto, não gosta de incomodar ninguém. “Hoje só fumo cigarro e bebo cerveja. Bebo todo dia. Compro cigarro solto numa banca. A mulher gosta de mandar Derby. Pago 50 centavos em cada um. Ah, antes eu nem gostava daquele Free, achava fraco, mas agora é o meu preferido. Só que custa caro”, reclama.

“Quando alguém estranha, faço questão de cumprimentar pra mostrar que sou do bem” (Foto: Amauri Martineli)
A latinha de cerveja é sagrada para Marinho que tem 30 anos e me chama de tio o tempo todo, embora tenhamos a mesma idade. Comprada na loja de conveniência de um posto de combustíveis, ele informa que costumava pagar R$ 1 na Schin, mas recentemente subiram o preço para R$ 1,50. “Tinha outra que era R$ 1,75 e caiu pra R$ 1,25, então só bebo dessa. De vez em quando tomo umas pingas no [antigo] Terminal Rodoviário e fico doido, mas é mais moderado”, pontua enquanto sorri e coça a cabeça. Às 18h, quando as portas das lojas se fecham, o rapaz caminha até o antigo Jardim Ouro Branco, onde passa a noite sozinho e deitado sobre uma calçada nas imediações do Centro Esportivo do Sesc.
Entre latidos de cães da vizinhança, dorme ao relento até amanhecer, perto da ex-residência dos avós. “Lá é tranquilo. Me deixam ‘de boa’. Quando alguém estranha, faço questão de cumprimentar pra mostrar que sou do bem”, comenta Marinho que dorme na rua há nove anos. Antes de virar sem-teto, vivia com os avós. Ficou sem casa quando os dois faleceram em decorrência de ataques cardíacos. As mortes tiveram diferença de poucas horas. O rapaz recebeu a notícia quando estava preso. Foi flagrado fumando e portando maconha. “Fiquei seis dias na cadeia. Não pude ir nem ao velório. Só vieram me avisar que os dois morreram”, lamenta. De Marinho, as drogas não levaram apenas a oportunidade de se despedir dos avós, mas também a própria identidade e capacidade de sonhar.
A falsa ilusão de ser admirado pelos amigos fez com que experimentasse maconha com 15 anos. “Queria me alugar um pouco. Acabou que saí tremendo com medo de morrer. Só ficou ‘massa’ quando parei de ter as ‘piras’. Eu ‘desligava’ mesmo, nem pensava em nada”, revela. A primeira tragada aconteceu no Parque Ouro Branco, no Ribeirão Xaxim, onde se reuniu com 13 garotos, principalmente vizinhos. No local, encontraram alguns jovens fumando maconha em um bong caseiro, feito a partir de garrafa pet. “Ofereceram pra gente e o bagulho fez efeito rápido. Tinha um trilho no córrego e até hoje eu não sei como cheguei do outro lado. Devo ter caído até na água. Sei lá”, declara às gargalhadas.
Quando a larica, a fome em decorrência do uso de maconha, surgia, a garotada descia até o Laticínio Iva, onde um guarda fornecia a eles algumas caixinhas de leite. Marinho tomava até três de uma vez. Com o tempo, quis se afastar da maconha, mas não resistiu. O ápice do vício foi aos 16 anos, incentivado por “amigos” que moravam perto da casa dos seus avós. “Eles vendiam pra mim. Então quando minha mãe me dava um, dois reais, eu ia lá comprar. Tinha uns ‘caras quentes’ que vendiam 50 gramas, peso de balança, por 30 reais, o suficiente para quatro dias. Era da boa, pura mesmo. Bem diferente do baseado de um real que eu fumava pelo menos quatro por dia”, confidencia.
À época, Marinho não conseguia dormir sem antes tragar o “cigarro branco”. Ficava muito agitado e ansioso. Entre os vizinhos, pelo menos nove fumavam juntos. Quando tinha dinheiro para comprar só um baseado, o rapaz se irritava fácil. “Ficava bravo porque sempre aparecia gente pedindo pra dividir. Não dava nem tempo de ficar doido”, justifica. O fornecedor era sempre o mesmo, só que quando surgia algum imprevisto o jeito era procurar outra “boca de fumo”.
Por causa do vício, Marinho ficou 26 dias internado no Hospital Psiquiátrico Nosso Lar, em Loanda. O rapaz se queixa que teve de conviver com loucos. “Eu era o único normal lá. Aplicaram um bagulho em mim que minha língua até enrolou e não consegui falar”, lembra. O tratamento não deu certo e o rapaz retornou a Paranavaí. Em casa, o avô tentou curá-lo do vício com o preparo caseiro de “garrafadas de erva-de-são-joão”. Marinho tomava pelo menos dois litros por dia para tentar controlar a abstinência de canabinoide.
Quando estava se afastando definitivamente da maconha, foi morar na rua e conheceu o crack. A primeira pedra foi experimentada por curiosidade, nas imediações do antigo Terminal Rodoviário Urbano. Pedia dinheiro no centro de Paranavaí e corria até lá para comprar. “Entrei na pedra com 23 anos. Achei o crack muito mais gostoso do que a maconha. Teve uma vez que conheci um cara ‘massa’ que vendia pedra de cinco e de dez reais”, confessa Marinho que fumava até 12 pedras de R$ 5, ou seja, o equivalente a R$ 60 por dia.
Normalmente começava a consumir crack pela manhã e parava por volta das 22h. Só prolongava o uso nos finais de semana, quando estendia o consumo até as 4h. Sexta e sábado o vício era financiado com as doações generosas dos frequentadores de bares e lanchonetes da Avenida Paraná que raramente falavam não para Marinho. “‘Chapava’ pedindo dinheiro. Daí gastava mais de R$ 60. Fumava e ficava ‘ruinzão’. Tinha uma mulher que me deixava dormir na casa dela. Eu aparecia lá de madrugada e ficava olhando pro teto me perguntando porque não amanhecia logo pra eu sair pedindo dinheiro pra comprar mais pedra”, enfatiza.
Marinho não se esquece do dia em que estava perto de uma “biqueira”, como ele chama as “bocas de fumo”, no Jardim Ipê, e foi surpreendido pela aproximação de uma viatura da Polícia Militar. Assustado, tentou arremessar o cachimbo em um terreno baldio, mas o objeto bateu no portão e voltou. A segunda tentativa deu certo. Só que era tarde demais e foi obrigado a se explicar para a polícia.
Apesar da vida de riscos, Marinho jura que jamais foi perseguido ou ameaçado por traficantes. “Nunca enganei ninguém. Só ficava em débito com os ‘mais chegados’. Mas era coisa de dois a quatro reais. Às vezes se irritavam comigo e me davam o produto até de graça. Cheguei a ganhar pedra de R$ 5”, diz rindo. O seu ponto preferido era o entorno do velho Terminal Rodoviário Urbano, de onde se afastou há quatro anos, quando parou de usar crack. “Até hoje tem gente vendendo lá. Não me interesso porque não vejo mais graça”, explica.
Antes de se livrar do vício, por iniciativa do irmão, ficou internado em uma clínica de reabilitação por quatro meses em Curitiba. “Eu não queria nada com nada e saí de lá”, reconhece. Outra tentativa sem sucesso foi em uma chácara para dependentes químicos no Sumaré. Com a abstinência, o rapaz perdia o controle de si mesmo e agia como outra pessoa. “Fugia de lá alucinado e bravo. Andava uns 19 quilômetros até chegar no centro de Paranavaí. Hoje tô livre disso. Não quero saber dessas drogas. Prefiro continuar vivo”, pondera Marinho que ao final da entrevista conta que se chama Mariosvaldo de Freitas Mazanares Souza Moura.
“Minha infância, vou falar pra você, tio”
“Minha infância, vou falar pra você, tio. No meu aniversário de seis anos a minha mãe fez um bolo delicioso e colocou uns bonequinhos ‘desenhadinhos’ do Corinthians, porque eu era corinthiano, e do Palmeiras, né? Foi muito legal! Melhor dia! Chamei um amigo que morava no [Jardim] São Jorge e outro que vivia um pouco pra cima da minha casa. O resto era família”, conta o jovem andarilho Marinho. A primeira experiência do rapaz em um escola foi na mesma época, quando ingressou no Colégio Estadual Newton Guimarães. “Até a quarta série ainda era ‘da hora’. Depois que chegou a quinta, passei a odiar por causa das matérias. Tudo muito difícil e eu não entendia nada”, reclama.
A maior lembrança da quinta série remete ao dia em que o pai chamou ele e um dos irmãos para passear de Ford Belina. “Eu tinha uns 12, 13 anos. Corremos Paranavaí. Visitamos minha irmã e voltamos pra casa só lá pelas dez da noite. Parecia até que ele sabia o que iria acontecer depois. Quando deu duas horas da manhã, meu pai morreu de ataque cardíaco”, lamenta Marinho com olhos marejados.
Com a morte do pai, Marinho perdeu mais ainda o interesse em estudar. Quando chegou à sétima série do ensino fundamental teve de fazer supletivo à noite para tentar recuperar o tempo perdido. “Nem passava de ano mais. Fui pro [Colégio Estadual] Leonel Franca e só chegava atrasado, lá pelas 8h20, 8h40, até na hora do recreio. Daí falaram que seria melhor eu estudar perto de casa. Então me deram a transferência e mudei pro [Colégio Estadual] Marins [Alves de Camargo]”, relata.
Marinho reprovou novamente e só conseguiu a aprovação no ano seguinte. “Cada negócio mais difícil, bicho!”, reclama. Quando não estava na escola, corria para uma pracinha perto de casa, onde se reunia com os amigos para jogar bola num ‘areião’. Sonhavam em fazer traves de madeira. Sem experiência com marcenaria, apelavam para chinelos e lajotas.
Marinho faz questão de destacar que no mesmo período arrumou muitas confusões por causa de pipa. O agravante era o uso indiscriminado de cerol. “Na adolescência, quando chegava dezembro eu acordava cedo pra ir ver se tinha passado ou reprovado na escola. Olhava, ficava triste e falava: “É doido! Nunca que fico sem tirar nota vermelha!”
“De lembrança, eu tô devagar, tio”
“De lembrança, eu tô devagar, tio. Lembro mais das mortes. Foi triste porque acordei e vi meu pai caído e morto”, narra. Mais tarde, perdeu o contato com a mãe, com quem morou pouco tempo após a perda do pai. Também residiu no Hotel Floresta, perto da rodoviária velha, com uma das irmãs. Apesar de hoje não ter muito contato com a família, Marinho tem boas lembranças. Se recorda de quando tinha seis anos e o irmão o levou para participar da Escola de Futsal São Lucas. “Foi doido, hein? Fiz gol no primeiro dia. Eu era ala esquerda, canhoto. Fiquei até os 13 anos, quando quis jogar campo”, explica e acrescenta que gostava de perturbar o técnico Gildo Tomé para deixá-lo jogar como titular quando viajavam para disputar campeonatos.
Segundo Marinho, seus dribles eram dos mais “bobos”. Gostava de “dar chapéu”. “Só que ainda preferia o campo pra bater de ‘bicicleta’”, comenta enquanto gesticula. Na adolescência, ingressou no Paranavaí Atlético Clube (PAC) e jogou várias vezes no Estádio Municipal Waldemiro Wagner. Começou a se destacar na posição de meia-esquerda. Logo o bom desempenho garantiu escalação para os Jogos da Juventude. Em uma das edições, ajudou o time a chegar à semifinal. Com 19 anos, surgiu uma grande oportunidade. “Fui convidado a participar de um ‘peneirão’ para ir pro Santos, tio. Por azar, acabei eliminado”, lamenta.
Marinho lembra com satisfação da época em que se apresentou no palco do Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa. “Eu era ‘arteiro’ no colégio, então eles me chamaram pra fazer teatro. Topei e fui lá assistir alguns ensaios. Foram loucas as peças. Gostei mesmo!”, garante Marinho que participava dos ensaios no Colégio Marins. Os encontros geralmente ocorriam à noite ou quando os alunos tinham aulas vagas. “Fizemos uma peça dirigida pela Lígia Oliveira que chamava ‘Que país é esse?’ Foi ‘massa!’”, enfatiza. De repente, Marinho não quis mais saber de teatro e abandonou as aulas.
“Agora não penso em trabalhar. Quem sabe, depois”
“Agora não penso em trabalhar. Quem sabe, depois. Já trabalhei como servente de pedreiro quando morava com meus avós. Só que parei. Tentei ser ajudante de pintor, mas o homem falou que eu não ia pra frente não. Cheguei a ir pra roça também. Daí odiei minha vida!”, diz o andarilho Mariosvaldo de Freitas Mazanares Souza Moura, o Marinho.
Quando atuava como servente, o rapaz gostava de transportar areia e lajota. Segundo ele, bater massa também era “da hora”. O que mais o animava era o fato de que podia pegar dinheiro todo dia. Convencido pelo irmão, Marinho tentou morar em Curitiba algumas vezes. A primeira tentativa foi aos 16 anos. “Quando eu chegava lá, ele sempre falava que eu precisava arrumar emprego. Eu respondia: ‘Mas pra que emprego, rapaz? Não quero trabalhar!’”, revela.
Um dia o irmão o convidou para ir a um restaurante. Chegando ao local, convenceu a proprietária a contratar Marinho como ajudante. Após 15 dias de trabalho, o rapaz pegou um vale e abandonou o serviço. Voltou para a casa do irmão, preparou a mala e foi direto para a rodoviária sem avisar ninguém. “Antes do ônibus partir, meu irmão entrou pra falar comigo. Expliquei que não iria ficar lá perdendo tempo. Queria voltar pra Paranavaí. Então ele só se despediu”, relata.
Quando encontram Marinho casualmente, os amigos dos tempos de infância e adolescência ainda tentam convencê-lo a sair da rua e procurar um emprego para mudar de vida. “Ah, tio! Já trabalhei, mas não entendo de nada. O negócio era estudar, mas perdi minha chance. Então sobrou só isso aqui pra mim”, declara. Nas ruas, Marinho está sempre correndo riscos, obrigado a lidar com os percalços de um estilo de vida subumano.
Já foi perseguido várias vezes, inclusive espancado. Quem mora nas ruas de Paranavaí precisa ter muito cuidado. Não há garantias de um novo amanhecer. “Há pouco tempo um cara que nem conheço gritou que bati na mãe dele. Eu disse que ele tava doido e corri pra dentro de um mercado. Chegando lá, falei: ‘Liga pra polícia pra nós aí, rapaz! Não sei qual é a daquele cara ali não, doido!”
27% dos jovens atletas paranaenses sofrem de síndrome de burnout
Rafael Octaviano explica que hoje em dia os jovens precisam de preparo psicológico para não abandonarem o esporte

Rafael Octaviano: “Eu não tinha ideia dessa profundidade, de que temos mais do que o dobro de casos no Paraná do que na Suécia” (Foto: Amauri Martineli)
No final de abril, o professor universitário paranavaiense Rafael Octaviano de Souza, mestre em exercício físico na promoção da saúde pela Universidade Norte do Paraná (Unopar), lançou o livro “Burnout – Atletas Jovens”, escrito em parceria com o pesquisador Dartagnan Guedes, pós-doutorado em condição física e saúde pela Universidade Técnica de Lisboa.
A obra produzida para auxiliar profissionais das áreas de esporte e saúde traz muitos dados importantes. Um deles é a descoberta de que 27% dos jovens atletas do Paraná têm grandes chances de abandonarem o esporte. Do total, 5% sofrem de burnout elevado e 22% de burnout moderado. “Eu não tinha ideia dessa profundidade, de que temos mais do que o dobro de casos no Paraná do que na Suécia, por exemplo”, diz Rafael Octaviano, acrescentando que embora a identificação da síndrome tenha sido feita nos Estados Unidos nos anos 1970 o problema ainda é pouco conhecido e discutido no Brasil.
Definido como um estresse ocupacional crônico, o burnout é causado por exaustão física e emocional, redução do senso de realização e desvalorização. Nos jovens, um agravante são as cobranças da família, amigos e treinadores. “Muitas vezes a criança começa a treinar cedo por imposição do pai que praticou um esporte e quer que o filho siga o mesmo caminho. Com o tempo, perde-se o interesse pela atividade porque vira uma obrigação, sem direito de escolha”, explica Souza.
A síndrome atinge principalmente os praticantes de esportes individuais. O fato de treinar sozinho e sem apoio faz com que muitos jovens se sintam derrotados antes das competições. Outro fato revelador apresentado no livro é que as mulheres são mais suscetíveis ao burnout do que os homens. “O apoio social para as atletas é bem menor. É comum o marido, namorado e pai as criticarem”, conta o autor.
Hoje em dia, muita gente ainda relaciona o burnout ao chamado overtraining, ou seja, excesso de treinamento, o que é um grande erro, já que a síndrome atinge atletas que estão seguindo uma rotina de menor duração. “Os maiores exemplos são os jovens que estão perdendo o interesse e abandonando o esporte aos poucos”, comenta Rafael Octaviano.

“Com o tempo, perde-se o interesse pela atividade porque vira uma obrigação, sem direito de escolha” (Foto: Amauri Martineli)
No entanto, a síndrome não deve ser confundida com dropout que é o abandono da atividade em decorrência de fatores como mudança de cidade, escola, trabalho e lesões. Como o burnout tem características mais específicas, a manifestação do problema pode surgir de diversas formas. “Um jovem que até então gostava de treinar e de repente começa a priorizar banalidades como as baladas e as festas com os amigos pode estar com a síndrome. Neste caso, a recomendação é que o diagnóstico seja feito por psicólogos e psiquiatras”, alerta Souza.
Para evitar o burnout em atletas, é preciso uma reorganização social do esporte. É necessário ponderar que na infância todo mundo deve ter a oportunidade de experimentar várias atividades. “O que vemos hoje é o oposto. Há muita pressão sobre atletas jovens. Temos crianças com cinco a seis anos que já tem a vida esportiva traçada”, destaca. Como consequência, há um grande incentivo ao treinamento físico, técnico e tático, mas em contraponto há pouco investimento em preparo psicológico.
O assunto ainda é muito polêmico e pouco discutido na literatura esportiva brasileira, o que justifica porque 70% das referências do livro “Burnout – Atletas Jovens” são da literatura internacional. Para a produção do livro, Rafael de Souza e Dartagnan Guedes se aprofundaram nas obras dos maiores estudiosos do assunto. Ou seja, os estadunidenses Herbert Freudenberger, Christina Maslach, Susan E. Jackson, Alan L. Smith e Thomas D. Raedeke.
Para entender melhor como o distúrbio afeta os atletas paranaenses, Souza e Guedes realizaram pesquisas com 1217 jovens. Coletaram muitos dados por meio do Questionário de Burnout em Atletas (QBA), basicamente um questionário de autorrelato em que os participantes respondem 15 questões. “Cada atleta respondeu cinco perguntas sobre cada sintoma”, declara Rafael Octaviano. A dupla também trabalhou com variáveis envolvendo tipos de treinamento, intensidade, idade, sexo, modalidade esportiva e nível de competição. “Essa foi a relação que usamos para identificar o que causa o burnout, mas não tenho dúvidas de que precisamos evoluir muito”, enfatiza.
Os autores comemoram o fato de que a obra está sendo vista como nova referência para pesquisadores brasileiros e estrangeiros que estudam a síndrome. “O nosso trabalho não tem fins de diagnóstico. É mais para servir de assessoria. Agora esperamos que apareçam novas pesquisas sobre burnout em atletas jovens de outros estados do Brasil”, frisa Souza.
O projeto gráfico do livro “Burnout – Atletas Jovens” foi criado por Ronaldo Frutuozo e a capa pela Icon Comunicação. “Praticamente tudo foi feito por profissionais de Paranavaí. Apenas o imprimimos na Midiograf de Londrina. Agora estamos comercializando o livro na Banca do Wiegando, Banca Tanaka, Academia Beko, Panificadora Pão de Ouro e em alguns outros pontos por R$ 25”, revela Rafael Octaviano que já está ministrando palestras sobre o tema. Para entrar em contato com o autor, ligue para (44) 9954-8107.
Burnout pode se tornar depressão
Quem sofre de síndrome de burnout precisa procurar ajuda o quanto antes. Do contrário, o distúrbio pode se tornar uma depressão. “Quem tem burnout ainda consegue levar uma vida normal quando se afasta da atividade pela qual não se interessa mais. Em caso de depressão, a realidade é mais alarmante”, garante Rafael Octaviano de Souza, autor do livro “Burnout – Atletas Jovens”, escrito em parceria com Dartagnan Guedes.
Para entender as implicações da síndrome e preveni-la, o primeiro passo é a conscientização. Entretanto, o problema não é facilmente identificado porque exige que os profissionais que estudam ou lidam com o burnout trabalhem com algumas variáveis psicológicas. “É importa avaliar os níveis de perfeccionismo, ansiedade, motivação e autoeficácia de cada pessoa. O assunto exige aprofundamento, tanto que até quem é da área de fisiologia do exercício está buscando referências em burnout. Eles querem saber como essas condições psicológicas podem afetar o aspecto fisiológico”, afirma Souza.
As pesquisas sobre o tema também levantam questões sociais bem pertinentes. Uma delas é sobre o velho ditado de que o esporte tira os jovens das ruas. “Será que tira mesmo? Ou quem vem para o esporte institucionalizado não é alguém que já o praticava? Estudando sobre a realidade dos jovens atletas do Paraná, percebemos que a oportunidade normalmente é dada para quem já está envolvido nesse meio”, reclama Rafael Octaviano.
Síndrome foi descoberta pelo psicólogo Herbert Freudenberger
A síndrome de burnout foi descoberta na década de 1970 pelo psicólogo Herbert Freudenberger. À época, o pesquisador trabalhava com pessoas que ajudavam usuários de drogas. “Os participantes começaram a se despersonalizar. Não conseguiam se sensibilizar com os dependentes químicos e abandonaram o trabalho social, o que chamou a atenção de Freudenberger”, relata o professor universitário Rafael Octaviano de Souza, mestre em exercício físico na promoção da saúde.
Na sequência, o maior trabalho de destaque foi o da pesquisadora Christina Maslach que estudou o distúrbio no contexto laboral. Inclusive foi quem descobriu que o burnout deve ser avaliado a partir de diagnósticos sobre exaustão emocional, redução do senso de realização pessoal e despersonalização. “No esporte, o assunto começou a ser pesquisado só na década de 1990”, ressalta Souza.
Saiba Mais
O livro “Burnout – Atletas Jovens” é resultado da dissertação de mestrado profissional concluída no ano passado por Rafael Octaviano de Souza, sob orientação de Dartagnan Guedes. O trabalho teve duração de dois anos.
Seis anos lutando pela cultura de Paranavaí
Paulo Cesar de Oliveira, um dos melhores presidentes da história da Fundação Cultural
No início de 2009, atendendo a um pedido da classe artística de Paranavaí, o prefeito Rogério Lorenzetti convidou o músico Paulo Cesar de Oliveira para assumir a presidência da Fundação Cultural. Embora já estivesse aposentado há alguns anos, Paulo Cesar aceitou o desafio de mais uma vez fazer a diferença na cultura local.
Sob a direção de Oliveira, a FC começou a trilhar um novo caminho de conquistas, transparência e interação com a população. Assim que assumiu, sugeriu a retomada de um projeto antigo da Fundação Cultural. Ou seja, a produção do DN Cultura, página semanal em que são publicadas matérias sobre as atividades da FC, o trabalho dos artistas locais e eventos realizados no Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa. Desde então, se passaram seis anos e a página continua sendo publicada no Diário do Noroeste, parceiro da iniciativa.
Também foi na gestão de Paulo Cesar que houve um grande incentivo à criação de novas mostras, projetos e festivais. “Com o PC, implementamos o projeto Portas Abertas, um evento de música com entrada gratuita. Muita gente participou”, comenta o ex-diretor geral e atual presidente da Fundação Cultural, Amauri Martineli. Com Oliveira, o Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) foi elevado à mostra, perdendo o caráter competitivo que normalmente acirrava os ânimos e segregava artistas. Com a nova proposta, houve mais harmonia entre músicos, contistas, poetas e espectadores. Não há mais motivos para conflitos porque todos os selecionados hoje recebem prêmios em dinheiro e também ajuda de custo da FC.
Paulo Cesar se esforçou para motivar a criação do Fórum de Cultura de Paranavaí que trouxe nomes de grande projeção no cenário nacional, além de propor mais diálogos e debates entre os artistas. A gestão de Oliveira marcou o retorno do Festival de Teatro de Paranavaí que cresceu consideravelmente nas últimas edições, trazendo artistas de todo o Brasil. Apesar da cidade não ter uma sólida cultura audiovisual, Paulo Cesar sempre incentivou a realização do Projeto Mais Cinema que de 2008 até 2013 exibiu mais de cem filmes seguidos de análise e debate na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade.

Talise Schneider: “Paulo Cesar foi mais que presidente, administrador e artista. Foi humano ao compreender todo o movimento artístico” (Foto: Fundação Cultural de Paranavaí)
Além de duas mostras de cinema, inclusive uma internacional, o ex-presidente da Fundação Cultural também se empenhou na descentralização das atividades culturais do município. Exemplos são as muitas oficinas que foram realizadas nos bairros ao longo dos anos, atendendo crianças e adolescentes. “Com o Arte em Todos os Cantos, o Paulo Cesar também defendeu o acesso aos mais diversos tipos de espetáculos. Muita gente não tem condições de vir ao Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa e Casa da Cultura, então sempre escolhemos um bairro da periferia para levar apresentações dos nossos artistas”, destaca a gerente de desenvolvimento cultural Talise Schneider.
Paulo Cesar de Oliveira uniu a equipe da Fundação Cultural e os seus colaboradores. Em pouco tempo, a FC chegou a um total de dois mil alunos participando das dezenas de oficinas de artes. É até difícil enumerar em apenas um texto todas as conquistas que tiveram a contribuição de Paulo Cesar em seis anos de dedicação. Na gestão de Oliveira, a FC criou também o Concurso Altino Costa de Declamação, que visa incentivar crianças a se interessarem por poesia, e o Femupinho, uma versão do Femup para crianças e adolescentes. “A boa vontade e empenho do Paulo permitiu também que criássemos o Festival A Voz do Trabalhador e melhorássemos o Festival de Corais de Paranavaí”, destaca Martineli.
Talise cita também que Paulo Cesar viabilizou a criação do Festival de Dança de Paranavaí, evento que tem crescido e se tornado uma grande referência regional. No 1º Fórum de Cultura de Paranavaí, o então presidente da FC incentivou a criação de grupos de trabalho divididos por segmentos. Assim os artistas poderiam se unir para discutir sobre as necessidades de cada área. Muitas vezes, Oliveira se responsabilizou por conseguir patrocínio para projetos de artistas locais. Um exemplo é o Camerata Paranavaí, coordenado pelo músico Arnaldo Santos.

Rosi Sanga: ““O Paulo César foi um grande mestre na minha juventude” (Foto: Fundação Cultural de Paranavaí)
Quando necessário, Paulo Cesar ia muito além da sua função. Chegou a tirar dinheiro do próprio bolso para custear despesas da Fundação Cultural e ajudar artistas que enfrentavam alguma crise financeira. Também implantou o Projeto Clave de Luz, de formação profissional de música para crianças e adolescentes na Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado, ampliou o número de oficinas oferecidas pela Fundação Cultural e depois batalhou pela criação da Banda Sinfônica Clave de Luz.
A gravação do primeiro CD da Orquestra de Sopros Paranavaí, mantida pela Fundação Cultural, também não seria possível sem a ajuda do então presidente da FC. “O Paulo lutou também pela aquisição de novos instrumentos para a orquestra e para o Projeto Clave de Luz”, garante Amauri Martineli. O fortalecimento do Conselho Municipal de Cultura e as criações do Fundo Municipal de Cultural, Edital Municipal de Incentivo à Cultura e Conferência Municipal de Cultural também são conquistas que contaram com a dedicação de PC. Após tanto trabalho, Paulo Cesar de Oliveira pediu exoneração do cargo na semana passada para trilhar um novo caminho.
A versatilidade de Paulo Cesar de Oliveira
Filho dos pioneiros Sebastião Bem Bem de Oliveira e Elazir Azevedo de Oliveira, personagens ilustres da história de Paranavaí, Paulo César de Oliveira nasceu em Paranavaí em 30 de maio de 1951. Começou a trabalhar com apenas 12 anos no Banco América do Sul. Antes de ingressar no Exército em 1970, trabalhou na Livraria Santa Helena e na Livraria Eclética. Quando retornou, assumiu a chefia da Divisão de Pessoal da Prefeitura de Paranavaí, até que em abril de 1974 tomou posse como funcionário do Banco do Brasil, onde trabalhou até 1997.

Rafael Torrente: “Considero o PC um grande maestro da cultura paranavaiense” (Foto: Fundação Cultural)
Paulo Cesar também foi vereador por dois mandatos, secretário da administração municipal, gerente da Associação Comercial e Empresarial de Paranavaí (Aciap), presidente da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) e vice-presidente do Sindicato dos Bancários, além de presidente da Associação Paranavaiense de Arte e Cultura (Apac) e da comissão organizadora do Femup em 1973.
Mas para a classe cultural de Paranavaí, Paulo Cesar é sempre lembrado como membro-fundador do Teatro Estudantil de Paranavaí (TEP), um dos mais antigos do teatro paranaense, e fundador do Grupo Gralha Azul, importante nome da música regionalista do nosso estado. Músico, poeta, compositor e bacharel em direito, Oliveira compôs mais de 100 músicas ao longo da carreira.
“Ele escreveu, dirigiu e atuou no espetáculo ‘A Hora da Boia’, montado pelo TEP. Recebeu diversos prêmios, inclusive o de melhor ator coadjuvante no Festival Internacional dos Países do Mercosul, realizado em Marechal Cândido Rondon em 1999”, enfatiza Amauri Martineli. Paulo Cesar também escreveu e dirigiu a peça “Bar Copa 70”, montada pelo TEP em 2009 em comemoração aos 40 anos do grupo.
Depoimentos da equipe da Fundação Cultural de Paranavaí
“PC foi de longe um dos melhores presidentes que a Fundação Cultural já teve. Paulinho é da classe, é músico, é poeta, é da gente. Por isso seu comprometimento e seriedade à frente da cultura da nossa Cidade Poesia foi tão importante. Posso afirmar que sua ausência faz parecer que nos falta um braço direito, uma parte de nosso corpo que leva um tempo para nos acostumarmos com sua falta. PC deixa em todos nós marcas indeléveis e inspiradoras. Querido por artistas e não necessariamente artistas, PC deixa sua marca e muitas conquistas para o meio cultural. Para mim, será sempre o nosso presidente de honra.”
Amauri Martineli, presidente da Fundação Cultural de Paranavaí
“Paulo Cesar foi mais que presidente, administrador e artista. Foi humano ao compreender todo o movimento artístico que faz de nossa Paranavaí a Cidade Poesia. A cultura chegou aos bairros mais distantes e trouxe muitos para perto. Artistas e plateia, inclusive formada por crianças, dividiram o palco inúmeras vezes. O grande pescador que sempre contava histórias ao final de cada reunião com a equipe jogou a rede e trouxe muitas conquistas para a cultura de nossa cidade. Hoje temos festivais que mobilizam artistas de todo o país. Exemplos são os festivais de teatro e dança. Admirado por muitos artistas, será sempre grande inspiração para o movimento cultural de Paranavaí.”
Talise Schneider, gerente de desenvolvimento cultural da Fundação Cultural de Paranavaí
“O Paulo César foi um grande mestre na minha juventude, quando me iniciei no teatro. Anos depois, pude me reencontrar com o mestre durante esses seis anos na Fundação Cultural. Bem, foi uma honra para mim esses dias de convivência, aprendizado e trabalho. Para ele, minha gratidão enquanto artista e agente cultural. Como presidente da Fundação Cultural, promoveu o Movimento Cultural de nossa cidade, assim como já havia feito na sua juventude e durante sua vida em tempos atrás. Não vou mensurar ou destacar aqui suas contribuições. Eu seria injusta com certeza, pois foram muitas. O que quero dizer é que sei de sua luta de anos atrás e sei da sua luta durante esses últimos seis anos. Por isso, agradeço ao mestre PC com minha alma de artista por mais essas lições e pelos caminhos apontados para trilharmos. Siga com sua poesia, mestre querido. Não podemos viver sem ela. Evoé!”
Rosi Sanga, coordenadora da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade
“Eu acredito que a música é uma ferramenta capaz de formar cidadãos sensíveis e críticos, além de músicos. Assim como um maestro dotado de muita sensibilidade tira o melhor de seus músicos, o PC com sua experiência e sabedoria soube tirar o melhor de sua equipe e assim nasceram projetos incríveis como a banda sinfônica Clave de Luz e os projetos de música nos bairros. Considero o PC um grande maestro da cultura paranavaiense.”
Rafael torrente, coordenador da Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado.
Oficina do Tio Lú no Encontro com Fátima Bernardes
Artista plástico de Paranavaí recebeu a equipe do programa ontem
Anteontem, eu estava retornando de Curitiba, quando parei em Califórnia por volta das 22h para atender uma ligação. Era o Tio Lú, artista plástico da Vila Alta, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que faz um trabalho de recuperação de crianças em situação de vulnerabilidade social. Feliz, me contou que ontem de manhã receberia a equipe de jornalismo do programa Encontro Com Fátima Bernardes, da Rede Globo. Emocionado, me agradeceu várias vezes pela divulgação da sua oficina em texto e vídeo.
Depois pediu que eu fosse até a casa dele antes das 9h para dar uma força. Gostei muito da experiência. Fiquei emocionado em ver que após seis anos acompanhando a Oficina do Tio Lú, o trabalho do Seu Luiz vai ter uma repercussão muito maior. Outra felicidade foi encontrar o artista plástico Jesus Soares que teve importante participação nesse processo. Inclusive foi quem me apresentou ao Tio Lú há seis anos. Jesus fez questão de contribuir, tanto que dedicou a manhã toda e parte do início da tarde.
Admito que não tenho o hábito de assistir TV, mas fiquei grato em ver o carinho e a sensibilidade da equipe do programa com todo mundo que participou e testemunhou esse trabalho que findou só por volta das 14h. Tiveram uma grande preocupação em conhecer a fundo o projeto do Tio Lú. Recolheram fotos, vídeos produzidos de forma independente e checaram todos os outros materiais já publicados sobre o assunto.
É muito legal saber que o Seu Luiz, já com 84 anos, dois joelhos problemáticos e diagnosticado com uma hepatite C no final de dezembro, continua lutando pelos seus ideais, se esforçando para fazer a diferença em um mundo cada vez mais individualista e materialista. A garotada também merece só elogios. Deram um grande show de comprometimento e gratidão. A reportagem gravada em Paranavaí vai ao ar no programa Encontro com Fátima Bernardes na terça-feira.
Link do vídeo produzido pela equipe do Encontro Com Fátima Bernardes (atualizado no dia 21-04-2015):
http://globotv.globo.com/t/programa/v/gabriela-lian-mostra-trabalho-de-artesao-de-84-anos/4124935/
Conheça um pouco mais o trabalho do Tio Lú nos links abaixo:
//davidarioch.com/2014/02/22/oficina-do-tio-lu/
//davidarioch.com/2014/10/14/ajudando-jovens-em-situacao-de-risco/
Renato Esteves, um soldado pacifista no Oriente Médio
Conhecido como Sete Metros, jovem de Paranavaí se destacou no Batalhão de Suez e recebeu condecoração da ONU em 1962
Em 1961, Renato Esteves Oliveira tinha 23 anos quando foi selecionado para ser um dos boinas azuis da Organização das Nações Unidas (ONU) no Canal de Suez, no Oriente Médio. O soldado deixou Paranavaí, no Noroeste do Paraná, porque queria ajudar a acabar com a guerra entre judeus e árabes, intensificada em 1956, quando Israel invadiu o Egito.
“A gente morava na fazenda e um dia o meu marido Joaquim [Mariano Silva] foi entregar leite e parou na venda de um português conhecido como ‘Seu Augustinho’, perto da Sanepar [Companhia de Saneamento do Paraná]. O comerciante disse que o meu irmão avisou que iria para o Canal de Suez [que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho]”, conta a aposentada Maria Aparecida Oliveira Silva.
Com a 7ª Companhia do 3º Pelotão do Batalhão de Suez, Renato Esteves, que era conhecido pela família como Lula e pelos amigos como Sete Metros porque tinha 1,92m de altura, precisou suportar uma viagem de navio com duração de 25 dias até chegar ao Oriente Médio, onde começou a patrulhar na Linha de Demarcação do Armistício (LDA). “Lembrei muito de vocês. Foram muitos dias e noites vendo apenas água, mas deu pra passar na África e na França. Se Deus quiser, vou a Jerusalém na Semana Santa. Também quero levar pra vocês um pouquinho de água do Rio Jordão”, prometeu Renato Esteves à família em carta de 19 de novembro de 1961.
Na LDA, o trabalho do soldado era ajudar a garantir a paz. Ou seja, não permitir que a zona neutra fosse ocupada por israelenses e árabes, caso surgissem provocações ou tentativas de transposição. Se houvesse alguma suspeita, deveria avisar os superiores. Como era voluntário, Sete Metros viajou para o Egito sem se preocupar com salário, mas quando chegou lá ficou feliz com a remuneração paga pela ONU. “Sinto saudade de Paranavaí, mas gosto muito daqui porque o ordenado que ganho em um mês equivale ao salário de um ano no Brasil. Já estou com quinhentos dólares na caixa”, escreveu em carta de novembro de 1961.
De natureza pacífica, o soldado, também chamado de Pracinha 4307 por causa do seu número de identificação, se orgulhava de não ter matado ninguém em 1961 e 1962, período em que fez parte do Batalhão de Suez. Na fronteira do Egito com Israel, teve de aprender a lidar com o perigo. Era preciso resistir ao calor escaldante, às frequentes e violentas tempestades de areia e às minas terrestres instaladas nas áreas de patrulhamento. À noite, dormiu muitas vezes em uma barraquinha de tecido branco ao lado da guarita B17. Independente das dificuldades, Sete Metros tentava resolver qualquer situação da forma mais amistosa possível. Só ficava feliz em empunhar uma arma quando era para ser fotografado. Gostava de impressionar a família, amigos e as moças com quem se correspondia.
Em 23 de novembro de 1961, o soldado afirmou que quando estava de folga passava o dia escrevendo cartas. “Cida [irmã], compre a revista Sétimo Céu que você vai ver o meu nome na última página. Já recebi mais de 300 cartas. Tem muitas moças aí do Brasil querendo me conhecer. Pergunte ao Sandro [um amigo] se ele ainda está levando um papo com aquela mineira. Estou levando um papo firme com uma de Itajubá [Minas Gerais]. Tem mais algumas de outros estados que vão me esperar na Praça Mauá quando o navio [Soares Dutra] atracar no Rio de Janeiro”, relata. Naquele tempo, como Paranavaí não tinha agência dos Correios, as correspondências eram retiradas na Casa Lusitana na Rua Manoel Ribas ou na Casa Moreira na Avenida Distrito Federal.
Trabalhando no Canal de Suez, Renato Esteves fez muitas amizades com egípcios e israelenses. À época, os boinas azuis tinham à sua disposição um avião para viagens de lazer. “Estou gostando bastante da minha vida aqui. Já conheci Beirute, no Líbano, e também o Cairo, a capital do Egito, além da Grécia. Da última vez, encontramos o presidente Juscelino Kubitschek assim que chegamos. Ele veio visitar o nosso batalhão e nos parabenizar”, narra em carta enviada à irmã no dia 13 de janeiro de 1962, acrescentando que a viagem do Cairo até Jerusalém levava 40 minutos de avião.
Enquanto viveu no Oriente Médio, nada abalou mais o pracinha do que a notícia de que o irmão João Ramos Oliveira morreu envenenado. “O meu irmão era meu amigo. A gente estudava junto e ele morreu. Falei pra ele não ficar triste com a minha partida porque eu voltaria logo”, confidenciou dias depois. Em tributo ao irmão, agendou uma missa em uma igreja católica ortodoxa de Jerusalém e tirou uma foto ajoelhado e orando. O que ajudou Sete Metros a lidar com a perda foi a amizade com uma criança egípcia de menos de dez anos. Todos os dias o soldado recebia a visita do menino que percorria quilômetros a pé para vê-lo. Quando o garotinho não podia visitá-lo, Renato Esteves ia até ele. Os dois se tornaram inseparáveis.

No canto à esquerda, o soldado acompanha a chegada de Juscelino Kubitschek ao Oriente Médio (Foto: Acerco Familiar)
Embora tivesse pai, o menino viu no brasileiro uma nova figura paterna. “O Lula ficava muito tempo em uma guarita e quase sempre aquela criança o acompanhava. Levava o menino para o acampamento, comia com ele, dava presentes. O pai do garotinho também ia de vez em quando e gostava do relacionamento dos dois. Ele via uma rara bondade no meu irmão”, assinala Maria Aparecida.
Uma das brincadeiras preferidas da dupla era deitar no chão quando surgia alguma rápida tempestade. Em poucos segundos, seus corpos sumiam na imensidão desértica, cobertos pela areia. A criança ficou tão apegada ao pracinha que um dia pediu que o trouxesse ao Brasil. Como o garotinho tinha família, Esteves admitiu que não poderia fazer isso. “Você me põe dentro de uma caixa e fecha. Quando for passar na vistoria, eu vou com você”, sugeriu.
Sete Metros se sentiu tentado a trazer o menino, mas sabia que seria errado. Durante algum tempo ainda trocaram correspondências, até que as mudanças da vida fizeram com que perdessem contato. Quando retornou ao Brasil, o soldado passou um período no Rio de Janeiro, atuando no Exército. De volta a Paranavaí, quis seguir carreira militar. Então foi para Maringá, onde se tornou policial. “Como morávamos em uma fazenda e meu irmão gostava muito de viajar, ele sempre tinha um quarto reservado em um hotel perto do Terminal Rodoviário de Paranavaí. Era tudo muito bonito e bem arrumado”, explica Aparecida.
Após alguns anos, começou a namorar uma moça em Paranavaí, sem saber que a jovem também estava envolvida com outro homem. Um dia, os dois rapazes se encontraram e se estranharam. A discussão terminou em luta e Sete Metros sacou a arma primeiro e atirou no seu agressor que faleceu no local. Familiares de Esteves testemunham que a moça manipulou a situação, colocando um contra o outro. Depois da tragédia, o rapaz que fazia parte do Destacamento Policial de Nossa Senhora das Graças, na microrregião de Astorga, se entregou na delegacia de Paranavaí, alegando que estava preparado para ser punido pelo que aconteceu. Renato Esteves admitiu a culpa e aceitou a sentença.
Maria Aparecida acredita que o destino poderia ser diferente se o irmão não tivesse retornado a Paranavaí. Pelos serviços prestados no Canal de Suez, Sete Metros recebeu uma condecoração de soldado de destaque da ONU no Rio de Janeiro. O prêmio proporcionou grande visibilidade. “Sempre tinha gente tentando arrumar confusão com ele. Havia muita inveja. O Lula me contava que até os colegas de trabalho implicavam muito com ele”, frisa a irmã que até hoje não entende como o irmão, alguém tão calmo, educado e pacífico se colocou em uma situação tão antagônica à própria natureza.
Quando estava preso em Paranavaí, antes de receber a sentença, foi ameaçado muitas vezes. “Cansado e preocupado, ele pediu que eu falasse com o [deputado federal] doutor José de Alencar Furtado para acelerar a transferência dele”, revela a irmã. Após a mudança para a Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, a família começou a visitá-lo aos sábados. “Eu ia sempre à noite, daí amanhecia lá e o encontrava pela manhã”, enfatiza Aparecida Oliveira que não ficava muito tempo sem ver o irmão.
Só que tudo mudou no dia 6 de janeiro de 1970, quando Sete Metros estava na fila do refeitório segurando uma bandeja e aguardando o momento de pegar a comida. Um detento conhecido como Mergulhão que estava logo atrás o golpeou três vezes nas costas com um “estoque” de ferro. Quando o rapaz caiu no chão, um amigo correu para socorrê-lo. Desprevenido, também foi golpeado várias vezes. Os dois morreram no refeitório da penitenciária sem a intervenção de ninguém, nem mesmo de funcionários do complexo prisional.
Mais tarde, a família de Renato Esteves descobriu que o crime foi encomendado por um tenente de Paranavaí. “Meu irmão virou notícia em praticamente todas as emissoras de rádio do Paraná. Fiquei muito revoltada porque os soldados e policiais que eram amigos dele ficaram sabendo da morte no dia do acontecido e não avisaram a gente. Quando eu soube, fui até a barbearia frequentada por eles e discuti com todo mundo. O único que se preocupou em nos procurar foi o compadre Jobi, um ex-soldado já falecido”, garante Aparecida.
Em Curitiba, o deputado federal José de Alencar Furtado designou o próprio motorista para acompanhar a irmã de Renato Esteves até Piraquara. “Foi muito gentil e disse que o motorista poderia me levar onde eu precisasse”, comenta. Na penitenciária, Maria Aparecida entregou uma carta escrita por Alencar Furtado. Se emocionou quando viu que do irmão restou apenas uma mochila pequena com poucos pertences. Muitos itens pessoais foram furtados, não se sabe se por outros detentos ou por funcionários da prisão.
O corpo de Sete Metros foi transferido do Instituto Médico Legal (IML) para um caixão grande e azul. Antes taparam com algodão os três ferimentos causados pelos golpes. Também o vestiram com uma de suas roupas preferidas, limpinha e perfumada, embora já não pudesse mais senti-la. Na viagem a Paranavaí, a ambulância que trouxe o corpo do rapaz parou em Alto Paraná, onde a família de Renato Esteves era bem conhecida. “Quando chegamos lá, muitos que estavam próximos da prefeitura se aproximaram e falaram: ‘Nossa! Esse é o filho do Aureliano!’”, lembra Maria Aparecida visivelmente emocionada.
Depois de avisar os amigos, a família o velou por uma noite e o sepultou no dia seguinte. A mãe de Sete Metros, a portuguesa Maria Esteves, que já tinha perdido o filho João Ramos Oliveira em 1962, não resistiu a mais uma perda e adoeceu gravemente. Em 1970, faleceu alguns meses após a morte do filho Renato Esteves Oliveira que partiu sem imaginar que em 1988 o Batalhão de Suez receberia o Prêmio Nobel da Paz.
Soldado escrevia todos os dias para a família em Paranavaí
Enquanto prestava serviços para a Força de Emergência das Nações Unidas (Unef) no Oriente Médio, o soldado Renato Esteves Oliveira, conhecido como Sete Metros, escrevia todos os dias para a família em Paranavaí. Também gostava de enviar presentes. Curiosamente, as encomendas que saíam do Brasil para o Egito sempre chegavam, mas as que partiam do Canal de Suez para cá muitas vezes eram extraviadas. “O avião que leva as encomendas só vem aqui uma vez por mês. Elas chegam através do Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro”, explicou o pracinha em carta de 1º de janeiro de 1962, seis meses antes de retornar ao Brasil.
Entre os produtos enviados por Sete Metros estavam tapetes, chinelos, navalhas, roupas e brinquedos. “Ele enviou ‘chinelo de dedo’ pra gente numa época em que aqui ainda não existia. Mandou também uma réplica de um camelinho bem bonitinho para o Pedrinho [sobrinho já falecido]. Depois de mais de 50 anos, ainda guardo com carinho”, assegura a irmã Maria Aparecida Oliveira Silva.
Em 1961, o pracinha experimentou pela primeira vez uma cerveja em lata no Egito, versão que os brasileiros conheceriam só em 1971. Gostou tanto da bebida que em 10 de abril de 1962 comemorou o aniversário rodeado de amigos e uma mesa repleta de latinhas. “Como aqui não existia, ele trouxe de lá. Junto veio um baú com tapetes e roupas para toda a família. Tinha muitas novidades, coisas que não se via no Brasil”, conta Aparecida, lembrando que o irmão geralmente pedia para enviarem jornais, cigarros e revistas, principalmente O Cruzeiro, uma de suas preferidas. No entanto, as remessas não podiam ultrapassar 20 quilos.

Resistiu ao calor escaldante, violentas tempestades de areia e minas terrestres (Foto: Acervo Familiar)
Em carta de 25 de novembro de 1961, Renato Esteves pediu que o pai fosse a uma barbearia para perguntar o preço da navalha alemã Solingen. “Aqui é muito barato. Eu mando pra ele vender. Vou enviar também um embrulho com tapete que não existe aí. Diga para o pai repassar por dois mil cruzeiros. Quem não quiser comprar, é só mandar vir buscar aqui no Egito”, ironizou. No Canal de Suez, o traje tradicional de Sete Metros incluía farda, boina, anel de formatura, cachecol e um cinto de couro com uma pistola 45 e uma submetralhadora INA. “Nunca deixei de mandar uma resposta pra ele. Tenho um pacote enorme de cartas que me enviou. Estão todas velhinhas e amarelas”, revela a irmã.
Sete Metros abominava injustiças
Foi justamente por abominar injustiças que Renato Esteves Oliveira, o Sete Metros, optou por deixar o trabalho no campo para se tornar soldado e depois policial. Nos anos 1960, a Polícia Militar do Paraná não tinha uma divisão específica para lidar com situações de alta gravidade, então no Norte do Paraná convocavam Sete Metros que logo ficou famoso por prender alguns dos criminosos mais perigosos que atuavam na região.
Apesar da curta carreira como policial militar, Renato Esteves desmantelou inúmeras quadrilhas de assaltantes e sequestradores. “Era temido pelos bandidos porque sabia como reagir em qualquer situação. Foi o responsável por acabar com ondas de tiroteios e outras ações criminosas em cidades como Nossa Senhora das Graças, Jaguapitã e Colorado”, garante a sobrinha Maria Neuza Silva. Mesmo quando estava de folga, o policial costumava intervir em casos de injustiça.
Maria Neuza se recorda das vezes em que na infância ela e o irmão Luiz Ademir saíam com o tio para comer pão com sardinha. “Era a comida preferida dele. Ele também adorava o seu jipe e gostava muito de mecânica. Foi criado na roça, mas não se identificava com o campo”, comenta a sobrinha.
Trecho de uma carta escrita por Renato Esteves em 19 de novembro de 1961
Saudações,
prezada irmã Cida. É com muito prazer que pego na pena para responder a sua cartinha recebida há poucos dias. Que bom saber que todos estão com saúde. Também vou bem graças a Deus. Fiquei muito contente de saber que recebeu carta minha e que continua me escrevendo. Quando for na Casa Lusitana, procure carta no nome do pai porque escrevi muitas. Cida, quero que tu me mande umas cinco revistas, daí quando eu receber vou te mandar um corte de vestido que aí no Brasil não tem desse pano. Tu fala para a mãe que eu mando um pra ela também. O Tim [irmão] mandou eu levar um revólver pra ele. Manda ele preparar a grana que na volta eu passo na Itália e compro a arma direto da fábrica.
Você disse na carta que o Zé [irmão] ainda não voltou e que o Francisco [cunhado] já está bom. Eu desejo felicidades pra eles. Cida, você falou que o pai conseguiu o endereço do Feliciano. Ele foi meu colega quando servimos o Exército no Rio de Janeiro. Ele queria vir pra Suez. Aqui o ordenado de um soldado é de 32 contos por mês e se Deus quiser vai vir aumento pra nós agora com a saída do Jânio Quadros. Você falou na carta que está chovendo aí. Aqui passa até um ano sem chuva. Começou o frio agora em novembro e vai até março. Quando vocês estão jantando, aqui é meia-noite e eu já estou dormindo. Deixo a minha benção ao pai, mãe e meus sobrinhos. Lembranças para todos daí.
Saiba Mais
45 anos após sua morte, o túmulo de Renato Esteves Oliveira, tio-avô do autor da reportagem – David Arioch, ainda recebe muitas visitas no Cemitério Municipal de Alto Paraná.
Sete Metros era tão respeitado que uma semana após a sua morte alguns detentos se uniram e mataram o criminoso conhecido como Mergulhão.
Frases de Renato Esteves Oliveira
“Cida [irmã], quando me escrever, mande perguntar na Fazenda Ouro Verde se tem família nova. Se alguma colega da Clarisse perguntar de mim, dê o meu endereço que é pra eu treinar a caligrafia porque a minha letra está um pouco ruim.”
Nos anos 1950 e 1960, era muito comum os casos de envenenamento em Paranavaí e região. Então um dia Renato disse: “Ô Pai, nunca tome nada que te derem para beber sem antes ver a pessoa abrir a garrafa na sua frente.”
Por que os soldados brasileiros foram enviados para o Canal de Suez?
De acordo com o Manual do Expedicionário Brasileiro em Suez, a Força Internacional das Nações Unidas enviou soldados brasileiros para fazer uma interposição entre árabes, israelenses, franceses e ingleses. O objetivo era evitar que guerreassem. Em 1956, o desentendimento entre os quatro povos teve como estopim a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, apoiado pela União Soviética. Com isso, franceses, ingleses e israelenses não poderiam mais usar o canal como rota estratégica de navegação para Ásia, África e Europa.
Com o apoio dos Estados Unidos, França, Inglaterra e Israel se uniram para atacar o Egito. Preocupada com a possibilidade do conflito se transformar em uma Terceira Guerra Mundial, a ONU agiu rapidamente e enviou tropas de paz para o Canal de Suez. Lá, brasileiros trabalharam em parceria com soldados da Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Iugoslávia, Índia, Colômbia e Indochina.
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Idosos, os livros da cultura oral
Na minha infância e adolescência, uma das coisas que mais me agradava era a ideia de conhecer ou aprender algo sobre quem nasceu antes do século 20 ou em seu princípio. Me sinto privilegiado por ter conhecido pessoas que vieram ao mundo nas décadas de 1890, 1900 e 1910. Quando pequeno, nas visitas ao cemitério com a minha família, sempre me dispersava procurando os túmulos mais antigos e as pessoas que nasceram há mais tempo. Imaginava como eram, como viveram e o que fizeram ao longo da vida.
Estamos em 2016 e lamento que restam poucas pessoas que nasceram no século XIX. Em pouco tempo, não existirá mais nenhuma. Muito conhecimento se perde diariamente com a morte de tantos personagens. Sempre que fico sabendo do falecimento de alguém que teve uma vida considerada longa, me pergunto quantas experiências únicas essa pessoa deve ter vivido. O que será que ela viu no mundo que ninguém viu e ainda assim não teve a oportunidade de compartilhar? Será que seus filhos, netos e bisnetos ouviam suas histórias? Ou será que tanto conhecimento se desvaneceu junto com a carne?
Pelo menos pra mim, o mundo sempre parece mais raso com a morte de um ancião ou de uma anciã. Ninguém conta uma história melhor do que uma pessoa idosa. A visão que eles têm do mundo é única e inestimável. Quando o caixão de um idoso é lacrado, imagino sempre centenas de livros se fechando, livros que nunca mais serão lidos ou abertos.
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Manoel de Oliveira faleceu hoje aos 106 anos
No ano passado, o cineasta português lançou o média-metragem “O Velho do Restelo”
O cineasta português Manoel de Oliveira faleceu hoje. Aos 106 anos, ainda trabalhava. O seu último trabalho que assisti foi “O Velho do Restelo”, um média-metragem lançado no ano passado sobre um hipotético encontro de Camões, criador do personagem que empresta nome ao filme, Dom Quixote de La Mancha, Pascoaes e Castelo Branco. Em síntese, uma viagem por reflexões sobre o passado, presente e futuro. Foram 83 anos trabalhando como cineasta e passeando por gêneros.
Nem mesmo a idade avançada o impedia de se lançar no cinema como um aventureiro redescobrindo a sétima arte em tempos de cinema digital. Gostava muito de trabalhar com atores como Miguel Cintra, Diogo Dória e Leonor Silveira. Ao mesmo tempo, intrigou e atraiu estrangeiros de renome internacional como Marcello Mastroianni, John Malkovich, Catherine Deneuve e muitos outros artistas que surpreendeu pela versatilidade e amor ao que fazia, independente de imposições e limitações.
Oliveira, que nasceu no início do século XX, sempre me intrigou por ser menos conservador do que cineastas com menos da metade de sua idade e não mais do que 1/5 de sua longeva experiência profissional. Impossível e injusto listar as suas melhores obras, assim como é inadequado dissociá-las de sua própria natureza.
O cinema português, e não somente ele, não seria o que é hoje se não fosse Manoel de Oliveira, um artista livre de amarras que passeava por formatos e se dedicou a fazer com que refletíssemos sobre as nossas incertezas e a nossa condição humana, mesmo quando estas pareçam perpetuadas por décadas e séculos.
























