Archive for the ‘Autoral’ Category
Ser tímido

Kafka, por exemplo, era tímido, e sua força literária tinha relação com a sua timidez (Foto: Reprodução)
Não vejo como ser tímido pode ser tão ruim. Muito do que faço na minha vida tem justamente a timidez como motriz. As pessoas subestimam a timidez quando a relacionam apenas aos aspectos negativos da vida em sociedade. Pessoas tímidas naturalmente ouvem mais e observam mais. Também refletem muito.
Kafka, por exemplo, era tímido, e sua força literária tinha relação com a sua timidez. Hermann Hesse, William Faulkner, Edgar Allan Poe, Marcel Proust, Emily Dickinson, Emily Brontë, George Bernard Shaw, Hunter Thompson e Nathaniel Hawthorne também eram tímidos. São nomes que hoje ocupam posição de destaque na literatura mundial. Logo ser tímido não é uma forma de fracasso.
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Jean Vigo, um dos cineastas que mais me emocionou
Jean Vigo, um dos cineastas que mais me emocionou, é praticamente desconhecido por quem não conhece o realismo poético, o cinema francês pré-nouvelle vague. Houve uma época da minha vida que fiquei tão imerso em suas obras que assisti tudo que ele produziu e comprei todos os livros de referência sobre a sua vida.
Lembro que me comprometi em escrever sobre ele, mas fiquei tão comovido que acabei fazendo justamente o oposto – nada. Até hoje, não escrevi nada sobre ele. Me senti mal mesmo pelo seu trágico final. Jean Vigo era um sonhador, morreu com 29 anos e não teve nenhum tipo de reconhecimento em vida.
Aquilo me surpreendeu sobremaneira. Quando terminei de assistir e de ler tudo que encontrei sobre ele, refleti: “Sim, Jean Vigo era um artista intenso, e por isso vocês não podem resumi-lo a quatro obras e dizer que aquilo era o que ele tinha a oferecer ao mundo. O cara estava apenas começando. Ele exalava vida, sublimidade, alegorias, simbologias, lirismo. Em seu tempo, era o mais genuíno dos poetas do cinema francês, Ademais, quem exala vida não poderia morrer dessa forma.”
Ele deixou trabalhos promissores, que provavelmente teriam revolucionado muito mais o cinema. Vigo faleceu depois de lançar “L’Atalante”. Este filme, que marcaria o princípio da sua carreira profissional, a sua própria estilística cinematográfica, foi eleito um dos melhores da história do cinema em algumas pesquisas.
O mais paradoxal disso tudo é que “L’ Atalante”, que narra uma história de amor e seus conflitos, passou por modificações, alterações que não foram feitas nem desejadas por ele. Logo é uma obra descaracterizada, não fidedigna. Sim, Vigo está ali, mas não puramente ou tão liricamente. Não se mexe em um poema audiovisual. Isso é obliteração.
Vigo influenciou outro de meus cineastas preferidos – François Truffaut, que eternizou uma das mais belas cenas do cinema – aquela em que os estudantes correm pelas ruas de Paris e são acompanhados pela câmera, num dos momentos mais bucólicos e eletrizantes de “Les 400 Coups”. Esta referência vem do primeiro filme ficcional de Vigo. intitulado “Zéro de conduite”.
O jovem Jean Vigo viveu intensamente, mas não colheu os frutos de seu trabalho. No leito de morte, foi tratado como um ninguém, um pária. Morreu da mesma forma que nasceu, como um rejeitado, um injustiçado indesejado em um mundo já conturbado e ensoberbado. Acabou vitimado por uma tuberculose que o perseguia desde a infância, gestada no seio das precárias condições de vida.
Apesar de tudo, é curioso reconhecer como somos capazes de mergulhar na vida de uma pessoa com quem nunca tivemos contato direto. É o poder da arte. O tempo passou, mas sinto como se Vigo ainda fosse muito real, e continuasse exalando vida, vivendo imaterialmente, mesmo que ele tenha partido em 5 de outubro de 1934.
Os riscos do maniqueísmo
Suspeito que a incompreensão, a segregação e a torpeza surgiram a partir do momento que decidimos deliberadamente definir quem representa o bem e quem representa o mal neste mundo. A tal da visão maniqueísta me parece ser sempre um dos principais perigos da humanidade. O maniqueísmo é temerário porque ele é versátil, ardiloso e obscuro. Pode transfigurar bem em mal e vice-versa.
Assim destrói-se o mal pelo bem e o bem pelo mal. A passionalidade também pode nos cegar e nos levar ao maniqueísmo. Somos maniqueístas até nas trivialidades cotidianas. Um exemplo? Sempre que condenamos alguém por uma atitude que não é do nosso agrado. Ademais, somos maniqueístas quando repensamos nossas amizades por meros desentendimentos. Nesse sentido, me refugio no livre pensamento.
Uma profunda relação com o cinema

“O Garoto”, lançado por Chaplin em 1921, foi o primeiro filme que me chamou a atenção (Foto: Reprodução)
Tenho uma profunda relação com o cinema desde os meus primeiros anos de vida. Aos cincos anos, eu estava diante da TV, ao lado do meu pai. Era um daqueles televisores com caixa de madeira. Fiquei hipnotizado assistindo uma criança correndo e atirando pedras em uma vidraça, acompanhada de um homem com um bigodinho. Aquele era o Carlitos, disse meu pai.
Então perguntei: “Por que ele tá tacando pedra no vidro? A mulher da casa não vai ficar triste? Será que ela vai ter dinheiro pra colocar outro?” Meu pai ficou rindo e disse pra eu prestar atenção também na motivação dos personagens e no cenário.
Foi quando entendi porque o cinema mudo era mudo e porque a estética faz tanta diferença, principalmente no cinema de arte. Ele não era mudo apenas por limitações tecnológicas, mas porque instigava no ser humano a capacidade de buscar respostas que não poderiam ser dadas com palavras. Crianças da minha idade adoravam desenhos e filmes infantis, eu também. Mas não somente isso. Eu amava os filmes de Charles Chaplin, Harold Lloyd, Buster Keaton, e Stan Laurel e Oliver Hardy.
Diante deles, a ausência de diálogos inexistia diante da minha mente ruidosa de criança. Os sons pululavam dentro de mim. Os filmes não tinham cor, talvez para os outros, não pra mim que sempre via luz no céu, na terra e até na escuridão dos personagens. “Isso aí não tem cor, vamos assistir Caverna do Dragão”, disse meu amigo Fabiano um dia. Respondi: “Tem sim! Mas ela só existe se você quiser que ela exista.” Naquele dia, dormimos depois de assistir “Luzes da Cidade” duas vezes.
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Sempre que as pessoas veem a minha caligrafia
Sempre que as pessoas veem a minha caligrafia, surge uma das grandes dúvidas da humanidade: “Como é ser jornalista e ao mesmo tempo trabalhar com criptografia?”
Um dia, em uma mostra de arte contemporânea, deixei cair uma das folhas do meu caderno. Quando voltei para buscar, encontrei meia dúzia de pessoas em volta, discutindo a qualidade da “obra” e perguntando se estava à venda.
“Desde o Cabaret Voltaire, eu não via algo tão avassalador. Quanto ímpeto e niilismo nessas formas. Traduz os inexistentes caminhos sinuosos da vida”, disse um senhor, equilibrando os óculos sobre a ponta do nariz. Me ofereceram R$ 500, mas eu disse não porque precisava do papel com urgência para redigir uma matéria.
Tem hora que é triste reconhecer como somos atrasados
Tem hora que é triste reconhecer como somos atrasados. Em alguns países, enquanto oferta-se a oportunidade para escritores amadores ganharem espaço, por meio de máquinas que imprimem poemas e contos em estações de trem e metrô, no Brasil há escritores renomados que viajam dizendo quem deve ou não escrever. Que visão pequena.
Sou da opinião de que quanto mais pessoas escrevendo, melhor. Escrever é um dos maiores exercícios de sensibilidade e senso crítico da história da humanidade. Claro que é preciso evoluir sempre, mas quem somos para dizer o que deve ou não ser escrito, o que deve ou não ser publicado? A maior prova disso são os autores do passado e que hoje são celebrados.
Vários desses escritores não teriam entrado para a história da literatura se não tivessem publicado de forma independente seus próprios trabalhos. Vivemos na era da democratização da escrita, e quem não concorda com isso não está preparado para o que vem pela frente. Admiro escritores que vão na contramão disso, que mesmo com tanto prestígio seguem estimulando quem gosta de escrever.
O belo nunca vai ser simplesmente belo
O belo nunca vai ser simplesmente belo porque a beleza é uma forma completa de cognição, não apenas uma palavra vazia atribuída de um valor físico que reflete, partindo do senso comum, a jovialidade humana suscetível ao definhamento.
A beleza ou preservação dela envolve fatores de atração e abstração. É no belo também que desde sempre o homem se inspira para criar mitos e lendas que se perpetuam no imaginário das pessoas.
Acreditar na beleza como superficial é uma perspectiva canhestra ou equivocada. Quantas obras de arte, das mais diversas ramificações, foram produzidas inspiradas no que a beleza humana é capaz de despertar? Sem contar com a elevação à posteridade…
Antes de morrer, em 7 de outubro de 1849, o escritor Edgar Allan Poe escreveu que beleza de qualquer tipo, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente excita a alma sensível às lágrimas, o que justifica por que o belo surpreende sem ser tipificado.
Beleza na finitude singela
Por mais que tenhamos receio do fim, admito ver beleza na finitude singela de quem chegou a um ponto da vida em que vaidade, ganância e antagonismo tornaram-se palavras vazias porque já não representavam mais nada.
Sobre ser mais jovem ou mais velho
Não raramente encontro pessoas falando que gostariam de ser mais jovens ou mais velhas. Eu não gostaria de ser mais jovem, assim como não gostaria de ser mais velho. De ser mais jovem, porque a minha consciência de hoje não é a mesma de ontem. De ser mais velho, porque isso significaria anular etapas da construção da minha própria identidade humana.
Somos acumuladores de versões

Frei Jerônimo, alemão que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e à dominação soviética (Foto: David Arioch)
Enquanto eu entrevistava Frei Jerônimo sobre suas experiências na guerra e no pós-guerra, houve três ocasiões em que ele se esforçou para não chorar.
Naqueles momentos, não vi um homem de 80 anos, mas a criança de menos de dez anos que ele descreveu percorrendo escombros, testemunhando a alígera morte e sentindo fome.
Notei mais uma vez que a aparência nunca há de ser a essência. Um idoso, não é tão somente um idoso. Ele é ainda um bebê, uma criança, um adolescente e um adulto em todas as fases de sua vida. No fundo, somos isso, acumuladores de versões.
Saiba Mais
A entrevista foi realizada no Seminário Imaculada Conceição, em Graciosa, distrito de Paranavaí.



