Archive for the ‘Autoral’ Category
O menino que matava porcos

“Mato mesmo!”, confirmou o menino rindo e ouvindo o comentário do sobrinho do meu avô (Foto: Reprodução)
Quando eu tinha oito anos, viajamos para Batayporã, no Mato Grosso do Sul. Lá, conheci outros familiares do meu avô. Mas naquela viagem só uma pessoa me chamou a atenção – um primo de terceiro grau. Ele tinha sete anos e olhos avermelhados.
Na fazenda, o vi de longe, expulsando alguns animais que circulavam pela casa principal. Me falaram que ele matava porcos desde os cinco anos, e que gostava de eviscerá-los com um punhal resguardado por gerações. “Mato mesmo!”, confirmou o menino rindo e ouvindo o comentário do sobrinho do meu avô.
Caminhando pela fazenda, eu evitava ficar sozinho, e sempre olhava ao meu redor, na tentativa de saber se o menino de olhos avermelhados estava por perto. Criança, eu nunca tinha visto ou ouvido falar de alguém que tivesse matado um porco.
Com o cair da tarde, e o sol despontando baixo e avermelhado no horizonte, assim como os olhos do menino, fiquei sabendo que meus pais pretendiam passar a noite na fazenda. Me aproximei de minha mãe e a questionei, garantindo a nossa partida: “Não quero dormir aqui. Se esse menino mata porco, um bicho que não fez nada pra ele, quem garante que ele não é capaz de fazer o mesmo comigo de madrugada?”
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Há coisas na vida que independem de conhecimento
Às vezes, me pergunto de que adianta alguém ter tanto conhecimento e ao mesmo tempo ser raso em sensibilidade. Posso estar equivocado, mas não vejo vantagem em ter tanta cultura e ao mesmo tempo não ter a sensibilidade de mergulhar na essência humana, na essência das coisas. Soa inócuo demais, como uma forma infinita de incompletude. Há coisas na vida que independem de conhecimento, mas sim de sensações, emoções.
O encontro
Lembro da primeira vez que conheci uma criança cega. Foi em frente à igreja. Ela tinha a minha idade, não mais que seis anos. Ficamos os dois nos observando. Eu com meus olhos, ela com suas mãos cheirando à hortelã colhida na horta da paróquia.
Respondendo perguntas sobre veganismo

Creio que hoje a missão mais importante seja fazer o caminho reverso da indústria de exploração animal (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)
Me perguntaram qual seria a melhor forma de reverter a exaltação ao consumo de alimentos de origem animal na atualidade. Qual a melhor estratégia para ajudar os animais?
É importante se aprofundar cada vez mais nessas questões, até porque acho importantíssimo ampliar sempre as possibilidades de argumentação. Mas, a princípio, acredito que o primeiro passo, sem dúvida alguma, é a conscientização. Mostrar para as pessoas que elas não dependem da exploração animal, que isso é um fator cultural, não essencial.
Talvez pareça “essencial” hoje para muita gente porque elas não levam em conta que os animais sempre foram vistos como matérias-primas de alta disponibilidade, logo eles são explorados porque a indústria deu a entender que sem esse tipo de exploração a vida como conhecemos hoje não seria possível. Mas isso é um grande engano. Exploramos os animais por comodismo e facilidades; porque quando começamos a reduzi-los à comida, o ser humano percebeu que seria ainda mais rentável aproveitar mais do que sua carne.
“Se já fazemos comida com os animais, se eles vão morrer de qualquer jeito, por que não usar inclusive os cascos e os chifres?”, alguém pensou, e assim a vida animal acabou sendo ainda mais desvalorizada do que já era antes da Revolução Industrial. Todos esses produtos criados a partir de animais como fonte de matéria-prima existem basicamente porque a indústria viu nisso um negócio altamente lucrativo, de baixo custo.
A maior prova disso é o processo de fabricação de artigos de couro. Uma peça de couro cru de pouco mais de um metro pode custar menos de R$ 50 no varejo hoje em dia. Esse é o valor da pele de um animal que um dia respirou, assim como eu e você. Com essa peça, não é difícil obter um lucro de 1000% dependendo do produto a ser feito.
Acredito que a reflexão sobre a questão animalista deve ser estimulada não apenas de forma passional, mas com argumentos, mostrando as falhas desse sistema e suas consequências. A conscientização, mais do que nunca, precisa estar acompanhada de pesquisas que apresentam alternativas para suprir as lacunas que devem ser deixadas pela indústria, até para realocação de recursos, empregabilidade, entre outras consequências que poderiam gerar crises econômicas.
Além disso, o aprofundamento é uma boa forma de rebater falsos argumentos disseminados por uma indústria que não poupa esforços, que patrocina a produção de muitos artigos acadêmicos com finalidades escusas, assim ampliando o escopo de desinformação. Sem dúvida, na atualidade muita gente depende do sistema de exploração animal, e claro que porque isso não se firmou agora.
Estamos falando de um sistema que começou a se desenvolver exponencialmente e nos moldes industriais no período da Revolução Industrial, ou seja, desde o século 18. É muito tempo incutindo na mente das pessoas uma quantidade absurda de falsas necessidades. Infelizmente, é um fator negativamente cultural, reforçado por meio de propaganda. E os meios de comunicação, como vetores, têm grande parcela de culpa nisso.
Creio que hoje a missão mais importante seja fazer o caminho reverso da indústria de exploração animal. As transformações, as mudanças, devem acontecer dia a dia. Por enquanto, é imprescindível a contínua disseminação de informações que induzem à discussão, à reflexão, à produção de soluções e de provas de que o abolicionismo animal busca e prevê o melhor futuro para a humanidade e os animais.
Também acho importante mostrar que os vegetarianos e veganos nunca estiveram sozinhos. A história do vegetarianismo e do veganismo precisa ser contada sempre, para mostrar que não se trata de uma tendência. Sempre tivemos bons representantes dos direitos animais e do vegetarianismo, e, desde 1944, do veganismo. Essa preocupação sempre existiu, ao contrário do que muitas vezes é veiculado de forma equivocada pelos meios de comunicação. Em síntese, quanto mais informação e mais pesquisa, melhor.
“Ué, mas nem parece!”
Saindo da academia, notei que o pneu dianteiro esquerdo do carro começou a fazer um barulho estranho. Desci, olhei e não percebi nada. Então decidi passar em um posto para calibrar os quatro. Enquanto calibrava, vi que havia um parafuso gigante cravado no pneu, embora não houvesse nenhum vazamento.
Então dirigi até uma borracharia na Avenida Tancredo Neves. Chegando lá, enquanto o borracheiro separava a roda do pneu, ele perguntou: “Você é fisiculturista?” “Você é lutador?” Você é professor de educação física?” Respondi não para as três inferências.
Cheio de tentar adivinhar, o borracheiro continuou: “O que tu faz afinal? Parcimonioso, contei que sou jornalista. Ele prontamente emendou: “Ué, mas nem parece!” Pois é…
Barbas e olheiras

Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, conversando com o artista Henrique Moura
Barbas e olheiras – Os homens que não dormem. Eu e meu brother Henrique Moura. Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, onde o artista e criador do icônico Predo Bandeira (seu alter ego) dedica seu dia e sua noite a produzir vídeos independentes de animação.
Muitas referências, muitas colagens e muita coisa autoral da mais alta qualidade. O encontro rendeu horas de papo sério, bobagens e muito café. Disso aí vai sair uma narrativa veloz, intensa e reveladora.
Para quem quiser conhecer o cinema independente de animação da Oficina Raspa Língua, acesse: http://raspalingua.com/site/
Em respeito à memória de parentes falecidos
Em respeito à memória de parentes falecidos em 1962 e 1970, desde criança vou ao cemitério de Alto Paraná no Dia de Finados. É um costume sem conotação religiosa. Meus familiares, parte deles imigrantes, se mudaram para esta região na década de 1940, quando o Novo Norte do Paraná ainda estava em processo de colonização.
Embora eu não tenha nascido nem vivido em Alto Paraná, reconheço que é um lugar rico em histórias. O caminho até o cemitério é muito intrigante. Há casas de sítios e fazendas que foram abandonadas há muito tempo, mais tarde consideradas assombradas. Também há lugarejos, antes colônias, envoltos por narrativas insólitas, como a de um rapaz que dormiu por anos e a de famílias de mulheres que expulsavam invasores a tiros.
A mulher do apartamento ao lado
Há algum tempo, eu estava saindo com uma garota que morava em um apartamento bem pequeno. Então sempre que eu chegava quando ela estava no banho, a gente tinha o costume de conversar pela porta. Eu nem entrava, simplesmente ficava no corredor. Só que um dia uma senhora que morava no apartamento ao lado abriu a porta e apareceu só de toalha, me pedindo para falar baixo porque ela se sentia vulnerável com o som da minha voz. Me desculpei e ela replicou:
“Você não entende que eu estou pelada? Só com esta toalha por cima? Não quero ouvir a sua voz, ela me traz lembranças desconfortáveis. Simplesmente não quero ouvi-la! Você não entende?” Fiquei confuso, mas respondi que entendi sim. Ela retrucou que se eu entendia não deveria falar mais nada no corredor, já que ela se sentia incomodada. Alegou que eu estava interferindo em sua privacidade de sentir-se nua e livre. Ainda disse que minha voz afugentava seu corpo.
Fiquei assustado e preocupado. Comecei a bater com força na porta do apartamento e minha garota disse que logo sairia. A idosa continuou me observando de longe, com um olhar inquisidor, muito esquisito e desafiador. Insatisfeita, ela abriu um pouco mais a porta e arregalou os olhos. Mesmo titubeante, declarei:
“Olha, senhora, eu só estou aguardando a minha garota aqui. Por favor, não quero confusão. Talvez a senhora esteja muito sensível. Me perdoe se fiz algo de errado.” Sobressaltada, franziu a testa e gritou: “O quê? Como ousa, seu filho da puta!” Então ela soltou a toalha, abriu bem a porta, deu dois passos completamente pelada, parou e ficou me olhando fixamente.
Ruborizado, sem saber como reagir, mirei a parede à minha direita e mantive meus olhos em um ponto fixo. Antes de fechar a porta, aquela senhora fez uma careta e gritou: “Seu porco!” várias vezes. Segundos depois, minha garota saiu e caímos fora de lá o mais rápido possível.
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A barba
Nunca imaginei que passaria por situação tão imprevisível e desconfortável
Acordei e continuei deitado na cama, com sensação estranha. Mesmo que eu não o visse refletindo no teto, notei meu rosto menor. Quando encostei o polegar e o dedo indicador da mão direita no queixo, estremeci. Ele estava liso. Não havia nenhum fio da minha barba volumosa, fechada e preta. Saltei da cama e corri até o banheiro, sem sentir a barba raleando o peito nu.
Diante do espelho, meu rosto parecia tão pequeno. “Não! Este não sou eu! Não está certo! O que aconteceu?” Até minha cabeça tinha encolhido. Cabeça de pombinha, cabeça de alfinete – julguei-me. E para piorar, rejuvenesci pelo menos dez anos, o que me incomodava sobretudo.
Sem pelos, o rosto lucilava tanto que precisei fechar parcialmente os olhos e me proteger com as palmas das mãos em direção ao espelho. Nunca imaginei que passaria por situação tão imprevisível e desconfortável. Saí do quarto e bati a porta. Senti a brisa tocando a pele desacostumada com a ausência de pelos.
Minha face estava vulnerável, extremamente sensível, desprotegida. Enleado, fui ao banheiro e lancei um pouco de água sobre o rosto. “Como é estranho perceber a água tocando a pele com tanta facilidade.” Escovei os dentes e voltei para o quarto. Sentado na cama, pensei, sem velar melancolia.
Definitivamente não fiz a barba na noite anterior. Nem me aproximei de qualquer tipo de lâmina ou barbeador. De onde surgiu a face lisa, como de alguém que nunca teve pelos faciais? Fiquei irritado, crente de que algum cobiçoso tivesse me furtado os pelos na calada da noite.
Lembrei dos invejosos desbarbados, que não eram poucos. Sempre havia um ou outro em cada esquina, observando de soslaio a minha barba à altura do peito, tremulando com os afagos da aragem. Mostravam os dentes fingindo cordialidade. Patifes! Devem ter-se unido na noite passada.
Me debrucei no chão e comecei a observar atentamente o piso, tentando encontrar pelo menos um fio de barba. Não havia nada. Nada! Nada! A conspiração foi tão bem planejada que não restou sequer um vestígio. “Como? Como? Como? Que pesadelo terrível!”, monologuei, desconcertando o sobrecenho.
Vesti calça jeans, camiseta, par de tênis e saí às ruas na tentativa de amenizar a agitação que me consumia. O céu persistia claro e o sol espalhava sua luz sem reservas. Um belo dia. Para minha surpresa, amigos e conhecidos não me reconheciam. Abordei um camarada, ele franziu a testa, cuspiu no chão e esbravejou que nunca me viu.
— Afaste-se, senhor, afaste-se ou chamarei a polícia – advertiu outro.
Tudo bem. Cruzei a Rua Marechal Cândido Rondon e entrei no Banco do Brasil da Rua Getúlio Vargas. Atravessei a porta com detector de metais e, como sempre fiz, me aproximei do segurança para cumprimentá-lo. O homem se esquivou e ameaçou me golpear.
— Nunca mais se aproxime desse jeito! Nunca mais, senhor! Eu poderia machucá-lo – declarou.
Sem dizer palavra, recuei, peguei uma senha para atendimento no caixa e sentei em uma poltrona azul, observando o painel eletrônico. Preocupado com o tempo, abri minha carteira, mas não encontrei o cartão do banco. “O que vou fazer? Mais tempo perdido, francamente…” Ansioso e irritadiço, respirei profundamente e mirei meus olhos num ponto fixo em um pequeno espaço transparente da divisória que separa a clientela dos guichês do caixa.
Não acreditei no que vi. Condenei-me à insanidade. Algo peludo e esguio na sua pequenez caminhou do outro lado da divisória carregando um cartão alaranjado. Não tinha mãos humanas, mas improvisava dedos com os próprios pelos. Quando percebeu que eu o observava, adiantou-se numa correria fremente por entre as pernas do segurança. Era como um pequeno rei das balizas.
Bastardo! Ingrato! Desgraçado! Seu pequeno filho da puta! Como pôde fazer isso comigo? – gritei dentro da minha própria consciência, sentindo comichão na boca.
Era a minha barba! Na saída do banco, balançou o meu cartão e correu em disparada com seus pés pelosos que mantinham higiênica distância do chão, como se flutuassem. Com receio de chamar atenção, ou com medo do constrangimento de ser ignorado, caminhei disfarçadamente. Lá fora, minha barba corria com ligeireza, quase desaparecendo na esquina.
Desesperado, levei as mãos à cabeça e vociferei:
— Parem! Parem essa barba aí na esquina! Olhem! Parece um homenzinho felpudo! Mas não é! Está fingindo! É um ser dissimulado! É uma barba! Não deixem esse bandido de pelos fugir! Ele furtou meu cartão! Seu pilantra maldito!
Quase ninguém me ouviu. Os poucos que assistiram meu clamor, gargalharam e gritaram: “Mais um bêbado nesta cidade! Sai daí, seu louco! Era só o que faltava! Estou de saco cheio desses estrupícios!” Um deles chamou uma viatura da polícia enquanto eu corria pela calçada. Perto de encostar minhas mãos na barba fujona, senti alguém me puxar pelo braço.
O aroma da barba se desvaneceu como a mais efêmera das ilusões. Travessa, ela parou de correr e começou a caminhar lentamente, chacoalhando meu cartão e fazendo troça da minha situação. Antes de entrar na Casa do Cabeleireiro, esticou as extremidades do longo bigode, empinou a bunda peluda e a balançou diante da soleira.
Minha vontade era esganá-la e afiná-la a socos e pontapés, mas eu não poderia fazer isso com a minha barba. Eu precisava dela inteira. Dela? Não sei! Como definir um substantivo feminino de forma masculina? Tanto faz! Fui levado para a delegacia. Fizeram o boletim de ocorrência, qualificando-me como infrator, perturbador do sossego. Encontrei três colegas de trabalho e, mais uma vez, não fui reconhecido por ninguém.
— Não, nunca o vi. Conheço uma pessoa com esse nome, mas não é ele. Deve ser mera coincidência – comentou um dos camaradas.
Paguei a fiança e fui liberado. Sem nada a perder, narrei ao investigador tudo que aconteceu naquela manhã. Ele recomendou uma consulta com seu cunhado, um psiquiatra. Enfezado, voltei para casa reconhecendo a derrota e decidi escrever uma história sobre o desaparecimento da minha barba. O jornal não quis publicá-la, qualificando-a como inverossímil. Tudo bem. Me contentei em publicar uma nota nos classificados online.
Procura-se barba preta, volumosa e fechada. Tem perfil independente, forma masculina, porte atlético, andar espaçoso, bigode alongado, tipo handlebar, e oculta entre os pelos um cartão alaranjado do Banco do Brasil. Paga-se boa recompensa.
Somente os mais ardilosos oportunistas responderam ao anúncio, trazendo-me barbas de terceiros e das mais variadas cores e formas. A maioria, provavelmente colhida do chão das barbearias.
Ao final da tarde, desisti de procurá-la. Na manhã seguinte, quando levantei e cocei o queixo, corri em direção ao espelho do banheiro. Apenas sorri. Ela voltou para casa. Ao lado da cama, havia um pente e uma série de produtos. Pois é. Deveria ter cuidado mais da minha barba.
A insegurança humana e as laranjas
A insegurança humana me surpreende na mesma proporção que me intriga. Hoje, no mercado, eu estava analisando algumas laranjas em uma banca. De repente, uma mulher se aproximou, me olhou e fez o mesmo. Achei normal. Afinal, qual é o problema de duas pessoas selecionando laranjas? Antes que eu terminasse, um homem, provável marido da moça, se aproximou e me observou por alguns segundos. Quando eu retribuí a observação, ele disfarçou, a pegou pelo braço e se afastou. Eu? Continuei analisando as laranjas.


