Archive for the ‘Autoral’ Category
Por que não me alimento de animais?

“Acredito verdadeiramente que todo o estresse e os medos do animal são transferidos para aquilo que comemos” (Foto: Reprodução)
Há algum tempo, me perguntaram por que não me alimento de animais. Respondi o seguinte:
Não acho uma boa ideia me alimentar de animais porque, por mais duro que isso pareça, significa se alimentar de morte, sofrimento ou privação. Infelizmente, esse é o preço que pagamos ao ingerir carnes, ovos, laticínios e outros produtos de origem animal. Ninguém vive ou morre feliz ou satisfeito nesse sistema, por melhores que sejam os cuidados. Uma pessoa pode alegar que um bicho teve uma morte indolor, ok, mas você acha que enquanto viveu ele foi feliz em privação?
Não creio, e acredito que todo o estresse e os medos do animal são transferidos para aquilo que comemos, logo não vejo como isso pode ser positivo. Infelizmente, a realidade é que comer carne significa ingerir morte. Afinal, come-se os restos de alguém e aquilo passa a subsistir dentro de você, mesmo que temporariamente. Muitas pessoas sentem nojo do abutre ou do urubu quando testemunham eles comendo carniça. Mas é preciso ser honesto – aquele é o instinto deles.
Em relação a isso, a diferença entre nós e eles é que eles precisam essencialmente da carne. Ao contrário de nós, eles a comem do jeito que ela é, enquanto nós mascaramos o sabor da carne crua para torná-la palatável. Para isso, recorremos a uma grande diversidade de temperos, ou seja, ingredientes de origem vegetal, que fazem a carne até mesmo não parecer “tão carne”. Fora o fato de que quando cito esses animais não humanos, estou falando de seres que comem para viver, não vivem para comer como muitos seres humanos.
Roberto, um homem de bem
Roberto teve um irmão que foi assaltado na BR-376 no ano passado. Irritado, não acionou a polícia. Preferiu descobrir quem era o autor, o localizou e o assassinou dentro de sua casa.
Roberto continuou andando armado, até que um dia embriagado, durante uma discussão no trânsito, deu dois tiros no peito do reclamante, que morreu no próprio local.
Quando questionado por que fez isso, Roberto disse apenas o seguinte: “Pra ele, eu estava errado por ter batido em seu carro, mas pra mim quem estava errado era ele que gritou comigo e me xingou. Então no calor do momento resolvi atirar.”
“Esse é bom! Muçulmanos sabem!”
Fui ao mercado há pouco. Chegando lá, apertei o botão do alarme do carro e nada. Não funcionou. Então me dei conta que o pressionei com tanta força que o botão afundou. Tentando resolver a situação, notei algumas pessoas me observando por causa da minha barba. Não consegui evitar de pensar: “Agora, além de terrorista, vão achar que sou ladrão.”
Depois, no setor de hortifruti, comecei a analisar alguns pacotes de romãs. De repente, cinco haitianos se aproximaram e começaram a observá-los também. Enquanto eles conversavam em crioulo, eu seguia procurando as melhores porções.
Quando eu tirava a mão de um pacote, os haitianos faziam o mesmo.
Dois ou três minutos depois, peguei em definitivo um pacote. Então um deles fez o mesmo. Assim que me afastei, ouvi alguém dizendo algo como: “Sa a se bon. Mizilman an konnen!”, que significa: “Esse é bom! Muçulmanos sabem!”
Perto do departamento de bebidas
Perto do departamento de bebidas do mercado, um rapaz distraído esbarrou o apoio de mãos do carrinho em um expositor de bebidas. Muitas garrafas de vidro foram ao chão, ecoando barulheira que foi percebida ao longe, a julgar pelas dezenas de olhares. As pessoas poderiam ser mais empáticas em situações como essa e tentar pelo menos disfarçar, desviar os olhos. Mas, como sempre, continuaram o observando e provavelmente até o julgando. Isso é muito chato.
A vida e seus caminhos
Quando você reconhece que a vida é feita de muitos caminhos, não somente de um, você começa a entender o verdadeiro sentido de palavras como multiplicidade, respeito e transigência. Passa a entender também que verdades inquestionáveis também mantêm pessoas na zona de conforto. Afinal, gostamos de domesticá-las. Ter medo de conhecer outras verdades, não é ruim, mas se negar a refletir sobre isso, é sim.
Sensíveis e racionais
Há pessoas que estranham quando alguém demonstra ser tão sensível quanto racional. Temos uma forte tendência à polarização. Tratando-se de personalidade, facilmente dividimos uns aos outros entre sensíveis e racionais. Ou seja, se é sensível, não é racional, e se é racional, não é sensível.
Demonstre tanta deferência pelo romantismo quanto pelo racionalismo e verás pessoas o julgando como volátil, confuso ou até mesmo tolo. Goethe escreveu “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, um dos maiores símbolos do romantismo alemão, e mais tarde publicou “A Teoria das Cores”, em que fez oposição a Newton.
De fato, Goethe era romântico, mas outras de suas obras mostram que ele não pode simplesmente ser definido como tal. Ele era mais do que isso, assim como muitos seres humanos resumidos ao zeitgeist, ou seja, ao espírito de uma época, ou a uma linha de pensamento que diz apenas parcialmente quem realmente são ou eram.
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Sobre a Campanha de Natal na Vila Alta
Tem algumas pessoas fazendo comentários estranhos sobre a campanha de Natal que realizamos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Bom, só para esclarecer, eu e meus amigos que decidimos fazer esse trabalho, não vamos à periferia somente no Natal.
Na realidade, tentamos ajudar de alguma foma o ano todo, e já tem anos. A diferença é que pela primeira vez decidimos fazer uma campanha de Natal, isto porque percebemos que mesmo com tantas campanhas realizadas nessa época do ano ainda existe carência em relação a isso.
Já produzi inclusive alguns documentários sobre a realidade da periferia, então sugiro que procurem conhecer o trabalho das pessoas envolvidas em campanhas antes de julgá-las de algum modo. Tem muita gente que não faz isso somente no Natal. Ademais, não divulgo fotos e textos sobre o assunto para me promover, mas sim para mostrar que qualquer um é capaz de ajudar, o que pode motivar mais pessoas.
Outro ponto positivo é que serve como um gratificante registro de nossas ações e também uma boa lembrança para os moradores do bairro que também usam Facebook, acessam blogs e outras mídias.
Somos mais e nos julgamos menos
Enquanto eu aguardava atendimento, Alberto sentou ao meu lado em uma das poltronas da Caixa Econômica Federal. Me falou que estava se aposentando depois de 40 anos de trabalho dedicados a mesma empresa. Parecia satisfeito, mas não tão seguro sobre isso. “Terminei a faculdade e passei a vida inteira fazendo praticamente a mesma coisa”, contou. Perguntei se ele se sentia realizado. Respondeu que não, mas que se adaptou a viver dessa forma.
O questionei também sobre seus sonhos de infância e adolescência, se tinha lembranças de algum deles. “Já não me lembro quais eram. Faz muito tempo”, disse. Todos os dias, encontro Alberto na figura de outras pessoas. Eles estão por todos os lados e me fazem pensar que não nascemos para nos dedicar somente a uma atividade. Não somos naturalmente mono, somos pluralistas desde o primeiro respiro, mas a vida, o mundo e aquilo que nos cerca muitas vezes nos limita. O tempo sempre parece curto, sem margem para a diversidade.
E assim corremos o risco de perder nossa pluralidade na infância ou adolescência, quando nos dizem o que devemos ou não fazer, para o que nascemos ou não nascemos; quando as pessoas agem como se conhecessem melhor nossas aptidões do que nós mesmos. A criança nunca quer ser somente uma coisa. Ela quer ser várias. As horas e os dias mostram isso. A vida demanda liberdade, e a nossa diminui quando crescemos por fora, mas nos reduzimos por dentro.
As inseguranças são amplificadas quando você não se vê como parte de um caminho, e ao mesmo tempo alguém te oferece prazos para “tornar-se alguém”. E esse alguém não raramente é outra pessoa que não você. Os conflitos aumentam na fase adulta porque você é obrigado a abandonar a multiplicidade da sua existência para se resumir a não mais do que uma atividade – o trabalho.
Nomes tornam-se metonímias da profissão, a identidade humana é suprimida pela profissional, e o ser perde cada vez mais espaço para o ter. Acredito que muitos dos males psicológicos e emocionais da atualidade têm relação com essa supressão existencial. Somos mais e nos julgamos menos. Nos vemos como incapazes de fazer mais do que fazemos, ou o que realmente queremos – porque é o que o mundo nos diz.
E o tempo nos leva à passividade, a aceitação de uma perspectiva lancinante de pragmatismo. O conformismo nos sufoca com um tipo de sutileza travestida de aceitável incerteza. Quantas pessoas que você conhece são hoje o que realmente gostariam de ser? Sentem-se verdadeiramente recompensadas pelo que fazem? Vive-se pelo não viver quando a vida se torna um simulacro do que poderia ser.
Não somos seres mecânicos, somos complexos. Quando nossas potencialidades, mesmo que ainda desconhecidas, são ignoradas, morremos um pouquinho a cada dia, sufocados pela rotina, pelas pressões externas e por nossas próprias descrenças. Acredito que somos como árvores que cedem diante da tempestade quando amargam na própria raiz o dissabor da incredulidade.
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Palestra sobre o papel do negro no cinema
Fui convidado pelo Sesc para dar uma palestra para professores hoje à tarde no Seminário Multidisciplinar – Diversidade Étnico Racial, Indígena e Cigana no Núcleo Regional de Educação de Paranavaí. Fazia mais de dois anos que eu não dava uma palestra sobre cinema, e hoje fui até lá para falar sobre o papel do negro no cinema brasileiro ao longo da história. Foi uma experiência muito rica e interessante. Me trouxe muitas lembranças dos cinco anos em que ajudei a coordenar o Projeto Mais Cinema. Uma vez por semana, após a exibição dos filmes, eu fazia uma análise e discutia a obra com o público.
O que me basta

Não escrevo sobre veganismo e vegetarianismo para me convencer de que fiz uma escolha justa ao me tornar vegano (Arte: Reprodução)
Não escrevo sobre veganismo e vegetarianismo para me convencer de que fiz uma escolha justa ao me tornar vegano. Faço isso para mostrar aos outros a importância dessa escolha.
No meu caso, ser vegano tem uma justificativa bem simples: não tenho o direito de tirar a vida de nenhum animal, assim como não possuo o direito de tomar parte em seu sofrimento e morte. Não existe justiça e respeito quando me alimento de um ser que já respirou, teve vida.
Não sou tão importante para que ele morra para saciar minha fome, que pode ser sanada sem dor e morte. Não preciso de pesquisas, provas científicas. É o que me basta.
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