David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Crônicas/Chronicles’ Category

“Também num gosto de carne”

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Pintura: Xueling Zou

Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.

— Qual é o seu nome, tio?

— David e o seu?

— Bruno…

— Você é forte, né, tio?

— Eu tento…

— É sim!

— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…

— Por que você acha isso?

— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.

— Não como não…

— É?

— É sim…

— Não precisa?

— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.

— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.

A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:

— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.

Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.

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Written by David Arioch

June 6th, 2017 at 3:19 pm

Por que você tem uma barba grande?

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Por que não corta um pouco?

— Por que você tem uma barba grande?
 
— Por que não corta um pouco?
 
— Está muito grande, não acha?
 
— Não é difícil pra lavar?
 
— Não coça?
 
— Como você consegue dormir com essa barba?
 
— Seu rosto é muito bonito para ficar escondido atrás de uma barba.
 
— Faz quanto tempo que você não usa um barbeador?
 
— Alguém já te disse que barba tem que ser mais sociável?
 
— Sabia que você envelhece com essa barba?
 
— Que tal dar uma abaixada e parecer bem mais jovem?
 
— O dia que você cortar a barba vai sair luz do seu rosto.
 
— Olhe, sem querer parecer chata, mas mulher gosta de barba desenhadinha, não muito comprida.
 
— Você parece um terrorista assim…ainda mais com uma barba tão preta e esses olhos tão escuros…
 
— Essa barba te deixa com cara de mau, sabia?
 
— Não é contraditório ser vegano e ter cara de lenhador?
 
— Pela barba, sei que você é de origem árabe, mas de que lugar exatamente?
 
— Com essa barba e essa touca, as pessoas não atravessam a calçada quando te veem?
 
— Conselho de amiga, deixe a barba bem baixinha…
 
— Que promessa é essa que te levou a ter uma barba tão grande?
 
— Não é difícil comer com essa barbona?
 
— Como faz pra tomar sopa sem se lambuzar?
 
— Você já guardou alguma coisa na barba?
 
— Não tem medo de ser confundido com um terrorista?
 
— Você come farofa com essa barba?
 
— Que tal fazer um bico de Papai Noel no Natal?
 
— Só mais uma coisinha…não vai demorar muito pra você cortar a barba, né?

 





Written by David Arioch

June 5th, 2017 at 8:58 pm

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“Não tão preparando nenhuma maldade não, né, fio?”

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Arte: Kristin Hardiman

No centro, encontrei um amigo que eu não via há um bom tempo. Assim como eu, ele também está bem barbudo.

— Mano, leio as histórias da sua barba. Você passa por cada uma, hein? Por que comigo não acontece nada? Ninguém me confunde nem com mendigo, cara.

— Cara, pra ser sincero, não tenho a mínima ideia.

De repente, passou uma velhinha segurando um guarda-chuva.

— Vocês são muito bonitos. São irmãos? Não tão preparando nenhuma maldade não, né, fio?

— Não, que isso, minha senhora…Aqui só tem gente de bem.

— Então tá bom, assim ninguém fica feio, e ninguém precisa juntar os pedaços de ninguém.

Quando a senhorinha se afastou, o amigo arreganhou os dentes:

— Vou andar mais vezes com você, mano.

E foi embora todo feliz por ser chamado de terrorista pela primeira vez.

 

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Written by David Arioch

June 2nd, 2017 at 5:15 pm

“Não, filho. Não pegue coisas do chão”

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Na feira, enquanto eu selecionava salsinha…

Na feira, enquanto eu selecionava salsinha, sem que eu o tocasse, um maço caiu da banca. Quando agachei, o peguei e coloquei na cesta, uma senhora chamou-me a atenção:

— Não, filho. Não pegue coisas do chão. Isso nunca é bom.

— Mas por que, senhora? Estou pegando do chão aquilo que veio do chão, que nasceu do chão.

— Hum…olhe, filho, nunca tinha pensado por esse lado – comentou sorrindo.

— Além disso, se ela pulou da banca, é porque quer ir embora comigo, não acha?

— É…acho que você tem razão… mas cuide bem dela. Não faça mal a ela, senão ela vai se arrepender de ter pulado da banca.

— Sim, acho que não posso decepcioná-la…

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Written by David Arioch

June 2nd, 2017 at 5:11 pm

“Bom, talvez eu não a tenha assustado tanto”

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Arte: Pretty Girl 2d2 – Deviant Art

Terminando o meu treino de mobilidade na academia, enquanto eu estava pendurado em uma barra, notei uma garotinha, uma criança, me observando. Não olhei diretamente porque ela já parecia assustada me olhando.

— Com a barba desse tamanho e musculoso, deve ter se assustado, pensando que sou algum tipo de monstro; ou pelo menos um sujeito bem estranho.

Continuei ali por mais um ou dois minutos. Então caminhei até o outro lado da academia para guardar as minhas coisas na minha bolsa e beber água antes de ir embora. Notei que a garotinha estava novamente do meu lado e, assim como eu, bebendo água da própria garrafinha. Então concluí:

— Bom, talvez eu não a tenha assustado tanto.

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Written by David Arioch

June 2nd, 2017 at 5:07 pm

Uma tentativa de furto

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Vi um cara de costas tentando abrir a porta do meu carro

No sábado, quando eu estava perto da rodoviária, esqueci meu celular no carro. Quando voltei para buscar, vi um cara de costas tentando abrir a porta do meu carro.

— Cara, o que você está fazendo aí?

— Ô parceiro, foi mal mesmo. Deixei cair algo aqui perto da porta. Perdão…

— É mesmo? Então me mostre aí o que você perdeu.

— Peraí. Tô procurando aqui.

— Não estou vendo nada.

Quando cheguei mais perto, reconheci o sujeito. Era um garoto que conheço há anos.

— Cara, você estava tentando abrir o a porta do meu carro. Sério mesmo que você achou que isso fosse uma boa ideia?

— Ah, mano! Não é nada disso não. Te disse.

— Rapaz, meu carro é legal, pode até render uma grana, mas você acha que ele vale mais do que sua vida? Sua liberdade? Conheço sua família. Seu pai vive em uma cadeira de rodas e sua mãe ganha a vida trabalhando até anoitecer fazendo faxina. São gente boa. Não merecem isso. O que tem de errado contigo?

— Ah, mano! Que se foda! Ninguém dá emprego, então tô arriscando.

— E valeu a pena se arriscar? E se eu fosse um desconhecido armado? Um cara agressivo poderia atirar em você ou te matar a pancadas por causa disso. Não se importa de ser preso também?

— Sei lá, mano! Só vi o carro de longe e colei aqui. Não pensei em nada não. Nem sabia que era seu.

— Não faça isso não, cara. Não sabia que você tinha virado ladrão. Tem quanto tempo isso?

— Tô sem trampo tem meses, doido. E a mulher lá já disse que vai mandar prender se não pagar a pensão da criança de novo. Então prisão por prisão, tá tudo na merda mesmo.

— Você já cometeu outros crimes?

— Só coisa pouca, tipo radinho, duas, três vezes.

— Você tem que idade?

— 21…

— Rapaz, sai dessa vida porque isso vai ficar caro pra você.

— E vou fazer o que?

— O que você sabe fazer? Terminou o ensino médio?

— Terminei sim, mano. Mas só trabalhei como servente de pedreiro até hoje, mas ninguém tá pegando.

— Sei, cara. Vou aliviar essa pra você, mas se eu souber que você tem aprontado, não vou deixar quieto não. E vou procurar me informar sobre o que você anda fazendo por aí. Outra coisa, segunda-feira você vai aparecer nesse endereço aqui às 7h30 sem falta. Já vou deixar avisado. Se você der mancada comigo…

Hoje, passei em uma obra no final da tarde para falar com um amigo que é construtor.

— O rapaz realmente leva jeito. Se ele mantiver o ritmo, vamos ver se colocamos ele num curso de pedreiro.

— Boa notícia. Bom saber disso.

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Written by David Arioch

May 30th, 2017 at 1:16 am

“A mesquita é pra lá”

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Encontrei um amigo dos tempos de adolescência perto da AABB, então me aproximei para cumprimentá-lo. Sem que eu tivesse tempo de abrir a boca, ele falou:

— A mesquita é pra lá.

 

 





Written by David Arioch

May 27th, 2017 at 3:44 pm

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Gosto de subverter expectativas

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Arte: Cadenza

Gosto de subverter expectativas. Um motorista apressado ficou irritado quando diminuí a velocidade do carro para que um cão tivesse tempo de atravessar a rua. Incomodado, o sujeito acelerou, buzinou e mostrou o dedo médio. Então retribuí sorrindo e mostrando o dedo polegar. O sujeito ficou desconcertado, e se pensou em me xingar mudou de ideia.





Written by David Arioch

May 27th, 2017 at 3:41 pm

“Mas ele era soviético, e não se pode confiar em soviéticos…”

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“A Infância de Ivan”, um dos filmes exibidos na maratona (Foto: Reprodução)

Em 2009, quando eu coordenava o Projeto Mais Cinema, passei uma maratona do Tarkovsky na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, e um cara apareceu no final da sessão.

— Vim aqui porque quero saber se você está desenvolvendo algum tipo de arquitetura intelectual em favor do socialismo e do comunismo.

— Como é? Arquitetura intelectual? Do quê?

— Não sei…acho que é muito suspeito você exibir filmes dos tempos da União Soviética…

— Será mesmo? Tarkovsky era um escultor do tempo, um artista da fragilidade humana. A vida para ele era como um espelho, um sonho. Se não me engano foi em 1979 que o governo soviético impediu que um dos filmes dele, Stalker, fosse enviado para o Festival de Cannes; e por julgar que era uma crítica aos gulags, os campos de concentração da União Soviética. Independente de qualquer coisa, ele não era e nunca foi um partidarista. A humanidade dele estava acima de tudo.

— Mas ele era soviético, e não se pode confiar em soviéticos…

— Ok…

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Written by David Arioch

May 27th, 2017 at 2:48 pm

Oi…posso te fazer uma pergunta?

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Pedi só uma garrafa de água, caminhei até uma cadeira e sentei diante de uma mesa (Arte: Tom Brown)

Em outra cidade, o único local onde tive tempo de parar e checar se tinha algo que eu pudesse comer foi em uma lanchonete de um posto de combustíveis. Quando a atendente me mostrou todas as opções, expliquei que não como nada com nenhum tipo de carne, laticínios e ovos.

Então pedi só uma garrafa de água, caminhei até uma cadeira e sentei diante de uma mesa, testemunhando através de uma parede de vidro um pedaço de natureza ainda intocado. Três caras acompanhados de uma moça me observavam em uma mesa de canto.

Enquanto eu bebia tranquilamente, notei que a atendente continuava olhando para mim. Quando percebeu que percebi, ela ficou um pouco acanhada e disfarçou passando uma flanela sobre o balcão. Cerca de dois minutos depois, ela se aproximou:

— Oi…posso te fazer uma pergunta?
— Sim…
— Como você consegue ser musculoso sem consumir carne, leite e ovos?
— Deve ser a natureza me agradecendo por não me alimentar de seus filhos.

Ela riu, eu sorri; nos despedimos.

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