Archive for the ‘Crônicas/Chronicles’ Category
Frangos sob chuva
Encontrei na rodovia uma carreta transportando frangos na chuva. Centenas dentro de caixas amarelas de plástico, com penas parcialmente molhadas e pouco espaço para movimentarem-se. Tive a impressão de ver uma porção de olhos entre as fendas. Não sei se faziam silêncio ou barulho, porque o tamanho da caixa não permitiu tal distinção. E lá dentro, vidas que logo mais cessarão.
Uma luz estranha
À noite, saindo da academia, notei uma luz estranha, como se estivesse me seguindo; projetando-se rasteira, em direção às minhas pernas. Quando olhei para trás, vi um cachorro com uma lanterninha na cabeça.
O castelo pula-pula

Na festa de aniversário da minha sobrinha, a criançada quase destruiu um castelo pula-pula (Foto: Menegazzo)
Na festa de aniversário da minha sobrinha, a criançada quase destruiu um castelo pula-pula. Então alguém achou que seria uma boa me chamar para impedir que o castelo esvaziasse completamente, caindo murcho sobre o gramado.
Enquanto eu tentava resolver o problema, uma das crianças puxou minha barba e gritou: É de verdade! É de verdade! É barba mesmo! As outras vieram ver, também querendo colocar a mão. Uma delas pulou de cima do castelo e quase caiu em cima das minhas costas.
Outras duas correram em torno de mim e gritaram: “Vai explodir! Vai explodir!” Naquele momento, não sei se falavam de mim ou do pula-pula, aí depende da malícia e da inocência.
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Um presente para a mamãe

” Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… ” (Foto: Luxury Safes)
Saí para comprar um presente para a minha mãe. Fui até uma joalheria, e enquanto eu olhava alguns brincos e colares, uma moça se aproximou e perguntou se eu precisava de ajuda.
— Por enquanto, não…
— Se precisar, estarei aqui ao lado, tudo bem?
— Ah sim. Muito obrigado!
Enquanto eu analisava um belo anel que parecia forjado por um nibelungo, uma mulher pediu que a vendedora me levasse até ela.
— Por gentileza, o senhor pode me acompanhar?
Mesmo sem entender nada, acenei positivamente com a cabeça. “O que será isso, hein?”, pensei.
Diante de um longo balcão acastanhado, uma mulher muito bonita, com pouca maquiagem, e em um longo vestido preto, sorriu e me cumprimentou.
— O senhor não precisa se contentar com as nossas peças mais baratas. Temos algo realmente especial.
— É? — falei, mas ponderei: “E por que eu não me contentaria com as peças mais baratas? E que para mim pareciam bem caras…”
— Sim. Temos uma sala especial para atender pessoas como você. “Não entendi. Pessoas como você? Que tipo de pessoa eu sou?”
— É?
— Sim…me acompanhe, por favor.
Percorremos um corredor à direita do caixa, ela acionou uma senha e uma porta blindada, que mais parecia um cofre, abriu. Entramos.
— Acredito que tudo esteja à sua altura.
— Como assim à minha altura? Será que essa mulher não está me confundindo com outra pessoa? — refleti.
A peça mais barata naquela sala era um par de brincos de R$ 22 mil. Mas ela fazia questão de me mostrar colares que custavam até R$ 120 mil. Talvez fossem feitos de alguma coisa mais valiosa do que vidas? Ela sorria copiosamente, como se acreditasse que eu não sairia de lá sem comprar nada.
— Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… — inferi silenciosamente.
— A senhora tem peças realmente bonitas, o problema é que estou bem distante de comprar o par de brincos “mais barato”.
Pensei em quantas crianças famintas poderiam ser alimentadas com o dinheiro a ser pago por aqueles brincos, anéis e colares. Bom, não cabe a mim dizer o que cada um deve ou não fazer com o seu dinheiro. Além disso, a verdade é que estamos todos no mesmo lugar, mas nem por isso fazemos parte do mesmo mundo.
— Não seja modesto….sei que o senhor é rico.
— Como? Até parece. Não entendi.
— Conheci seu pai, parte da sua família…
— Acho que não, hein…
— Conheci sim…não seja assim…
— Certo. Agradeço a confiança em me trazer aqui, mas preciso ir embora…
— Rápido assim? Não vai levar nada? Nem uns fios de ouro para adornar a sua barba?
— Não tenho como levar nada desta sala, senhora. E me desculpe, mas sofro de claustrofobia. Devo dizer que este ambiente não ajuda.
Ela estava bloqueando a saída, e quando percebeu o meu estado de descontentamento, abriu passagem. Atravessei a loja rapidamente, e na saída um homem tocou em meu ombro e indagou:
— Você não é filho do Salim Murat Mesut?
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Que tudo que você não fala ganha vida “na sua cara”
Quando eu era criança, acredito que por volta dos oito anos, um dia a professora, uma freira, me chamou diante da turma na Escola São Vicente de Paulo e perguntou o que mais gosto de fazer:
— Gosto de escrever.
— O que você escreve, David?
— Histórias…
— Que tipo de histórias?
— Das coisas que vejo na rua, na “cara das pessoas”…
— Como assim na “cara das pessoas”?
— É que a “cara das pessoas” é feita de histórias.
— De que tipo?
— Do tipo que elas não querem contar. Então eu imagino o que é e escrevo…
— Mas isso não é ser mentiroso?
— Não…
— Me explique melhor…
— Se você prestar atenção, muitas vezes a “cara das pessoas” diz aquilo que elas não querem contar.
— E o que elas não querem contar?
— Acho que muita coisa. Meu avô fala que trazemos “na cara” as histórias que não contamos.
— E o que isso significa pra você?
— Que tudo que você não fala ganha vida “na sua cara”.
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O gato que caiu no quintal
De vez em quando, deito no quintal, sentindo a brisa no rosto, na barba; e reflito um pouco. Hoje, enquanto me distraía com algumas ideias, ouvi um barulho estranho entre os arbustos do quintal vizinho. De repente, um gato saltou o muro e caiu na minha frente, quase entre as minhas pernas. Sem que eu pudesse entender o que estava acontecendo, o bichano veio para cima de mim.
Me afastei, e ele continuou mostrando as garras, um olhar cabuloso e nada amistoso. Mesmo parecendo tão pequeno diante de mim, o gato insistiu em me cercar.
— Que mal pode acontecer? É só um gato pequeno – inferi.
Mas aquele gato pequeno saltou em minha direção e, se eu não o tivesse segurado no ar, talvez tivesse até mesmo furado um dos meus olhos. Enquanto se debatia, ele tentava atingir ou puxar a minha barba de alguma forma. Tudo bem. O mantive à distância segura do meu rosto e caminhei até a casa vizinha.
— Este gato é da senhorita? Ele pulou no quintal de casa – expliquei, o entregando nas mãos da vizinha.
— É sim. Me desculpe pelo transtorno, ela está assim porque doamos um dos gatinhos que nasceu há algumas semanas.
— Ah, entendi. Não tem problema — comentei sem graça.
A moça não conseguiu velar a vontade de rir. Constrangido, me despedi, ela agradeceu, e caminhei de volta para casa. A primeira coisa que fiz foi entrar no banheiro. Me observei no espelho e tentei entender como a minha barba parece um filhote de gata.
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O gato branco com o rato na boca
Vejo o gato branco e bem alimentado pela vizinha com algo acinzentado na boca. Paro o carro e reconheço que é um ratinho ainda vivo. O gato retribui o meu olhar com altivez. Encosto o carro, desço e vou atrás do gato.
Ele sai correndo e sigo no encalço. Depois de correr três quarteirões, o gato invade um terreno baldio. Pulo o muro e continuo a perseguição. Ele continua me olhando com ar de vitória, uma expressão capciosa de deboche; como se eu jamais fosse capaz de encurralá-lo.
Então o gato se embrenha no meio da sarça e, sem contar com o imprevisível, fica preso em uma planta rasteira. Me aproximo, ele não vela o desgosto. Massageio seu cangote e, apesar da resistência inicial, acaba soltando o ratinho ainda vivo. Por dois ou três segundos, parece que nem o camundongo acredita no que aconteceu. Quando recobra os sentidos, desaparece através de um buraco no muro.
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O conflito da medonha
Hoje à tarde, passei no trabalho de uma amiga e conversamos um pouco na cozinha da empresa onde ela trabalha. Nesse ínterim, tirei uma barra do bolso e comecei a comer. Curiosa, ela me olhou e perguntou:
— O que você tá comendo?
— Medonha!
— Nossa, David! Que grosseria! Que baixeza!
— Como?
— Me xingando do nada…
— Claro que não! Medonha é o nome da minha barrinha vegana.
— Agora não adianta tentar se justificar.
Beijos ao acaso
Durante um espetáculo no Teatro Municipal, sentei sozinho nas últimas poltronas, como de costume. Gosto do silêncio da plateia e da ampla perspectiva do palco. Assim que me levantei, esbarrei em uma moça. Era muito bonita. Me desculpei e ela perguntou se poderia sentar ao meu lado.
— Sim, fique à vontade.
Trocamos alguns olhares que se encontravam e outros que se desencontravam.
— Quer sair daqui? — ela perguntou.
— Como?
— Dar uns beijos…
— Onde?
— Lá fora.
— Pode ser. Vamos aí.
Ela sorriu, deu um puxão na minha barba e saiu na minha frente. Fui atrás dela e nos encontramos lá fora. Não havia ninguém além de nós. A praça não estava tão clara, mas uma luz amarelecida e vacilante iluminava nossas cabeças. Nos beijamos por alguns minutos, espreitando a movimentação.
— Vamos lá pra casa – ela disse.
— Será que é uma boa? Não nos conhecemos direito…
— É sim. Você vai gostar. Relaxa…
— Ok…
Chegando lá, encontramos a família toda na sala. Provavelmente 10 a 12 pessoas. Ela perguntou meu nome na frente do pai e da mãe. Respondi naturalmente enquanto coçava a barba.
— Você não é brasileiro, é? — perguntou o homem.
— Não…
— Sabia! Com essa cara…
— Hum…
— Vamos lá pra varanda — ela sugeriu.
Nos beijamos um pouco mais, até que começamos a nos estranhar. Depois de meia hora, os olhos dela não eram mais os mesmos. Àquela altura, percebi que não tínhamos nada em comum, a não ser tempo ocioso. Ela me observou e disse:
— Você é muito barbudo. A gente podia cortar um pouco. Vou pegar a tesoura.
— Que isso? De jeito nenhum!
— Olhe, meu amor, se quiser namorar tem que ser do meu jeito…
— Como assim namorar? Quem aqui está falando em namoro?
— Como não, seu filho da puta? Você acha que é bom demais pra mim? É isso?
— De jeito nenhum. Você é incrível. Acho apenas que não estamos namorando…
— Como? Gostou de beijar, não gostou? Agora tem que seguir o riscado.
—Que isso, moça! Que riscado? – questionei com o coração palpitando.
— Você acha que é assim?
— Nos conhecemos, sei lá, acho que não tem mais de 40, 45 minutos…
— Não interessa. Você aceitou conhecer meus pais. Eles estão de prova.
Subitamente, ela gritou e o velho apareceu segurando um facão. O imaginei vindo para cima de mim arrastando a lâmina no piso e saltando com o facão apontado para a minha garganta.
— Quer um pedaço de cana? Estou rachando agora — perguntou o homem.
— Não, senhor, mas muito obrigado pela gentileza — respondi tentando esconder o suor das mãos que tremulavam.
O velho piscou e voltou para dentro da casa sem dizer nada. Ela continuou furiosa.
Falei que era melhor eu ir embora.
— Amanhã você vem que horas me ver?
— Não moro aqui.
— Mas você volta, né?
— Volto sim.
— Sendo assim, vou confiar na sua palavra.
Por garantia, passei três meses escondido dentro de casa.
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“Po, olha esse cara! Bruto demais dos pés até a touca”
Saí da academia e passei no mercado para buscar pão para a minha mãe. Na fila do caixa rápido, um cara ficava me observando. Até que ele se aproximou e disse:
— Caramba, mano! Tenho que te falar! Você tem um visu que dá medo! Olha o físico e a cara desse homem aqui, Renata!
Envergonhada, a moça que o acompanhava apenas sorriu e comentou:
— Não liga não. Meu irmão é assim mesmo.
Com meu típico sorriso enviesado, comentei que estava tudo bem. Então ele continuou:
— Po, olha esse cara! Bruto demais dos pés até a touca. Que barba sinistra, meu velho!
Eu já constrangido, sem saber o que dizer, pensei até em sair da fila do caixa rápido. Então Renata o puxou pelo braço, o levando para o setor de hortifruti. De lá, ele ainda falou:
— Serião, mano! Se você me der um tapa acho que eu não levanto.
Enquanto algumas pessoas riam e sorriam, eu só acenava a cabeça e tentava esconder a vergonha por trás da barba.
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