Sobre o envio de 27 mil bezerros para a morte na Turquia
Em 15 dias, ou talvez um pouco mais, o Porto de Iskenderun, no Mar Mediterrâneo, na Turquia, espera receber 27 mil bezerros que embarcaram no Porto de Santos. São jovens animais que antes enfrentaram uma viagem desgastante de 500 quilômetros confinados em carretas. Tanto que muitos embarcaram visivelmente cansados.
Em entrevista, o representante do navio libanês Nada, responsável pelo transporte, disse que tudo foi feito para que os bezerros não sofram durante a viagem. Mas a objetificação desses animais reduzidos a alimentos e a própria viagem em si não são atos de violência? Será que os 27 mil bezerros têm condições de suportar uma viagem desse tipo? Com duração de no mínimo 15 dias em um ambiente totalmente fechado, e privados da luz solar. Pense no nível de estresse desses animais nos próximos dias.
Viagens de carreta já são desgastantes, agora imagine ser enviado em seguida para uma viagem de navio. Além disso, é importante ponderar que embora os animais estejam viajando dentro de um navio, os bezerros ficam bem próximos uns dos outros, e partilhando de um espaço bem reduzido e do mesmo sentimento de estranhamento. Imagine esses animais, cada um pesando 450 quilos, desembarcando na Turquia depois de tanto tempo sem espaço para se locomover adequadamente.
Isso é saudável? Qualquer animal condicionado, logo forçado a passar dias sem se movimentar, está sendo privado de sua natureza, já que corpos foram feitos para o movimento. Após 17 anos, estamos vivendo um retrocesso, já que o último transporte com “carga viva” registrado no Porto de Santos foi em 2000. E quando falamos em bezerros não podemos esquecer que são animais precocemente afastados do convívio com os seus. Isso é justo? Viver para ser reduzido a pedaços de carne? Infelizmente é isso que financiamos quando nos alimentamos de animais. Outro ponto que parece ter sido ignorado é que esses bezerros estão sendo enviados para um país onde o abate predominante é o halal.
Nesse tipo de abate, o animal é degolado com um golpe em forma de meia lua, que consiste em cortar os três principais vasos – jugular, traqueia e esôfago. Há quem diga que um “bom golpe” pode não gerar “sofrimento ao animal”, o enquadrando inclusive como “abate humanitário”, embora registros de ações em matadouros mostrem exatamente o oposto.
O chamado “abate humanitário” é hoje a bandeira da indústria de carne visando persuadir os consumidores a acreditarem que estão se alimentando de uma carne “sem dor”, o que é uma ilusão, já que qualquer tipo de privação precedente a morte já é uma forma de violência que gera sofrimento em diversos níveis. Alguma dúvida? Veja o desespero de um animal quando ele reconhece que está em um ambiente de onde não sairá com vida. Outra notícia desalentadora é que se a viagem for “bem-sucedida” a tendência é que o Porto de Santos seja usado com mais frequência para o transporte de “cargas vivas”.
Será realmente que os animais não têm tanta vontade de viver?
Será realmente que os animais não humanos não têm tanta vontade de viver? Será realmente que eles querem ser resumidos à comida no prato de alguém? Há provas de que em determinadas situações os animais lutam mais pela vida do que os seres humanos. Isso realmente não significa nada? Não deveria incitar algum tipo de empatia que não envolva apenas seres humanos? É justo matá-los e comê-los? Reduzi-los a produtos voltados a saciarem um prazer que não ultrapassa alguns minutos? Vale a reflexão.
Uma breve reflexão de Natal
Te convido a refletir sobre o consumo de alimentos de origem animal no Natal.
Ninguém precisa da Perdigão para fazer uma boa ação

O Chester, com seu parco valor existencial atrelado a datas comemorativas e à marca Perdigão, é uma criatura que vive em média 50 dias antes de ser degolado, sangrado, escaldado, depenado, eviscerado e resfriado
A Perdigão diz que se você comprar um Chester uma família atendida por instituições de assistência social ganha outro. Ou seja, você não paga para matar apenas um, mas dois animais. Ok. Isso parece uma bela ação, não? Mas onde estava essa iniciativa da Perdigão anos atrás? Por que apenas no ano passado eles começaram esse trabalho?
Me parece uma iniciativa baseada em uma reação há uma desaceleração no consumo e na venda do Chester. Como não está sendo fácil conquistar o estômago e o bolso dos consumidores, eles viram uma boa oportunidade de apelar ao coração. Claro, muitos poderão dizer de boca cheia: “Já fiz a minha boa ação neste Natal. Graças a mim uma família está sendo bem alimentada.”
Outro aspecto a se considerar é que essa ação reforça a equivocada ideia da importância do consumo de carne no Natal, e alça o Chester a símbolo da “boa alimentação natalina”, o que não tem qualquer respaldo substancial. Afinal, o que tem de coerente em celebrar o Natal se alimentando da morte de um animal? “Ok, mas e daí, pelo menos uma família carente vai ter o que comer no Natal e sem precisar pagar por isso.” Certo, mas será que o que essas famílias mais precisam ou desejam é um Chester?
Dizem que essa época torna as pessoas mais solidárias e fraternas. Porém, aos animais não tenho dúvida nenhuma de que a chegada do Natal marca um tempo de trevas, em que a matança cresce vertiginosamente. Ou há como negar que milhões de animais são mortos nesse período? Uma suposta boa ação em prol de seres humanos deveria justificar isso? Não há alternativas?
O Chester, com seu parco valor existencial atrelado a datas comemorativas e à marca Perdigão, é uma criatura que vive em média 50 dias antes de ser degolado, sangrado, escaldado, depenado, eviscerado e resfriado. Claro, me refiro aos machos, porque as fêmeas são mortas com 35 dias. Imagine como seria viver por tão pouco tempo.
Acredito que ninguém precisa da Perdigão para fazer uma boa ação em qualquer época do ano. Basta se inteirar da realidade local, agir por conta própria ou se juntar a grupos de voluntários. Muitas vezes não é necessário nem dinheiro, mas somente tempo livre e vontade de ajudar.
Bronson Alcott, o homem que fundou uma comunidade “vegana” em 1843
Pedagogo e filósofo estadunidense era contra a exploração e o consumo de animais
Em 1843, o pedagogo e filósofo estadunidense Amos Bronson Alcott, um homem bastante influente em seu tempo, tanto que entre seus amigos e admiradores estavam personalidades como Herman Melville, Walt Whitman, Nathaniel Hawthorne, Henry David Thoreau, Ralph Waldo Emerson e Margaret Fuller, fundou em Harvard, Massachusetts, uma comunidade “vegana” chamada Fruitlands, que se situava em uma área de 90 acres, o equivalente a 360 mil metros quadrados. A propriedade foi comprada em parceria com o reformador educacional inglês Charles Lane.
De acordo com informações do Fruitlands Museum e do site oficial sobre a vida de Bronson Alcott, pai da escritora Louisa May Alcott, importante nome da literatura juvenil, nenhum tipo de alimento de origem animal era consumido na comunidade. “Eles não usavam nada de origem animal; nem lã, mel, cera ou esterco. Nem mesmo trabalho animal. Os fundadores sentiram que os seres humanos não deveriam tirar nada dos animais”, informam.
Idealista, Alcott sonhava com o dia em que os animais seriam livrados do trabalho árduo da mão de obra agrícola e da degradação do abate. O seu desejo com a criação da Fruitlands era de que as pessoas aprendessem mais sobre a importância de viver em harmonia com os animais, além de serem estimuladas a se desenvolverem intelectualmente e espiritualmente. Sua crença era a de que Fruitlands poderia ser uma iniciativa que se espalhasse por outras regiões dos Estados Unidos e para outros países.
A vida na comunidade também evidenciava a importância da relação com a terra. Todo o trabalho era feito por humanos. “Sem animais, é claro, recusando-se a usar cavalos em qualquer tipo de transporte. Não havia nem tratores naquela época”, escreveu John Davis no artigo “Bronson Alcott – American Pioneer Vegan”, publicado em 22 de março de 2011, destacando que mesmo com todas as adversidades, Alcott fez o possível para seguir adiante.
Com 11 anos, Anna Alcott, filha de Amos Bronson disse que nós, enquanto seres humanos, temos o poder de pensar e sentir, enquanto os animais, que estão em desvantagem em relação a nós, devem ter permissão para viverem em paz, sem serem usados em trabalho pesados ou reduzidos a alimento. “Como alguém pode comer carne quando há frutos tão suculentos?”, questionou a criança em citação do artigo “Fruitlands”, publicado no site oficial sobre a vida Bronson Alcott.
Embora o termo vegan tenha surgido somente em 1944, 100 anos antes a Família Alcott e os moradores de Fruitlands já defendiam uma filosofia de vida que mais tarde receberia o nome de veganismo. Reflexo disso é que muitos a consideram a primeira comunidade “vegana” dos Estados Unidos. Toda a alimentação dos moradores era proveniente das plantações da comunidade que funcionava sob um sistema de autossuficiência. Porém, depois de sete meses a comunidade começou a ruir porque muitas pessoas que se juntaram a eles não contribuíam efetivamente com o trabalho que era desenvolvido lá dentro. Havia aqueles que não queriam trabalhar, mas somente comer, dormir e descansar sob as sombras das macieiras.
Como Amos Bronson Alcott, Charles Lane e outros idealizadores costumavam viajar para divulgar a Fruitlands, na tentativa de conquistar novas parcerias, colaboradores e pessoas dispostas a colocarem em prática um projeto semelhante, muitas vezes o trabalho dentro da comunidade contava apenas com a força das mulheres e crianças das famílias Alcott e Lane, além de um homem conhecido como Palmer.
O que aparentemente fez a Fruitlands sucumbir em menos de um ano foram as divergências de opiniões entre os idealizadores. Outro agravante era a necessidade de capital para investir na propriedade, que acabou escasseando, já que eles não viviam para gerar lucro. “Quando foram forçados a escolher entre medidas práticas para o sucesso ou viver espiritualmente, eles optaram pela última”, segundo o artigo “Fruitlands”, que integra os arquivos do museu da comunidade. Alcott preferiu desistir do que dar continuidade, mas tendo que ir contra seus princípios. Em 1873, a escritora Louisa May Alcott publicou uma prosa satírica intitulada “Transcendental Wild Oats”, baseada em memórias de infância em Fruitlands.
Mesmo que o projeto não tenha durado muito tempo, Amos Bronson jamais deixou de acreditar no modelo de comunidade que idealizou junto com Charles Lane. Segundo registros de suas memórias que constam em seu site oficial, ele apenas se deu conta de que talvez o ser humano não tenha realmente aptidão para viver no Éden. Quem for a Harvard, no Condado de Worcester, em Massachusetts, pode visitar o Fruitlands Museum e conhecer a história da comunidade “vegana” do século 19.
Amos Bronson Alcott se tornou vegetariano em 1835
Amos Bronson Alcott se tornou vegetariano em 1835 e acredita-se que por influência dos pensamentos do filósofo grego Pitágoras. Mais tarde, a sua crença no vegetarianismo como uma filosofia de vida a ser seguida pela humanidade foi fortalecida após ele participar de palestras do reformador e ministro presbiteriano Sylvester Graham, defensor do vegetarianismo que viajava pelos estados Unidos criticando o consumo de alimentos de origem animal.
Em 1843, Alcott escreveu uma carta em que manifestou a sua crença de que o mundo seria um lugar muito melhor sem a exploração de animais:
“Calcula-se que, se nenhum alimento animal fosse consumido, um quarto da terra agora usada seria suficiente para o sustento humano. E os vastos caminhos agora apropriados pelas pastagens, cortes e outros modos de provisão para animais poderiam ser aproveitados de forma mais inteligente e afetuosa.”
Além de defender o abolicionismo animal quando ainda não existia formalmente a teoria dos direitos animais, Alcott lutava pelo fim da escravidão humana nos Estados Unidos, até por entender que não se pode lutar pelo fim de um tipo de exploração e ao mesmo tempo endossar ou ignorar outro.
Defendeu ainda os direitos das mulheres, e acredita-se, segundo John Davis, que ele se tornou “vegano” aos 42 anos em 1842: “Ele expandiu seus pontos de vista antiescravidão, incluindo animais não humanos.” Logo após o seu regresso aos Estados Unidos, surgiu o anseio de fundar uma comunidade livre da exploração animal.
Referências
Maurer, Donna. Amos Bronson Alcott: Idealist, Tanscendentalist, Vegetarian. Vegan Handbook. The Vegetarian Resource Group.
Davis, John. Bronson Alcott – American Pioneer Vegan. Veg Source (22 de março de 2011).
http://www.alcott.net
Brian May: “Porcos, bois e cordeiros são criados puramente como mercadorias, prontos para o brutal matadouro”

“Diariamente, me torno impopular com várias pessoas, que ainda acreditam que os animais foram colocados na Terra para serem usados e abusados pelos seres humanos” (Foto: Brian May Official Website)
No dia 5 de dezembro de 2010, o jornal britânico Sunday Express publicou um artigo intitulado Why I have to speak for the Animals (Por que eu tenho que falar pelos animais), assinado por Brian May, guitarrista e compositor da lendária banda de rock Queen, além de astrofísico. No texto, May, que há muito tempo se tornou um ativista pelos direitos animais, fez duras e contundentes críticas à exploração animal, versando sobre a redução de animais a alimentos, caça e experiências laboratoriais. Logo abaixo, segue o artigo traduzido na íntegra:
Alguém me perguntou recentemente como eu gostaria de ser lembrado. We Will Rock You? Tocando no Palácio de Buckingham? Eu disse, dada a escolha, que prefiro ser lembrado por acelerar o fim da crueldade contra os animais e por ter semeado as sementes de verdadeiro respeito em relação a maneira como tratamos todas as criaturas. Parece uma mudança radical de carreira para mim, não é? Meu amor pela música é inabalável, juntamente com meu amor pela astrofísica, estereoscopia e Photoshop, mas o meu amor pelos animais me levou a deixar a minha guitarra em segundo plano para tentar dar voz aos animais. Então, diariamente, me torno impopular com várias pessoas, que ainda acreditam que os animais foram colocados na Terra para serem usados e abusados pelos seres humanos. Humano é o nome que damos a nós mesmos, e há um adjetivo derivado disso, implicando compaixão, sensibilidade e justiça: a palavra “humano”.
Ao longo da história, o homem tentou justificar o seu comportamento em relação a outros humanos e outros animais. Na Era do Iluminismo, ele justificou que mulheres eram queimadas por estarem possuídas pelo diabo. Ao escrever a Constituição dos Estados Unidos, ele justificou que os escravos deveriam ser mantidos porque “eles não eram iguais a nós”, e que a sociedade entraria em colapso sem a escravidão. Os homens justificaram tantos comportamentos terríveis: tortura de prisioneiros políticos, degradação das mulheres, abuso de crianças, vitimização das minorias e a quase erradicação dos povos nativos.
Esses abusos horríveis são vistos hoje de forma vergonhosa. Como poderíamos pensar que por um ser humano ter uma aparência diferente, ele não tem sentimentos, direito à liberdade, comida, respeito e igualdade de oportunidades? Outra revolução está acontecendo agora. Começamos a perceber que outras criaturas neste planeta têm tanto direito de viver, respirar e aproveitar o seu tempo quanto nós. Mas estamos no primitivo início dessa realização. Enquanto escrevo, milhões de animais estão sofrendo nas mãos dos seres humanos. A indústria animal (leia “Comer Animais”, de Jonathan Safran Foer) envolve o abuso de milhões de criaturas todos os dias, com sentimentos semelhantes aos nossos.
Ian Redmond, zoologista renomado mundialmente, diz que há uma geração atrás, qualquer biólogo que atribuísse “sentimentos e comportamento maternos” a uma macaca abraçando a sua prole seria acusado de antropomorfismo e jamais seria levado a sério novamente como cientista. Esse não é mais o caso. O mapeamento recente dos genomas revelou a surpreendente semelhança entre a composição humana com a dos primatas, e apenas um pouco menos semelhante a de mamíferos como ratos e camundongos. Agora não é mais aceitável a ideia de que os animais agem simplesmente por instinto enquanto os “seres humanos pensam e se comportam racionalmente”.
Em 2004, depois de 100 anos desde que pessoas iniciaram um trabalho de cuidados aos animais, o Hunting Act foi aprovado neste país [Inglaterra], proibindo o “esporte” covarde e desprezível da caça à raposa, juntamente com a caça às lebres e a caça aos cervos com matilhas. Recentemente, vimos a indignação do público em relação ao assassinato sem sentido de um magnífico veado, e banalmente por causa dos seus chifres. Mas esta é apenas a ponta do iceberg; milhões de criaturas altamente inteligentes, mais inteligentes do que cães e gatos que esta nação tanto ama, estão sendo abusadas na Grã-Bretanha neste momento.
Porcos, bois e cordeiros são criados puramente como mercadorias, prontos para o brutal matadouro. Frangos e galinhas são criados em gaiolas sem a indulgência de uma vida ou morte decente [natural]. Todos os animais de criação são agora espécies criadas pelo ser humano para atender a demanda por mais produtividade e mais e mais dinheiro sem qualquer preocupação com o seu bem-estar. Aqueles perus, que serão abatidos neste Natal, nunca irão andar [em referência ao fato de que muitos engordam tanto em pouco tempo que são incapazes de se locomover, além de sofrerem com as articulações fragilizadas].
Outras aves são criadas em gaiolas, e depois libertadas para viverem uma vida lamentavelmente curta que termina com tiros de espingarda, só por diversão. Milhões de primatas, que são nossos parentes mais próximos, são usados em experiências, mantidos em gaiolas em laboratórios, campos de concentração que chamamos de “humano” [Brian May faz uma crítica a banalização do termo ‘humane’, normalmente usado na tentativa de banalização do sofrimento animal. O termo humano traz embutida a ideia de que um animal é bem tratado antes de morrer, o que é uma contradição em essência, já que nenhuma criatura explorada morre feliz]. E temos um governo que quer trazer de volta a caça às raposas (alegando que isso é humano, pedindo “provas” de que as raposas sofrem).
Referência
May, Brian. Why I have to speak for the animals. Sunday Express. Publicado em 5 de dezembro de 2010.
Mais um especial de Natal da Sadia

A realidade do peru e de outros animais mortos, embalados (inteiros ou não) e servidos sobre uma mesa funestamente colorida, a Sadia e nenhuma outra indústria alimentícia faz questão de mostrar
Tradicionalmente, nesta época, muitos se emocionam com o comercial da Sadia, um especial de Natal, mas poucos se sensibilizam com os animais reduzidos a produtos. Alegria, família, crianças sorrindo, abraços, confraternização, uma verdadeira lição de harmonia e fraternidade. Muito amor envolvido. Embalagens bonitas, rótulos bem elaborados, tudo para dissociar o que se come da realidade.
E claro, um peru feliz divulgando a própria carne, como se estivesse se oferecendo para morrer. Como sempre, uma utopia que vela uma distopia. Afinal, a realidade do peru e de outros animais mortos, embalados (inteiros ou não) e servidos sobre uma mesa funestamente colorida, a Sadia e nenhuma outra indústria alimentícia faz questão de mostrar.
Brian May: “Todos nós deveríamos ser veganos”
“Se as pessoas pudessem ver o que acontece com esses animais que serão comidos, acho que veríamos muitas pessoas se tornando veganas”

“Eu gostaria muito mais que se lembrassem de mim por tentar mudar a maneira como tratamos os nossos companheiros animais” (Foto: Brian May Official Website)
O guitarrista e compositor inglês Brian May, da lendária banda de rock Queen, deu inúmeras entrevistas nos últimos anos. Porém, em vez de falar da sua história com o Queen, ele tem preferido direcionar a conversa para uma questão que há muito tempo se tornou uma prioridade em sua vida – os direitos animais. Na Inglaterra, não é nenhuma novidade que Brian May é um fervoroso defensor dos animais. Inclusive foi por uma questão ética que há alguns anos ele abdicou completamente do consumo de carne.
Em entrevista a Steve Jones, ex-guitarrista e membro-fundador da banda de punk rock Sex Pistols, ele revelou em 24 de agosto deste ano que o seu próximo passo é tornar-se vegano. “Eu sou vegetariano e ainda não consegui me tornar vegano. Muitos dos meus amigos são. Como muita comida vegana, mas ainda não posso me considerar vegano”, disse durante o Jonesy Jukebox Show. De acordo com Brian May, as pessoas não refletem sobre o fato de que estão comendo animais que tiveram uma vida péssima e foram nutridos com os alimentos errados. Além disso, passaram por muito estresse em decorrência de privações.
“Toda criatura deste planeta tem o mesmo direito de ter uma boa vida. Não devemos abusar dos animais. Acho que entendemos tudo errado. Não fomos colocados aqui para usar e abusar de outras criaturas. Estamos aqui para fazer coisas boas”, declarou a Steve Jones. O guitarrista do Queen reclamou que a cada ano as pessoas se alimentam de bilhões de animais que sofreram os mais diferentes abusos.
Além do sofrimento animal, Brian May apontou que outro problema é que a criação de animais com a finalidade de reduzi-los a produtos facilita o surgimento de doenças, principalmente no cenário atual, com uma demanda tão alta por alimentos de origem animal. “Sim, todos nós deveríamos ser veganos”, recomendou.
Em 29 de maio de 2016, o jornal britânico The Guardian publicou a matéria “Brian May: ‘All sorts of stuff happens in my workshop”, de Nicola Davis. Na reportagem, May foi questionado sobre o impacto da realidade virtual e dos vídeos de 360 graus como forma de ativismo contra a exploração animal. Ele acredita que essa tecnologia pode contribuir cada vez mais para que as pessoas compreendam que os animais têm os mesmos tipos de sentimentos que nós.
Na opinião de Brian May, uma realidade virtual que apresenta com fidedignidade a realidade dos matadouros pode trazer grandes transformações. “Se as pessoas pudessem ver o que acontece com esses animais que serão comidos, acho que veríamos muitas pessoas se tornando veganas. […] Em uma realidade virtual, se você se tornar uma raposa sendo perseguida por cães famintos, e experimentar ser despedaçado, acho que isso pode alterar a sua sensibilidade”, complementou.
Em outra entrevista ao The Guardian, publicada em 4 de maio de 2011, Brian May se queixou que informações são constantemente manipuladas para fazer com que o público que não é vegano nem vegetariano veja os ativistas pelos direitos animais como pessoas sensacionalistas, dissimuladas e até mesmo violentas. “Caçar e matar animais por prazer é algo que não entra na minha mente. Não entendo por que as pessoas são assim. Luto contra isso o tempo todo. Não acho que um ser humano saudável precisa matar ou causar dor para ser feliz. Por que deveria? Uma vida decente e uma morte decente – é o que pedi para mim, e é isso que peço para qualquer criatura”, ponderou May, que também é astrofísico.
Na matéria “Brian May: my quest to save the badger”, publicada em 4 de maio de 2011, Patrick Barkham, do The Guardian, escreveu que há muito tempo Brian May já defendia que os animais têm direitos – tanto morais quanto legais, deixando claro que ele é contra a ideia equivocada, antropocêntrica e especista de que os seres humanos são os únicos animais importantes deste planeta. “Não posso deixar de reverenciar as criaturas selvagens que sobreviveram depois de tudo que fizemos. Somos os vândalos do mundo, não há dúvidas disso”, criticou May.
Em 2015, ele gravou um vídeo veiculado no YouTube fazendo um convite para que as pessoas assistam uma das palestras sobre veganismo do ativista estadunidense Gary Yourofsky. No mesmo ano, em 12 de julho, Brian May participou de um debate sobre mudanças no “Hunting Act”, uma determinação do Parlamento do Reino Unido que desde 2004 proibia o uso de cães na caça de animais como raposas, cervos, lebres e visons.
Na discussão transmitida pela Sky News, May confrontou o ex-secretário do meio ambiente Owen Paterson, defensor da caça. “Você precisa parar de fingir que as caças às raposas são uma forma de proteger as fazendas. Isso não tem nada a ver com a agricultura. Conheço muitos fazendeiros e posso dizer que eles não saem matando raposas em seu tempo livre. Isso é sobre pessoas que vão ao campo para torturar animais até a morte, e apenas por diversão. A caça às raposas é sobre isso. É uma fraude absoluta fingir que isso é sobre agricultura”, desabafou Brian May, conquistando a simpatia de muitos espectadores.
Há alguns anos, ele deu uma entrevista ao jornal britânico Sunday Times, revelando que a defesa dos animais é de extrema importância em sua vida:
“Quando eu partir, certamente as pessoas se lembrarão de mim por causa do Queen, mas eu gostaria muito mais que se lembrassem de mim por tentar mudar a maneira como tratamos os nossos companheiros animais.”
Referências
https://www.theguardian.com/technology/2016/may/29/brian-may-owl-stereoscope-interview
https://www.theguardian.com/environment/2011/may/04/brian-may-champion-badger-welfare
http://www.nme.com/news/music/queen-64-1269650#3JgVWKy6p6XMu8gE.99
Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”?
Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”? Talvez miúda seja a nossa sensibilidade e consciência em relação ao papel que esses órgãos tiveram para esses seres que um dia foram cheios de vida.
A realidade do pato antes de chegar ao prato

Será que muitas pessoas já refletiram conscienciosamente sobre a maneira como esse animal foi parar no forno ou na panela de alguém?
Um animal que também entra na lista dos mais procurados para o Natal é o pato. Claro, preferido enquanto comida. Entre as receitas mais populares envolvendo esse ser senciente, consciente e inteligente está o “Pato ao Molho de Laranja”, em que depois de morto nos primeiros meses de vida, ele é preparado cozido ou assado. Em vez de adorná-lo com fatias de laranja, há quem goste de colocá-lo também em uma travessa rodeada por batatas, cheiro verde e outros belos e nutritivos alimentos do reino vegetal que ajudam a criar um cenário mais favorável de dissimulação estética.
Será que muitas pessoas já refletiram conscienciosamente sobre a maneira como esse animal foi parar no forno ou na panela de alguém? Como era a sua vida antes de ser reduzido a alimento? Acredito que poucos pensem a respeito. Nem mesmo aqueles que criam esses animais com essa finalidade, já que há uma dissociação predominante que faz com que o animal não seja visto como um sujeito de uma vida, como diria Tom Regan, o que favorece a sua morte.
Embora muita gente ignore, patos são animais bastante sociáveis que costumam ser abatidos com três a cinco meses de vida; isto porque com essa idade a sua carne é muito mais macia. Ou seja, mata-se precocemente um animal que poderia chegar aos dez anos porque a sua carne é considerada “saborosa”. Uma nobre justificativa, não?
Antes do abate, os patos são deixados em jejum por um período mínimo de seis horas. O objetivo é favorecer o esvaziamento gástrico, assim facilitando a limpeza da “carcaça”. Segundo produtores de patos, o conteúdo do intestino dessas aves pode amargar e comprometer a qualidade da carne. Então eles são deixados com fome para que possamos nos deliciar com a sua carne não comprometida por uma necessidade fisiológica.
Um dos meios mais eficazes e comuns de se abater patos é por meio da degola, que costuma ser feita com faca ou com um machado. Depois de morto, o pato é deixado de cabeça para baixo até o sangue escoar completamente. Em matadouros especializados, ele é pendurado sobre grilhões, assim como frangos, galinhas, perus e outras aves.
A próxima etapa é a depenagem, que consiste em mergulhar a carcaça do animal em água quente por dois minutos. O pato também é decapitado, seus intestinos são esvaziados e seus órgãos, vulgarmente chamados de “miúdos”, são retirados e também comercializados. Recomenda-se nessa etapa o máximo de cuidado porque se houver algum rompimento da vesícula biliar, a carne estará perdida. Muito sensível, não?
Mais tarde, ele é comprado, e já dissociado de uma vida, é preparado cozido ou assado para o deleite de uma família que jamais conheceu a sua história ou considerou o seu desejo de não morrer. Toda essa cultura de abate de patos e desconsideração do valor de suas vidas enquanto seres sencientes não tem uma razão plausível.
Um exemplo científico? Em 15 de junho de 2016, foi publicado na prestigiada revista Science um artigo intitulado “Ducklings imprint on the relational concept of ‘same or different”, de Antone Martinho III e Alex Kacelnik, do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, na Inglaterra. No artigo, eles afirmam que patos, além de serem animais sensíveis, são capazes de reconhecer a própria mãe 15 minutos após o nascimento.
O estudo provou que os patos têm capacidade de abstração cognitiva, tanto que sem qualquer tipo de treinamento, eles conseguiram distinguir pares de objetos iguais e diferentes. Ou seja, como se fosse um quebra-cabeças. A pesquisa deixou claro que subestimamos a inteligência animal e ignoramos o quanto os patos são seres capazes. Claro que não estou citando esse exemplo para associar inteligência com direito à vida, até porque inteligência não é parâmetro de direito à vida.
Porém o reconhecimento científico da inteligência dos patos mostra como estamos imersos em uma cultura tão especista, de objetificação animal, que levamos tempo demais para começar a reconhecer algo que deveria ser óbvio. Sendo assim, te convido a refletir sobre isso quando for se alimentar de um animal.



