David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Oito contos de escritores consagrados para repensarmos nossa relação com os animais

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Colagem: David Arioch

Jim Smiley and His Jumping Frog (Jim Smiley e Seu Sapo Saltador), de Mark Twain, escrito em 1865, é protagonizado por um apostador que tem uma rara habilidade de cativar os animais. O conto integra o livro “Jim Smiley and His Jumping Frog and Other Stories”, de 2005. Ein Bericht für eine Akademie (Um Relatório para a Academia), de Franz Kafka, lançado em 1917, e publicado no Brasil pela Companhia das Letras na coletânea “Essencial Franz Kafka”, de 2011, narra a história de um macaco que aprende a se comportar como um ser humano para fugir do cativeiro. Nesse ínterim, o animal escreve para a academia sobre a sua transformação.

“Quando em Hamburgo fui entregue ao primeiro adestrador, reconheci logo as duas possibilidades que me estavam abertas: jardim zoológico ou teatro de variedades. Não hesitei. Disse a mim mesmo: empregue toda a energia para ir ao teatro de variedades; essa é a saída. O jardim zoológico é apenas uma nova jaula, se você for para ele, estará perdido”, narra em Ein Bericht für eine Akademie.

Ein Altes Blatt (Uma Folha Antiga), de Franz Kafka, lançado em 1917, e publicado no Brasil pela Editora Brasiliense no livro “Um Médico Rural” em 1990. “O açougueiro pensou que podia ao menos se poupar do esforço do abate, e uma manhã trouxe um boi vivo. Isso não deve se repetir. Fiquei uma hora estendido no fundo da oficina com todas as roupas, cobertas e almofadas empilhadas em cima de mim, tudo isso para não ouvir os mugidos do boi que os nômades atacavam de todos os lados para arrancar com os dentes pedaços de sua carne quente. Quando me atrevi a sair, já fazia silêncio há muito tempo. Como bêbados em tomo de um barril de vinho, eles estavam deitados e mortos de cansaço ao redor dos restos do boi”, registrou no conto Ein altes Blatt (Uma Folha Antiga).

Tale of the Goat (O Conto da Cabra), de Shmuel Yosef Agnon, publicado originalmente em 1925, e que integra o livro “From Foe to Friend & Other Stories”. Na história, que para os ocidentais pode trazer lembranças da parábola “O Lenhador e a Raposa”, um senhor fica maravilhado ao experimentar o peculiar leite de uma cabra. Segundo ele, é tão maravilhoso que tem o sabor do céu, do paraíso.

Ao perceber que o animal sempre desaparece por período inexato, o homem conversa com o filho, crente de que o gosto do leite tem relação com as viagens da cabra. O jovem então decide segui-la. O percurso que parece durar horas, mas pode significar até dois dias, termina em uma caverna, uma passagem para um paraíso inimaginável chamado Terra de Israel.

Extasiado, e ciente de que a véspera do sabat anteciparia a escuridão, ele se vê incapaz de retornar para casa. Preocupado, prende um bilhete na orelha da cabra e pede que ela a entregue a seu pai. Quando vê o animal chegando sozinho, o homem entra em desespero e pragueja a cabra, a quem responsabiliza pelo sumiço do filho. Movido por surto momentâneo, a entrega a um açougueiro. Depois que o animal é assassinado, o bilhete cai da orelha da cabra.

“Ai do homem que rouba de si mesmo a sua própria fortuna, e ai do homem que reivindica o bem com o mal”, gritou o velho arrependido, batendo as mãos na própria cabeça. O luto durou dias. O homem se debruçou choroso sobre o animal e se recusou a ser consolado. Na história, o leite é também uma metáfora dos caminhos e dos descaminhos da humanidade.

Pig (Porco), de Roald Dahl, publicado em 1960. Na história, Lexington, um jovem que cresceu como vegetariano estrito, vai a um restaurante e experimenta um prato baseado em repolho e carne de porco. Ele nunca tinha comido aquilo e fica maravilhado com a experiência, tanto que decide descobrir a origem da carne. Então viaja até um matadouro, onde assiste o sofrimento dos porcos preparados para o abate.

O primeiro porco é mantido imóvel por meio de uma corrente que envolve seus pés. E essa corrente é presa a um cabo que se move para cima e para baixo. Logo o porco é arrastado enquanto emite grunhidos desesperados ao longo da linha de abate. Apesar da crueldade, Lexington acha o processo fascinante, enquanto os funcionários da linha de produção se mostram entediados.

De repente, por um descuido, uma das pernas do rapaz fica presa a uma corrente e ele é arrastado por um cabo. Os funcionários não se importam, indiferentes ao processo que se repete diariamente. A descrição do que acontece com Lexington é extremamente gráfica e contempla todo o processo de abate. A única diferença é que há um humano no lugar de um porco.

Blood (Sangue), do livro Short Friday (Breve Sexta-Feira), lançado em 1963. Isaac Bashevis, que escrevia principalmente em iídiche, não raramente questionava em seus contos a hipocrisia humana de consumir carne, e a incapacidade de ponderar sobre o real custo dela. Exemplo disso é um excerto do conto “Sangue”, do livro “Breve Sexta-Feira”, lançado em 1963.

Segurando o ganso, Reuben olhou Risha com intensidade, o olhar subindo e descendo e, afinal, detendo-se no peito. Ainda a fitá-la, golpeou o ganso. As penas brancas tingiram-se de sangue. O ganso torceu o pescoço, ameaçador, e súbito pulou, conseguindo voar alguns metros. Risha mordeu o lábio:

— Dizem que vocês nascem com instinto de assassinos, mas tornam-se açougueiros — disse ela.

— Se é tão delicada assim, por que me trouxe as aves?

— Por quê? Ora, é preciso comê-las!

— Pois para comer carne é preciso matar.

The Slaughterer (O Açougueiro), de Isaac Bashevis Singer, publicado em 1967, e que integra a coletânea “47 Contos”. Em “O Açougueiro”, que assim como muitos contos de Singer possui elementos surrealistas, ele narra os conflitos de um açougueiro kosher que reconhece a própria negação moral na morte de cada animal reduzido à carne, além da legitimação da injustiça e da naturalização da crueldade. A história se passa no século 19, em um shtetl, ou seja, em uma cidadezinha de população predominantemente judia.

No matadouro, o protagonista começa a ter devaneios com vacas e galinhas se preparando para uma retaliação. Elas querem se vingar por toda a violência perpetrada contra os de suas espécies. Em um determinado momento, os animais berram: “Todo mundo pode matar e todo assassinato é permitido.” Embora tenha sido publicado na revista The New Yorker em 25 de novembro de 1967, “O Açougueiro” continua sendo um conto bastante atual, em que o escritor judeu aborda a realidade da produção de carne e atua como uma consciência moral, uma luz para a sociedade.

“A Viagem do Elefante”, de José Saramago, lançado em 2008. Embora seja considerado romance, o autor sempre qualificou a obra como conto. A história é inspirada no episódio em que o rei de Portugal e Algarves, Dom João III, resolveu presentear com um elefante o arquiduque austríaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos Quinto.

Com uma estilística inovadora e linear, Saramago apresenta a história de solimão (com s minúsculo mesmo), um elefante que se torna alvo da corrupção, individualismo, egocentrismo e outras falhas que permeiam a natureza humana. E essas deficiências mostram como o animal é vitimado pela superioridade que os personagens da história julgam possuir sobre o elefante de quatro toneladas.

“Que leves o elefante à porta da basílica e o faças ajoelhar-se ali, Não sei se serei capaz, Tenta-o, Imagine vossa paternidade que eu levo lá o elefante e ele se recusa a ajoelhar-se, embora eu não entenda muito destes assuntos, suponho que pior que não haver milagre é encontrar-se com o milagre falhado, Nunca terá sido falhado se dele ficarem testemunhas”, sugere o padre em diálogo com o tratador na página 79 de “A Viagem do Elefante”.

O sacerdote propõe usarem o animal para forjar um milagre e angariar recursos para o caixa da igreja. E a suposta graça é apenas a primeira etapa de um plano para fazer do elefante o mais valioso dos bens em mãos humanas. “Não é todos os dias que um elefante se ajoelha à porta de uma basílica, dando assim testemunho de que a mensagem evangélica se dirige a todo o reino animal e que o lamentável afogamento daquelas centenas de porcos no mar da galileia foi apenas resultado da falta de experiência, quando ainda não estavam bem lubrificadas as rodas dentadas dos mecanismos de milagres”, ironiza Saramago.

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Importantes nomes do vegetarianismo russo ao longo da história

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Começando desde o vegetarianismo místico e o protovegetarianismo:

Colagem: David Arioch

01 – Prokhor Moshnin (Seraphim Sarovskiy)
02 – Sergey Radonezhsky
03 – Alexander Voeykov
04 – Nikolai Ge
05 – Liev Tolstói
06 – Maxim Gorky
07 – Valentin Bulgakov
08 – Alexander Scriabin
09 – Andrey Beketov
10 – Ilya Repin
11 – Isaac Levitan
12 – Nikolai Leskov
13 – Sergei Yesenin
14 – Nikolai Konstantinovich Rerikh
15 – Uriy Sergeevich Nikolaev
16 – Ivan Poddubny
17 – Tatyana Pavlova
18 – Victor Pelevin

 

 
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Written by David Arioch

September 9th, 2017 at 4:57 pm

Quatro romances de escritores consagrados que criticam a exploração animal

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Frankenstein, de Mary Shelley, publicado em 1818

Obras de Mary Shelley, Fiódor Dostoiévski, Upton Sinclair e Romain Rolland

A escritora britânica Mary Wollstonecraft Shelley, famosa pela criação do monstro de Frankenstein, um dos mais emblemáticos da literatura mundial, teve uma vida pautada pelo vegetarianismo. Quando decidiu escrever aquela que se tornaria sua grande obra-prima, a maior inspiração da autora não foi basicamente o mito grego do titã Prometeu, um defensor da humanidade que roubou o fogo de Héstia e presenteou os mortais, mas também o seu posicionamento contrário à exploração animal. Nenhuma obra desse período superou a popularidade de Frankenstein. Em uma das passagens do livro, a criatura se emociona ao dizer que sua comida não é a mesma dos humanos:

“Não tenho que matar o cordeiro e a cabra para saciar o meu apetite. Bolotas e bagas são o suficiente para a minha alimentação. Minha companheira vai ser da mesma natureza que a minha, e vai se contentar com o mesmo que eu. Faremos a nossa cama de folhas secas; o sol vai brilhar sobre nós da mesma forma que brilha sobre os homens, e ele vai amadurecer a nossa comida. A imagem que apresento a vocês é humana e pacífica.” Ou seja, na essência, o monstro de Mary Shelley carregava em si a perfeição moral que faltava ao homem mediano, rendido aos excessos da ganância e da megalomania.

“Por que há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se restringissem à fome, à sede e ao desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena, para provocar-nos as mais diversas e inesperadas evocações”, escreveu Mary Shelley em Frankenstein, externando sua antipatia pela jactância e pelos caprichos do ser humano.

Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, publicado em 1879

No romance que se tornou uma das mais sólidas e importantes obras da literatura russa, Doistoévski condena a comparação entre a crueldade dos seres humanos com a dos animais selvagens, justificando que é uma injustiça para com estes, já que as feras não atingem jamais os refinamentos dos humanos.

Segundo o narrador, o tigre dilacera sua presa e a devora; não conhece outra coisa: “Por isso, ame todas as criaturas de Deus, do todo ao grão de areia. Ame cada folha, cada raio de luz. Ame os animais, ame as plantas, ame cada coisa, e assim você conhecerá os mistérios de Deus.”

Ele defende que esse é o único meio de ter uma compreensão mais completa de que o mundo precisa ser amado, de forma abrangente e universal: “Ame os animais. Deus deu aos animais uma consciência rudimentar e uma imperturbável alegria. Não se deve chateá-los ou privá-los de sua felicidade. Não trabalhe contra os intentos de Deus. Homem, não se orgulhe de sua superioridade em relação aos animais. Eles não possuem pecados, enquanto você mancha a terra com tua grandeza, com tua aparição, deixando após ti um rasto de podridão — Ai! Quase todos nós!” Citações das páginas 260, 352 e 353.

The Jungle (A Selva), de Upton Sinclair, publicado em 1906

A obra que denuncia as mazelas da indústria frigorífica tem como protagonista o lituano Jurgis Rudkus, um imigrante que mal sabe falar inglês e vive com a família em um distrito de Chicago dominado por currais e fábricas de carne processada. Desempregado, Rudkus aceita um emprego em um matadouro. Mas a desilusão cresce quando ele se vê endividado.

Às raias da miséria, é obrigado a se sujeitar aos trabalhos mais sórdidos, além de amargar experiências traumatizantes como a morte do pai, vítima da falta de segurança nas linhas de produção da indústria frigorífica. Em uma das passagens da página 38 de The Jungle, uma imigrante lituana se mostra chocada ao saber do destino de milhares de bois e vacas. “E o que será de todas essas criaturas?”, chorou Teta Elzbieta.

“Esta noite, todos serão mortos e fatiados. E logo ali, do outro lado dos depósitos de acondicionamento, há mais ferrovias, e de lá vêm os vagões que vão levá-los embora”, respondeu Jokubas Szedvilas. No total, dez milhões de criaturas vivas eram transformadas em alimento a cada ano.

Assim como os animais, os trabalhadores também eram tratados como seres inferiores, já que suas vidas se resumiam às longas jornadas de trabalho. Exemplo disso é um adolescente que vencido pela exaustão e pela embriaguez dorme no trabalho, onde se torna comida para ratos na madrugada. Nesse trecho, Upton Sinclair denuncia ainda a falta de higiene nas linhas de produção. Também revela no livro que muitas vezes a carne bovina se misturava à carne dos ratos que morriam nas linhas de produção.

À frente, havia uma grande roda de ferro, de 20 pés de circunferência e com anéis por toda a sua borda. (…) Quando a roda virou, o porco teve seu pé arrancado e arremessado para o alto. Ao mesmo tempo, ouviu-se um grito aterrorizante; os visitantes ficaram alarmados; as mulheres empalideceram e recuaram, escreveu Sinclair na página 40 de The Jungle.

No livro-denúncia, o sofrimento dos animais e dos homens estão interligados; um não existe sem o outro num contexto em que na prática o sonho americano não passa de uma distopia velada pela inocente fantasia. E nesse cenário, o maior financiador é o consumidor que alheio à excruciante realidade aceita tudo na sua passividade.

A riqueza de detalhes com que Sinclair descreve as más condições enfrentadas pelos trabalhadores e pelos animais explorados pela indústria fez com que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas e veganas nas primeiras décadas do século 20. E com o tempo, e a popularidade mundial do livro traduzido em mais de 50 idiomas, o número de adeptos da alimentação livre de ingredientes de origem animal cresceu exponencialmente.

A omissão do Estado também endossa e justifica a existência dessas práticas. Publicado há mais de cem anos, The Jungle é uma obra que, em síntese, não apenas flerta com a atualidade, mas diz muito sobre ela. “Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”, declarou Sinclair ao avaliar a recepção do livro.

Jean-Christophe, romance de Romain Rolland publicado em dez volumes entre os anos de 1904 e 1912

Na obra com viés autobiográfico, o autor francês narra a história de um gênio musical alemão que adotou a França como lar. A partir daí, ele sincretiza suas visões musicais, questões sociais, internacionalismo humanista e o direito dos animais à vida.

Ele não podia mais suportar ver uma das cenas mais ordinárias que testemunhara centenas de vezes – um bezerro chorando em uma cesta de vime, com seus grandes olhos salientes, seus tufos brancos encaracolados sobre a testa, seu focinho roxo e suas pernas dobradas. Havia um cordeiro com as quatro pernas amarradas sendo transportado por um camponês.

“Pendurado de cabeça para baixo, ele tentava elevar a própria fronte, gemendo como uma criança, balindo e pendendo a língua cinza. Havia aves amontoadas em uma cesta e podia-se ouvir ao longe os guinchos de um porco sangrando até a morte, além de um peixe a ser limpo em uma cozinha”, registrou Rolland em “Jean-Christophe”.

De acordo com o narrador, as torturas inomináveis que os seres humanos infligem a essas criaturas inocentes fez seu coração doer. “Concedendo aos animais um raio de razão, imagine o quanto o mundo pode ser um pesadelo terrível para eles: um sonho com homens de sangue frio, cegos e surdos cortando suas gargantas, abrindo-as, eviscerando-os, fatiando-os, cozinhando-os vivos e às vezes rindo da forma como eles se contorcem de agonia. Existe algo mais atroz entre os canibais da África?”, questionou.

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Um dos maiores lutadores da história da Rússia defendia o não consumo de carne

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Ivan Poddubny ou Paddoubny era protovegetariano

Ivan Poddubny ou Paddoubny (1871-1949), também conhecido como “Ivan O Terrível” e “Hércules Ucraniano”, foi um lutador do Império Russo de origem cossaca. Poddubny era protovegetariano, defendia o não consumo de nenhum tipo de carne e gostava de pães integrais e de centeio. O lutador alcançou prestígio internacional por vencer quatro campeonatos mundiais de luta livre.

De acordo com a obra “Bogatyr from Kasenivka”, publicada por T. Nikitenko, Ivan Poddubny, também chamado de “O Campeão dos Campeões”, continuou lutando até os 70 anos. Durante a Segunda Guerra mundial, quando os nazistas invadiram Yeisk, na costa do Mar Azov, eles ofereceram muito dinheiro para que Poddubny treinasse lutadores alemães, mas ele recusou.

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Peixes podem sentir tanta dor quanto mamíferos e pássaros

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“Os peixes raramente recebem o mesmo tipo de compaixão que oferecemos aos vertebrados de sangue quente”

Por ano, matamos no mundo todo 970 bilhões a 2,7 trilhões de peixes de acordo com informações da organização britânica Fish Count. Temos o costume de subestimar esses animais, levando em conta o tendencioso fato de que eles são silenciosos, logo ao serem feridos não expressam seu descontentamento da mesma forma que outros animais. Talvez seja inclusive por isso que os peixes estão entre as maiores vítimas da violência humana.

A maior prova de como a humanidade é injusta na sua relação com os peixes é que muitos desses animais são capturados “acidentalmente” em grandes redes de pesca. Basicamente, em ações com fins comerciais que ignoram o valor da vida dessas criaturas. Aqueles que são considerados indesejados, são vistos como “danos colaterais”. Sendo assim, caso o valor de mercado seja nulo ou irrisório, os peixes são devolvidos já sem vida à água. E, claro, muitos são mortos em decorrência de golpes violentos, descompressão, sufocamento ou esmagamento.

Mas será que esses animais não sentem dor? Será que está tudo bem em capturá-los? Sim e não. Embora cientistas não possam dar uma resposta definitiva sobre os níveis de consciência dos animais não humanos, todas as evidências indicam que peixes têm uma singular sofisticação comportamental e cognitiva. Sendo assim, isso é o suficiente para que esses animais tenham os mesmos direitos de outros animais que fazem parte do nosso círculo moral.

No artigo “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition, o professor Cullum Brown, do Departamento de Ciências Biológicas da Macquarie University, em Sidney, na Austrália, escreveu, baseando-se em suas pesquisas, que peixes têm suas próprias tradições, inteligência sofisticada e capacidade de cooperação e reconciliação, além de facilidade em reconhecer uns aos outros. Ademais, alguns sentidos dos peixes são superiores aos dos seres humanos. “O nível de complexidade mental dos peixes está no mesmo nível de outros vertebrados, e há evidências de que eles podem sentir dor de maneira semelhante aos seres humanos”, registrou.

Um dos animais mais explorados pela humanidade, os peixes são quase sempre “colhidos” em ações violentas praticadas pela indústria pesqueira global. Também são as maiores vítimas da aquicultura intensiva e comumente são reduzidos a animais de estimação e objetos de pesquisa. “Os peixes raramente recebem o mesmo tipo de compaixão que oferecemos aos vertebrados de sangue quente. Parte do problema é a grande diferença entre a percepção das pessoas sobre a inteligência do peixe e a realidade científica”, argumentou Cullum Brown.

O professor defende que as pessoas se conscientizem sobre a importância da vida dos peixes, porque disso depende a percepção pública que orienta as políticas governamentais. O reconhecimento da senciência e da inteligência de um animal normalmente é o que guia a nossa decisão de incluí-los em nosso círculo moral. “Muitos pesquisadores sugerem que se um animal é senciente, então provavelmente pode sofrer e, portanto, deve ser oferecida a ele alguma forma de proteção formal [o que é o caso dos peixes]”, observou Brown.

O pesquisador também analisou a capacidade de cognição dos peixes partindo da percepção sensorial. Isto porque essa percepção oferece evidências de que os peixes possuem habilidade de cognição que são mais evoluídas do que a de outros animais. Na realidade, esse estudo sobre a inteligência e a senciência dos peixes e a importância disso no contexto das considerações éticas vai ao encontro do que escreveu a bióloga Victoria Braithwaite, professora da Universidade Estadual da Pensilvânia, no livro “Do Fish Feel Pain?”, publicado em 2010.  Na obra, Victoria afirma que peixes são seres sensíveis que podem sentir tanta dor quanto pássaros e mamíferos, e até mais do que humanos recém-nascidos.

Referências

Brown, Collum. Fish intelligence, sentience and ethics. Animal Cognition (2014). Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24942105

Braithwaite, Victoria. Do fish feel pain? Oxford University Press (2010).

 

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Visons, animais mortos por um capricho humano

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Fotos: Jo-Anne McArthur

Milhares de visons são criados em breeding facilities, onde suas peles são arrancadas e transformadas em casacos. Assim que esses animais alcançam o tamanho considerado ideal, eles são mortos por eletrocutamento e esfolados. Seus cadáveres são enviados para universidades que realizam dissecação nas aulas de anatomia.





Written by David Arioch

September 1st, 2017 at 1:52 pm

A triste realidade dos carneiros

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Fotos: Jo-Anne McArthur

Ao longo de um dia, a fotógrafa canadense Jo-Anne McArthur, idealizadora do projeto We Animals, testemunhou um leilão de animais na Austrália, onde foram vendidos 32 mil carneiros. A maior parte deles já tinha destino definido – a indústria da carne, inclusive brasileira, onde a oferta nacional é menor que a demanda. Não devemos desconsiderar também que a lã como subproduto torna o negócio ainda mais vantajoso para quem compra esses animais.

Segundo Jo-Anne, nos leilões de carneiros, o barulho nunca cessa. Seres humanos gritam pelos melhores preços, cães perseguem e coagem os carneiros, e os caminhões de transporte vêm e vão. Como consequência, os carneiros ficam extremamente estressados, e alguns quebram suas pernas e pescoços na tentativa de fuga.

“Muito além do estereótipo de animais estúpidos, a verdade é que os carneiros são animais com estruturas sociais altamente desenvolvidas”, declarou Jo-Anne. Eles são capazes de identificar uns aos outros. Também têm facilidade em reconhecer seres humanos, mesmo que não tenham visto o mesmo rosto por até dois anos.

Carneiros podem resolver quebra-cabeças, gostam de brincar e partilham das mesmas emoções que os seres humanos, incluindo tristeza, alegria, desgosto, tédio e raiva. De acordo com a fotógrafa que viaja o mundo registrando a realidade dos animais criados para consumo, carneiros são muito amigáveis, e quando recebem uma nova companhia, gostam de trocar carícias.

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Written by David Arioch

September 1st, 2017 at 1:48 pm

Laos, um dos maiores fornecedores de animais para laboratórios

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Foto: Jo-Anne McArthur

Conhece o Laos? É um país asiático localizado na Indochina. O país é um dos maiores fornecedores do mundo de animais para laboratórios, para servirem como vítimas de vivissecção e outros testes realizados pela indústria cosmética e alimentícia, além de instituições de ensino, entre outros. Esses animais são condicionados a procriarem em fazendas, nas chamadas breeding facilities. Acredite, nenhum desses animais leva uma vida feliz.

As fotos da canadense Jo-Anne McArthur registram exatamente isso. Pense a respeito quando for comprar aquele produto que antes de chegar às suas mãos foi testado em animais. Talvez você tenha parcela de culpa pelo trauma e temor registrados em fotos como esta, já que essas criaturas jamais seriam criadas se não consumíssemos produtos testados em animais, ou endossássemos a realização de pesquisas com esses seres vivos.





Só há dois tipos de pessoas que se irritam quando mostramos a exploração de animais reduzidos a alimentos

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Foto: Jo-Anne McArthur

Só há dois tipos de pessoas que se irritam quando mostramos a exploração de animais reduzidos a alimentos:

Pessoas que vivem da exploração animal e pessoas que se recusam a admitir que consideram o paladar mais importante do que a vida. Embora não seja o que considero o ideal, acho importante para a causa animal quando pessoas que não são veganas nem vegetarianas reconhecem que não há boa exploração, já que nenhuma exploração nesse contexto é positiva ou normalmente tem um final feliz para as vítimas.





Written by David Arioch

September 1st, 2017 at 11:32 am

“Sinto muito, mas não como cadáveres”

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Foto: Jo-Anne McArthur

Ontem, participando de uma reunião como conselheiro da área de audiovisual e artes visuais, testemunhei uma bela cena. Sugeriram João Henrique de Andrade, presidente do Conselho Municipal de Cultura, que ele realizasse um churrasco em comemoração por ter sido eleito o representante da macrorregião Noroeste do Paraná no Conselho Estadual de Cultura. Então ele comentou:

— Sinto muito, mas não como cadáveres.

Admito que gostei da reação.

Written by David Arioch

September 1st, 2017 at 11:26 am