David Arioch – Jornalismo Cultural

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As tatuagens de Tiziu

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As formas irregulares revelam o sofrimento que passou para registrar no corpo os nomes dos pais

“Saí da escola porque tiravam sarro de mim, não me encaixava. Me ofendiam, me chamavam de burro" (Foto: David Arioch)

“Saí da escola porque tiravam sarro de mim, não me encaixava. Me ofendiam, me chamavam de burro” (Foto: David Arioch)

Tiziu tem 12 anos e passa a maior parte do tempo nas ruas da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Quem não o conhece, pensa que ele está sempre com raiva. Circunspecto e bicudo, engana apenas os estranhos. Os mais próximos sabem que a feição carrancuda é apenas uma forma de velar a natureza sensível. Mas não é preciso mais do que alguns minutos de conversa para perceber o quanto Tiziu é carente. Suas confidências sobre a vida e o cotidiano revelam mágoa, solidão e ao mesmo tempo um desejo incólume de ser incentivado de alguma forma. “Saí da escola porque tiravam sarro de mim, não me encaixava. Me ofendiam, me chamavam de burro. É o pior lugar do mundo. Prefiro a rua”, sentencia ao pressionar as próprias mãos.

Tiziu costuma conversar evitando contato visual. Quando se sente intimidado, observa tudo a meio metro de altura. Foi condicionado a encarar a vida e o mundo como se fosse um ser rastejante, dotado de um visão limitante que poucas vezes o permite contemplar a totalidade de alguma coisa. “Fico andando pela vila quando não tenho nada pra fazer”, comenta. O garoto normalmente fica pouco à vontade fora do bairro. Deslocado, parece que sente a visão se comprimindo diante de tantos olhares inquisidores. Distante da Vila Alta, já percebeu muitas pessoas o observando, tentando fundamentar suspeitas injustificáveis. “Acho que na mente deles eu não poderia sair daqui nunca”, afirma.

Apesar disso, Tiziu gosta de ir ao shopping, ambiente que segundo ele tem “cheiro de beleza”, onde se sente imerso num universo de “coisas boas”. “Quando estou lá, só vivo o momento. Fui lá poucas vezes. Uma vez comi tão bem que até esqueci quem me olhava torto”, comenta com um sorriso enviesado. Em um antebraço, Tiziu tem tatuado o nome da mãe e no outro o do pai. Há entre eles o desenho de um diamante concebido com esmero. A ideia é mostrar que são duas partes de um todo simbolizando aquilo que o garoto considera o bem mais precioso e raro em sua vida – o amor familiar. A grafia em caixa alta é simples, mas profunda. As formas irregulares das letras revelam o sofrimento que passou para registrar no corpo os nomes dos pais. “Tem a ver com amor, né? Família é pra sempre”, destaca num tom de voz embargado.

As três tatuagens foram feitas por Tiziu com uma maquininha que ele mesmo criou à base de garfo velho, tinta de caneta, fita isolante, agulha de costura, motorzinho, pilhas, isqueiro e estilete. “A gente inventa o que precisa”, diz. O garoto surpreende, não apenas pelas invencionices, mas também porque homenageou duas pessoas com quem não tem convivência diária. A mãe o levou para morar com os avós, alegando que não se davam bem. Tiziu então cresceu sem a presença materna. O pai, morador de outro bairro, não costuma visitá-lo mais de uma vez por mês. “Acho que me criei por aí. Minha avó já é bem idosa e meu avô vive pelos bares”, enfatiza enquanto desliza cuidadosamente os dedos pelas tatuagens, a alternativa encontrada para se sentir mais próximo dos pais.

Saiba Mais

Tiziu é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.

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Written by David Arioch

August 7th, 2015 at 7:59 pm

Os mais de 70 anos de Casablanca

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Amor, antinazismo e exploração da figura do “herói americano” no Marrocos

Obra se tornou clássica ao abordar a impossibilidade do amor (Foto: Reprodução)

Obra se tornou clássica ao abordar a impossibilidade do amor (Foto: Reprodução)

Lançado em 1942, Casablanca vai ser sempre lembrado como um clássico estadunidense que aborda a impossibilidade do amor. O filme do cineasta tcheco Michael Curtiz conta a história do exilado estadunidense Rick Blaine (Humphrey Bogart) que mora em Casablanca, no Marrocos, onde administra uma casa noturna e ajuda refugiados estrangeiros no início dos anos 1940.

O protagonista vive um dilema quando reencontra acidentalmente a antiga paixão Ilsa (Ingrid Bergman) que tenta fugir para os Estados Unidos com o marido Victor Laszlo (Paul Henreid), um antinazista tcheco. A obra aproveitou com certo caráter propagandístico, e bastante favorável aos EUA, o sentimento de contrariedade ao Nacional Socialismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Embora secundário, Peter Lorre se destaca pela interpretação sempre enigmática (Foto: Reprodução)

Embora secundário, Peter Lorre se destaca pela interpretação sempre enigmática (Foto: Reprodução)

Embora hoje seja cultuado em todo o mundo, a verdade é que quando Casablanca começou a ser produzido não havia tantas expectativas em torno do sucesso da película. Nem mesmo o elenco, principalmente a atriz Ingrid Bergman – que não acreditava tanto no filme – imaginava que a obra figuraria até hoje entre as dez das mais importantes listas de melhores trabalhos cinematográficos da história. Casablanca surgiu a partir de um roteiro de teatro intitulado Everybody Comes To Rick’s dos teatrólogos Murray Burnett e Joan Alison que o escreveram após uma viagem internacional.

Sem dinheiro e investidores para produzirem o espetáculo, optaram por vendê-lo por vinte mil dólares, à época, um valor bem elevado para uma história nunca encenada. Mas a fórmula do filme deu certo e o investimento de pouco mais de um milhão de dólares garantiu quase quatro milhões em faturamento. Casablanca ainda arrecadou muito mais nas décadas subsequentes, a partir de lançamentos especiais e merchandising.

A essência antinazista da obra também teve repercussão muito positiva da crítica que naquele tempo já era favorável em explorar até a exaustão a figura do “herói americano”, sujeito aparentemente falho, mas capaz de abdicar do amor em prol da liberdade e felicidade coletiva. Reflexo dessa grande aceitação são os três Oscars que o filme conquistou nas categorias melhor roteiro, filme e diretor. Na minha opinião, uma interpretação esfíngica, sempre digna de destaque, é a do inconfundível eslovaco Peter Lorre que vive Ugarte, um estrangeiro e amigo de Rick que vende cartas de trânsito para refugiados.

A vida de Sabina Spielrein

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Jornada da Alma narra a história da russa que se apaixonou por Carl Jung

Filme mostra Sabina como influência para Jung e Freud (Foto: Reprodução)

Prendimi l’anima,  lançado no Brasil como Jornada da Alma, é um filme de 2002, do cineasta italiano Roberto Faenza. Baseada na psicanálise, a obra conta a história de Sabina Spielrein, paciente com quem Carl Jung, o fundador da psicologia analítica, teve um relacionamento.

Em Jornada da Alma, Sabina Spielrein (Emilia Fox) é uma jovem russa entregue pelos pais a um hospital psiquiátrico em Zurique, na Suíça, onde a terapia de choque até então era o único método de tratamento. Nesse contexto, Sabina conhece o médico Carl Jung (Iain Glen) que inspirado nas ideias revolucionárias de Freud coloca em prática o método da livre associação. A técnica consiste no paciente falar tudo que pensa enquanto o psiquiatra avalia anseios, receios, traumas e lembranças.

Russa revolucionou a educação infantil (Foto: Reprodução)

As primeiras experiências com Sabina são bem sucedidas. Mas o método que gera complacência e certa intimidade entre médico e paciente vai além do esperado. A jovem russa se apaixona por Carl Jung que propõe torná-la amiga de sua mulher. Crente de que tal pedido anularia sua existência, Sabina volta para a Rússia após se formar em medicina e se especializar em psicanálise. Fica claro no filme o peculiar caráter de revisão histórica ao destacar Sabina Spielrein como influência para Jung e Freud. E mais, mostra como a russa revolucionou a educação infantil ao fazer uso da psicanálise para potencializar qualidades individuais.

Uma das cenas mais impactantes do filme é o momento em que Sabina tenta suicídio após Jung se afastar temporariamente do hospital. A personagem deixa um testamento pedindo aos médicos que cremem seu corpo, mas conservem a cabeça para que Jung possa dissecá-la. Surpreso, o psiquiatra se entrega a Sabina sob o signo de uma metáfora; doa a ela um seixo que segundo ele representa a sua alma.

Capitán, o cão que dorme no túmulo do seu ex-tutor desde 2007

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Cão dorme ao lado do túmulo do dono há mais de cinco anos

Capitán vive no cemitério desde 2007 (Foto: La Voz)

Em Villa Carlos Paz, na Argentina, o cão Capitán, um cão mestiço, parte pastor alemão, tem chamado a atenção há muito tempo. O animal descobriu sozinho em 2007 onde o seu companheiro humano foi enterrado, e desde então dorme ao lado do túmulo.

Capitán, encontrado por Miguel Guzmán em 2005, foi criado como um irmão de seu filho Damián. À época, a mãe Verónica Moreno não gostou muito da ideia porque já imaginava como seria trabalhoso cuidar futuramente de um animal de grande porte. Em 24 de março de 2006, Miguel faleceu, e não demorou para Capitán começar a vasculhar a casa, procurando pistas de Guzmán. Cheirou cada cômodo da residência e mais tarde desapareceu.

Cão achou sozinho o túmulo de Miguel (Foto: La Voz)

A família pensou que o cão tivesse sido morto ou adotado. Só descobriram o paradeiro de Capitán quando Damián foi visitar o pai no cemitério e encontrou o cachorro ao lado do túmulo. “Ele começou a ladrar de uma maneira que dava a impressão de que estava chorando”, conta Verónica que tentou levá-lo para casa, mas ele se recusou; preferiu continuar ao lado de Miguel.

De acordo com a vendedora de flores Marta, Capitán chegou ao Cemitério Municipal de Villas Carlos Paz em janeiro de 2007, quando encontraram o cão com uma pata da frente quebrada. “Percebemos que ele amava o seu tutor porque jamais deixou o cemitério”, testemunha. Até hoje, ninguém sabe explicar como Capitán achou o túmulo de Miguel. O homem faleceu no hospital e de lá foi levado para uma casa funerária bem longe de onde morava.

Exemplo de fidelidade animal (Foto: La Voz)

Não há um dia em que Verónica e Damián visitem Miguel e não encontrem Capitán junto ao túmulo. Algumas vezes o cão acompanha a família até em casa, mas sempre retorna ao cemitério. “Lá é a casa dele agora. Admito que antes eu não gostava tanto do Capitán. Isso mudou assim que percebi o amor que ele tem pelo meu marido. Desenvolvi um carinho muito grande. Sinto que o Capitán está com Miguel”, afirma Verónica Moreno.

Damián desistiu de levar o cão para casa quando percebeu que não adiantaria. Não importa para onde Capitán vá, ele sempre retorna ao cemitério. “Todos os dias, às seis horas em ponto, ele se deita na frente do túmulo. É uma lição de preservação das memórias daqueles que partem. Incrível como os animais nos ensinam isso de modo tão fiel”, comenta o administrador do cemitério, Héctor Baccega, que todos os dias conta com a companhia do cão em suas andanças. Em casa, Baccega cuida de um filho de Capitán e diz que o filhote provavelmente será tão leal quanto o pai.

Referência: La Voz, de Córdoba, Argentina.

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