David Arioch – Jornalismo Cultural

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Uma visita a Seu Antonio

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Foto: David Arioch

Hoje de manhã, visitei um amigo, o artista plástico Antonio de Menezes Barbosa, que trabalha principalmente com arte rústica. É um sujeito único, que sempre tem muitas histórias para me relatar sobre os tempos de colonização. O conheci por acaso em 2009 quando eu estava pesquisando sobre esculturas baseadas em aproveitamento e reaproveitamento de matérias.

Posso afirmar que não conheço pessoa que entende mais de árvores do que o Seu Antonio. Para se ter uma ideia da singularidade do seu trabalho, ele recolhe pedras, galhos e restolhos de madeira que seriam descartados e os transforma em obras de fruição, decoração ou utilitárias. Tem uma sensibilidade destacável.

Às vezes, ele simplesmente observa algo caído no chão e já imagina no que aquilo pode se transformar. Não apenas imagina, como idealiza e materializa. Há alguns anos, ele fez uma réplica do 14-Bis, de Santos Dumont, obra que viajou pelo Paraná.




 

Written by David Arioch

January 22nd, 2018 at 6:48 pm

Cajazeira, uma estranha quase nativa

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Plantada antes do surgimento de Paranavaí, a árvore é um contraste no cenário tipicamente paranaense

A cajazeira tem aproximadamente 90 anos (Foto: David Arioch)

Árvore foi plantada antes do surgimento de Paranavaí (Foto: David Arioch)

É muito comum as pessoas morarem anos ou até a vida toda em uma cidade e não perceberem que à sua volta ou a alguns poucos quilômetros de distância existem grandes riquezas naturais. Esse foi o primeiro pensamento que tive quando vi uma árvore de proporções colossais que cobre a casa do artesão conhecido como Tavão. Situada na Rua Formosa, número 277, no Jardim São Jorge, em Paranavaí, a cajazeira com aspecto de umbuzeiro parece uma estranha em um cenário dominado por sibipirunas, ipês, pinheirais e outras espécies que há muito tempo caracterizam a paisagem urbana típica do Noroeste Paranaense.

Com pelo menos 25 metros de altura e uma copa de mais de cem metros de diâmetro que mais parece um véu protetor, a mais antiga moradora do Jardim São Jorge tem garantido o direito de se estender pelas propriedades vizinhas sem ser incomodada. “Ela chegou aqui antes de todos que hoje moram no bairro. É uma pioneira”, defende o artista plástico Antonio de Menezes Barbosa, um amante da natureza que foi quem me apresentou à cajazeira.

Imponente, a árvore extremamente saudável parece mais jovem do que muitas com a metade da sua idade. Do robusto e curto tronco de 4,40m de diâmetro, ela se abre como uma mão dotada de dedos irregulares ou um “polvo da terra” com tentáculos longos e curvilíneos. Não há como dizer quantas vezes foi vitimada por tempestades, vendavais e raios ao longo dos anos. Mas a cajazeira sempre sobreviveu graças à própria força, sustentada por raízes densas, extensas e profundas que atravessam a propriedade, ratificando a forte relação com esta terra para onde foi enviada em forma de semente antes do surgimento de Paranavaí.

Um contraste na paisagem urbana típica do Noroeste Paranaense (Foto: David Arioch)

Foi castigada tanto quanto foi abençoada (Foto: David Arioch)

Após cada chuva, ela logo se cobre de verde, quando uma bela e vívida vegetação rasteira brota da base e se estende até os últimos galhos. Espaçosa, é melhor observada à distância. Então percorro quase 100 metros até chegar à esquina. De lá, vejo integralmente a sua copa harmoniosa, de ramificações intactas. “É uma árvore muito forte, tanto que quando chegamos aqui já era desse tamanho”, garante Tavão que trabalha ao ar livre, a poucos metros, construindo móveis coloniais a partir de madeiras descartadas.

Quanto mais observo a cajazeira que um dia abrigou uma casa, mais me sinto pequeno. Tento visualizar a sua extensão total, mas é impossível. Quando encosto do outro lado do muro, me distanciando ao máximo, sinto algo bem rígido sob a terra, então percebo que até ali chegam suas raízes que conheceram o solo ainda virgem.

Parece estar além de tudo e de todos, testemunhando as transformações da cidade e da população ao longo dos anos. Antes de Paranavaí se popularizar como Fazenda Brasileira, ela já estava lá, velada num universo verde de onde não é originária, contrastando com outras espécies e servindo de abrigo e esconderijo para animais selvagens.

Nos tempos da colonização, provavelmente testemunhou confrontos entre homens e onças, crimes envolvendo grilagem de terras e a chegada e partida de migrantes e imigrantes. Bom, pelo menos é o que se pode inferir a partir da longevidade do cajá e do seu tronco marcado por inúmeras cicatrizes. A mais perceptível é uma maior que minha mão, resultado de uma saraivada de tiros que remete aos tempos da Fazenda Brasileira.

Resistente, a cajazeira já abrigou uma casa (Foto: David Arioch)

Resistente, a cajazeira já abrigou uma casa (Foto: David Arioch)

Foi castigada tanto quanto foi abençoada. Afinal, dezenas de árvores caíram diariamente à sua volta no auge do desmatamento para servirem de matéria-prima na construção de casas ou simplesmente abrirem espaço para a urbanização e agricultura. Próxima da saída para Nova Aliança do Ivaí, a cajazeira resistente já esteve na rota de João Pires, um dos quebra milho mais violentos de Paranavaí, responsável por dezenas de mortes.

“Imagine o que ela não viu todos esses anos? Superou um período em que o homem não se preocupava com o meio ambiente”, comenta Antonio de Menezes enquanto massageia o tronco da árvore e sorri diante de um dos mais desconhecidos patrimônios naturais da cidade. É possível que a cajazeira que habita a área que um dia fez parte da fazenda do capitão Telmo Ribeiro, homem que chegou a Paranavaí para impor ordem acompanhado de um grupo de mercenários paraguaios, tenha vivenciado alguns dos maiores atos de bondade e de maldade da população local.

“Como a árvore é originária do Norte e Nordeste do Brasil, quem a trouxe também deve ter vindo de lá. A intenção acho que era se sentir um pouquinho mais perto de casa”, avalia o artista plástico. O que surpreende também é o fato de que a cajazeira costuma resistir apenas em locais quentes e úmidos, com temperatura média de 25 graus. E por muitos anos, principalmente até a metade da década de 1990, Paranavaí passou por muitos invernos rigorosos, com temperaturas baixas que duravam até mais de quatro meses. Além disso, nos últimos anos a cidade enfrentou incomuns períodos de estiagem. “Pra mim, ela é a maior árvore de Paranavaí. Tem uma fibra inigualável, não é rachadeira. Só que possui uma madeira diferente, que não é voltada para a construção”, destaca Antonio de Menezes.

Tiros que remetem aos tempos da colonização de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Tiros que remetem aos tempos da colonização de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Embaixo da cajazeira que continua perseverando diante de todas as adversidades o clima é diferente. Com a porta e as janelas da casa aberta, Tavão aproveita o frescor diário e gratuito proporcionado pela árvore, dispensando ventilador e ar-condicionado. Na sala, sinto um agradável aroma arbóreo que se avulta por todos os cômodos. Em síntese, um pedacinho de mata num espaço há muito tempo urbano. “Aqui é tudo natural”, garante o artesão enquanto faz o acabamento de um armário para cozinha.

Tavão cuida da cajazeira como se fosse um membro da família, até mesmo uma matriarca. Em vez de se adaptar à árvore, é ele quem se adapta à ela. Tanto que tudo no entorno é planejado ou feito cuidadosamente para não interferir no bem-estar da cajazeira que a poucos metros de distância divide o espaço com uma jaqueira, também típica do Norte, e outras espécies mais comuns na região, como o ipê-amarelo. Aproximadamente 1h30 depois, quando observo no tronco os sinais que imitam a vascularização humana, penso apenas que a cajazeira merece o direito de continuar sua jornada silenciosa como maior testemunha da história de Paranavaí.

Curiosidade

Quebra milho era como chamavam os jagunços da região nas décadas de 1940 e 1950.

Tive que ir até a esquina para ver com clareza a copa da cajazeira (Foto: David Arioch)

É preciso ir até a esquina para ver com clareza a copa da cajazeira (Foto: David Arioch)

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Quando a baleia Moby Dick chegou a Paranavaí

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Baleia foi encontrada às margens da praia de Guaratuba em 1952 (Acervo: Gelta Adalir Amorim)

Moby Dick encontrada às margens da praia de Guaratuba em 1952 (Acervo: Gelta Adalir Amorim)

O artista plástico Antonio de Menezes Barbosa se lembra como se fosse hoje quando em 1955 a baleia Moby Dick chegou a Paranavaí, no Noroeste do Paraná, em uma exposição itinerante. O nome foi uma homenagem à grande baleia branca do clássico romance do estadunidense Herman Melville.

No tempo em que uma viagem de 70 quilômetros até Paranavaí, no seio da mata nativa noroestina, levava um dia, a população se surpreendeu ao ver uma baleia de mais de oito metros de comprimento. O animal foi colocado em exibição em um terreno baldio próximo à antiga Casas Buri, na Rua Getúlio Vargas.

“Um homem gritava o tempo todo: ‘Venham! Venham! Venham! Venham ver a grande baleia Moby Dick!”, lembra Antonio de Menezes. O preço para entrar no local e vê-la de perto, com direito a ouvir uma história fantasiosa, era de cinco cruzeiros.

A baleia embalsamada atraiu centenas de crianças, adolescentes e adultos, tanto que o organizador decidiu manter a exposição na cidade por mais de uma semana. “Era impressionante! Não se falava em outra coisa naqueles dias. Não esqueço da cena de um homem que de tempo em tempo aplicava uma injeção com um tipo de óleo na Moby Dick. Era uma injeção enorme”, garante.

Segundo Barbosa, a experiência teve grande impacto na sua infância e na de muitos outros curiosos. Naquele ano, a baleia que excursionou pelo Paraná foi trazida de Guaratuba, na região metropolitana de Curitiba, onde foi encontrada morta às margens da praia.

A arte de esculpir com restos

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Antonio de Menezes cria escultura para conscientizar sobre o câncer de mama

Obra "Toque Feminino" destaca a universalidade feminina (Foto: David Arioch

Obra “Toque Feminino” destaca a universalidade da mulher (Foto: David Arioch

Já tem alguns anos que o artista plástico Antonio de Menezes Barbosa, de Paranavaí, no Noroeste Paranaense, descobriu em galhos caídos e restos de madeira uma forma bem peculiar de fazer arte. Desde então, concebeu dezenas de peças que instigam reflexões e transmitem as mais diversas mensagens – algumas bem simples e objetivas, outras mais reflexivas e subjetivas.

As obras do artista já foram vistas e elogiadas em cidades do Paraná e da Itália. Motivado pela repercussão do trabalho, Barbosa ampliou o acervo. Dentre as peças mais novas está a escultura “Toque Feminino”, criada à base de raiz de guaritá, sibipiruna e jabuticaba. “Os restos de guaritá me deram em Mirador [também no Noroeste do Paraná]. O seio da personagem fiz com raiz de angico”, diz.

Antonio de Menezes: "Quis retratar a preocupação feminina na hora do toque. É um momento de sensibilidade."

Antonio de Menezes: “Quis retratar a preocupação feminina na hora do toque. É um momento de sensibilidade.” (Foto: David Arioch)

A iniciativa de criar a escultura sem rosto transmite a ideia da universalidade feminina, já que independente da aparência, das características físicas, todas as mulheres precisam se cuidar para evitar o câncer de mama. “Quis retratar a preocupação feminina na hora do toque. É um momento de sensibilidade”, conta Antonio de Menezes que fez o acabamento dos cotovelos e mãos da personagem com cola e pó de serra, ressignificando o caráter físico de unidade.

A peça, que sob formas rústicas evidencia a força em um momento de fragilidade, levou um mês para ficar pronta. “Foi feita aos poucos. Poderia ter concluído em uma semana, mas optei por uma criação com intervalos”, admite. O artista aproveitou a inspiração para conceber com raiz de angico branco a escultura isolada de um seio gotejando vermelho, branco, verde, preto e marrom, numa simbologia pluri-semântica de amor, força, alimento, carinho, aconchego e luto, além de outros sentimentos e emoções que ficam a critério do espectador.

Artista plástico trabalha com matérias-primas que muitos consideram "restolhos".

Escultor trabalha com matérias-primas que muitos consideram “restolhos”. (Foto: David Arioch)

“É uma representação modesta e fragmentada da mulher como heroína e sobrevivente. Trata-se do legado feminino ao longo da existência”, explica Barbosa que se pautou no tema com a intenção de despertar a conscientização. Falando sobre sentidos, uma peça que chama atenção é a inominada orelha híbrida de castanha-do-pará, jabuticaba e sibipiruna, criada num misto de homem e gado da raça gir. “É só olhar para baixo que você vê ainda um pé humano e um pé de dinossauro”, sugere sorrindo e apontando para a base. A obra explora a relação do homem com o animal em uma caminhada de amor e ódio com direito a se observar, se ajudar e se devorar.

As criações não param por aí. Mesmo quem visita o artista plástico regularmente se surpreende com a sua facilidade em criar esculturas a partir de sobras, matérias-primas consideradas “restolhos”. Não é à toa que o atelier ficou pequeno em meio a diversidade de dezenas de peças. “Quando se trata de criar algo, não sigo nada. Simplesmente sento e faço”, confidencia em referência a motivação espontânea para produzir.

Sem se preocupar com a reação do público, Barbosa encara as próprias obras como extensões materiais de sua concepção e interpretação de mundo, além de sonhos, visões e reminiscências. Em momento de nostalgia, lembra que se apaixonou por objetos voadores aos cinco anos, quando viu pela primeira vez um garoto soltando pipa em meio a uma ventania. Isso justifica porque criou tantas réplicas de aviões e helicópteros em miniaturas e até em tamanhos reais.

Barbosa se apaixonou por objetos voadores aos cinco anos (Foto: David Arioch)

A paixão por objetos voadores surgiu aos cinco anos (Foto: David Arioch)

Exibe com orgulho algumas peças que remetem aos brinquedos de madeira de antigamente. Sobre uma pequena mesa, faz questão de desempoeirar e alinhar cuidadosamente um 14-Bis. Não quer que o avião feito de sobras de peroba, coco da bahia, macaúba, guaiçara, amarelinho e cumaru saia mal na foto. O mesmo vale para o biplanador e helicópteros confeccionados com coco, garapa, pau-brasil, peroba, bambu, coquinho e raio de motocicleta.

No dia 16 de outubro, quarta-feira, o artista inaugura uma nova exposição em Inajá [a 66 quilômetros de Paranavaí]. “Gostaria que as pessoas reconhecessem nas artes plásticas um aliado para despertar as habilidades dos jovens para as áreas profissionais. Por meio de uma simples peça, um estudante pode demonstrar dom para algum ramo da engenharia, por exemplo”, comenta.

Terror sobre a ponte do Rio Itapicuru

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Antonio de Menezes relata experiência como sobrevivente de uma tragédia ferroviária em 1951

Ao fundo, a ponte do Rio Itapicuru (Foto: Reprodução)

No ano em que se mudou para Paranavaí, no Noroeste do Paraná, com a família, o aposentado e artista plástico Antonio de Menezes Barbosa teve uma das experiências mais marcantes de sua vida. Com apenas seis anos, participou de um acidente ferroviário sobre a ponte do Rio Itapicuru, na Bahia.

Em março de 1951, Barbosa fez parte de um grupo de 12 pessoas, entre familiares e amigos, que aguardaram uma semana para ingressar em um trem na Estação Ferroviária de Laranjeiras, a 19 quilômetros de Aracaju, em Sergipe. “Me recordo que o trem vinha de Aracaju e chegou às 6h. Naquele dia, estávamos eu, minha mãe, meu pai, irmãos, um tio e dois amigos, o ‘Seu Quelemente’ e a mulher dele, Maria, inclusive os dois já faleceram”, relata Menezes.

Enquanto o veículo ferroviário seguia o trajeto normal, o curioso Antonio se aproximou da janela para observar a paisagem. “Eu estava do lado direito e via os outros vagões conforme a curva ‘puxava’ para a direita. Paramos na estação de uma cidade que não me recordo qual e algumas pessoas desceram e outras subiram”, conta. Quando se aproximavam de uma ponte sobre o Rio Itapicuru, já na Bahia, os passageiros ouviram o trem apitando em velocidade moderada. De repente, o “plá plá plá” emitido pelas rodas sobre as emendas dos trilhos foi ofuscado por um grande estouro semelhante ao som de uma bomba.

“Era o barulho dos primeiros vagões caindo sobre os outros. Tenho até hoje isso registrado na memória. Aqueles que não caíram foram para um lado e para o outro”, afirma Antonio de Menezes. O acidente foi provocado pelo desmoronamento da ponte, após o trem percorrer poucos metros. Alguns passageiros disseram que com frequência aquele trecho da ferrovia recebia trens de carga, principalmente de cimento, o que pode ter comprometido a estrutura da ponte. Durante o tumulto do acidente, a família se dispersou. O vagão onde estava o pequeno Antonio ficou preso a outro vagão próximo a um pilar recostado ao aterro.

Antonio de Menezes (o segundo da esquerda para a direita) e os quatro irmãos que sobreviveram ao acidente (Foto: Arquivo Familiar)

A movimentação dentro do trem aumentava de acordo com o desespero dos passageiros. Sem saber onde estavam os familiares, Barbosa não conseguia esquecer a cena de um homem caindo de um vagão sobre uma enorme placa sinalizadora de metal. “Ele caiu de uma maneira que a cabeça foi cortada como se fosse um melão, um corte tão limpo que nem vi sangue”, destaca.

Antonio de Menezes também viu inúmeras pessoas prensadas entre os vagões. Não falavam, apenas mexiam com dificuldades os braços e as pernas, instantes antes de morrerem. A cerca de oito metros do Rio Itapicuru, a ferrovia ladeada por um brejo ecoava os gritos de dor das vítimas. Barbosa se lembra de uma mulher com um braço quebrado e o outro agarrado a um morro, gemendo e clamando por ajuda.

Por sorte, a criança contou com a solidariedade de uma senhora que estava no mesmo vagão. A mulher o tratou muito bem, dialogando e o ajudando a se distrair da tragédia. Algum tempo depois, encontraram a família de Antonio. O pai, Augusto de Mendonça Barbosa, teve a iniciativa de retirar todas as malas e baús dos vagões menos danificados antes da chegada do atendimento emergencial. Pela atitude, o pai foi capa de um jornal de Sergipe.

De todos os familiares, apenas um dos irmãos de Antonio se feriu. José machucou o braço no momento do impacto. Apresar da gravidade do acidente, a maior parte dos passageiros sobreviveu. Muitos eram migrantes de mudança para São Paulo e Paraná. O plano da família de Barbosa, assim como de muitas outras, era estar em São Paulo na semana seguinte, porém tiveram de aguardar sete dias até a chegada de um trem com o mesmo destino. Nos dias chuvosos que se seguiram, os passageiros envolvidos na tragédia contaram com a hospitalidade dos moradores de um povoado.

“Coisa de quem nunca viu gelo”

Augusto de Mendonça vendeu tudo que possuía para se mudar para o Paraná. Interromperam a viagem quando chegaram a Rancharia, no interior paulista, onde passaram um mês. “Nunca tínhamos visto geada nem gelo, então quando esfriou numa madrugada, levantamos às 6h para subir em cima de um paiol coberto de sapé. Pegamos uma colher para recolher o gelo pra comer. Coisa de quem nunca viu”, comenta Antonio de Menezes às gargalhadas.

Já no Norte do Paraná, quando chegaram a Maringá estava chovendo, então o ônibus levou um dia para percorrer o trajeto até Paranavaí. O grupo de Mendonça desembarcou no primeiro terminal rodoviário da cidade, o Ponto Azul, em 9 de maio de 1951.

As balas de Corisco

Quando morava na Bahia, a mãe de Antonio de Menezes Barbosa costumava se esconder dos cangaceiros que circulavam pela região. “Meu pai tinha dois sítios em Coronel João Sá [no Nordeste Baiano]. Um já tinha sido invadido pelo Corisco, inclusive tinha marcas das balas do comparsa de Lampião”, ressalta.

A propriedade ficava próxima ao Rio Vaza-Barris e município de Geremoabo. Sempre que ouvia alguma notícia da chegada de Lampião e seu bando, a mãe e as amigas se escondiam no meio da caatinga, atrás das folhas de macambira.

Curiosidade

Antonio de Menezes Barbosa nasceu em 11 de setembro de 1944.

No tempo dos engraxates

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O preço médio para engraxar um par de sapatos era um cruzeiro

Antonio de Menezes: “Não se trabalhava pela produtividade ou dinheiro, mas pelo aprendizado” (Foto: Vincenzo Pastore)

Já havia muitas crianças em Paranavaí, no Noroeste Paranaense, no começo dos anos 1950. Para estimulá-las a ocuparem o tempo livre quando não estavam na escola, os pais autorizavam que os filhos exercessem alguma atividade remunerada. “Não se trabalhava pela produtividade ou dinheiro, mas pelo aprendizado”, comenta o artista plástico Antonio de Menezes Barbosa que em 1949, aos cinco anos, aprendeu a diferenciar diversos tipos de cultura, pouco tempo depois de ganhar uma enxada do pai Augusto de Mendonça Barbosa.

À época, os mais jovens que residiam na área urbana de Paranavaí descobriram na engraxataria uma atividade regular. Dezenas de garotos percorriam as vias mais movimentadas da cidade, como a Avenida Paraná e ruas Minas Gerais, Marechal Cândido Rondon, Manoel Ribas e Getúlio Vargas, sem se intimidar com o “areião”, para ganhar uns “trocados” engraxando calçados. As principais referências eram as áreas do antigo Terminal Rodoviário Urbano, Prefeitura, Bar Gruta da Onça e Hotel Elite.

Artista plástico era engraxate em Paranavaí em 1951 (Foto: David Arioch)

O preço médio para engraxar um par de sapatos era um cruzeiro, dinheiro que normalmente era usado pelas crianças para comprar sorvete de groselha. “A gente comprava em uma sorveteria de uma família de origem japonesa, próxima ao Bar Gruta da Onça. Era um sorvete muito delicioso”, afirma sorrindo Barbosa que se tornou engraxate aos sete anos, em 1951. Na Rua Marechal Cândido Rondon, entre o Banco do Brasil e a Ótica Pupila, havia uma famosa engraxataria, muito bem frequentada. Lá, dois garotos conhecidos como Chiquita e Ligueira trabalhavam para um homem a quem pagavam comissão.

“Era tudo muito tranquilo. Não havia preocupação em saber quanto cada um ganhava. O pessoal tratava bem e lembro que uma vez juntei 100 cruzeiros”, relata. Recentemente o artista plástico reencontrou um cliente de quem na infância engraxou muitos sapatos pretos de pelica na Rua Minas Gerais. O movimento sempre aumentava nos finais de semana, quando colonos e peões que trabalhavam na derrubada de árvores retornavam à cidade. Com base em uma estimativa, pode-se dizer que cada criança engraxava pelo menos cinco pares de sapatos por dia.

Réplica rústica da caixa usada por Antonio de Menezes (Foto: David Arioch)

Muita gente desembarcava na primeira parada de ônibus de Paranavaí, o Ponto Azul, onde eram assediados pelos engraxates mirins. As crianças os cercavam e gritavam: “Vai graxa, aí? Vai engraxa?” “Dava pra trabalhar o dia todo. Comprava graxa da marca nugget na Casa São Paulo. Tinha latinha de dois tamanhos. A gente passava com escova de dente ou de engraxar”, relata Antonio de Menezes. Para dar um brilho nos calçados, a garotada não dispensava o paninho de flanela. E claro, nem os clientes que faziam questão de cobrar quando o serviço não era completo.

Barbosa tinha a própria caixa de engraxate, o que era um privilégio para poucos, pois podia trabalhar sozinho e onde quisesse, sem precisar cumprir horário ou prestar contas do serviço. Porém, a função não era bem encarada por todos os moradores de Paranavaí. “A figura do engraxate já era de uma pessoa marginalizada, de alguém que não era de confiança”, desabafa Antonio de Menezes que conquistou um bom número de clientes fiéis, mas no início da adolescência desistiu da atividade para trabalhar na área comercial. O auge dos engraxates em Paranavaí se estendeu até a década de 1960.

A boa mão para a engraxataria fez Barbosa ser chamado para um serviço na casa de um homem conhecido como “Seu Euquério”, ex-gerente da Boa Táxi Aéreo. “Um dia, ele me pagou só para encerar o piso da casa dele com cera canário e dar um brilho no assoalho”, conta rindo.

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Artista plástico Antonio de Menezes cria réplica do 14-Bis

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Antonio de Menezes levou dois meses para criar o avião híbrido

O artista plástico Antonio de Menezes Barbosa, conhecido por produzir muitas obras com materiais descartados, principalmente galhos e pedras, recentemente concluiu a criação de uma réplica do avião experimental 14-Bis, de Alberto Santos-Dumont.

Artista criou réplica de quase 28 metros (Foto: David Arioch)

Com mais de 30 anos de experiência como artista, Menezes conta que sempre teve vontade de confeccionar um avião que pudesse servir de referência para as crianças estudarem matemática, desenho mecânico e história, além de estimular a capacidade inventiva. “Foram dois meses dedicados ao 14-Bis, e 80% dos materiais usados comprei em ferro velho. Boa parte é reciclável”, explica o artista que aproveitou restos de bicicleta, cantoneiras e antenas parabólicas.

O avião de quase 28 metros chama atenção pelo tamanho, tanto que dá a impressão de ser pesado. Mas ao contrário do que parece, é bem leve, de fácil mobilidade e transporte, com estrutura semelhante a de um planador. Se tiver dúvidas, basta balançá-lo, segundo o autor. A hélice que se move até mesmo com uma brisa chega a girar por horas de forma ininterrupta. “O que me deu mais trabalho foi a traseira do 14-Bis e o trem de pouso”, admite o artista que esculpiu a hélice com uma madeira bem leve.

Antonio de Menezes: “80% dos materiais comprei em ferro velho” (Foto: David Arioch)

A roupagem do avião é baseada em banners de plástico grosso que dificilmente rasgam, mesmo com fortes correntes de ar. A obra ainda ganhou virabrequim, pistões e outras peças que tornaram o avião mais fiel ao original. “Por enquanto, ele só não voa”, brinca Menezes que já conquistou boa popularidade no Noroeste Paranaense, com excelente repercussão de suas obras no Museu da Bacia do Paraná, em Maringá, onde contou com a curadoria da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Algumas criações do artista que já foi elogiado e reconhecido até na Itália são mais objetivas, já outras mais complexas, com predominância para a arte autoral recheada de críticas sobre a conduta humana, sociedade e modernidade. Para mais informações sobre o trabalho de Antonio de Menezes, basta ligar para (44) 3045-7750.

Curiosidade

O avião 14-Bis foi criado em 1906, como um híbrido de aeroplano e balão.

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Written by David Arioch

February 12th, 2012 at 3:22 pm

As esculturas de Antonio Menezes

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Artista plástico cria obras que são símbolos e metáforas da condição existencial do homem

Antonio Menezes cria obras com galhos, ossos e pedras (Foto: David Arioch)

No período de um ano e seis meses o artista plástico paranavaiense Antonio de Menezes Barbosa produziu mais de dez obras com materiais descartados. São peças feitas com galhos, ossos e pedras; símbolos e metáforas de sonhos e até da condição existencial do homem perante o mundo e a natureza.

O artista plástico Antonio de Menezes Barbosa descobriu o dom para as artes plásticas há 30 anos, quando confeccionou miniaturas de ferramentas de marceneiro, rastelos, enxadas e cavadeiras de mão. Porém, o cotidiano conturbado pelo trabalho não permitiu que na época Barbosa se dedicasse a atividade. Contudo, Antonio de Menezes nunca desistiu das artes plásticas e há um ano e meio decidiu produzir esculturas com maior regularidade.

Os materiais para a confecção das esculturas, Barbosa encontra na natureza. São galhos, pedras e ossos abandonados, fragmentos que para o artista ganham formas antes de serem recolhidos. “Eu vejo e já imagino onde cada coisa pode se encaixar”, afirma. Antonio de Menezes leva para casa somente aquilo que pode ser aproveitado.

A Mão Furada pelo Cravo (Foto: Amauri Martineli)

O artista que já enviou obras para Milão, na Itália, usa muita madeira, principalmente eucalipto e sibipiruna, mas jamais cortou sequer um galho pequeno. “Só pego aquilo que foi descartado”, explica o artista plástico. Antonio de Menezes admite que tenta sempre manter uma relação de harmonia com a natureza.

As Bailarinas (Foto: Amauri Martineli)

Entre as esculturas do artista estão “Um Par de Mãos”, “A Mulher Grávida”, “O Homem do Violino”, “O Pé de Pedra”, “O Homem Fracionado”, “O Bandolim”, “As Bailarinas”, “ A Formiga de Osso”, “A Formiga de Galhos” e “A Mão Furada pelo Cravo”. O Pé de Pedra foi a obra mais rápida. Segundo Antonio de Menezes, foi concluída em cinco horas. Já O Homem Fracionado levou dois meses. “Precisei de um bom tempo, só que também nunca trabalhei nele em período integral”, explica.

O Homem Fracionado feito em madeira tem um conceito existencialista, o de que o homem se retalha um sem número de vezes no decorrer da vida, mas que mesmo assim sempre deve predominar a persistência de administrar todas as situações ruins. “Do contrário, o homem morre ou enlouquece”, avalia Antonio de Menezes. Já A Formiga de Galhos foi concebida segurando uma mão com dedo indicador três vezes superior aos demais. Significa que ao ser humano, independente de tamanho – uma metáfora social – não cabe apenas apontar os erros, mas ir além.

Outra peça que desperta muita curiosidade é A Mulher Grávida feita com seis tipos de madeira. É uma simbologia da miscigenação não apenas do brasileiro, mas do homem universalizado. Também se destaca a mão furada por um cravo de onde brota uma orquídea. “Mesmo o homem massacrado, ele ainda germina vida”, comenta o autor.

A Formiga de Galhos (Foto: Amauri Martineli)

Artista vai expor obras na UEM

O artista plástico Antonio de Menezes Barbosa também explora a dualidade humana longe das amarras do maniqueísmo em uma criação bilateral de pedra que apresenta a face de uma ovelha e de um cão; o bem e o mal contido no homem. Há também peças bucólicas como duas mãos se tocando, representando a candura do primeiro amor. Para o artista, importante é dar margem as mais diversas interpretações.

Até hoje, Antonio de Menezes já produziu cerca de 20 esculturas. “Algumas peças refletem o que eu gostaria de ter sido. São idealizações”, declara. Para a produção das esculturas, Barbosa usa faca, serrote, furadeira, broca e uma serra de cortar ferro. “Até improviso, invento ferramentas”, revela, sem deixar de mencionar que já está trabalhando em novas esculturas.

No dia 2 de setembro, 12 obras do artista plástico estarão em exposição no Museu da Bacia do Paraná, na Universidade Estadual de Maringá (UEM). “As peças poderão ser vistas pelo público até o dia 14, das 8h às 11h e das 14h às 17h”, assinala Antonio de Menezes.

A arte de transformar o trivial em extraordinário

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Artista plástico usa pedras e pedaços de madeira descartados como matéria-prima

Barbosa com escultura criada em homenagem a filha e a neta (Crédito: David Arioch)

“Se você prestar atenção, a madeira sempre olha pra gente” (Foto: David Arioch

O talento para as artes plásticas, Antonio de Menezes Barbosa descobriu décadas atrás, quando recriou símbolos do pioneirismo em Paranavaí. Após um longo hiato, retomou a atividade há dois anos, período em que já transformou pedras e pedaços de madeira descartados em obras de contemplação.

“Comecei trabalhando a madeira, fazendo miniaturas de traçador, marreta e rastelo. Achei interessante”, conta o ex-caminhoneiro Antonio de Menezes Barbosa, citando as primeiras obras carregadas de nostalgia. Barbosa e o pai derrubaram muitas árvores usando traçador durante a colonização de Paranavaí.

Desde a primeira experiência como artista, se passaram mais de 30 anos. A profissão de caminhoneiro o afastou das artes plásticas até julho de 2007. “Eu estava em uma praia ao lado do Porto de Savona, a 43 quilômetros de Gênova, na Itália. Comecei a recolher pedrinhas que a água do mar trazia até as margens. Então as usei para criar uma réplica do Pão-de-Açúcar e outra de um navio. Foi o retorno”, lembra Barbosa.

Já no final de 2008, Menezes trabalhava em Maringá quando se deparou com uma peça de madeira que seria incinerada. O então caminhoneiro ofereceu um pedaço de lenha ao proprietário em troca da peça. A sensibilidade de Barbosa o fez enxergar na pequena bacia de madeira a idealização de uma barriga feminina.

Artista com obra criada a partir de pedaços de seis tipos de madeira (Foto: David Arioch)

Artista e obra criada a partir de pedaços de seis tipos de madeira (Foto: David Arioch)

Com pequenos pedaços de seis tipos de madeira encontrados ocasionalmente, o artista criou uma mulher grávida em três meses. “Usei morcegueira, ipê, pau-brasil, eucalipto, sibipiruna e mais outra espécie. Durante o período de produção, dediquei uma hora a uma hora e meia por dia”, afirma Menezes. A diversidade dos tipos de madeira usadas pelo artista remete a uma simbologia da natureza heterogênea da mulher brasileira, conhecida pela miscigenação.

Algumas das peças, Barbosa precisa lapidar para chegar a forma ideal. Outras, como que por um advento divino, parecem existir para serem encontradas pelo artista que vê beleza e perfeição naquilo que muitos consideram trivial. “Usei folhas de ipê para fazer as lentes dos óculos da mulher grávida”, justifica.

A profusão da sensibilidade artística de Antonio de Menezes Barbosa também é percebida em simples, mas poéticas frases como: “Se você prestar atenção, a madeira sempre olha pra gente.” Independente da interpretação, é inegável que a árvore um dia ceifada transcende, como se ganhasse uma nova vida, sob a criatividade de Barbosa. Exemplo disso é a escultura da personagem feminina que segura uma lamparina. “É pra iluminar os homens. Eles precisam de muita luz”, declara. Com um sorriso bucólico, diz não se considerar artista, mas um catador de galhos e pedras.

“Pedras e galhos sempre dão o formato de alguma coisa”

O ex-caminhoneiro Antonio de Menezes Barbosa encara a criação de esculturas como um passatempo. “Provavelmente vou me dedicar mais quando me aposentar, quem sabe ainda este ano”, informa o artista. Barbosa coleciona pedras do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Pará e Rondônia. “Pedras e galhos sempre dão o formato de alguma coisa. Não desperdiço nada”, declara.

Menezes, que também faz esculturas em arame, já homenageou a filha e a neta, professora e estudante de música, ao criar uma personagem feminina tocando um violino. “Aproveitei até a semente do pau-brasil pra fazer o instrumento”, enfatiza, acrescentando que a peça foi totalmente idealizada antes de começar a criá-la.

A próxima obra de Barbosa será o homem fatiado, talvez a criação de caráter mais subjetivo. “Também quero fazer um médico segurando uma garotinha recém-nascida”, adianta. Com olhos marejados, Antonio de Menezes mostra algumas preciosidades da Segunda Guerra Mundial. São restos de porcelana e azulejos de banheiro que ele guarda como se fossem tesouro, pequenos fragmentos que remetem a um bombardeio em Milão, na Itália.