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Tolstói: “Sentia desejos de visitar os matadouros, para assegurar-me por mim mesmo da essência do problema de que se fala quando se trata do vegetarianismo”

Tolstói: “Sentia desejos de visitar os matadouros, para assegurar-me por mim mesmo da essência do problema de que se fala quando se trata do vegetarianismo” (Foto: Reprodução)
No ensaio “O primeiro Passo“, o escritor russo Liev Tolstói, autor de clássicos como “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”, fala de sua simpatia pelo vegetarianismo enquanto uma filosofia de vida de viés moral. Inclusive narra algumas histórias que o motivaram a tornar-se vegetariano.
Na obra, ele conta que decidiu visitar Tula, ao sul de Moscou, quando falaram-lhe que os matadouros da localidade, seguindo o exemplo das grandes cidades, colocaram em prática um novo sistema, em que os animais sofriam o mínimo possível antes de serem mortos.
À época, o que o motivou a entender como funciona a indústria da exploração animal foi o livro “Ethics of Diet“, do britânico Howard Williams, publicado em 1883.
“Sentia desejos de visitar os matadouros, para assegurar-me por mim mesmo da essência do problema de que se fala quando se trata do vegetarianismo; mas me ocorria algo parecido a o que se nota quando se sabe que se vai experimentar um sofrimento agudo que ninguém pode impedir. Adiava sempre minha visita.
Mas recentemente encontrei no caminho um abatedor que ia a Tula. Era um trabalhador pouco hábil e sua tarefa consistia em amarrar os animais. Perguntei-lhe se não lhe davam pena os bovinos.
— O que obteria com isso? De qualquer forma, tenho que matá-los.
Mas quando lhe disse que não é necessário comer carne, a qual constitui um alimento de luxo, concordou comigo que verdadeiramente era de sentir.
— Mas o que fazer? É preciso ganhar a vida. Antes, temia matar: meu pai não matou jamais nem uma galinha.
De fato, à maioria dos russos lhes repugna matar, sentem piedade, e expressam tal sentimento pela palavra “temor”. Ele também temia, mas deixou de temer, e me explicou que a sexta-feira era o dia de mais trabalho.
Tive recentemente uma conversa com um soldado, açougueiro, que também se admirou ao dizer-lhe eu que era uma lástima matar. Contestou-me que é um costume necessário; mas finalmente, concordou que dá pena, e acrescentou:
— Sobretudo quando o boi se encontra resignado e manso, quando vai ao abate com toda confiança. Sim, inspira muita piedade.
É horrível! Horríveis são, de fato, não os sofrimentos e a morte dos bovinos, mas o fato de que o homem, sem nenhuma necessidade, cale seu sentimento elevado de simpatia por seres vivos como ele, e seja cruel vencendo sua repugnância. Quão profunda é no coração do homem a proibição de matar a um ser vivo!”
“O primeiro Passo” foi escrito originalmente em 1892.
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Tolstói: “O porco gritava de um modo desesperado, com gritos que pareciam humanos”

“Um homem cravou-lhe a faca na garganta. Os grunhidos do porco foram mais fortes e agudos” (Foto: Reprodução)
Entramos numa aldeia, e vimos, com perdão seja dito, um porco engordado, branco rosado, que pegaram em uma casa para matá-lo. O porco gritava de um modo desesperado, com gritos que pareciam humanos. No momento preciso que passávamos por ali, começaram a degolá-lo.
Um homem cravou-lhe a faca na garganta. Os grunhidos do porco foram mais fortes e agudos; o animal escapou, mas o seu sangue escorria. Sou míope, e não vi todos os detalhes da cena: vi unicamente um corpo rosado como o de um homem e ouvi os grunhidos desesperados. O carroceiro observava tudo aquilo sem afastar a vista. Pegaram de volta o porco, o derrubaram e o submeteram.
Quando cessaram seus gritos, o carroceiro lançou um profundo suspiro:
— Como pode Deus permitir isso?
Tal exclamação demonstra o profundo asco que inspira ao homem a matança. Mas o exemplo, o costume da voracidade, a afirmação de que Deus admite tais coisas, fazem com que os homens percam por completa esse sentimento natural.
Liev Tolstói, O Primeiro Passo, página 20, publicado originalmente em 1883, como prefácio de A Ética da Dieta, de Howard Williams.
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Magalhães Lima: “Somarão milhões as folhas em que se encontram os nomes de vegetarianos que foram faróis do seu tempo”
“Desde que a nossa civilização pôde gravar seu rastro na história, a tradição do vegetarismo jamais se interrompe completamente”
Admirador de Liev Tolstói, a quem conheceu quando viajou à Rússia, o escritor português Jaime de Magalhães Lima foi um defensor e pesquisador do vegetarianismo. Ao longo da vida, publicou 30 livros, começando por “Estudos sobre a Literatura Contemporânea”, de 1886.
O encontro com Tolstói foi narrado no livro “Cidades e Paisagens”, de 1889. Inclusive a consciência vegetariana do escritor russo teve grande influência sobre o pensamento do português. “Uma das mais doces e encantadoras recordações da minha vida”, escreveu Magalhães Lima. Amigo do proeminente escritor Eça de Queiroz, com quem trabalhou na “Revista de Portugal”, e também do médico Amílcar de Sousa, para quem produziu muitos artigos publicados na revista “O Vegetariano”, Jaime Magalhães se tornou um importante ativista vegetariano, principalmente a partir de 1912, quando lançou o ensaio “O Vegetarismo e a Moralidade das Raças”.
“Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a terra, dá aos homens com tamanha profusão, prodigamente, se tenha ainda de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só degolando animais seja possível cevar a nossa fome?”, registrou o escritor na página 3 do ensaio, parafraseando o poeta romano Ovídio.
De formação cristã, Jaime Magalhães descobriu uma forma pessoal de espiritualidade. Influenciado pelo panteísmo que também mudou a vida de muitos escritores vegetarianos nos séculos 18 e 19, ele viu na adoração da natureza umas das mais importantes vocações do ser humano. “Percorre montes e vales, preferindo sentir a aspereza dos caminhos a percorrê-los sobre quatro rodas, ele que possui o primeiro automóvel de Aveiro”, consta na página 17 do Boletim Municipal de Aveiro, publicado em 1986.
De acordo com Jaime de Magalhães Lima, o vegetarianismo foi e é uma das características do zênite moral das civilizações, e como tal o aceitaram, proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreendem e mais brilhantemente as serviram.
“Por certo, somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de vegetarianos que foram na história dos povos da Europa, como sinais de sua grandeza, juízes e faróis do seu tempo e dos tempos futuros. E o vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu punhado de fiéis em todos os países que atingiram a sua sensibilidade moral e religiosa, está infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade”, observa o português.
Pitágoras, Percy Shelley, Élisée Reclus e Liev Tolstói foram considerados pelo escritor como arautos do vegetarianismo, que chamaram a atenção de multidões escravizadas pela primitiva animalidade, aviltados em sórdidos prazeres. “Desde que a nossa civilização pôde gravar seu rastro na história, a tradição do vegetarismo jamais se interrompe completamente. Em mais de vinte e cinco séculos, a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à luz de sol erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e fôrça nos subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias ermidas, mas jamais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento de lábios que nela busquem beber a essência do vigor do corpo e do espírito”, defende.
Abordando a busca da superioridade moral elencada pelo filósofo grego Pitágoras, Magalhães Lima menciona que seis séculos antes de Cristo, já existia uma consciência que almejava a pureza moral e a abstinência da carne, assim como de todo o derramamento de sangue. “Não pode restar a menor dúvida de que nas origens da civilização se encontra imposta, como preceito fundamental, a abstinência da carne aos que pretenderem seguir na vida o caminho da dignidade”, declara na obra “Vegetarismo e a Moralidade das Raças”.
Havia em Crotona, um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria pelo ódio que tinha aos tiranos. Tinha com os deuses aturado comércio. O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em grande silêncio o admiravam. Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais: doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe atribuía. Deixai, mortais, dizia, deixai de vos servir de manjares abomináveis: dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes legumes dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. […] Enfim para vós, a terra é pródiga de suas riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem, narra Ovídio.

“Não pode restar a menor dúvida de que nas origens da civilização se encontra imposta, como preceito fundamental, a abstinência da carne” (Foto: Reprodução)
Para Jaime de Magalhães Lima, um dos monumentos da dignidade humana são as obras morais do filósofo grego Plutarco, que versam sobre o vegetarianismo como última forma de legitimidade moral e fisiológica. O português, assim como outros vegetarianos como o médico estadunidense John Harvey Kellogg, também condenava o consumo de álcool, alegando que a bebida afasta o ser humano do seu estado natural. “Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa embriaguez do nosso sangue”, sentencia.
Na ótica do escritor, somente aos animais convêm o consumo de carne. E, mesmo assim, poucos se sustentam dela. “Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as feras, os tigres, os leões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento habitual. […] Que a piedade não seja sacrificada à vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue…”, enfatiza.
Sêneca, o intelectual romano a quem o escritor português admirava, dizia, inspirado em Focion, que o homem precisa reconhecer a sua capacidade de encontrar alimentos sem o derramamento de sangue. Do contrário, a crueldade há de ser mantida como hábito, já que a prática da carnificina passa a ser primeiramente associada ao prazer do apetite.
“Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é natural ao nosso corpo. Se estas máximas [da escola de Pitágoras] são verdadeiras, então nos abstermos da carne dos animais é animar e promover a inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a simplicidade da vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade? Apenas vos privo do alimento dos leões e dos abutres”, cita Magalhães Lima. Depois de mais de um ano de abstinência de alimentos de origem animal, Sêneca disse que não apenas era fácil ser vegetariano, como delicioso. Alegou também que as faculdades do seu espírito se tornaram mais ativas.
É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes demos de comer. Ah! quão pouco dista d’um enorme crime!, transcreve Magalhães Lima, fazendo menção a Ovídio.
Outro argumento que reforça o posicionamento do português em relação à abstenção de carne é o fato de que para ganhar sabor é preciso submetê-la a um processo de transformação. “Qualquer dama de mãos mimosas que trinca com delícia uma costeleta coberta de pão e embalsamada em louro, em cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limão, empalidece de náusea sentindo o cheiro do açougue, considera imundície um pedaço de carne crua nos seus vestidos, e foge mais depressa da praça do peixe do que da montureira que aduba a horta”, critica.
Na perspectiva de Magalhães Lima, na cozinha vegetariana ocorre o oposto. O esmero e a perfeição consiste em conservar inalterável o sabor próprio de cada alimento. “Muitos e muitos [crianças] que seriam incapazes de roubar de qualquer salgadeira um grama de toucinho, não resistem à tentação de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes esteja à mão. Os assaltos às hortas e pomares são frequentes, e de tal forma isso parece estar na ordem natural que grande número dos homens rudes não lhes associe nem de longe a noção do crime. Longos séculos de corrupção da dieta não conseguiram atrofiar essas tentações de uma antiguidade bíblica, as mesmas que desgraçaram Adão e Eva”, compara.
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Jaime de Magalhães Lima nasceu em 15 de outubro de 1859 em Vera Cruz, Aveiro, e faleceu em Eixo, também em Aveiro, em 26 de fevereiro de 1936.
Referências
Lima, Jaime de Magalhães. O Vegetarismo e a Moralidade das Raças (1912). Editora Ônibus Mágico (2015).
Lima, Jaime de Magalhães. Cidades e Paisagens (1912). Biblioteca Digital (2015).
Lima, Jaime de Magalhães. Entre Pastores e nas Serras. Editora Portucel (1986).
Lima, Archer de. Magalhães Lima e a Sua Obra – Notas e Impressões (1911).
Boletim da Aderav, Aveiro, n.º 15 (1986).
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Romain Rolland: “Milhares de animais [atualmente milhões] são assassinados todos os dias, sem sombra de remorso”
“Ele tentava elevar a própria fronte, gemendo como uma criança, balindo e pendendo a língua cinza”

Rolland também dedicou sua vida à defesa dos direitos dos animais e da dieta vegetariana (Foto: Reprodução)
Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1915, o escritor francês Romain Rolland, autor de “Jean-Christophe”, um dos romances mais importantes do século 20, também dedicou sua vida à defesa dos direitos dos animais e da dieta vegetariana. Importante pensador, Rolland influenciou Sigmund Freud e se tornou amigo de Mahatma Gandhi. Em 1922, o alemão Hermann Hesse, também vencedor do Nobel de Literatura, dedicou o livro “Sidarta”, um dos romances mais espiritualistas da literatura mundial, ao seu querido amigo Romain Rolland.
“Milhares [atualmente milhões] de animais são desnecessariamente assassinados todos os dias, sem sombra de remorso. Se alguém fizesse menção a isso, seria considerado ridículo. Por isso esse crime é imperdoável”, escreveu Romain Rolland no romance “Jean-Christophe”, publicado em dez volumes entre os anos de 1904 e 1912. Na obra com viés autobiográfico, o autor francês narra a história de um gênio musical alemão que adotou a França como lar. A partir daí, ele sincretiza suas visões musicais, questões sociais, internacionalismo humanista e direitos dos animais.
“Ele não podia mais suportar ver uma das cenas mais ordinárias que testemunhara centenas de vezes – um bezerro chorando em uma cesta de vime, com seus grandes olhos salientes, seus tufos brancos encaracolados sobre a testa, seu focinho roxo e suas pernas dobradas. Havia um cordeiro com as quatro pernas amarradas sendo transportado por um camponês. Pendurado de cabeça para baixo, ele tentava elevar a própria fronte, gemendo como uma criança, balindo e pendendo a língua cinza. Havia aves amontoadas em uma cesta e podia-se ouvir ao longe os guinchos de um porco sangrando até a morte, além de um peixe a ser limpo em uma cozinha”, registrou Rolland em “Jean-Christophe”.
Em 1886, o que o influenciou a se tornar vegetariano e a adotar um estilo de vida frugal foi a obra “O que devemos fazer”, de Liev Tolstói, em que o escritor russo aborda a miséria, as desigualdades e os índices de mortalidade nas grandes cidades. Tolstói se questionava sobre finalidade do dinheiro e a divisão do trabalho, além de criticar o sistema político vigente. Ao saber que o escritor russo, um tradicional aristocrata, adotou o vegetarianismo e optou por trabalhar com camponeses, Roland enviou-lhe uma carta e obteve uma longa e alentadora resposta.
Mais tarde, inspirado pela filosofia vedanta, e principalmente pelas obras de Swami Vivekananda, um dos responsáveis pela introdução da vedanta e do yoga no Ocidente, Romain Rolland, um jovem exigente e tímido, se empenhou na redescoberta de si mesmo. Embora trabalhasse como professor, não gostava de lecionar. Sua vocação e satisfação maior era a escrita, tanto que em 1912, quando conseguiu garantir uma renda mensal modesta com a literatura, a sua primeira decisão foi pedir demissão do cargo de professor.
Pacifista ao longo de toda a sua vida, Romain Rolland protestou contra a Primeira Guerra Mundial. Quando se mudou para a Suíça, ele escreveu “Au-dessus de la mêlée”, uma crítica à guerra, publicada no Jornal de Genebra em 22 de setembro de 1914. Dez anos depois, lançou seu livro sobre o líder indiano Gandhi, de quem se tornou amigo em 1931, após o primeiro encontro dos dois. Em 1923, Rolland começou a se corresponder com o austríaco Sigmund Freud, criador da psicanálise. Os dois tinham grande admiração um pelo outro, tanto que em uma das cartas, Freud admitiu: “Trocar uma saudação com você continuará a ser uma feliz memória até os meus últimos dias.”
Estudioso do misticismo oriental, Romain apresentou a Sigmund Freud, com quem se correspondeu por mais de 15 anos, o conceito de “sentimento oceânico”, uma impressão de vínculo e comunhão com o mundo, desenvolvido através de suas pesquisas. Mais tarde, o austríaco publicou em 1929 o livro “Civilizações e Seus Descontentes”, que traz logo nas primeiras páginas um debate sobre a origem desse sentimento. Depois de ler a obra “O Futuro de uma Ilusão”, Rolland fez algumas observações que serviriam como premissa para Freud escrever “O Mal-Estar na Civilização”. O escritor francês exerceu influência sobre o austríaco e suas obras até 1939, quando Sigmund Freud faleceu.
Em 1928, Rolland e o filósofo húngaro e pesquisador da vida natural, Edmund Bordeaux Szekely, fundaram a Sociedade Biogênica Internacional com a intenção de expandir suas ideias sobre a integração entre mente, corpo e espírito. A instituição advogava em favor do estilo de vida simples e da alimentação vegetariana.
“As torturas inomináveis que os seres humanos infligem a essas criaturas inocentes fez seu coração doer. Concedendo aos animais um raio de razão, imagine o quanto o mundo pode ser um pesadelo terrível para eles. Um sonho com homens de sangue frio, cegos e surdos cortando suas gargantas, abrindo-as, eviscerando-os, fatiando-os, cozinhando-os vivos e às vezes rindo da forma como eles se contorcem de agonia. Existe algo mais atroz entre os canibais da África?”, escreveu Romain Rolland em “Jean-Christophe”.
O escritor francês foi uma das principais inspirações da ativista canadense Anita Krainc, co-fundadora do movimento vegano Toronto Pig Save, que em 22 de junho de 2015 foi presa após dar água a porcos confinados em um caminhão a caminho de um matadouro na Grande Toronto.
Romain Rolland e a internacionalização do humanismo
Nascido em Clamecy, Nièvre, em 29 de janeiro de 1866, o escritor francês veio de uma família diversificada, formada por grandes investidores da área urbana e pequenos agricultores. Na Escola Normal Superior de Paris, Romain Rolland estudou filosofia, mas desistiu porque não gostou do viés ideológico e impositivo do curso. Por isso optou por se graduar em história.
Em 1889, se mudou para Roma, onde viveu dois anos e se tornou amigo da escritora alemã Malwida von Meysenbug, amiga do filósofo Friedrich Nietzshe e do compositor Richard Wagner. As ideias de Rolland, aliadas aos ensinamentos de Liev Tolstói e as lições de Malwida, moldaram sua visão política e humanitária, internacionalizando suas ideias.
De volta à França em 1894, Rolland obteve seu título de doutorado com a tese “A Origem do Teatro Lírico Moderno – A História da Ópera antes de Lully e Scarlatti”. Ao longo de 20 anos, lecionou em vários liceus de Paris, até que foi nomeado diretor de educação musical da Escola de Estudos Sociais Avançados entre os anos de 1902 e 1911. Em 1903, também assumiu a primeira cadeira de história da música da Sorbonne.
Seu primeiro livro foi publicado em 1902, aos 36 anos, quando ele estudava o teatro popular e defendia a democratização do teatro. No ensaio “Le Théâtre du peuple”, publicado em 1913, Romain Rolland diz que o palco e o auditório devem sem abertos para as massas. “Precisamos que o teatro seja assistido pelo povo, mas antes temos que criar algo que seja voltado para eles”, sugeriu.
Como humanista, também abraçou o trabalho dos filósofos da Índia. Muitas de suas pesquisas foram registradas oralmente, através de conversas com Rabindranath Tagore e Mahatma Gandhi. Místico, Rolland enxergava a si mesmo como alguém com uma ancestralidade muito curiosa, e isto o inspirou a escrever a novela Colas Breugnon, publicada em 1919. Em seguida, vieram “Clérambault” e “Pierre et Luce”, de 1920; além do seu segundo romance de sete volumes – “L’âme Enchantée”, escrito entre os anos de 1922 e 1933.
Na primavera de 1919, o francês convidou o escritor irlandês George Bernard Shaw, também vegetariano e pacifista, para assinar uma petição em favor da paz. Rolland também se correspondeu com Albert Einstein, e juntos fundaram um comitê antifascista. Em 1920, o escritor francês retomou seus estudos sobre a filosofia mística da Ásia, especialmente da Índia, o que rendeu uma biografia sobre Gandhi, publicada em 1924.
Dois anos depois, ele se aprofundou nos estudos sobre o yoga e lançou as biografias dos gurus Vivikananda e Ramakrishina. Em 1932, ingressou no Comitê Mundial Contra a Guerra e o Fascismo, organizado por Willi Münzenberg. Depois se mudou para Villeneuve, às margens do Lago Genebra, no cantão de Vaud, e se entregou ainda mais à escrita.
Em 1935, Romain Rolland viajou para Moscou, a convite do escritor russo e também vegetariano Maxim Gorky. Como um tipo de embaixador dos artistas franceses na União Soviética, ele tentou convencer Josef Stalin a parar com a repressão contra seus opositores. Chegou a pedir clemência para o escritor anarquista Vicor Serge. Em 1937, Rolland retornou para Vézelay, uma comuna francesa da Borgonha, ocupada pelos nazistas em 1940. Se isolou e seguiu produzindo em ritmo intenso, até que faleceu em 30 de dezembro de 1944.
Saiba Mais
Em 1966, a União Soviética lançou um selo comemorativo no centenário de nascimento de Romain Rolland. A homenagem foi justificada como um tributo aos nobres ideais de sua produção literária, e ao amor e a simpatia com a qual ele descreveu os mais diferentes seres vivos.
Romain Rolland também escreveu biografias sobre Beethoven, publicada em 1903; Hugo Wolf, em 1905; Michel-Angelo, em 1906; e Tolstói, em 1911.
Seu grande amigo, o escritor austríaco Stefan Zweig lançou a biografia “Romain Rolland – The Man and his Work” em 1921.
Frase célebre de Romain Rolland
“O pessimismo da inteligência não deve abalar o otimismo da vontade.”
Referências
Rolland, Romain. Jean-Christophe (1904-1912). Editora Globo (1986).
Zweig, Stefan. Romain Rolland – The Man and his Work (1921). Disponível em archive.org.
Cruickshank, John. Rolland, Romain. The Penguin Companion to Literature 2: European Literature. Harmondsworth: Penguin (1969).
Parsons, William B. The Enigma of the Oceanic Feeling: Revisioning the Psychoanalytic Theory of Mysticism. Nova York. Oxford University Press (1999).
Bradby, David. Rolland, Romain. The Cambridge Guide to Theatre. Cambridge University Press (1998).
Gogol e o seu abismo privado
“Gogol se tornou o maior artista da Rússia quando assumiu quem era em seu abismo privado”
No dia 4 de março de 1852, Nikolai Gogol faleceu aos 42 anos em Moscou, na Rússia. Seu estilo único o tornou famoso por histórias como O Nariz, publicada em 1832, e O Capote, de 1842, além da peça O Inspetor Geral, de 1836, e a novela Almas Mortas, também de 1842, em que o escritor mistura o cômico, o absurdo e o trágico, inspirado pela obra A Divina Comédia, de Dante Alighieri.
Mesmo com o sucesso, Gogol nunca alcançou suas ambições literárias. Ele se sentia extremamente atraído pelo universo criado por Dante e pelo legado literário da Renascença. Quando terminou Almas Mortas, frustrou-se porque só conseguiu criar o Inferno, sem o Purgatório e o Paraíso. O segundo volume da sua novela viria dar continuidade a esse trabalho, mas ele abandonou a obra.
Considerado o Hieronymus Bosch da literatura russa, um dia Gogol conheceu Catherine, irmã do poeta Nikolai Yazykov, na casa de seu amigo o conde Alexander Tolstói. O escritor criou um laço de afinidade com a moça de 35 anos que morreu precocemente de tifo em janeiro de 1852, três dias após contrair a doença.
Devastado com a morte de Catherine, Nikolai Gogol começou a temer a própria mortalidade e se afundou em uma severa depressão. Percebendo a vulnerabilidade do escritor, um padre ultraortodoxo chamado Matvei Konstantinovsky o convenceu de que a única salvação seria se voltar para a religião. E mais, declarou que jejuar, orar e ler sobre a vida dos santos não era o suficiente para um bom cristão. Ele precisaria renunciar à sua escrita qualificada pelo sacerdote como “vangloriosa” e “profana”.
O escritor seguiu a recomendação e queimou todos os seus trabalhos em sua casa na Avenida Nikitsky, em Moscou, incluindo manuscritos da sequência de Almas Mortas, um trabalho que exigiu anos de dedicação. Na mesma época, Gogol participou do tradicional Banquete de Maslenitsa, que precede a quaresma ortodoxa, quando os russos ortodoxos se empanturram de comida, principalmente derivados lácteos. Como ele era obcecado por comida, o jejum que o sacerdote o obrigou a fazer depois foi tão radical que sua saúde física e mental ficou rapidamente debilitada.

Escritor foi convencido por um padre de que jejuar, orar e ler sobre a vida dos santos não era o suficiente para um bom cristão (Arte: Reprodução)
Nas últimas horas de vida, alguns médicos tentaram salvá-lo com técnicas de hipnose. Também deram-lhe banhos quentes enquanto derramavam água gelada sobre sua cabeça e depois o banharam em água gelada e o deitaram em uma cama coberta por pães quentes. Foi tudo em vão. Gogol simplesmente pediu que o deixassem morrer em paz.
Quando golpeou as sanguessugas aplicadas em seu nariz e que tentaram entrar em sua boca, ele teve de ser contido. Naquele momento a morte o levou. Nikolai Gogol parecia tão frágil que sua coluna vertebral podia ser vista através de seu estômago.
Quando Dostoiévski elogiou Gogol
Apesar de tudo a grande reputação de Nikolai Gogol como pai do realismo russo foi estabelecida. Inclusive uma frase do russo Fiódor Dostoiévski corrobora esse fato: “Eu e meus contemporâneos saímos debaixo do capote de Gogol.” Segundo Vladimir Nabokov, o estável Pushkin, o prosaico Tolstói e o contido Chekhov tiveram seus momentos de claridade irracional, mas felizmente Gogol se tornou o maior artista da Rússia quando assumiu quem realmente era em seu abismo privado.
Em O Nariz, a história mais famosa de Nikolai Gogol, um barbeiro decide tomar o seu café da manhã. Quando corta o pão, ele percebe que lá dentro há um nariz que pertence ao seu cliente M. Kovaliov. Escandalizada, a esposa do barbeiro o acusa de assassinato. Enquanto o homem assustado tenta se livrar do nariz, o burguês sai pelas ruas de São Petersburgo procurando o próprio órgão.
Em 2002, São Petersburgo amanheceu sem o Hoc mais famoso da cidade. Como se a vida imitasse a arte, a escultura O Nariz, de Vyacheslav Bukhayev, criada em homenagem ao conto de Nikolai Gogol, havia sido furtada. Bem-humorado, o escultor que a concebeu em 1994 disse o seguinte: “Parece que o nariz saiu para dar uma volta.”
Curiosidade
Diz a lenda que Gogol era paranoico e propenso a longos períodos de letargia, por isso temia tanto ser enterrado vivo. Entre seus amigos e conhecidos circulava um rumor de que o escritor queria que seu caixão tivesse um furo para que ele pudesse balançar uma corda que tocaria um sino, assim avisando a todos que ele não estava morto.
Saiba Mais
Nikolai Gogol nasceu em 1º de abril de 1809 e faleceu em 4 de março de 1852. Seu corpo foi enterrado no Cemitério de Danilov.
Até hoje, russos e ucranianos reivindicam a nacionalidade do escritor, levando em conta que ele nasceu em Velyki Sorochyntsi, no Império Russo, e atual cidade de Poltava, na Ucrânia, que à época já era habitada por ucranianos.
Entre as melhores obras de Nikolai Gogol estão “O Nariz”, “O Capote”, “Almas Mortas”, “O Inspetor Geral” e “Diário de Um Louco”.
Fragmento de O Nariz, publicado em 1832
Respeitador dos bons modos, Ivan Yakovlévitch vestiu seu casaco sobre a camisa e se preparou para o desjejum. Colocou à sua frente uma pitada de sal, limpou duas cebolas, pegou sua faca e, com uma expressão grave, cortou o pão em dois.
Percebeu então, para sua grande surpresa, um objeto esbranquiçado exatamente no meio do pão. Cutucou-o cuidadosamente com a faca, apalpou-o com o dedo… “Que poderá ser isso?”, perguntou-se sentindo a resistência.
Meteu então os dedos dentro do pão e dali retirou… um nariz! Seus braços despencaram. Ele esfregou os olhos, apalpou novamente o objeto: um nariz, era de fato um nariz, tratava-se até mesmo de um nariz de suas relações! O pavor tomou conta das feições de Ivan Yakovlévitch.
Mas este pavor não era nada comparado à indignação que se apoderou de sua respeitável esposa. “Onde foste capaz de cortar este nariz, sujeito desastrado!, exclamou ela. Beberrão! Ladrão! Patife! Vou em seguida te denunciar à polícia, seu bandido! Já ouvi três pessoas dizendo que, ao lhes fazer a barba, puxas o nariz das pessoas quase a ponto de arrancá-lo!”
Entretanto, Ivan Yakovlévitch estava mais morto do que vivo: acabara de reconhecer o nariz de M. Kovaliov, assessor do juiz do colegiado eleitoral, que tivera a honra de barbear na quarta e no domingo.
Referências
http://www.todayinliterature.com
Delgado, Yolanda. The final days of russian writers: Nikolai Gogol and Anton Chekhov. Russia Beyond The Headlines. 5 de junho de 2014.
Aris, Ben. Police on the scent of nose statue gang. The Telegraph. 4 de outubro de 2002.
Peace, Richard. The Enigma of Gogol: An Examination of the Writings of N. V. Gogol and Their Place in the Russian Literary Tradition. Cambridge University Press (2009).
Maguire, Robert. Gogol from the Twentieth Century: Eleven Essays. Princeton University Press (1997).
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