Archive for February, 2017
O leite de clemência
” Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz”

Pintura “Milk”, da artista vegana Dana Ellyn
Como fazia todos os dias, Eugênio acordou bem cedo no sábado para ordenhar Filomena, uma vaca baixinha que aprendeu, por força do tempo, a aceitar o seu próprio destino – servir como fonte de renda para um produtor rural.
Eugênio já não amarrava mais a corda no pescoço de Filomena, porque há mais de um ano ela sabia o que precisava ser feito. Sempre que o galo cantava sobre uma guarita que antes serviu como morada para um João-de-Barro, ela se levantava e caminhava em direção à porteira do pequeno curral.
Ficava imóvel, com olhos baixos e orelhas deitadas, às vezes esfregando suavemente os cascos na terra, esperando a chegada do patrão. Eugênio sabia que era hora da ordenha, não apenas por causa da balbúrdia do galo, mas também porque o sino no pescoço de Filomena revelava que ela estava pronta para o serviço.
“Bora tirar esse leite das tetas, Filó!”, dizia Eugênio diariamente e sorridente, sem titubear. A vaca não reagia. Só vez ou outra que emitia gemido prolongado e langoroso que ninguém entendia, nem Marcolino, o único médico veterinário do povoado. “Deve ser falta de algum nutriente. Vamos incrementar a alimentação dela”, sugeriu numa manhã árida de chão tão tracejado que quem via de longe pensava que estava diante de um mapa.
Um dia, Filomena parou de produzir leite e ninguém entendeu o motivo. Ela era considerada um dos animais mais saudáveis e invejados da colônia, ajudando a garantir não apenas o sustento da família de Eugênio, como também a alimentação de seus dois filhos.
— Que diabos eu vou fazer agora?
— Chame Seu Marcolino de novo, pai…
— Ah! Mas já faz mais de uma semana que a danada não dá nem uma caneca de leite, e o mais estranho de tudo é que ela tá com as tetas cheias.
— Chame o homem, pai! Ele vai saber o que fazer.
— Não sei se compensa, o tratamento deve ser caro.
— Não custa ver se vale a pena.
Seguindo a recomendação do filho, Eugênio chamou Marcolino. Ao contrário do que ele imaginava, o homem disse que não havia nada que pudesse ser feito, a não ser esperar. “Essa vaca é saudável. Não tem problema nenhum. Deve ser só teimosia, só que uma teimosia que nunca vi igual. Geniosa essa vaca, mais do que o senhor”, ironizou o veterinário às gargalhadas.
Na segunda semana, Filomena não permitiu que nenhuma gota fosse extraída de seus úberes. Simplesmente não saía nada durante a tentativa de ordenha. Quando Eugênio massageava o volume, ele berrava enraivecido ao sentir o leite no interior do animal. Estava fora do alcance do seu balde de lata.
— Eu que te criei, sua lazarenta. Como você faz isso comigo?
— Só não te bato aqui agora por consideração – ameaçou com a mão direita levantada em posição de golpe.
A vaca inclinou a cabeça em direção ao solo arenoso e ignorou a ameaça, como se entendesse, embora não se importasse. Ela parou de produzir leite quando seu último filho desapareceu, vendido para um matadouro onde foi reduzido à carne de vitela. Eugênio não queria o bezerro disputando o leite que “deveria ser somente dele e de seus filhos”.
— Eu que alimento a infeliz, então tudo que ela oferece me pertence.
Na terceira semana, o galo não cantou e Filomena não se levantou. Encolerizado, Eugênio correu até o galo e o derrubou de cima da guarita com um tapa certeiro nas ventas. O bicho se apressou em direção aos pinheirais e, miúdo, desapareceu sob o matagal.
Depois foi a vez de Filomena ser punida. Ele amarrou uma corda no pescoço da vaca e tentou arrastá-la para o centro do curral. Ela resistiu. Não queria sair de jeito nenhum. Com a ajuda dos dois filhos, Eugênio a deitou sobre a areia branca e pediu que Matias, o mais velho, buscasse um machado pendurado no fundo do celeiro.
O rapaz correu e voltou empunhando a ferramenta. Quando Eugênio ameaçou dar o primeiro golpe, a vaca gemeu e se contorceu na terra, levantando, com os cascos, uma cortina tão densa de poeira que ele e os filhos engasgaram. Logo a vaca cansou, e a poeira se dissipou. Havia sangue no chão, colorindo os riscos no solo, que ganhavam formas de vasos sanguíneos. Tão opaco quanto vívido, o líquido vermelho jorrava das tetas de Filomena.
Com o corpo exalando odor acre de terra e sangue, ela observou assustada os três. Mesmo com olhos fumegantes e muita vontade de extravasar a fúria que o dominava, Eugênio desistiu de matá-la naquele dia. Entrou em casa acompanhado dos dois filhos que não ousaram dizer palavra. “Se ela não der leite nos próximos dias, a gente mata”, avisou com voz oca e pertinaz. Matias e Mateus balançaram a cabeça em concordância, sem arriscar comentário.
Ao anoitecer, João dos Cascos, um dos primeiros sitiantes do Noroeste do Paraná, visitou a família e perguntou se Eugênio não queria vender Filomena. Ofereceu inclusive a sua propriedade, sua única fonte de renda, em troca da vaca. Achando aquilo um absurdo, Eugênio declinou a proposta.
— Não sei qual é a sua intenção com essa oferta descabida, mas saiba que Filomena não está à venda. É herança de família.
— O senhor me perdoe a intromissão. É que preciso de uma vaca como a sua.
— Essa tá doente e não vai ter serventia nenhuma pro senhor.
— Não tem problema. Me viro do meu jeito.
— Não adianta, não quero e não vou vender. Retire-se! Vá daqui!
Na quarta semana, assim que Eugênio acordou, ele viu através da janela o galo cantando. Filomena mantinha a cabeça escorada em uma das tábuas da porteira, e o sininho vibrava preso ao pescoço. Diante de suas patas, havia três baldes de leite, um leite diferente, singular, como ninguém daquela casa jamais experimentou.
— Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz. Me perdoe por tudo que fiz. Por favor, aceite minhas desculpas.
A vaca não reagiu. Somente o observou, recuou e deitou em um canto onde o sol matutino aquecia uma porção de sua pele branca como o leite que Eugênio consumiu. Por três anos, todos os dias no mesmo horário, Eugênio, Matias ou Mateus recolheram os três baldes de leite. Até que noutra manhã, Filomena não levantou e o galo não cantou. Não havia leite nem balde. Só um animal que parecia preparado para encarar o destino. “Sem leite, sem vida”.
Antes do pôr do sol, Eugênio retornou com o machado. Absorto em ódio, cuspiu um naco de fumo em um pedaço de pasto e ignorou tudo à sua volta, mirando uma vaca teimosa “que já não merecia viver, não merecia sua compaixão”. Rodeou o animal e fez um círculo no chão com a lâmina, demarcando a área do abate. Antecipando o primeiro golpe, Filomena fechou os olhos e deitou a cabeça na grama, alongando o pescoço, talvez prevendo a própria decapitação. Eugênio estava tão furioso que, com mãos trêmulas, errou o primeiro golpe.
No mesmo instante, um rapaz bateu palmas na entrada do sítio, alegando que tinha uma entrega. Eugênio se aproximou com olhar suspeitoso e cumprimentou o jovem que se apresentou como Bernardo.
— Vim trazer uma carta ditada pelo meu pai João dos Cascos e uma garrafa de leite. Ele faleceu ontem, mas antes me fez prometer que eu viria visitá-lo.
Bernardo abriu a garrafa, tirou um copinho da mochila e insistiu que o homem experimentasse.
— É coisa boa, o senhor não se preocupe.
Eugênio tomou tudo em um gole. Assustado e boquiaberto, deixou o copinho cair de sua mão, se chocando contra o chão.
— Onde você conseguiu isso?
— Meu pai que inventou. É leite de clemência. Uma receita familiar. Não vem de bicho nenhum, vem da santidade da natureza que da gente exige muito pouco. O senhor gostou?
— Sim…é muito bom.
Quando abriu a carta, Eugênio viu que havia uma receita com todos os detalhes do preparo do leite de clemência, além de algumas observações e um pedido:
— Durante três anos, o senhor achou que seus filhos estavam ordenhando a Filomena, e eles pensavam o mesmo do senhor. E nenhum de vocês percebeu que aquele leite não era de vaca. O senhor sabe por que? Porque vocês precisavam do leite de clemência mais do que daquilo que julgavam mais importante. O que parecia essencial era somente distração. E aquele, meu senhor, era o único leite que todo ser humano deveria beber depois do desmame. Não, ele não é igual ao leite de vaca. É bem diferente. E quando pensamos que sim, é porque já não somos quem éramos. Sei também que o senhor se desfez de quase todos os animais de seu sítio, mantendo somente o galo e a vaca Filomena, que um dia ganhou de sua esposa, e em quem o senhor projetou a sua desilusão quando foi abandonado por sua mulher. Saiba que aquela a quem chama ‘carinhosamente’ de Filó, assim como todos os animais, tem sua própria vida e dor. Ou o senhor pensou na vaca quando mandou os filhos dela para o matadouro? Como exigir que um animal não reaja diante do sofrimento dos seus? Eles não falam, mas seus corpos sim. Diante disso, faço-lhe duas sugestões. Que o senhor aceite minha receita e liberte Filomena ou devolva a carta ao meu filho e entregue-se aos enganosos prazeres da soberba.
Eugênio levantou os olhos, deu uma olhadela em Filomena e mirou seriamente Bernardo. Sem dizer nada, caminhou até o curral com olhos marejados e balbuciou:
— Que um dia você me perdoe, ou não, porque aquele que vive para si mesmo pode ser que não viva para mais ninguém.
Amuada em um canto, Filó se levantou e seguiu em direção a Bernardo, acompanhada pelo galo. Quando a porteira se abriu, o último desejo se cumpriu.
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Raj Singh Tattal: “Quem come carne está desconectado dos animais”
Pentacularartist, um artista britânico contra a naturalização da exploração animal

“The Silence of the Lambs”
Aos 38 anos, o britânico Raj Singh Tattal foi diagnosticado com Síndrome de Asperger, o que o ajudou a entender porque ele se tornava tão obsessivo quando se dedicava a alguma atividade. Embora desenhasse desde criança, quando descobriu o transtorno do espectro autista fazia 11 anos que ele tinha deixado o lápis de lado. Vegano, Tattal retomou o seu trabalho como desenhista na mesma época e, entre suas prioridades, decidiu usar a arte para fazer as pessoas refletirem sobre a crueldade contra os animais.
Para o artista, quem come carne está desconectado dos animais. “Me incomoda a maneira como os animais do campo são tratados e alimentados. Cordeiros são amados pelas crianças, mas também são mortos para o consumo humano. Há tantos adultos quanto crianças que não veem problemas nisso. E um filme que mostra essa estranha relação é ‘The Silence of the Lambs’ [O Silêncio dos Inocentes’ no Brasil]”, diz Raj Singh, também conhecido como Pentacularartist.
Ele se refere à cena em que Jodie Foster relembra a infância, quando estava em uma fazenda testemunhando a matança dos cordeirinhos que ela tanto amava. Aquela passagem cinematográfica teve tanto impacto sobre Tattal que ele criou uma obra homônima. “Foi um dos meus desenhos mais difíceis, não só a nível técnico, mas também emocional. Levei 95 horas e dez dias para criá-lo”, relata.
A intenção do artista foi transmitir a relação perturbadora entre seres humanos e animais. Quando crianças, eles amam brincar com os animais, mas quando crescem aceitam a exploração como se fosse uma parte natural da vida. “[Na obra] Os adultos que esfolam os cordeiros são supostamente as crianças que estão brincando com eles. A diferença é que elas cresceram. Cordeiros são animais amados por crianças e adultos porque são vistos como dóceis e belos. Mas isso não impede que eles tenham uma existência curta e horrível”, lamenta.
A obra feita em grafite e carvão foi a primeira da sua série sobre crueldade contra animais. Também é uma crítica ao fato de que muitos pais gostam de levar seus filhos para brincar com animais, mas não dizem a eles que aqueles belos e inocentes seres não humanos são reduzidos a pedaços de carne sobre um prato. “Espero que meu trabalho faça as pessoas pensarem sobre o que estão comendo”, enfatiza o desenhista.
Raj Singh Tattal se queixa que assim que os cordeiros chegam ao princípio da maturidade, já são preparados para a morte. “A carne de cordeiro de 12 a 20 meses é chamada de carne de um ano. A carne das ovelhas de seis a dez meses é vendida como baby lamb [carne de cordeiro bebê], e spring lamb [cordeiro primavera] são aqueles com três a cinco meses de idade. Fiquei chocado quando testemunhei corações de cordeiro vendidos em um supermercado local”, revela.
Raj Singh espera que as pessoas olhem para a sua arte e reflitam sobre o que elas estão promovendo quando estão comprando e comendo carne. Para ele, o sofrimento diário imposto a milhões de animais é um dos piores atos de maldade da humanidade. “Sou um artista londrino que trabalha com lápis de grafite e carvão, que se especializou em criar obras realistas em preto e branco. Embora eu ame todas as formas de arte, sigo pelo caminho da arte hiper-realista. E isso me inspirou a seguir os passos de artistas como Kelvin Okafor, Paul Cadden e outros. Estou em minha própria jornada para tornar realidade a minha meta de ser um artista hiper-realista”, assinala.

“End of the Road”
Na obra “End of the Road”, o Pentacularartist transmite a mensagem de que o homem só é capaz de entender a dor de um animal ao se colocar no lugar dele. “Não vou dizer o que sinto, mas deixarei que os outros interpretem”, sugere o reservado e enigmático Tattal. Obras que outras pessoas precisariam de pelo menos um mês, o artista londrino é capaz de concluir em apenas quatro dias. A explicação é que ele é um sujeito que passa até 95% do tempo consigo mesmo.
“Realmente não gosto de mudanças. Fiquei até 12 anos sem sair de Londres. Tenho os mesmos pares de tênis, e já comi feijões cozidos todos os dias por 20 anos. Algumas dessas coisas soam muito triviais, mas com o tempo isso começa a irritar as pessoas ao seu redor. No passado, comecei a beber para tentar me encaixar entre as pessoas e fazer amigos. Mas hoje não bebo, só desenho, e nunca fui tão feliz”, garante.
Embora suas obras mostrem verdades sombrias e desconfortáveis, ele não se considera uma pessoa mórbida, mas sim alguém que extrai algo de bom e motivador a partir do que é triste. “Todos os meus trabalhos são em preto e branco, e baseados em grafite e carvão. ‘Beauty and the Beast’, é o terceiro desenho da minha série sobre crueldade contra animais. Levei 100 horas e 13 dias para terminar. Foi um dos mais demorados e difíceis que fiz até hoje”, pontua.

“The Beauty and the Beast”
Uma crítica aos testes em animais realizados na indústria cosmética, a obra coloca uma mulher na mesma situação de coelhos usados como cobaias. Embora a prática tenha sido banida na Inglaterra em 1998, Raj Singh reclama que os testes ainda são usuais em outros países. “A União Europeia tem caminhado para a proibição de testes desde março de 2009. E desde 2012, é ilegal a venda de produtos cosméticos com ingredientes recentemente testados em animais. Embora seja encorajador que vários países fora da UE também estejam tentando adotar proibições semelhantes, isso é muito comum em países como China e Estados Unidos [assim como no Brasil]”, critica.
Entre os animais mais explorados em testes de produtos estão camundongos, coelhos, porquinhos-da-índia, macacos e gatos. Testes de irritabilidade na pele são os mais comuns. Geralmente os compostos químicos são esfregados sobre a pele raspada, ou então os técnicos pingam o produto nos olhos dos animais. Coelhos confinados em pequenas caixas são mantidos com as cabeças expostas, sem qualquer possibilidade de alívio para a dor. “Eles sofrem graves lesões, chegando à cegueira. São vítimas de estudos contínuos de alimentação forçada com duração de semanas ou meses para procurar sinais de doença ou riscos específicos para a saúde, como câncer e problemas congênitos.”

Tattal em uma de suas exposições em Londres (Acervo: The Pentacularartist)
De acordo com Tattal, ao final dos testes até mesmo os animais que sobrevivem são mortos. Os métodos mais comuns são asfixia, destroncamento ou decapitação. Não há nenhum tipo de anestesia. “Nos Estados Unidos, uma grande porcentagem de animais usados em testes não entra nas estatísticas oficiais nem recebem proteção da Lei de Bem-Estar Animal”, reprova o Pentacularartist. Por outro lado, ele acredita que está crescendo o número de testes sem animais na indústria cosmética, até porque, hoje, mais do que nunca, é injustificável o uso de seres não humanos com essa finalidade.
“Eu costumava achar que eu era um fracassado”
Além de desenhar, Raj Singh Tattal participa de um grupo de apoio para pessoas com Síndrome de Asperger em Londres. “Eu costumava achar que eu era um fracassado. Há pessoas que fazem você se sentir como se fosse uma má pessoa porque você não faz certas coisas. Indo ao grupo de apoio, você vê pessoas na mesma situação que você, e percebe que são boas pessoas. É reconfortante falar com alguém. Eles podem dar conselhos e ajudá-lo”, defende.
Na adolescência, Tattal se apaixonou por ilustrações em quadrinhos. Aos 15 anos, criou o seu próprio super-herói que ganhou espaço em um jornal britânico de circulação nacional. Depois estudou arte e design, e, na faixa dos 20 anos, foi para a London South Bank University. Se graduou em design de produtos, mas por causa de problemas pessoais parou de desenhar por 11 anos.
“Fiquei longe da arte. Em novembro de 2012, a descoberta da Síndrome de Asperger despertou em mim um impulso incontrolável e voltei a desenhar. Peguei meus lápis e minhas canetas, comecei a desenhar e nunca mais pensei em parar novamente. Minha paixão e amor pela arte estão mais fortes do que nunca”, assegura.
Conheça um pouco mais o trabalho de Raj Singh Tattal
http://pentacularartist.wixsite.com/pentacularartist
https://www.facebook.com/Raj-Singh-Tattal-the-Pentacularartist-757948990886082/
https://www.instagram.com/pentacularartist/
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Vegan Sidekick: “Se você ama os animais, como pode comê-los?”
“Devemos nos mover em direção ao futuro, sermos mais compassivos e menos violentos”

Crítica de Vegan Sidekick ao especismo
Richard, mais conhecido como Vegan Sidekick, é um ilustrador e designer gráfico britânico que em abril de 2013 criou uma página para promover o veganismo e os direitos animais por meio de ilustrações e quadrinhos cômicos, ácidos e satíricos. A princípio, ele não tinha a mínima ideia de que um dia o seu trabalho influenciaria milhares de pessoas.
Ele conta que foi um vegano apático por muito tempo, e como nenhum dos seus amigos ou familiares demonstrou interesse pelo veganismo, ele decidiu pensar em um meio de motivar as pessoas a refletirem sobre o assunto. “Embora eu não prejudicasse os animais, eu não estava ativamente ajudando. Senti que poderia fazer algo, mas queria me focar na lógica da não violência”, relata.
Um dia, nos tempos da faculdade, Richard estava comprando leite e queijo, e começou a refletir em como aquilo era desnecessário. Havia tantas opções ao seu redor que se sentiu mal por comprar exatamente aqueles produtos baseados na exploração de animais. “Então parei de comprá-los. Até então, eu nunca tinha conhecido um vegano, e eu não sabia que os machos [bezerros e pintinhos] morrem na indústria de ovos e laticínios, e que as fêmeas são mortas quando sua produção é menos lucrativa. Hoje em dia, é o que digo aos vegetarianos, e eles não devem apoiar isso”, argumenta.

Muro de desculpas
Vegan Sidekick, que vê o veganismo como uma extensão do raciocínio lógico, gosta de criar imagens com elementos propositalmente mal desenhados, tornando suas criações ainda mais engraçadas e acessíveis. “A maioria das pessoas nem sabe que sou ilustrador, mas acho que a forma como meus desenhos são elaborados já revela que o conteúdo é satírico. Decidi ir por esse caminho quando criei um stickman [boneco palito], e ele se tornou mais popular do que tudo que eu tinha feito. Então continuei”, justifica.
Nos finais de semana, Richard cria pelo menos sete imagens, assim publicando uma por dia em sua página no Facebook e em seu site. Mas o ritmo de produção também pode variar, se surgirem muitas novas ideias. “Não tenho uma rotina com regras muito rígidas. Tenho apenas um bloco de notas em que mantenho uma lista de ideias que são inspiradas nos absurdos que leio na internet [sobre veganismo]. Há comentários que são tão incômodos que não consigo acompanhar por muito tempo sem contra-argumentar. Então, para não perder tempo, às vezes prefiro ignorar o que acontece ficando offline”, pondera.

Sátira a quem chama veganos de extremistas
Os quadrinhos e as ilustrações de Vegan Sidekick são autoexplicativos e bem diretos, direcionados para um público composto por pessoas das mais diferentes faixas etárias. Naturalmente, o britânico também se depara com críticas negativas, que revelam uma contrariedade intransigente. “Espero fazer as pessoas rirem, mas o humor é muito subjetivo. Então só posso dar o meu melhor e esperar que as pessoas façam a ligação com as imagens em vez de se focarem em sentirem-se ofendidas”, declara.
Para lidar com perguntas clichês ou questionamentos triviais, Richard criou um guia e o compartilhou em sua página no Facebook e em seu site para que as pessoas evitem repetir perguntas, sejam elas entusiastas do veganismo ou principalmente pessoas à toa, simplesmente dedicando tempo a atacar veganos e simpatizantes. “Quando minha página cresceu em popularidade, apareceram pessoas tentando justificar o abuso animal. Também criei o guia porque, francamente, ainda há muitos veganos que não são bons em defender seus pontos de vista. Pelo menos é o que vejo na internet”, avalia.

“Quero comer suas pernas.” “Prefiro comer esta banana” – Veganos são tão estranhos
Vegan Sidekick reconhece que há dias em que se vê como alguém irônico demais ou até mesmo estoico, e em situações como essa há pessoas que tentam atingi-lo enviando muitas mensagens ásperas de contrariedade. “Se alguém repete as mesmas justificativas [contra o veganismo] inúmeras vezes, isso significa que estão apenas buscando briga, fazendo com que se sintam melhores. Então tento manter a calma e evito insultar. Há sete bilhões de nós no planeta, então se uma pessoa tapa seus ouvidos com as mãos, encontre alguém que não faça isso”, sugere.
Por outro lado, ele também recebe muitas mensagens positivas, de pessoas dizendo que suas imagens mudaram suas mentes. Esse tipo de retorno é visto como a maior recompensa, porque, segundo Richard, suas conquistas já ultrapassaram suas expectativas. “Nunca vou me acostumar com o fato de que há muitas pessoas que me têm em tão grande estima por causa do meu trabalho”, pontua.
Entre as imagens preferidas de Vegan Sidekick está uma em que um vegano tenta romper o muro de desculpas, rotineiramente usado por pessoas que criticam o veganismo porque não querem sair de suas zonas de conforto. “Estamos em uma sociedade em que muita gente prefere apenas dizer que ‘as coisas são assim’. Dê um passo para fora e veja suas opções, e você vai perceber que a exploração de animais é completamente injustificada. Devemos nos mover em direção ao futuro, sermos mais compassivos e menos violentos. Explorar vítimas inocentes por um prazer trivial não deve fazer parte disso”, desabafa.

Escolha pessoal – “Hum, devo vestir a calça azul ou a preta?” Não é uma escolha pessoal – “Hum, eu deveria esfaquear este animal ou comer outra coisa?”
Mesmo ciente de que tem ajudado a transformar a vida de muitas pessoas, Richard diz com modéstia que não sabe se seu trabalho pode ser considerado ativismo. No entanto, desde o início ele já se sentia em uma missão e não conseguia evitar de fazer questionamentos confrontadores como: “Se você ama os animais, como pode comê-los? Então recebia respostas do tipo: “Não dou a mínima, cale a sua boca!” “Por isso, decidi me tornar um exemplo mais positivo, e espero que pessoas assim se interessem pelo que estou fazendo”, enfatiza.
Esse novo caminho foi inspirado no fisiculturista vegano Robert Cheeke, dos Estados Unidos, a quem ele considera uma grande influência na abordagem positiva do veganismo. “Não acho que um dia terei a mesma positividade que ele”, comenta. O médico vegano Michael Greger, também estadunidense, é outra inspiração para Richard. Criador do site NutritionFacts.org, o médico é um estudioso da nutrição baseada em vegetais e há muitos anos vem confrontando os maus hábitos alimentares que se tornaram parte da cultura do Ocidente.
“Meu objetivo continua sendo ajudar as pessoas a perceberem o que acontece. Os animais não merecem toda essa exploração praticada pela indústria com seus ridículos argumentos”, assegura Vegan Side Kick que reconhece ser impossível saber o real impacto de seu trabalho.

Socialmente inaceitável – “Tudo bem, filho, hora do seu leite!”
Mesmo sem controle das imagens que criou desde 2013, ele não consegue ver isso como algo que não seja verdadeiramente positivo. “Posso dizer que realmente servi ao meu propósito. Essencialmente, continuo trabalhando e tentando transmitir a mensagem de forma humorística e inventiva. Nunca imaginei que publicaria livros do meu trabalho”, informa.
Para quem tem vontade de ser ativista, mas acredita que ainda não encontrou o próprio caminho, Richard afirma que o mais importante é não desistir. “Se eu tivesse desistido completamente, não teria todos esses quadrinhos. Não há um beco sem saída. Você pode usar até mesmo a sua saúde e o seu corpo como meio de divulgação do veganismo. Cuide de sua alimentação, treine, corra, nade, pedale, levante pesos. Assim quando alguém questionar como você ficou assim, terá bons argumentos, e a conversa vai fluir com facilidade”, recomenda.
Curiosidade
Vegan Sidekick gosta de comer arroz integral, feijões, manteiga de castanha-de-caju, chili vegano e macarrão, além de smoothies (batidos cremosos) de frutas.
Conheço um pouco mais o trabalho de Vegan Sidekick
http://www.vegansidekick.com/
https://www.facebook.com/vegansidekick/
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Sobre pais que matam animais
Pais que matam animais ensinam aos filhos que nem todos merecem viver. E que quando crescerem eles também poderão tirar a vida de outros animais. E assim, crianças crescem acreditando em superioridade e que não há nada de errado em matar.
Youtuber e animais encaixotados
Um YouTuber faz um relato do seu desespero ao ficar 24 horas dentro de uma caixa enviada por uma transportadora. Ok. Agora imagine aqueles animais criados para exploração e consumo humano que passam por isso a maior parte de suas vidas. O ser humano só considera aberrante determinadas experiências quando se compara aos da mesma espécie, ignorando que há animais não humanos que passam a vida toda encaixotados.
Jackson Thilenius e a arte que não romantiza a exploração animal
“Eu sabia que precisava fazer algo para ajudar a interromper a loucura que eu estava testemunhando”

“Next”, de Jackson Thilenius
Jackson Thilenius é um artista, arquiteto e defensor dos direitos animais estadunidense que se define como visionário, rebelde e idealista. Não é difícil entender o motivo. Basta conhecer o seu trabalho que desde 2013 tem despertado controvérsias e conscientização. Uma de suas obras mais conhecidas é “Next”, em que ele mostra um boi assistindo a morte de seus companheiros e aguardando a sua vez em um matadouro.
Seus trabalhos são chocantes porque são fidedignos, não velam a realidade por trás da exploração de animais reduzidos à comida ou transformados em matéria-prima. A arte de Thilenius é uma reação à descoberta de um universo de mazelas envolvendo o abuso de animais não humanos.
“Eu não estava preparado para o impacto que isso teve sobre mim. Foi devastador. Depois de processar o horror e a raiva, eu sabia que precisava fazer algo para ajudar a interromper a loucura que eu estava testemunhando”, diz o artista, admitindo que conhecer em profundidade o sofrimento e privação imposto aos animais não humanos foi um despertar, um chamado para a mudança.

“The Price”
Como um desenhista e pintor que descobriu as próprias habilidades ainda muito jovem, o vegano Jackson Thilenius sempre se interessou por temas bastantes diversos, desde que instiguem a reflexão do espectador. Porém, quando se mudou para o Sul da Califórnia, ele decidiu transformar sua arte em uma ferramenta de questionamento, mobilização social, discutindo temas morais e éticos, além de hábitos, estilos de vida e condicionamentos culturais.
Seus trabalhos podem ser encontrados principalmente em exposições, galerias e shows na área de Los Angeles. Thilenius admite que criar imagens provocativas e espinhosas é uma de suas maiores motivações artísticas. Exemplo do sofrimento extenuante e destrutivo imposto aos animais é a obra “The Price”. Nela, o artista se inspirou na realidade dos porcos que vivem em regime de confinamento. Distantes de uma vida natural e vivenciando muito estresse e outros transtornos psicológicos e emocionais, eles enlouquecem e acabam por matar os próprios companheiros. Não menos chocante é a obra “Hoist”, em que o personagem é um boi recém-abatido, transmitindo desespero enquanto sua vida se esvai.

“Hoist”
Com sua arte, Jackson Thilenius quer que as pessoas abram suas mentes, tenham consciência social das atrocidades praticadas diariamente contra seres não humanos, privados de existirem para si mesmos, e tendo seus destinos traçados desde que nascem, quando são limitados a viverem somente para tornarem-se comida ou matéria-prima. A intenção de Thilenius é deixar claro que devemos promover um estilo de vida que não depende da exploração desumana de animais inocentes. Ele acredita na luta pela libertação animal.
Depois de conhecer a realidade da indústria de ovos, onde pintinhos machos são descartados logo após a identificação do sexo, já que não é lucrativo para a indústria mantê-los vivos, Jackson Thilenius criou a obra “Male Chicks”, uma reação ao fato cruel e corriqueiro de que suas vidas acabam antes mesmo de começar, quando são mortos em trituradores, asfixiados ou simplesmente descartados no lixo. Em síntese, um sistema que só existe porque as pessoas consomem ovos.
Em “Parallel Lives”, o artista apresenta um cão feliz e saudável, como se aguardasse que alguém lhe arremessasse uma bola. Ao lado, o mesmo cão aparece ferido, infeliz, irascível, consequências das agressões praticadas pelo seu tutor, na tentativa de transformá-lo em um cão de briga, condicionado a matar ou morrer. É possível perceber ainda que uma de suas orelhas foi cortada propositalmente.

“Male Chicks”
Thilenius nunca para de produzir, e parte dos lucros das vendas de suas obras são destinados às organizações que atuam em defesa dos direitos animais. O artista também tem um projeto intitulado Crusade Creative (Cruzada Criativa), em que abre espaço para pintores, ilustradores, fotógrafos e ilustradores que se interessam em produzir arte voltada para a questão animalista. “É uma cruzada para criar uma mudança positiva e ajudar a fazer do dom de ser humano, humano”, justifica.
Saiba Mais
Jackson Thilenius é especialista em arquitetura comercial, principalmente de restaurantes e bares. Ele qualifica o seu trabalho como pintor e desenhista como um contraponto à sua profissão de arquiteto – iniciada em 2001. Ele possui mestrado em arquitetura pelo Instituto de Tecnologia da Geórgia.
Conheça um pouco mais o trabalho de Jackson Thilenius
http://www.crusadecreative.org/terms-of-use.html
https://jacksonthilenius.wordpress.com/
https://www.artslant.com/global/artists/show/316205-jackson-thilenius
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Pedrinho e as sardinhas

Sardines, de David Simons
Pedrinho chegou em casa e, enquanto mexia nas sacolas de compras que sua mãe trouxe do mercado, viu que havia algumas latas de sardinha. Ele as retirou e escondeu dentro de uma gaveta. Quando seus pais saíram, pegou a maior bacia que encontrou na lavanderia e a encheu de água. Depois abriu as três latas e despejou as seis sardinhas na bacia.
Como elas não reagiam, simplesmente afundando na água, ele criou pequenas ondas com as mãos. A água começou a enturvecer, se misturando ao óleo que se soltava dos peixes sem cabeça. Pedrinho chorou e movimentou a água com mais força. Enquanto as lágrimas escorriam pelo queixo, uma das sardinhas se desfez na água, como se esfarelasse, se dividindo em centenas de pequenos fragmentos.
Com as mãos engorduradas de óleo e já cansado, o menino deitou do lado da bacia e adormeceu, sonhando com peixes que saltavam das latinhas nos expositores do mercado e atravessavam a cidade em direção ao ribeirão. Quando seus pais chegaram em casa, ficaram chocados com a cena e perguntaram o que Pedrinho estava fazendo: “Achei que se colocasse na água, suas cabeças cresceriam e elas voltariam a viver.”
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Harper Lee e “O Sol é Para Todos”
Comprei hoje o livro “O Sol é Para Todos”, que nunca li, embora sempre tenha ouvido falar bem a respeito. É um dos maiores clássicos da literatura dos Estados Unidos, que garantiu a escritora Harper Lee o Prêmio Pulitzer.
A obra narra a história de um advogado que se torna alvo de uma comunidade racista ao defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. Eu já conhecia o filme, também um clássico eternizado por Robert Mulligan e Gregory Peck em 1962. Harper Lee é a mulher que ajudou a alavancar a carreira daquele que é considerado um dos nomes mais importantes do jornalismo literário norte-americano – Truman Capote.
Ele é mais conhecido pelo clássico A Sangue Frio, obra que conta a história do bárbaro massacre de uma família do Meio-Oeste, e que Capote só conseguiu escrever graças ao suporte de Harper, que foi quem o assessorou e garantiu contato com as mais importantes fontes e referências. Uma pena que Capote não deu a ela qualquer crédito, inclusive mais tarde sendo apontado como um sujeito que embora talentoso, também era invejoso e mesquinho.
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Eraldo, um bom exemplo
Por volta das 14h, na saída de Maringá, passei no Catuaí e decidi comer alguma coisa no restaurante Jin Jin Wok. Peguei um prato e percebi que havia poucas opções para quem é vegetariano ou vegano. Muitos dos alimentos deles que não têm carne, normalmente têm ovo ou algum derivado lácteo.
Então peguei os únicos alimentos vegetarianos disponíveis e fui até o outro lado ver o que eles tinham preparado de sushi. Olhando atentamente, notei que não havia nada para mim. Então perguntei ao sushiman se eles não tinham nenhum sushi sem ingredientes de origem animal.
Ele me mostrou um sushi com pepino, mas avisou que não estava tão fresco, e sugeriu que eu esperasse porque ele iria preparar algo. No mesmo instante, pediu a uma mulher que estava no caixa para não cobrar pelo sushi, justificando que não havia nada para mim entre as opções prontas.
Assim que pesei meu prato e paguei a conta, caminhei até o sushiman e ele pediu que eu posicionasse meu prato em sua direção. Me entregou oito unidades de sushi de três variedades e perguntou se eu queria mais. Agradeci, mas expliquei que era o suficiente.
Depois de comer, o agradeci mais uma vez pela gentileza. Então eu soube que seu nome é Eraldo. Está aí um exemplo de bom profissional e ser humano.
Considerações sobre compaixão e paladar

Companheiros, pintura do alemão Hartmut Kiewert
Quem diz que veganos e vegetarianos não têm bons argumentos naturalmente coloca o paladar acima do direito à vida. Mas quem pensa assim não dirá que simplesmente não se importa tanto com o fato de que alguém há de morrer para que um prazer fortuito seja saciado.
Então, para parecer justo, cria-se justificativas obtusas que são cortinas de fumaça que tentam velar anseios puramente sensoriais. Compaixão é um sentimento superior a qualquer estímulo efêmero desencadeado pelo paladar.
E acho que sobre isso, não há muito o que discutir, já que a compaixão é um dos sentimentos mais nobres da humanidade, enquanto que a gustação, um sentido condicionável, não existe com a finalidade de fazer do ser humano um refém, revelando suas fraquezas. Muito pelo contrário, é algo que o ser humano pode e deve aprender a disciplinar.
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