David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for February, 2017

Uma declaração de amor

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Sim, sua suavidade incorporava a própria graça da existência

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É sempre difícil se declarar assim para alguém, mas não tenho vergonha de admitir o que sinto por você. Me apaixonei desde a primeira vez que a vi. Foi subitâneo, instantâneo. Ninguém esperava. Você ainda tinha cabelos bem curtos de azeviche. Era reservada e não conseguia velar a timidez. Mas eu pensava em você a maior parte do tempo. A primeira vez que dormimos juntos e a senti acariciando meu rosto e minha boca foi inacreditável, ilimitável. Claro, mesmo com um pouquinho de aspereza de sua parte.

Com o tempo, você se fez cada vez mais presente, e permitiu que nos tornássemos um. Quantas vezes depois de quase um ano amanheci a sentindo em minha boca, percorrendo meus lábios, massageando meu peito? Você fazia tudo no silêncio das sensações; sem falar nada, simplesmente se insinuando como se sua existência se pautasse somente na frugalidade do momento.

Realmente, mergulhamos na mais figadal das experiências insólitas. Você sempre gostou de brincar com minhas reações. Não nego que tive pesadelos em que amarguei o irreal desespero de sua partida. Sim, eu acordava com o rosto úmido, os olhos marejados, receoso em ter de aceitar a famigerada despedida, que por bem jamais aconteceu. Para me animar, você se achegava, se movia de maneira ímpar, extraordinária, como se acompanhasse a aragem serena que invadia a janela de meu quarto.

Você se lembra quando eu confundia sua leveza com o próprio vento nas noites mais frescas? Sim, sua suavidade incorporava a própria graça da existência. Você sempre me fez feliz, um sonhador nesses quase 14 meses em que estamos juntos. Saiba que às vezes ainda fico enciumado quando olham demais para você nas ruas, mas aprendi a aceitar que o seu brilho é independente, único, resplandecente; e que devo tão e somente orgulhar-me de ti.

Sei que sua ternura subsiste em mim depois de compartilhamos tantos momentos inimagináveis. E nada é capaz de abalar isso, nem as manhãs em que você amanhece arredia e indisposta, sem querer ver ninguém. Mas todo bom relacionamento funciona assim, na compreensão do silêncio, no olhar sem ciceronear, na partilha do que deve ser partilhado e no respeito do que deve ser ignorado. Muito obrigado por tudo, Minha Barba.

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February 17th, 2017 at 11:13 pm

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Sobre produtos de higiene pessoal baseados na morte animal

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Na foto, a matéria-prima que dá origem ao sabonete de origem animal (Foto: Reprodução)

Muitas pessoas compram e usam sabonetes e outros produtos de higiene pessoal que são baseados em ingredientes de origem animal. Exemplo comum é o uso de gordura bovina e caprina como matéria-prima. Sendo assim, como podemos crer que alguém esteja realmente se higienizando ao usar um produto que tem em sua composição algo que é desnecessariamente extraído do cadáver de um animal?

A indústria investe massivamente em campanhas que iludem o consumidor com a ideia de uma suposta purificação corporal baseada em algo proveniente de animais mortos. Muita gente toma banho com sabonete baseado em sebo, algo que é recolhido em frigoríficos. Como podemos não considerar isso estranho? Ainda mais levando em conta que há opções inclusive mais baratas de produtos vegetais.

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February 15th, 2017 at 11:21 pm

Cortes de carne nada mais são do que fragmentos de cadáveres

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Pessoas sempre se incomodam quando alguém se refere à carne como cadáver. Apesar do impacto da palavra, não há nada de errado em se referir à carne dessa forma. Cortes de carne nada mais são do que fragmentos de cadáveres, como o escritor J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, destaca em livros como “Desonra”, “Elizabeth Costello” e “A Vida dos Animais”.

É apenas uma questão de constatação da realidade. Quem chama carne de cadáver pensa na origem da carne, ou seja, no animal que morreu para que ela fosse comercializada nos açougues. Quem se incomoda com essa palavra, normalmente se nega a crer que o que está comendo custou a vida de um animal. Afinal, não existe carne sem morte.





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February 15th, 2017 at 11:17 pm

Sobre comer animais

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Arte: Dana Ellyn

Ontem, encontrei um camarada na rua e a breve conversa foi assim:

— Por que você não come nada de origem animal?

— Porque acredito que eles também têm direito à vida, logo não acho certo comê-los. Além disso, eu gosto de animais.

— Mas eu também gosto! Só que não fico sem carne, leite e ovos.

— Intrigante isso.

Sem dizer mais nada, o camarada se afastou incomodado, como se eu o tivesse ofendido.





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February 15th, 2017 at 11:13 pm

O boi e a família

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Obra “Mr Moo”, de Ruth Aslett

Rubens parou o carro na beira da estrada. Ele, a esposa e os três filhos desceram para admirar um boi que coçava a cabeça em uma porteira a poucos metros de distância. Se aproximaram e perceberam que o animal era bem manso.

Então as três crianças acariciaram sua cabeça e riram como nunca. Não imaginavam que um animal daquele tamanho pudesse ser tão dócil. Sem se incomodar, o boi apenas os observava com seus olhos cristalinos.

Duas horas depois, já estavam em casa almoçando, servindo-se de bifes grelhados, sorrindo e se lembrando da doçura do boi que roçava a cabeça suavemente sobre uma porteira que trazia no cerne uma cruz de madeira. E, mais uma vez, como tantas outras, a beleza da vida foi celebrada com morte.

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February 15th, 2017 at 11:12 pm

Frei Jerônimo e a dura realidade do pós-guerra

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Foto: David Arioch

“Eu era criança e vivíamos em um campo de refugiados na Tchecoslováquia. Lá, tinha uma floresta, e um dia a mãe foi junto conosco procurar frutas para comer. Tinha uma mina de água, colhemos folhas de agrião, escondemos nos bolsos e levamos para o campo. De manhã, quando ganhamos uma fatia de pão seco, colocamos o agrião e comemos. E o gosto era muito bom, porque o agrião já vem temperado da natureza.

Lá, eles amarraram minha mãe mal vestida em cima de um jipe com cordas e passaram pela cidade. Quebraram todos os dentes do meu pai com cassetete. As crianças tinham que sair com faixa amarela para pedir comida, e sabe que comida eles ofereciam pra nós? A borra de café. E eles davam risada quando nossa boca ficava suja, e faziam isso de brincadeira, para nos chatear.

Quando voltei em 2003, um dia saí do meu quarto para andar pela floresta, e aí aconteceu uma coisa bonita, veio um são-bernardo, um cachorrão que sobe montanhas para ajudar a procurar pessoas perdidas na neve. Quando ele estava perto de mim, coloquei as mãos nas costas, abaixei a cabeça e conversei com o cachorro. E depois veio o tutor, correndo e ofegando, falando que o cachorro era bravo. E eu disse que não, que ele não era bravo. Falei para o cachorro que eu não iria bater nele e ele não poderia me morder. O homem ficou me olhando e dizendo: ‘Como? Como pode falar?’ Falei que sim, converso com ele. Me entendo com cachorro.

Essa cachorrinha que está aqui com a gente aqui agora, nós nos entendemos. Eu não gosto de gente que bate em cachorro. Não gosto de gente que não aceita cachorro. Dá pra desconfiar. O cachorro quer sair, então por causa do cachorro eu vou todos os dias ao bosque. Se não fosse por ele, eu ficaria no meu quarto. O cachorro me chama. Tinha um gato aqui também. O gato e o cachorro se davam muito bem, mas um funcionário do convento matou ele. Falei pra ele que eu sei o que ele fez. Escutei dois cliques do gato. E naquele dia éramos os únicos em casa.”

Excertos de uma entrevista que fiz com o alemão George Karl Brodka (Frei Jerônimo). Conversamos principalmente sobre o que ele e sua família viveram após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando foram enviados para um campo de refugiados na então Tchecoslováquia.

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Written by David Arioch

February 15th, 2017 at 11:07 pm

Jo Frederiks: “Animais não são coisas, não são nossos escravos”

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“Nosso próprio futuro é baseado em um reflexo de como tratamos nossos companheiros não humanos”

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Jo Frederiks se tornou vegana em 1993

Jo Frederiks é uma artista australiana que cria desenhos e pinturas para conscientizar as pessoas sobre a crueldade contra os animais na indústria alimentícia, farmacêutica e de entretenimento. Durante muitos anos, ela se dedicou principalmente à vida selvagem enquanto tema, até que em 2010, sentindo-se frustrada e desiludida com a sua arte, decidiu buscar uma motivação maior.

“Pedi ao meu parceiro por um conselho, e ele disse: ‘Você é apaixonada pelo que? Imediatamente respondi: ‘Veganismo!’ Então continuei a falar seriamente sobre o holocausto animal. Ele sugeriu: ‘Pinte isso. Pinte pelo que você é apaixonada.’ Esse conselho foi fundamental e mudou completamente a direção da minha vida”, contou Jo Frederiks em entrevista ao blog Animalista Untamed em 4 de março de 2016.

A artista que se graduou na Academia de Artes de Brisbane, na Austrália, trabalha principalmente com grafite e pintura a óleo. Uma de suas grandes preocupações ao pintar seres não humanos é retratar a singular individualidade de cada um. Jo cresceu rodeada de animais, mas não de forma harmoniosa.

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Ela foi criada em uma das maiores estações de gado da Austrália, com um milhão de hectares, em Queensland. Lá, seu pai possuía inúmeras propriedades, onde milhares de animais foram criados para serem mortos. “Aprendi rapidamente a me insensibilizar com a brutalidade da vida na fazenda, como todas as pessoas do interior fazem. Houve matanças implacáveis, mutilações bárbaras e torturas que são consideradas ‘prática padrão da indústria.’ Aqueles que menosprezávamos, como o gado, eram considerados meras coisas, naquela época e ainda hoje. Não havia nada remotamente humano em nada disso. Nada!”, explicou ao Animalista Untamed.

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Blind to the Hypocrisy

Em 1993, não aceitando mais a realidade imposta aos animais não humanos, Jo Frederiks tornou-se vegana e defensora dos direitos animais. O que a motivou foi um evento da Animal Liberation Victoria, em Melbourne. “Peter Singer era um dos palestrantes, e fui introduzida em seu divisor de águas, [o livro] ‘Animal Liberation’, que li imediatamente. Antes disso, eu estava completamente inconsciente do horror da indústria de laticínios e ovos. A melhor parte é reconhecer que não contribuo mais para o sofrimento desnecessário de seres sencientes. Já a grande dificuldade é lidar com a apatia e indiferença da sociedade em relação a isso”, declarou ao blog Animalista Untamed.

Desde 2010, Jo Frederiks é uma artista em tempo integral que direciona sua arte quase que completamente para a questão animalista. Ou seja, sua missão é mostrar por meio de desenhos e pinturas como nossa relação com os animais é imoral e antiética. Em entrevista ao Cruelty Free Festival 2016, ela deixou claro que sua mensagem é fazer com que as pessoas entendam que todos os animais devem ser respeitados.

“Usar a arte para expor a injustiça é uma forma de fazer algo construtivo sobre isso. É sobre falar a verdade. A mensagem é pungente e perigosa. A sociedade não quer ser incomodada. A mensagem [por meio da arte] é tão perigosa quanto a posição de [Abraham] Lincoln sobre a abolição da escravidão”, comparou.

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We Didn’t Even Make It This Far

Em entrevista ao Nonhuman Rights Project em 29 de julho de 2015, Jo Frederiks declarou que animais não humanos não são coisas, não são nossos escravos, e não são nossos para explorarmos ou abusarmos deles. “Suas vidas lhes pertencem. Eles merecem justiça. Têm o direito de exercer sua personalidade. No final, nosso próprio futuro é baseado em um reflexo de como tratamos nossos companheiros não humanos”, ponderou.

Para Jo, a arte tem o poder de tocar as pessoas e inspirá-las na busca por sua própria posição moral e ética em relação aos animais. “A arte atinge pessoas onde fotografias e a palavra escrita não podem. É um mecanismo para a consciência social e uma plataforma para a demonstração do que a mente pode fazer para mudar o mundo”, defendeu.

A artista  lamenta que a maioria das pessoas não querem ouvir os fatos quando se trata do sofrimento animal e destruição do meio ambiente causados pela agropecuária. “Não se dispõem a olhar para as fotos ou confrontar vídeos de vítimas indefesas reduzidas à comida. Apesar disso, eles vão olhar para uma pintura ou um esboço. É uma poderosa e efetiva forma de penetrar nessa negação profundamente enraizada, nessas mentiras e doutrinação em que todos nascemos. Espero que minha arte inspire mudança”, disse ao Animalista Untamed em 4 de março de 2016, acrescentando que a transformação depende da educação e da percepção.

Para Jo Frederiks, criar arte vegana é como esculpir uma estátua de mármore com uma pena. “É um trabalho longo e tedioso, mas tem que ser feito se quisermos salvar o planeta e nossa espécie para as gerações futuras”, assinalou.

Em uma de suas obras mais populares, “We Didn’t Even Make It This Far”, Jo Frederiks registrou a moagem de pintinhos machos, indesejados pela indústria, já que não botam ovos. A pintura que remete à pop art, é uma estratégia da autora para prender a atenção do espectador e fazer com que ele reflita sobre as reais consequências dos chamados ovos livres de crueldade, o que segundo ela não passa de enganação da indústria alimentícia, já que não existe produção de ovos sem submeter a galinha a uma vida de exploração, privação ou sofrimento. Em síntese, ao comprarmos ovos, financiamos a morte de “bebês indefesos”, como Frederiks se refere aos pintinhos.

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Lady Justice

Canalizando com singularidade a sua relação com os animais e projetando isso em forma de desenhos e pinturas, a artista australiana demonstra facilidade em transmitir uma resposta visualmente rica e informativa sobre tudo que testemunha em relação ao tratamento que damos aos animais não humanos. O realismo cru da matança de seres sencientes é transmitido por ela de forma pungente, mas que estimula reais possibilidades de reflexão e sensibilização por parte do espectador que não é vegano nem vegetariano.

Jo Frederiks também faz críticas pontuais à exploração praticada por corporações multinacionais, como por exemplo, na obra “Palm Oil and Pollution”, em que critica o uso insustentável e indiscriminado do óleo de palma, prática que tem destruído o habitat de animais como orangotangos. A triste e cruel realidade da exportação de animais vivos, que muitas vezes morrem durante viagens longas e excruciantes, foi materializada na obra “Indefensible – Live Animal Export”, além de outros desenhos e pinturas.

Mais uma de suas obras famosas é “Lady Justice”, em que a Senhora Justiça aparece enforcada ao lado de animais abatidos, transmitindo a ideia de que a justiça também é sacrificada sempre que um animal é morto desnecessariamente para o benefício humano. Em “Kill To Dress”, que critica a alta costura, uma mulher está usando um vestido que custou a vida de um sem número de pequenos animais indefesos.

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Vivisection: R.I.P. Double Trouble

Não menos impactante é “Vivisection: R.I.P. Double Trouble”, que homenageia um gato submetido a cirurgias desnecessárias em seus ouvidos, crânio e cérebro, procedimentos realizados sem anestesia, na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, revelando a crueldade envolvida na vivissecção.

Em junho de 2013, ativistas pelos direitos animais em Israel resgataram um bezerro que trazia no corpo o número 269. Por causa disso, se apresentaram mais tarde como Movimento 269, o que motivou ativistas de todo o mundo a se identificarem como 269. O episódio inspirou Jo Frederiks a criar a obra “We Are All 269” em referência ao resgate.

Saiba Mais

Aos 13 anos, Jo Frederiks testemunhou o terror de um boi durante o abate. Ele foi estraçalhado por um homem empunhando um machado. O sujeito tinha um revólver preso à cintura, mas preferiu usar o machado para terminar o trabalho, isto porque ele queria economizar o custo de uma bala.

Referências

http://jofrederiks.altervista.org/biography.php

https://animalistauntamed.com/2016/03/04/jo-frederiks-artist-for-the-animals/

http://www.nonhumanrightsproject.org/2015/07/29/featured-volunteer-jo-frederiks/

http://www.sparklingadventures.com/index.php?id=2006

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Dana Ellyn: “Por que amamos alguns animais e comemos outros?”

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“Quanto mais pesquisarem de onde vêm sua comida, mais se inclinarão a tornarem-se veganas”

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Dana Ellyn Em uma de suas exposições (Foto: Divulgação)

Muitas pessoas que gostam de animais normalmente ficam aborrecidas ou furiosas quando veem um animal doméstico sofrendo ou passando por algum tipo de privação. Por outro lado, não partilham do mesmo sentimento quando se trata de animais enviados aos matadouros. Foi justamente pensando nisso que um dia a artista vegana estadunidense Dana Ellyn decidiu pautar o seu trabalho em uma questão retórica: “Por que amamos alguns animais e comemos outros?”

Sim, não é difícil entender que se trata de um fator cultural, contudo, não deixa de ser uma forma de hipocrisia de nossa parte, principalmente se afirmamos que amamos animais, e ainda assim os comemos. “Os animais têm aparecido na minha arte há anos, mas foi só em 2013 que fiz deles o meu tema de trabalho. Colocar um adorável leitão ao lado de um pedaço de bacon [como ela fez na série ‘Olhe em Meus Olhos e Diga-me que Sou Delicioso’] pode causar desconforto em quem come carne, porque faz com que pensem sobre a origem da comida”, disse Dana em entrevista ao Compassion Over Killing (COK), uma entidade filantrópica de Washington, D.C., que atua em defesa dos direitos animais, em 22 de abril de 2014.

A artista reconhece que suas obras podem despertar os mais diferentes sentimentos, desde compaixão ao escárnio, até porque, além do veganismo, ela aborda também religião, política, divórcio e a opção em não ter filhos. “Quando comecei a me concentrar na criação de quadros com temática veg, pensei que estava me aventurando em um território menos controverso. Eu estava definitivamente errada”, admite.fridge

Ela achava que algumas de suas pinturas, como “Baby Back Ribs” e “Independente (from Meat) Day” transmitiam mensagens óbvias, resultados do reconhecimento de como a carne chega aos nossos pratos. “Acontece que a maioria das pessoas não gosta de pensar sobre isso. Mesmo criando muitas pinturas com temáticas veganas, eu equilibro elas com uma coleção de obras gentis, que apresentam doces animais que olham para o espectador com olhos inocentes e enviam mensagens como: ‘Tenho sentimentos, por favor, não me coma’”, declarou a pintora a COK.

A habilidade pictórica, a evidência das contradições e o humor peculiar de Dana Ellyn estão em suas obras de cores vívidas e intensas que apresentam um forte e desafiador conteúdo crítico das mais diferentes questões sociais. Portanto, pode-se definir o trabalho de Dana como uma combinação do expressionismo com o realismo social, principalmente se levarmos em conta que ela tem como grandes inspirações a expressividade emocional e a perspectiva sombria dos expressionistas alemães; além da crueza e da confrontação da realidade influenciada por artistas mais contemporâneos e outsiders.

Muitos dos trabalhos de Dana com temáticas veganas são reconstruções de flashes artísticos de sua infância, um olhar adulto e vegano sobre o condicionamento em consumir carne e outros alimentos de origem animal. “Olhando para trás, percebo que sou vegetariana em meu coração desde a infância. Carne sempre me incomodou. Qualquer sinal de líquido vermelho era um tormento. E frango no osso era um grande problema, porque ainda parecia um animal. E nem falo sobre tendões em uma asa de frango, ou roer a carne de uma sobressalente costela em um restaurante chinês”, relatou em entrevista a Jodi Truglio, da revista Global Looking Glass em 23 de agosto de 2013.see3.jpg

Dana Ellyn, que se tornou vegetariana em 2001 e vegana em 2013, cresceu em uma pequena cidade costeira em Connecticut nos anos 1980. A cultura predominante de consumo de alimentos naquela época era do tipo “coma o que vier em seu prato e não faça perguntas”. “Minha família via o consumo de carne como um estilo de vida, uma maneira de pertencimento. Em minha infância, eu me sentia desconfortável quando me serviam pratos com cadáveres”, contou em entrevista à blogueira Zahava Katz-Perlish, do I’m An Animal Too, em 30 de junho de 2016.

Ainda criança, já preferia comer grãos e vegetais. Ela afirmou que despertou quando percebeu que a carne que era encorajada a comer para “viver”, nada mais era do que uma escolha, já que é possível viver muito bem sem consumir partes de animais. “Sempre fui sensível sobre o sofrimento dos animais reduzidos à comida ou usados com outros propósitos destrutivos. Ao me tornar vegana, abriu-se um novo mundo de experiências culinárias que eu e meu marido [que também é vegano] exclamamos com um pouco de frustração, por que alguém precisa comer carne?”, confidenciou.2e119de49815ebb506d1bc4d9069f491

O que levou a artista a ter fortes sentimentos sobre os direitos animais e o veganismo foi o reconhecimento de que estava sendo conivente com o sofrimento de outros seres vivos. “Assistir vídeos no YouTube, de galinhas sendo pisoteadas é um bom começo para qualquer um. Quanto mais as pessoas pesquisarem de onde vêm sua comida, e se conscientizarem da violência nas indústrias de carnes e laticínios, mais elas se inclinarão a tornarem-se veganas. Gosto de me considerar uma consumidora informada, e um consumidor especialmente informado pesquisa sobre o que coloca em sua boca. Ser vegano faz todo o sentido”, ponderou.

Dana Ellyn gosta de atrair a atenção de consumidores de carne com suas pinturas que questionam a conduta especista humana. “Quem come frango, carne bovina ou de porco fica todo sentimental quando vê os coelhos e gatinhos sendo vendidos como comida em minhas pinturas. Em um nível intelectual, eles entendem que minha referência é sobre diferenças culturais, mas eles não são capazes de direcionar o espelho para si mesmos e admitir plenamente que o que eles comem não é diferente”, explicou ao portal Viva La Vegan! em 20 de junho de 2013.

A artista, que vive em Washington, D.C., se graduou em história da arte e belas artes em 1992 pela George Washington University. Desde 2002, ela se dedica à pintura em tempo integral. Além de participar de muitas exposições nos Estados Unidos, seu trabalho também já foi prestigiado na Europa e no Marrocos.outsmarted

“Foi essa mudança do vegetarianismo para o veganismo que me influenciou a começar a me concentrar principalmente nas questões dos direitos animais. Descobri que [muitas] pessoas que comem carne preferem negar as vantagens do veganismo. Eles gostam de zombar ou fazer piadas sobre a ideia de ser vegano. Agem como se eu fosse uma extremista por fazer uma escolha em ser vegana; como se eu fosse a estranha ou a errada [sendo que eles que financiam a morte dos animais ao consumirem carne]”, reclamou ao I’m An Animal Too.

Segundo Dana, é fácil para as pessoas negarem a realidade quando elas se mantêm alheias à origem da comida. “Eles compram a carne que é embalada em um invólucro plástico, e isso pouco se assemelha ao animal de onde veio. Tenho tido muitas conversas ao longo do ano sobre ser vegetariana. Quando falo sobre as horríveis condições dos animais na agroindústria, as pessoas balançam suas cabeças e sempre afirmam que sabem, mas não querem saber. Eles basicamente reconhecem que se eles admitirem a si mesmos como isso é horrível, eles teriam que parar de comer carne. Não entendo isso. Então por que não simplesmente parar de comer carne em vez de enfiar a cabeça na areia e fingir que não vê qual é o problema?”, lamentou ao Viva La Vegan!.87157922d9f48e1b7de24751b756d43f

Em “Meet Your Meats”, ou “Conheça Suas Carnes”, inspirada na negação da realidade, Dana Ellyn criou um cenário em que uma pessoa abre o refrigerador para retirar comida e, de repente, se vê obrigada a lidar, face a face, com os animais que está pensando em jantar. “Em várias ocasiões, colaborei com a [entidade filantrópica em defesa dos direitos animais] Compassion Over Killing, disponibilizando minha arte para venda em seus eventos de arrecadação de fundos. A COK também usou minha arte como capa do seu cartão de férias. Recentemente, colaborei com a britânica Lucy Tammam, premiada designer de moda de alta costura de Londres, que tem sido uma inovadora em termos éticos e sustentáveis”, revelou a Zahava Katz-Perlish.

Ao Viva La Vegan!, Dana se queixou que muitas pessoas jamais dedicam qualquer tempo para sair e conhecer um porco como animal de estimação. Ela defende que essa experiência poderia fazer alguma diferença. “Elas seriam capazes de comer carne de porco novamente? Suponho que algumas sim, e outras não”, concluiu. Tal reflexão a motivou a criar uma obra em que o cão Fido aparece vestido de porco para ser servido durante o jantar, enquanto o suíno ocupa maliciosamente o lugar do cachorro. “A menina parece saber o que aconteceu porque ela está olhando em direção ao porco, suprimindo um sorriso. Mas a mãe, representada de propósito como uma dona de casa dos anos 1950 está obedientemente servindo o jantar. Tradicional e antiquada, ela não questiona nada – está apenas fazendo o que se espera dela”, assinalou.meat

Em outra pintura de Dana Ellyn, que evoca uma inversão de papéis, um leitão assado aparece com uma maçã na boca, enquanto um cão feliz tem uma bola de tênis entre os dentes. “Meu principal objetivo como artista é fazer as pessoas felizes. Orgulho-me em fazer minhas obras de arte acessíveis. Eu quero que todos que desejem possuir um dos meus quadros tenham condições de adquiri-los. Como uma artista vegana, espero que os veganos compreendam e apreciem a minha arte. Se os não veganos veem minhas pinturas e se sentem confusos e desafiados, ou mudados por minhas pinturas, então me sinto feliz”, garantiu ao blog I’m An Animal Too em 30 de junho de 2016.

Referências

The power of art for change: an interview with artist Dana Ellyn

http://cok.net/blog/2014/04/vegan-artist-dana-ellyn/

http://www.vivalavegan.net/list/7-updates/545-dana-ellyn-vegan-painter-art-a-inspiration.html

http://www.danaellyn.com/bio.html

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Written by David Arioch

February 13th, 2017 at 7:56 pm

Queenie, a vaca que fugiu de um matadouro em Nova York

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Ela escapou do Astoria Live Poultry depois de ouvir alguns animais gemendo e reconhecer o seu destino

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Queenie vivendo tranquilamente no Farm Sanctuary (Foto: Divulgação)

Em 2000, Queenie, uma vaca branca e marrom, fugiu de um matadouro no Queens, em Nova York, depois de ouvir alguns animais gemendo. Quando percebeu que seria enviada para a morte, ela percorreu desesperadamente vários quarteirões da cidade, interrompendo o trânsito e chamando a atenção de motoristas e pedestres.

Para capturá-la, foram enviadas mais de uma dúzia de viaturas da polícia de Nova York e veículos do Corpo de Bombeiros. As primeiras chamadas para o 911 foram recebidas antes das 10h, mas Queenie só foi capturada uma hora depois, com a mobilização de dezenas de pessoas e o uso de uma arma tranquilizante.

A vaca que teve a sua fuga interrompida em Briarwood, um bairro de classe média de Nova York, fugiu do Astoria Live Poultry, um matadouro halal, onde os animais são executados de acordo com a lei islâmica. A sua fuga, na tentativa de garantir a própria liberdade, fez com que centenas de pessoas ligassem para o Centro de Controle e Cuidados de Animais pedindo que ajudassem a salvá-la.

A história de Queenie teve rápida repercussão, não apenas em Nova York, mas em todo o país. Os principais veículos de comunicação dos Estados Unidos, incluindo mídia impressa, TV e rádio, fizeram a divulgação. “Milhões de telespectadores viram uma vaca assustada correndo do matadouro, claramente consciente do destino que a esperava”, registrou o Farm Sanctuary, de Nova York, em seu site. Houve grande comoção e pressão sobre o Astoria Live Poultry, para que a liberassem e permitissem que a vaca passasse o resto de sua vida em liberdade.

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Obra de Sue Coe inspirada na fuga de Queenie

Logo o Farm Sanctuary, em Watkins Glen, entrou em contato com o Centro de Controle e Cuidados de Animais, oferecendo um local seguro e amoroso para Queenie. Graças à pressão pública, Aladdin El-Sayed, o proprietário do matadouro, concordou em libertá-la. Aos jornais Newsday e Daily News, ele disse que, embora tenha pagado 500 dólares pela vaca, se Deus estava disposto a dar a ela uma nova vida, por que ele não concordaria? Sayed também comentou que notou algo de diferente nela.

Quando chegou ao Farm Sanctuary, Queenie saltou da carretinha em meio aos aplausos de boas-vindas da equipe do santuário de animais. Algumas vacas também a recepcionaram. Em 2001, a artista inglesa Sue Coe, que vive em Nova York desde 1972, transformou a história em uma obra intitulada “Queenie Escapes the Slaughterhouse”. A fuga de Queenie serviu para mostrar que vacas também têm emoções e sentimentos.

Referências

https://www.farmsanctuary.org/the-sanctuaries/rescued-animals/featured-past-rescues/queenie/

http://www.nydailynews.com/news/wild-chase-takes-cruise-queens-article-1.243566

http://nycitylens.com/2016/02/animal-escapes/

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Written by David Arioch

February 13th, 2017 at 4:15 pm

Considerações sobre a vida não humana

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“Companheiros”, do artista alemão Hartmut Kiewert

Como podemos subestimar o sofrimento de um animal reduzido à comida, quando nós mesmos não estamos na mesma situação que ele? Não se pode menosprezar o sentimento de um animal diante do abate, a não ser que tenhas sentido na pele o desespero da iminência do canibalismo ou de ser morto para tornar-se comida para ser d’outra espécie.

O ser humano é embrutecido pela naturalização do destino terrível dos animais que são colocados à nossa mesa. Sobre isso, Voltaire cita como exemplo crianças que choram com a morte do primeiro frango que eles veem matar, mas riem da morte do segundo.

Quando comes um animal, e este animal padeceu em privação, ao ingerir seus pedaços, você consome também a energia concentrada naquela carne, o que não é uma energia positiva, já que todo animal abatido morre de forma não natural, sem chegar ao limite de sua existência.

Depois de ler a fábula “O Lenhador e a Raposa”, vai-te às lágrimas pela morte do gentil animal golpeado mortalmente pelo lenhador, mas não divide a mesma emoção com o bezerro, que sem pai nem mãe agoniza como um órfão enquanto aguarda sua vez de ter o mesmo fim precoce determinado pela indústria.

Ensine seu filho a ser justo com os animais, e assim ele também será justo com os seres humanos. Mas se permite que ele seja pernicioso com os animais não humanos, provavelmente ele entenderá que não há problema em ser injusto também com os de sua espécie, já que o seu senso de justiça há de diluir-se em seu ego.

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Written by David Arioch

February 11th, 2017 at 5:51 pm