Archive for February, 2017
O amor e a amora
No pré-escolar, a professora um dia me perguntou se eu sabia o que era amor. Respondi que sim. Então ela pediu que eu explicasse. Eu disse que traria a resposta na semana seguinte. No dia esperado, me aproximei de sua mesa e despejei na palma de sua mão algumas frutinhas vermelhas. “O que é isso?”, perguntou a professora. Respondi: “Amor! Só que vem com um A a mais porque se o primeiro desaparecer o último só tem a agradecer.” Passei um mês levando amora para a sala de aula.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Pessoas e marcas intensas
Há pessoas que passam pela vida e deixam marcas tão intensas que quando partem é inevitável se perguntar se elas realmente existiram. Com o tempo, sobrevivem como sonhos reavivados por lampejos de uma mente casmurra. A memória então começa a falhar diante de um coração que se recusa a se calar.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Ensine seu filho a ser justo com os animais
Ensine seu filho a ser justo com os animais, e assim ele também será justo com os seres humanos. Mas se permite que ele seja pernicioso com os animais não humanos, provavelmente ele entenderá que não há problema em ser injusto também com os de sua espécie, já que o seu senso de justiça há de diluir-se em seu ego.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Mata-se um ser vivo por um prazer efêmero
Quando alguém come um animal, e diz que aquele ser morreu cumprindo o seu papel, eu pergunto: Será que a mãe, o pai, o filho ou a filha daquele animal partilha da mesma opinião? Se eles nascem com essa finalidade, por que então eles e os seus se emocionam, não reconhecem a morte precoce como natural e até mesmo ficam enlutados?
Os animais têm emoções, sentimentos, e aqueles que colocamos sobre a mesa nunca morrem sorridentes ou satisfeitos em tornarem-se comida. Ademais, demonstram dor e sofrimento de maneira bastante óbvia. É triste reconhecer que mata-se um ser vivo por um prazer efêmero, que não ultrapassa minutos.
Aquele que se regozija com a morte em benefício do próprio paladar ignora o fato de que a morte também o habita, já que somos aquilo que fazemos, comemos, pensamos e sentimos. Como podemos almejar a paz enquanto nos alimentamos de morte?
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Uma pessoa pode defender o “abate humanitário”…
Na nossa sociedade, uma pessoa pode defender o “abate humanitário”, ou alegar “que nem todos os animais sofrem diante da morte”, mas é preciso entender algo essencialmente importante. Enquanto os animais não humanos forem vistos como produtos, sempre vai existir pessoas e indústrias baseadas na exploração animal tentando reduzir despesas e ampliar os lucros o máximo possível.
Se para isso for necessário que o animal sofra ainda mais, pode acreditar que, em menor ou maior proporção, sempre teremos pessoas que lucram com esse mercado que não pensarão duas vezes antes de seguirem por esse caminho. Até porque os métodos mais cruéis de abate, e que não são tão incomuns como muita gente tenta crer, são aqueles que requerem menos despesas para o ser humano e grandes prejuízos aos seres reduzidos à comida.
Afinal, os animais não humanos são os que realmente sofrem em decorrência de hábitos baseados no consumo de alimentos de origem animal. Outro fato a se considerar é que se há animais vivendo em situação degradante é porque sempre há pessoas dispostas a comprar o resultado dessa exploração. Afinal, sabemos que para a maioria pouco importa realmente a origem de qualquer alimento, se houve privação ou sofrimento, desde que este alimento possa proporcionar algum tipo de prazer, por mais efêmero que seja.
Sendo assim, a forma mais eficaz de não contribuir com isso é se abster de consumir alimentos e outros produtos de origem animal. Afinal, não podemos desconsiderar que em algum nível toda exploração envolve algum tipo de privação. Além disso, como não considerar todo abate como cruel se o animal sempre morre no final?
Um exemplo de mudança

“O Embutido de Sofrimentos”, do artista Tommy Kane
Ontem, um jovem comerciante chamado Mateus Rodrigues compartilhou uma das imagens do meu álbum no Facebook, do artista Tommy Kane. Um de seus amigos fez piada, perguntando por que ele compartilhou aquele tipo de imagem se ele comercializa esse tipo de produto em seu mercado. Então Mateus respondeu o seguinte: “Vou parar de vender.”
E o seu amigo insistiu: “Vai ter prejuízo por conta disso? Quem compra pão, quer presunto, queijo e mortadela.” Sem titubear, Mateus explicou: “Mano, inclusive tô pra substituir os frios por outros alimentos. Não ligo para o prejuízo. Todos os animais têm direito à vida.” Sem dúvida, Mateus Rodrigues é um exemplo de mudança.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Sue Coe: “Ser vegano está além do que você come. É um movimento de justiça social”
“Enquanto falamos, somos capazes de ouvir um bezerro que foi tirado da própria mãe e chora sem parar por três dias. Essa é a realidade [da produção de leite]”

Sue Coe: “Quando você segura uma galinha, você percebe que há uma força de vida lutando para sobreviver”
Nascida em 21 de fevereiro de 1951, a artista e ilustradora Sue Coe, uma das maiores referências em arte sobre direitos animais, cresceu perto de um matadouro em Tamworth, Staffordshire, na Inglaterra. A experiência fez com que ela desenvolvesse um grande interesse em sensibilizar as pessoas sobre a crueldade contra os animais. Porém, seus pais esperavam que ela trilhasse outro caminho. Na adolescência, eles queriam que Sue se tornasse uma secretária ou trabalhasse em uma fábrica. Idealista, ela preferiu se arriscar como artista.
Estudou ilustrações e arte comercial na Chelsea School of Art e na Royal College of Art, em Londres. Mesmo sonhando com um futuro nesse ramo, ela se sentia incomodada com o fato de que as mulheres inglesas que atuavam nessa área só eram contratadas para ilustrar livros infantis. Coe não queria isso.
Para a sua surpresa, o dom para as artes chamou a atenção de revistas inglesas e de outros países europeus. Quando se mudou para Nova York em 1972, aos 21 anos, ela decidiu enveredar pelo caminho do artivismo, ou seja, começou a produzir arte como uma ferramenta de ativismo político. Na matéria “Staying True to a Unique Vision of Art”, publicada pelo Los Angeles Times em 1º de abril de 2001, ela relatou que o que a atraiu nos Estados Unidos foi o multiculturalismo, uma abertura de espírito muito emocionante.
Em Nova York, ela recebeu importantes convites para abordar questões como fome, miséria, terrorismo e racismo. Suas ilustrações ocuparam espaço privilegiado em edições de importantes veículos de comunicação, como o New York Times, New Yorker, Time, Newsweek, Village Voice, Esquire, Mother Jones e Rolling Stone.
Ainda nos anos 1970, enquanto vendia suas obras, Sue Coe deu aulas na School of Visual Arts, de Nova York. “Ela se estabeleceu como uma versátil artista adepta de pinturas, desenhos, litografias, colagens e gravuras, habilmente usando guache, grafite, aquarela, lápis de cera e carvão. […] Ela mostra problemas sociais ignorados ou ocultados pelo governo, corporações, sociedade e mídia. Ela costuma ser comparada a artistas como Honoré Daumier, Käthe Kollwitz e Francisco Goya”, escreveu Susan Vaughn, do LA Times.

Foi no início dos anos 1980 que Sue Coe se voltou para a situação dos animais mortos para consumo humano. Ao longo de seis anos, ela realizou pesquisas e visitou matadouros de várias regiões dos Estados Unidos. “Quando comecei, pensei: ‘Ah, isso não vai mudar.’ Então percebi que poderia motivar as pessoas. Acho que o melhor que pode acontecer é você instigar o diálogo. Acredito que a maioria das pessoas tem a mente aberta”, informou Coe à Susan.
A artista inglesa, que se considera uma jornalista visual, possui um estilo mordaz que lembra o trabalho do escritor e reformador social Upton Sinclair, autor de The Jungle (A Selva), que denunciou as mazelas da indústria frigorífica em 1906. Modesta, Sue Coe diz que se um dia alcançar 1% da genialidade do pintor holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn, autor de Slaughtered Ox (Boi Abatido), de 1655, ela se sentirá realizada.
Autora de livros de ilustrações como “Dead Meat”, de 1995; “Pitt’s Letter”, de 2000; “Sheep of Fools”, de 2005; “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, de 2012; e “The Animals’s Vegan Manifesto”, de 2017, ela contribuiu para que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas e veganas por meio de sua arte engajada na defesa dos direitos animais. Muitas de suas ilustrações denunciam principalmente a cruel realidade vivida por animais criados e mortos para tornarem-se comida. “Por favor, veja por si mesmo, vá a um matadouro. Veja o que ocorre e, se você não pode, pergunte a si mesmo o porquê”, sugeriu.
Sempre que a questionam sobre como ela consegue retratar situações dolorosas sem enlouquecer, Sue Coe argumenta que o seu trabalho é uma forma de terapia, além de sentir-se motivada pela possibilidade de mudar a mente das pessoas em relação a como os animais são vistos e tratados. “Quando você segura uma galinha, e elas são feitas apenas de carne e ossos, mas você sente um coração batendo rapidamente, você percebe que há uma força de vida lutando para sobreviver, é isso que me move”, argumentou em entrevista ao LA Times.
Durante alguns anos, a ilustradora vegana Sue Coe viveu em um apartamento de um quarto em Nova York, dedicando-se às ilustrações. Embora famosa nesse meio, sempre vendeu impressões de alguns de seus trabalhos a preços bem acessíveis. “Não compro coisas que não preciso. Meu trabalho é mais importante do que possuir um micro-ondas [por exemplo]”, ponderou, acrescentando que destina parte de seus lucros à Farm Sanctuary, em Watkins Glen, em Nova York. O santuário cuida de animais que seriam mortos pela indústria agropecuária.
Segundo Sue, mesmo que você seja uma artista e tente desenhar 50 vacas ou 50 ovelhas, você precisa ter em mente que todas elas têm diferentes personalidades. E se você for a um santuário e começar a desenhá-las, elas se apoiarão em você, e você sentirá o seu doce hálito com aroma de feno:
“Cada uma é tão individual e diferente. E desenhar apenas 50 é quase impossível. Por isso, preciso olhar nos olhos de uma ovelha ou de todos os animais que encontro em um matadouro, o que representa apenas uma gota do sangue de todos os animais massacrados. E assim que sou notada, muitos deles me olham diretamente nos olhos, e o que eles dizem, eu registrei isso em um livro. O que eles dizem é tão claro como se escrevessem em inglês e com letras gigantes: ‘Por que vocês estão fazendo isso comigo?’ É o que eles estão dizendo.”
Em entrevista a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine, de Nova York, em 2 de agosto de 2012, Sue Coe contou que pessoas influentes do mercado editorial de Nova York tentaram se livrar dela nos anos 1980. Mesmo que não tenham conseguido fazer com que desistisse do seu trabalho, ela prefere dizer que não tem uma carreira, mas sim uma missão: “Já amarguei meses e meses sem dinheiro, pensando: ‘Ah, como eu gostaria de ter sido capaz de vender este mês, ou coisa parecida. Mas estou tão acostumada com isso agora. Então nunca pensei no meu trabalho como uma carreira.”
Ela jamais se esqueceu do dia em que acompanhou um bando de cabras e ovelhas arrastadas para um matadouro. Compenetrada no comportamento dos animais, ela se distanciou de si mesma. “Continuei a desenhar mecanicamente, e o resultado é um desenho que nunca estará à venda. É um lembrete para mim, do porquê estou fazendo esse trabalho”, justificou.

Questionada sobre como faz para conseguir entrar em matadouros onde nenhum jornalista entrou antes, Sue Coe explicou que tudo depende da abordagem e das ferramentas que você carrega. “Levo apenas papel e lápis, e as pessoas podem ver o que estou fazendo. Não estou roubando nada. Não vou tirar nada. Se eles querem meus desenhos, eles podem tê-los. Contanto que eu não retrate trabalhadores como monstros, o que nunca faço de qualquer maneira, embora algumas vezes fiz isso, tenho de admitir”, revelou em entrevista a Caryn Hartglass no podcast “It’s All About Food” em 20 de junho de 2012.
Sue Coe prefere visitar matadouros menores, porque esses são os que menos dificultam suas visitas. Mesmo assim, ela sempre se depara com uma mesma situação – funcionários de matadouros com receio de ficarem desempregados. “Eles não querem ser atacados por ativistas dos direitos animais. Então eles me veem e simplesmente conversamos sobre qualquer assunto que eles queiram. Muitos deles são falantes de espanhol. Então dou-lhes um desenho, e eles podem olhar e dizer se devo mudar alguma coisa. Eles apenas olham e dizem: ‘Ah, isso é bom! Você poderia ser estenógrafa’”, narrou.
Sue perdeu as contas de quantos matadouros visitou ao longo de décadas. Só no livro “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, de 2012, ela traz ilustrações de experiências em 35 a 40 matadouros. “É muito mais fácil entrar em matadouros halal [islâmico] ou kosher [judaico] porque eles são pequenos, de propriedade familiar. Os maiores são da IBP [International Pork and Beef]. Entrei [em matadouro deles também], mas foi muito difícil. Costumo chegar dizendo: ‘Sou uma artista. Gostaria de desenhar.’ Eles dizem sim ou não”, resumiu.
Quando permitem que Sue Coe visite um matadouro, ela é revistada e em seguida lhe entregam um uniforme. “Não é necessário que alguém entre em um matadouro para ver e entender o que acontece lá dentro. Você esquece muito rapidamente, pessoas esquecem, mas eu nunca esquecerei. Vou fazer isso até morrer, porque é minha responsabilidade com os rostos que vi. Esse é o meu trabalho. Essa era a vida deles. Eu os vi. Eles olharam em meus olhos, e eles me viram”, garantiu a ilustradora a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine.
Com a experiência de quem acompanha a realidade dos animais explorados na indústria alimentícia desde os anos 1980, Sue admite que produzir centenas e centenas de desenhos e pinturas sobre a questão animalista intensificou sua conexão com os animais. Em entrevista a Elin Slavick do Media Reader, em 2005, ela destacou a importância de educar o público sobre a trajetória do “alimento” de origem animal antes dele chegar à mesa:
“Acredito na bondade das pessoas, e acho que elas são inteligentes o suficiente para fazerem uma boa escolha. Abram as portas dos matadouros e das fazendas. Deixe as pessoas verem como as porcas são mantidas presas suas vidas inteiras, sem espaço para girarem o corpo. Porcos em estado natural [livres], passam 70% de suas horas de vigília explorando o ambiente, se enraizando na sujeira e socializando. Os bezerros, fracos demais para manterem-se de pé, são alimentados apenas com leite, encaixotados e enviados para o abate. Há cientistas que dizem que as vacas leiteiras estão tão cansadas quanto um ser humano correndo em uma maratona, por causa do estresse em seus corpos em decorrência da enorme produção de leite. E as galinhas, que vivem sem espaço suficiente para estica suas asas, são seis por cada gaiola até o momento do abate; ficam com os ossos tão fracos que desenvolvem fraturas por causa do estresse físico.” (An Interview with Sue Coe By Elin Slavick, Media Reder, 2005).
Sue Coe jamais acreditou que as leis do bem-estarismo, que alega diminuir o sofrimento do animal reduzido a produto, vão culminar no abolicionismo animal. Para ela, não existe bem-estar quando se fala em um animal que vai ser eventualmente morto para o consumo humano. “Sob este sistema econômico, a pressão é para que a pequena fazenda fique maior ou vá à falência. Penso que esta luta para melhorar as condições de vida dos animais criados em fazenda tem chamado a atenção das pessoas. Ela tira a pressão sobre o pequeno criador, que pode receber subsídios para migrar da criação de animais para a produção de vegetais, e isso [em médio ou longo prazo] acabará por eliminar os métodos das fazendas industriais”, analisou.
Sue viaja muito ministrando palestras sobre desenhos e ilustrações, e não para ativistas dos direitos animais, mas sim para comunidades, locais em que, para a sua surpresa, seu trabalho é muito bem recebido. “Costumo dizer que as fazendas industriais são erradas e discutirmos sobre isso. Então eles falam que vão parar de consumir produtos de origem animal. Agora a pergunta número um que recebo é: ‘Está tudo bem em comer produtos do abate humanitário?’ Claro que digo que não! Não está tudo bem em comer qualquer animal, de pequenas ou grandes fazendas. E as pessoas entendem. Se alguém se torna um farol por causa do meu trabalho, esse é o meu prêmio. Como disse um ativista, é como empurrar uma pedra até uma colina com a ponta do nariz. Não é fácil, mas pode ser feito”, relatou a Caryn Hartglass, do podcast “It’s All About Food” e a Susan Vaughn, do Los Angeles Times.
“Não podemos nem chegar perto da opressão do direito corporativo [da indústria da exploração animal]. Nossa propaganda é como um minúsculo dedal cheio de verdades – uma minúscula partícula. Mas essa partícula é muito perigosa para eles. Por isso que eles estão constantemente tentando esmagá-la. Quero dizer, tudo que temos a fazer é um panfleto, cartaz ou grafite, e isso pode explodi-los em um sopro, porque tudo que eles fazem é baseado em mentiras. E [sabemos que] um pouco de verdade pode se espalhar por águas oleosas.” (Drawing Attention: Sue Coe, de Sunaura Taylor, Bomb Magazine, 2 de agosto de 2012.)

Sue Coe não se define politicamente. Ela alega que isso pode interferir na mensagem. Em sua opinião, não é útil rotular-se. “Como artista, desejo que o espectador olhe através dos meus olhos, veja o que vi, e não olhe para a cor dos meus olhos. […] Não sei se a alegria é possível para cada ser vivo, mas cada ser vivo faz o máximo que pode para evitar sofrimento e dor”, disse a Elin Slavik, do Media Reader.
Vivendo há alguns anos em uma cabana sustentável e com energia solar em uma floresta ao norte de Nova York, Sue Coe não raramente escuta o que ocorre nas fazendas vizinhas. “Enquanto conversamos, somos capazes de ouvir um bezerro que foi tirado da própria mãe e chora sem parar por três dias. Essa é a realidade [da produção de leite]”, lamentou a Caryn Hartglass.
Sobre a sua descrença no suposto abate humanitário, a artista também relatou como exemplo a experiência de um amigo que visitou um matadouro no Canadá. No local, eles têm câmaras de gás, onde os porcos seguem um sistema de linha única. Porém, quando o animal percebe a iminência da morte, ele faz de tudo para sair do local, inclusive tentando escalar as laterais:
“Nesse processo, eles são eletrocutados nos olhos, que é uma parte tão sensível deles quanto a nossa. Eles são cutucados para seguirem no sistema de linha única. Assim, o chamado abate humanitário acaba por ter o dobro de tortura. É por isso que quando os defensores dos direitos animais se envolvem com isso, eles precisam ser muito cuidadosos, porque a indústria da carne é apenas sobre como lucrar. E eles podem incluir câmaras de gás porque são baratas, já que mata seis animais de cada vez. É por isso que acho incrivelmente ingênuo, ou terrível, quando os defensores dos direitos animais se envolvem nesse tipo de manipulação da indústria da carne”, confidenciou ao podcast “It’s All About Food” em 20 de junho de 2012.
Sue Coe argumenta que o único caminho de assegurar um tratamento mais justo aos animais não humanos é o veganismo. Ninguém precisa ser um amante dos animais para se tornar vegetariano ou vegano. O mais importante é entender que eles também têm direito à vida “Ser vegano está além do que você come. É um movimento de justiça social. Não se trata de uma escolha enquanto consumidor”, explicou a Caryn.
A ilustradora espera que chegue o dia em que os direitos animais e as questões de justiça social sejam bem aceitos, e as pessoas vejam como era o passado e digam: “Aqueles eram tempos sombrios, quando seres humanos costumavam matar animais para comer.” Sue crê que é muito fácil ser seduzido pela ideia de que os seres humanos são simplesmente maus. Porque se vermos o que fazemos deliberada e inconscientemente aos animais não humanos, a nós mesmos, a tudo, é muito fácil pensar que não há esperanças.
“É muito sedutor, mas não é verdade. Temos agora uma estrutura econômica que atinge a pior parte da espécie humana. Imagino uma sociedade com um tipo de estrutura econômica diferente – porque eu absolutamente acredito que os seres humanos farão o melhor sempre, se eles tiverem a oportunidade de tentar. Vi isso em tantos países diferentes no mundo, onde as pessoas são tão pobres, mas ainda partilham suas últimas coisas. Acho que seres humanos geralmente são muito nobres, estamos apenas presos neste maldito sistema que nos reflete. É uma ingenuidade política pensar que o ativismo dos direitos animais é apenas uma questão – que qualquer ativista é uma pessoa de apenas uma questão”, assinalou em entrevista a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine publicada em 2 de agosto de 2012.
Saiba Mais
Para quem quiser conhecer melhor o trabalho de Sue Coe, acesse: www.graphicwitness.org
A artista inglesa pede que as pessoas visitem o site do santuário que ela ajuda em Nova York. Na página, há muitas informações sobre investigações de crueldades contra animais em fazenda – www.farmsanctuary.org.
Referências
http://www.graphicwitness.org/coe/latimes.htm
http://elena-kuzmina.blogspot.com.br/2008/05/art-activism-interview-with-sue-coe-by.html
http://bombmagazine.org/article/6696/
http://responsibleeatingandliving.com/interview-with-gary-steiner-and-sue-coe/
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Voltaire: “Os sofrimentos de um animal nos parecem males, porque, sendo animais nós mesmos, sentimos que deveríamos incentivar a compaixão”
“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida e a geram da mesma maneira”

Voltaire: “Eles têm sentidos, sensações, ideias e memórias”
Em 2014, o professor de literatura francesa Renan Larue, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, lançou o livro Pensées Végétariennes (Pensamentos Vegetarianos), que reúne uma compilação de escritos do controverso ensaísta e filósofo iluminista francês François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire.
“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida como nós e a geram da mesma maneira. Eles iniciam o movimento da mesma forma e comunicam-no. Eles têm sentidos, sensações, ideias e memórias. Animais não são totalmente sem razão. Eles possuem uma proporcional acuidade de sentidos”, escreveu Voltaire em Lettres de Memmius à Cicéron (Cartas de Gaius Memmius a Cícero) em 1772.
Para o filósofo francês, animais não humanos são fundamentalmente importantes e devem ser vistos como tal. E o que o impulsionava a defender esse ponto de vista era o seu anseio de mostrar ao ser humano que o antropocentrismo, a ideia de que ele tem lugar privilegiado na natureza, portanto deve dominar outros seres vivos, é um atestado genuíno da jactância humana.
Embora não haja provas consistentes de que Voltaire tenha sido realmente vegetariano, aparentemente ele seguiu as recomendações do filósofo neoplatônico Porfírio. Além disso, ponderava que era um dever da humanidade assegurar o bem-estar dos animais.
Na década de 1760, quando Voltaire se aprofundou nos estudos da Grécia Antiga, incluindo nomes como Plutarco, Pitágoras e Porfírio, ele logo se interessou pelo vegetarianismo enquanto tema de pesquisa. A princípio, por uma questão particularmente dietética, e influenciada por Περὶ ἀποχῆς ἐμψύχων (De Abstinentia ab Esu Animalium), obra escrita entre os anos de 268 e 270, em que o filósofo grego Porfírio fala dos benefícios e da importância da abstinência do consumo de alimentos de origem animal.
A versão lida por Voltaire foi traduzida pelo historiador Jean Lévesque de Burigny, um homem pacífico e considerado um dos grandes acadêmicos franceses de seu tempo. A obra chegou às suas mãos em 1761.
“Você mesmo, quando estava conosco, confessou que uma dieta sem carne contribuía tanto para a saúde como para a resistência dos trabalhos filosóficos; e a experiência testifica que ao dizer isto você disse a verdade. Mas quando fui informado por certas pessoas de que empregastes argumentos contra aqueles que se abstiveram de comida de origem animal, não só padeci, mas fiquei indignado contigo, que, persuadido por certos sofismas frígidos e muito corruptos, se enganou”, escreveu Porfírio.
Com o tempo, Voltaire sentiu-se incomodado com a banalização e legitimação da crueldade envolvida na criação e no abate de animais. Em Traité sur la tolérance (Tratado Sobre a Tolerância), de 1763, ele relata, sem velar o espanto, que homens comiam animais, membro por membro, enquanto estes ainda estavam vivos. O que não é muito diferente do que acontece hoje principalmente com sapos, peixes, crustáceos e outros animais.
Embora muitas pessoas demonstrem ceticismo em relação às inclinações de Voltaire ao vegetarianismo e ao bem-estar animal, livros como Pensées Végétariennes lançam luz sobre a importância que o assunto teve na vida de um dos filósofos mais polêmicos da história da França. Voltaire atribuía ao homem a responsabilidade sobre o sofrimento dos animais que, segundo ele, optavam pelo abate ou massacre, ou ambos.

“Animais não são totalmente sem razão”
O ser humano é embrutecido pela naturalização do destino terrível dos animais que são colocados à nossa mesa. Sobre isso, Voltaire cita como exemplo crianças que choram com a morte do primeiro frango que eles veem matar, mas riem da morte do segundo. No artigo Viande, página 577 de Questions sur l’Encyclopédie (Perguntas Sobre a Enciclopédia), obra publicada entre os anos de 1770 e 1772, o francês questiona:
“Que bárbaro assassinará um cordeiro se esse cordeiro puder se defender num discurso comovente para não ser assassinado e canibalizado?” Crítico mordaz, Voltaire era bastante cético sobre as possibilidades da humanidade um dia aderir em massa ao vegetarianismo. Ele declarou que sob o disfarce da abstinência, até mesmo monges diziam desistir da carne, mas tornavam-se assassinos de solhas, linguados, perdizes e codornizes. Por outro lado, ele reconhecia que o vegetarianismo em essência existiu e poderia frutificar, embora não na proporção desejada.
Entre seus contemporâneos, o filósofo francês via bons exemplos em regiões da Índia, principalmente entre os fiéis praticantes do bramanismo. Em 1740, ele teve contato com muitas cartas de jesuítas que viajaram pela Índia, China e América. Reunidas em 34 volumes, deram origem ao livro Les Lettres édifiantes et curieuses (Cartas Edificantes e Curiosas), publicadas entre os anos de 1702 e 1776.
Quando estudou sobre a metempsicose ou transmigração de almas, Voltaire começou a crer que o respeito dos indianos pelos animais tinha relação com o receio de matá-los e renascerem noutra vida na forma das criaturas assassinadas. Assim como temiam que isso poderia afetar a passagem e a paz de seus parentes falecidos. Porém, em 1760, quando leu um possível manuscrito dos Vedas, intitulado Ezour Vedam, ele começou a entender que tratava-se de uma filosofia não supersticiosa.
Em 1763, Voltaire publicou um diálogo entre um frango capão e uma galinha. Uma das aves diz à outra que uma serva maldita a colocou sobre seus joelhos, enfiou uma longa agulha em sua nuca, agarrou seu ventre, o girou em volta da agulha, o rasgou e deu para que seu gato comesse. “Sou pacífica e nunca fiz nada de errado. Eu mesma nutri esses monstros, dando-lhes os meus ovos. Por que eu deveria ser castrada, cega, decapitada e assada?”, perguntou a galinha.
Em La Princesse de Babylone (A Princesa da Babilônia), de 1768, Voltaire narra que os pastores das imediações do Rio Ganges viviam em perfeita igualdade e jamais matavam seus rebanhos, porque era considerado um crime horrível matar e comer criaturas que são suas companheiras. No ensaio Il Faut Prendre um Parti (Devemos Tomar Um Partido), escrito entre os anos de 1772 e 1773, o filósofo francês afirma que a capacidade humana de sentir empatia pelos animais deve ser levada em conta quando se discute o conceito de maldade.
Para ele, o ser humano tem o hábito de discutir bem e mal levando em conta apenas a sua relação com seus semelhantes, excluindo o relacionamento que ele tem com outras espécies: “Os sofrimentos de um animal nos parecem males, porque, sendo animais nós mesmos, sentimos que deveríamos estimular a compaixão da mesma forma como se fosse em relação a nós.”
Referências
Voltaire. Renan Larue. Pensées végétariennes. La Petite Collection. Fayard/Mille et une nuits (2014).
Porphyry. On Abstinence From Animal Food. Kessinger Publishing (2006).
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Sunahara e a Casa dos Sonhos
Passei a maior parte da manhã com Sunahara, que comprou uma casa dos tempos de colonização de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, para criar um memorial que conta a história de sua mãe. Depois que a reforma for concluída e a Casa dos Sonhos inaugurada, ele vai oferecer o espaço para a realização de atividades culturais. Sem dúvida, um grande ser humano.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Por que torcer para que tudo dê errado na gestão de um político?
Uma das piores coisas que você pode fazer quando um candidato é eleito é torcer para que tudo dê errado, porque isso faz parecer que a sua prioridade é mostrar aos outros que eles estão errados. Ou seja, o que importa não é a coletividade, mas um anseio individualista, que é o triunfo da sua visão política. Torcer para que o outro esteja errado é melhor do que aceitar a possibilidade de que você pode ter uma boa surpresa? Acho que não.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:

